Caçando carneiros, de Murakami

O problema de escrever sobre um autor consagrado, especialmente um contemporâneo, é que parece que a gente precisa se posicionar sobre ele. “Amo Murakami, acho um gênio”, ou “Murakami é um lixo, não merece o destaque que recebe”. Eu não poderia fazer nenhuma dessas afirmações depois de ler apenas um livro dele. E, torcidas à parte, não dá pra simplesmente gostar (ou desgostar) de um livro e pronto?

Eu gostei muito de Caçando Carneiros. Achei o começo meio fraco e foi num crescente de interesse. A mania de Murakami de usar metáforas me pareceu muito cansativa, como se ele não conhecesse a fluidez da própria escrita. Dá aquela sensação de – será que vou suportar centenas de páginas de metáforas? (Antes que o leitor pare, ele para). O cenário todo montado, a gente curioso para saber o que vem a seguir e “seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa” (p.11), “como se minha mão esbarrasse de repente numa parede invisível que flutua no espaço” (p. 15). Aí você fica sem saber se se detém pensando no que significa ou simplesmente passa por cima. Mas são sempre descrições bonitas e nada óbvias, é preciso reconhecer.

Agora, na cama com uma nova namorada e correndo os dedos por seus cabelos, pensei na baleia por um longo tempo.

No aquário das minhas lembranças, é sempre fim de outono. O vidro do tanque está gelado e eu visto uma malha grossa. Do outro lado da janela panorâmica da sala de exposição, o mar é escuro, cor de chumbo, as incontáveis ondas de espumante crista branca lembrando golas de renda em vestidos de meninas.

– Em que está pensando? – perguntou-me.

– Em algo muito antigo – respondi.

p.33

Como explicar? A história é conduzida de uma maneira que ela modifica o ponto de interesse a cada capítulo. Começa com uma ida ao funeral, depois vai para lembranças, um casamento desfeito, e é como se cada resposta e abrisse caminho para outra pergunta. As informações se acrescem e, ao mesmo tempo, não são suficientes. Eu lia e me perguntava até onde o autor conseguiria ir, que em algum ponto ele não conseguiria levantar questões sem revelar e ia acabar perdendo a mão (leitor metido a escritor é um saco). Mas Murakami consegue sim. O personagem principal, cujo nome nem sabemos, cria identificação com o leitor logo no início pela maneira como confessa sua banalidade. A história segue e, a cada detalhe, a banalidade é abandonada e os acontecimentos se tornam imprevisíveis. É como se o “caçar carneiros”, descoberto pela terça parte do livro, dividisse o romance em dois: na primeira parte um livro sensível, na segunda uma história de detetive bastante imaginativa. Não sei se o estranhamento é causado pela distância cultural ou o quê, sei que Murakami descreve situações que jamais passariam pela minha cabeça. Os personagens têm momentos marcantes, os fatos são engraçados, a narrativa é fluida, a gente fica com vontade de comentar com o sujeito da mesa ao lado. Li por aí que foi com Caçando carneiros que Murakami começou a chamar atenção do mundo. Deixo registrada minha concordância e entusiasmo.

Um certo probleminha com a ficção científica

Eu me animo com as minhas próprias indicações, e desde que publiquei textos a respeito, continuo lendo Nietzsche e ficção científica. Estou no 3001. Depois do 2001, li o excelente 2010. Só que, se me permitem comentar rapidamente a continuação, foi como terminar Matrix e ver Matrix 2 – já vou adiantando que não detesto Matrix 2, como parece ser o caso da maioria dos fãs. Enquanto 2001 é um livro que se arrasta no início e depois nos abre a mente e nos faz sonhar, 2010 é um livro que começa emocionante e cheio de aventuras desde o início. Mas ele é mais isso, um livro de aventuras. Parece que as continuações têm esse problema, que quebrarem a mágica dos livros/filmes que lhe deram origem. Minha teoria é que as continuações dão respostas, e interessantes mesmo são as perguntas. Depois de 2010 vem o 2061 que, conforme meu amigo Bruno que leu toda série e é fã de ficção científica me explicou, teve a data inspirada na segunda passagem do cometa Halley, que agitou tanto os anos 80 e nem deu pra ver. Foi graças ao Bruno que não parei a série ao não encontrar com 2061 na biblioteca. Parti logo para o 3001, que ignora completamente o livro anterior.

