A verdadeira vida de Sebastião Knight, de Nabokov

É uma pena que Nabokov seja conhecido apenas como o autor de Lolita. Não é à toa que Humbert Humbert é um personagem delicioso, apesar de tudo; Nabokov parece ter a capacidade de deliciar o leitor no que quer que se proponha. Cumprida essa obrigação, de querer salvar Nabokov de seu mais famoso livro, que muitos nunca lerão por causa do tema, quero falar de Sebastião Knight, o livro da vez.

Ela entrou em sua vida sem bater, como se pode entrar num quarto errado devido à sua semelhança com o nosso. E lá ficou, esquecendo-se de sair e habituando-se tranquilamente às estranhas criaturas que encontrou e que passou a estimar, apesar de seu aspecto surpreendente. Não tinha nenhuma intenção especial de ser feliz ou de fazer Sebastião feliz, como tampouco tinha a menor apreensão quanto ao que poderia depois acontecer; era apenas uma questão de aceitar naturalmente a vida com Sebastião, pois a vida sem ele era muito menos imaginável do que um acampamento telúrico numa montanha lunar. É muitíssimo provável que, se ela lhe tivesse dado um filho, houvessem deslizado para o casamento, já que essa seria a maneira mais simples para os três; mas não sendo esse o caso, não lhes passou pela cabeça a ideia de se submeterem a essa branca e saudável formalidade, que talvez lhes houvesse causado satisfação, se tivessem pensado detidamente no assunto. Não havia em Sebastião nada dessa atitude preconcebida de mandar às favas os preconceitos sociais. Bem sabia ele que alardear desdém por um código moral não era senão uma espécie de presunção contrabandeada e de preconceito virado às avessas. Escolhia, habitualmente, o caminha ético mais fácil (assim como escolhia o caminho estético mais espinhoso) simplesmente porque acontecia ser esse o atalho mais curto para o fim que tinha em mente; era demasiado preguiçoso na vida cotidiana (e infatigável trabalhador em sua vida artística) para que se preocupasse com problemas criados e resolvidos por outros. (p.56-57)

A verdadeira vida de Sebastião Knight é um daqueles livros que eu, numa classificação muito pessoal, chamo de Livros sobre nada. Mas ao contrário do que possa parecer, isso é um tremendo elogio. Um livro sobre nada é aquele que, quando vamos descrever a alguém, ele pode ser resumido em poucas sentenças. Nada de grandes dramas ou viradas. No caso do A verdadeira vida, o Sebastião era um escritor que morreu jovem e seu meio irmão vai atrás de informações para escrever sua biografia. Ele tem uma surpresinha aqui e outra acolá, entra em contato com pessoas interessantes, etc. A ficção dentro da biografia fictícia torna a busca mais interessante do que os fatos. Podemos imaginar que Nabokov fala de si mesmo quando fala da dificuldade de um russo escrever em inglês, e de projetos de livros interessantes que nunca chegaremos a conhecer, porque são de Sebastião. Nos livros sobre nada, a graça está nos caminhos do autor, no talento da sua forma peculiar de escrever. Nabokov descreve de maneira deliciosa as lembranças de infância, as relações de exílio, o temperamento artístico, a escrita, o amor. Mais do que conhecer Sebastião Knight, ficamos com vontade de ser Sebastião Knight. A história se desenrola de uma maneira tão natural e cada parágrafo é tão bem escrito que – pra quem tem o hábito de colecionar citações – dá vontade de copiar o livro inteiro.

Ássia

Eu tinha na época uns vinte e cinco anos – começou N. N. -como o senhor vê, são coisas de um tempo que já vai longe. Acabara de ganhar minha liberdade, parti para o estrangeiro, e não para “concluir minha educação” como se dizia, mas simplesmente por vontade de ver esse mundo de Deus. Era jovem, saudável, alegre, dinheiro não me faltava, as preocupações ainda não haviam conseguido me agarrar – vivia a Deus dará, fazia o que bem queria, em suma, florescia. Nem me passava pela cabeça, então, que o homem não é uma planta e não floresce todo ano. A juventude come pães doces e dourados, pensando que é esse o pão de cada dia; no entanto, chega a hora em que se faz qualquer coisa até mesmo por um pãozinho comum. Mas isso não vem ao caso.

p.5

Todos os lugares onde vi o nome de Turguêniev – autor de Ássia – citado, era com desdém, para dizer que ele é muito menos importante e interessante que Dostoiévski e Tolstói, as outras duas pontas da tríade dos grandes autores russos do séc XIX. Só me animei a ler Ássia porque era um livro fino e editado pela Cosac&Naify, o que o torna parte do movimento de resgatar autores russos e traduzí-los direto da sua língua, ao invés da tradução da tradução européia.

A história é uma das mais desinteressantes que já li, de um romantismo que não convenceria qualquer adolescente de hoje. Mesmo assim, o livro consegue encantar, tal a leveza e a correção com que foi escrito. Mesmo sem dizer nada demais, nos identificamos com os devaneios, a amizade e o ritmo. Ao invés de uma grande história de amor, é possível lê-la como um amor de verão – aí sim fica convincente.

Algumas coisas chamam atenção no livro, pela estranheza: a análise de um caráter pela educação; a descrição da própria Ássia, que parece demonstrar um tipo de feminilidade que hoje não atrai; a noção de proximidade e moral. Quando cheguei no capítulo definitivo do livro, onde a ação fundamental acontece, precisei lê-lo umas três vezes. Por instantes, pensei que se tratava de uma reviravolta, que o narrador/personagem principal havia nos iludido desde o começo da história, ocultando um plano prévio, o que seria uma reviravolta brilhante (e impensavel pra época). Mas era apenas uma forma de se relacionar mais antiga e cheia de tabus. Me lembrei de um livro que li na adolescência, oferecido pela minha mãe, e que falava de uma adolescente em crescimento. Num determinado momento ela começa a flertar com um rapaz. Depois desse flerte, ela fica com a consciência pesada, fala muito nisso, consulta um padre e é alertada da responsabilidade, que não se deve sair flertando por aí. Fui perguntar a minha mãe o que afinal era aquilo, flertar. “Ah, toda essa onda só porque ela ficou olhando? O que tem isso demais?”. Ássia é mais ou menos assim.