Essa introdução toda foi só pra dizer que estou no 3001. Lembram dos dois astronautas da Discovery, Poole e Bowman? HAL acerta uma nave em Poole e ele flutua pelo espaço, enquanto Bowman se vira para completar a missão, encontra o monolito e etc? Em 3001 descobrimos que Poole não morreu! Ele é reencontrado e reanimado mil anos depois. Ele encontra uma sociedade muito diferente daquela onde vivia e precisa se readaptar. Aí começa aquele enorme risco que é quando um autores de ficção científica jogam as coisas muito para o futuro. Uma coisa é falar de uma estação espacial e de uma nova, outra é imaginar a organização social. O mundo do ano 3000 imaginado por Clarke tem grandes estações espaciais, combustíveis a vácuo, naves conduzindo cometas, capacetes que leem as informações direto do nosso cérebro. Mas também há um armazenador de informações pessoais tão pequeno que tem “o tamanho de um disquete, só que mais grosso” ou comunicações unilaterais via rádio, que levam horas pra chegar.

Só que não é isso o que mais chama atenção e realmente me incomoda. São projeções do futuro que pecam pelo excesso de racionalidade. Para usar com mais conforto o tal capacete que lê informações cerebrais, todos – homens e mulheres – fazem uma depilação definitiva no couro cabeludo e usam peruca. Como várias religiões davam muitas brigas, a sociedade decidiu abandonar tudo e são apenas teístas (“acreditam não existir mais que um só deus”) ou deístas (acreditam “não haver menos que um só deus”). O consumo de carne é abandonado porque despende muitos recursos naturais e passa a ser considerado uma coisa bárbara. Acho que nem preciso mencionar que existe apenas uma única língua universal, que mistura inglês, francês, mandarim e germanismos. Muito melhor. Tão fácil fazer isso, é só juntar os maiores linguistas de mundo, criar uma língua e ensinar todo mundo, certo?

Nessas visões a humanidade consegue olhar para si mesma, abandonar suas irracionalidades sozinha e entrar em acordos que facilitem a vida de todos. Eu não consigo acreditar nisso. Não vejo acontecendo nem em confraternização de fim de ano, quanto mais em escalas mundiais. Não acredito nesse homem tão racional, não acredito no avanço tecnológico acompanhado de um “crescimento” na parte emocional e instintiva. Ao invés de me ver parecida com a humanidade de 3001, sinto um parentesco muito maior com qualquer romance do século XVI. Pega Cervantes, Balzac, Machado, Faulkner e outros e diz se aquilo não diz a verdade. O entorno pode ser diferente mas a humanidade está toda lá: paixão, ciúme, inveja, ira, vaidade, desejo de poder. A racionalidade é apenas um pedaço, e dos pequenos. O monolito ficaria decepcionado.

O castelo dos destinos cruzados, de Italo Calvino

O tarô, aquele jogo de cartas comumente usado para ler a sorte ou o destino das pessoas é, por si só, bastante interessante. Ele é dividido em Arcanos Maiores e Arcanos Menores. Os Arcanos Menores possuem os mesmos quatro naipes do baralho que se usa normalmente, com o acréscimo do Cavaleiro (ou seja, cada naipe tem Valete e Cavaleiro). Os Arcanos Maiores são vinte e duas cartas, que são numerados do um (O Mago) ao vinte e um (O Mundo), mais a carta do Louco que não tem número. O tarô mais antigo e mais conhecido é o de Marselha, mas há tarôs de tudo o que se possa imaginar: de anjos, de ciganos, de bruxas, de celtas, de desenhistas ou místicos famosos, como o caso do tarô de Crownley (aquele que aparece na capa de Sgt Peppers), etc. A leitura do tarô é uma narrativa, onde cabe àquele que lê as cartas juntar o significado daquelas que o consulente tirou (ou que apareceram para ele) e ser capaz de montar uma história coerente.

Assim sendo, acho muito interessante que Italo Calvino tenha se proposto a fazer um livro inteiro como se fosse a leitura de tarô. Seu argumento começa com um jantar, onde as figuras estão presentes e por uma estranha magia não conseguem falar. A única maneira dos comensais contarem suas histórias é pegar as cartas e com elas tentar remontar o que lhes aconteceu. Quem faz leitura de tarô entende que cada naipe, cada arcano e cada carta possui um significado tradicional, que tem a ver com o desenho das figuras mas que também as ultrapassa. Calvino deixa essa tradição de lado e tenta se deixa levar livremente pela impressão que cada carta lhe causa no momento: na Força, ele vê a violência de um homem batendo num leão com uma clava; no dez de paus, pensa numa densa floresta.

A figura do Rei de Espadas, que tentava transmitir num único retrato seu passado belicoso e seu melancólico presente, foi por ele aproximada da margem esquerda do quadrado, na altura do Dez de Espadas. E de repente nossos olhos foram como que cegados pela nuvem de pó das batalhas, ouvimos o som das trompas, já as lançam voam aos pedaços, já nos beiços dos cavalos que se atropelavam se confundiam as babas iridescentes, já as espadas ora de corte ora de lâmina batiam ora sobre o corte ora sobre a lâmina de outras espadas, e onde um círculo de inimigos vivos saltava sobre as selas e ao apeares já não encontravam os cavalos mas a tumba, lá no meio desse círculo estava o paladino Rolando que revolteava nos ares a sua Durindana. Nós o reconhecemos, era bem ele que nos contava a sua história, feita de tormentos e tormentas, comprimindo o pesado dedo de ferro sobre cada carta.

p.47-48

Mas o tarô, que se mostrou um desafio e um começo tão interessante, que acaba atrapalhando a fluidez do livro. Conheço muitos fãs de Calvino (eu entre eles) e pessoas que leem tarô, e em nenhum dos dois grupos esse livro é marcante. Primeiro, porque a necessidade constante de citar cartas que não estão presentes é cansativo. Calvino não diz em qual dos mundos tarôs ele se baseou para escrever o livro, só sei que não foi o de Marselha ou os mais conhecidos. Então a impressão pessoal que aquele tarô específico lhe causou pode não ser a mesma que outros causam. Ele se atém em detalhes de vestimentas, em objetos que as figuras seguram, na forma como as coisas estão dispostas, e em cada tarô isso está de uma forma diferente. E mesmo para aqueles que conhecem o tarô profundamente, ter que ficar puxando pela memória a figura de cada carta é cansativo. Acredito que todas as edições desse livro tenham a reprodução das cartas ao lado das histórias, mas mesmo assim não é suficiente.

Outro problema é que ele mesmo não consegue ser tão original, e tem tendência a usar sempre as mesmas cartas e dar a elas quase sempre as mesmas leituras – A Força é sempre violência, os Cavaleiros são sempre cavaleiros, as espadas remetem à batalhas. Aí, uma leitura que era para ser totalmente nova e original, se torna tão presa e repetitiva como uma leitura de cartas tradicional… Depois de algum tempo, as histórias se tornam mais do mesmo. Talvez o livro funcionasse melhor se as tivesse em menor número, ou se certas cartas fossem vistas de maneira mais simbólica, ou que simplesmente o argumento inicial fosse abandonado. Não sei dizer. Só sei que, pela primeira vez, um livro de Italo Calvino pareceu não funcionar pra mim.

O olho, de Vladimir Nabokov

Não tenho muito o que dizer de O Olho, de Nabokov, sem entregar o livro. É curtinho, de pouco mais de cem páginas e acho que o trecho a seguir explica bem qual o sentido do título:

Muitas vezes, ao voltar a pé para casa, a cigarreira vazia, o rosto queimando na brisa da aurora como se eu tivesse acabado de remover uma maquiagem teatral, cada passo lançando uma pontada de dor que ecoava em minha cabeça, eu inspecionava minha débil felicidadezinha de um lado e de outro e me assombrava, tinha pena de mim mesmo e me sentia desanimado e medroso. O ápice do ato amoroso era para mim nada mais que um árido promontório com uma vista desoladora. Afinal de contas, para viver feliz, um homem tem de reconhecer vez ou outra alguns momentos de perfeito vazio. No entanto, eu estava sempre exposto, sempre de olhos bem aberto; mesmo com sono eu não cessava de me observar, sem entender nada de minha existência, enlouquecendo com a ideia de não conseguir deixar de ser tão consciente de minha presença, e invejando toda aquela gente simples – escriturários, revolucionários, lojistas – que, com confiança e concentração, desempenham seus pequenos trabalhos. (p.18-19)

Ao contrário do que o trecho pode dar a entender, é um livro muito divertido. Através dele descobri que não é por acaso que Humbert Humbert, o protagonista de Lolita, nos deixa em maus lençóis ao ser tão condenável e interessante ao mesmo tempo. O humor de Nabokov é fantástico, e O Olho tem várias passagens hilárias, tanto de cenas muito bem descritas como em forma de diálogos. O personagem principal é duplamente estrangeiro: por ser um russo vivendo em Berlim, mas também um estrangeiro de si mesmo depois de sua experiência de “quase morte”. É um olhar analítico e sarcástico, que procura entender o pequeno universo que tem ao seu redor: Matilda e o marido, o livreiro paranóico, as irmãs que vivem no andar de cima e seu círculo de amizades, o misterioso Smurov. É como um thriller psicológico, vale a leitura.

O longo adeus

chandlerO gênero policial, de cara, não me interessou. Eu li muita Agatha Christie na minha adolescência, até cansar. O nome Philip Marlowe não me era estranho, por causa do Ernani Ssó. O fato de ser uma edição de bolso ajudava. Peguei porque a contracapa informava que O longo adeus era um dos maiores romances da literatura americana de todos os tempos. O superlativo, por mais que não fosse merecido, indicava um clássico. E clássicos sempre valem a pena, nem que seja para dizer que não gostou.

Se eu nunca havia lido Chandler ou Marlowe, como é que antecipadamente eu sabia que, por ser detetive, ele era um sujeito durão, solitário, um certo charme, cigarro no canto da boca, que apanha mas não se dobra, bebida alcoólica a qualquer hora do dia? E que ele tem suas conexões, uma relação pouco harmoniosa tanta com a polícia quanto com os bandidos, um escritório vazio e meio abandonado, não trabalha por dinheiro e sim por um sentido de honra bastante particular? Mais: como eu poderia antecipar as comparações interessantes, o humor e até mesmo a loira sedutora com culpa no cartório e que procura nosso herói para ajudar a encontrar seu marido desaparecido? Pior ainda: pra que ler Chandler e não os muitos que vieram depois, como Columbus ou até mesmo Ed Mort, depois de perceber tudo isso? Porque Chandler não é qualquer porcaria, ele não é qualquer um. Ele é o pai do gênero. Todos detetives particulares pé rapados são tributários a Marlowe. E tanta gente teve vontade de escrever detetives assim porque Chandler o faz com baita estilo:

Existem loiras e loiras, e isto é quase uma piada hoje em dia. Todas as loiras têm pontos em comum, exceto talvez as loiras metálicas que são tão loiras quanto um zulu embranquecido e com uma disposição tão macia quanto uma calçada. Há a loira pequena e engraçadinha, que anda perto do chão e ri agitada, a loira grande como uma estátua, que nos abraça com um simples olhar azul-gelado. Há a loira que nos dá uma olhada de alto a baixo e cheira bem que é uma beleza, brilha e se dependura no seu braço e está sempre muito, muito cansada quando você a leva pra casa. Ela fez um gesto desamparado e tem uma dor de cabeça danada e você tem vontade de bater nela e só não bate porque no fundo está satisfeito de ter descoberto da dor de cabeça antes de investir tempo, dinheiro e esperanças demais nela. Porque esta dor de cabeça via sempre existir, uma arma que nunca falha e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia.

Existe a macia e alcóolica loira que está a fim e não se importa com a roupas que veste desde que seja mink, ou para onde vai desde que seja para o Starlight Roof, onde tem champanha seco à beça. Existe a pequena e viva loira, que faz questão de pagar sua parte e vive cheia de raios de sol, bom senso, e sabe lutar judô, e pode puxar um chofer de caminhão por cima do ombro sem perder mais que uma linha do editorial do Saturday Review. Há a loira pálida com anemia de algum tipo não fatal mas incurável. É bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, você não está a fim, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard – ou então está estudando provençal. Ela adora música e quando a Filarmônica de Nova Iorque toca Hindemith é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto compasso depois. Ouvi falar que Toscanini também consegue fazer isso. São dois, portanto.

E por último existe aquela maravilha que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns milionários, um milhão por cabeça, e termina a vida com uma villa rosa-pálido em Cap d´Antibes, um Alfa-Romeo equipado com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo.

Essa é outra vantagem de se ler os clássicos: chegar na fonte, entender como e porquê tudo começou.

A consciência de Zeno

zenoTenho que começar A consciência de Zeno com o prefácio de outro livro (que ainda não li) de Italo Svevo, Senilidade. Nele o autor conta que seu primeiro livro, Uma vida, recebeu uma acolhida positiva de alguns críticos. Já o seu segundo livro, Senilidade, lançado seis anos depois, foi totalmente ignorado pela crítica. Como resultado, “resignei-me diante de um juízo tão unânime (não existe unanimidade mais perfeita que a do silêncio), e por vinte e cinco anos abstive-me de escrever”. Depois Svevo conta que foi o apoio de alguns poucos críticos e amigos, dentre eles James Joyce, que conseguiu trazê-lo de volta ao mundo da literatura. Quando começamos a ler Svevo, é impossível não lamentar que as coisas tenham acontecido dessa forma, pensar nos livros geniais a humanidade não perdeu por causa desses vinte e cinco anos de descrédito. Svevo é tão bom, tão deliciosamente irônico, sua forma de escrever é tão atual que… talvez tenha sido esse seu problema. Senilidade foi publicado pela primeira vez em 1848*.

Prefácio

Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica.

Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e eu suponha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a ideia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias.

Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!…

Doutor S.

1848 é o mesmo ano de publicação de A dama das Camélias, de Alexandre Dumas. Perto de Zeno, a história de uma cortesã apaixonada nada tem de tão ousado. Com exceção do prefácio, A consciência de Zeno é todo na primeira pessoa, numa tentativa de Zeno destrinchar o próprio passado. Já começa aí a ousadia da narrativa, que como rememória não segue um rigor cronológico. Outra questão é o problema de credibilidade que se cria logo no início com o leitor: Zeno se mostra tão mentiroso e exagerado, confessando suas mentiras e nos fazendo entender que podem existir muitas outras, que se é levado a pensar que nada do que está descrito pode ter acontecido daquela forma. O mundo de Zeno gira em torno de algumas poucas figuras – Guido, Ada, Augusta, Carmen – e com nenhuma delas ele é capaz de agir conforme o que pensa. Talvez nem com o leitor. Dele só temos certeza do cinismo. Como se tudo isso não bastasse, o livro tem um grande senso de humor, pela ironia que aparece em quase todos os momentos, pelas passagens onde Zeno diz coisas que para outros seriam impensáveis. Ao mesmo tempo, nenhum desses exageros serve como desculpa ou tornam Zeno um daqueles vilões adoráveis. O leitor não entende, não aprova, lê o livro inteiro se perguntando quem é esse homem e do que ele é capaz, o que o motiva. Quando o livro chega ao fim, há uma certa forma de resposta ou de explicação. E ela não é nem um pouco edificante, ninguém se sacrifica em prol da família burguesa.

Da minha parte, tenho para comigo que ele, Svevo, era um gênio. James Joyce, independente do que escreveu, já mereceria meu respeito apenas por ter lutado para não deixar Svevo morrer no esquecimento.

* ERRATA: Como bem observou Ernani Ssó nos comentários, errei a data. Com isso errei toda comparação posterior com A Dama das Camélias… Deixarei o texto como está. É um livro extraordinário, relevem meu erro e leiam-no.

Uma desistência – O mal de Montano

o-mal-de-montano

Em fins do século 20, o jovem Montano, que acabava de publicar seu perigoso romance sobre o enigmático caso dos escritores que renunciam a escrever, foi apanhado nas redes de sua própria ficção, apesar de sua tendência compulsiva à escrita, e converteu-se num escritor totalmente bloqueado, paralisado, ágrafo trágico.

Em fins do século 20 – hoje, 15 de novembro de 2000, para ser mais preciso – , visitei-o em sua casa de Nantes e, tal como esperava, encontrei-o tão triste e tão seco que bem se poderia aplicar a Montano uns versos de Pushkin e dele dizer que “vive errando/ na penumbra dos bosques/ com o romance perigoso”.

O efeito positivo, no caso, é que para meu filho – porque Montano é meu filho – errar na penumbra dos bosques levou-o a recuperar uma certa paixão pela leitura, e disso me beneficiei eu, que não faz muito, e por sua recomendação, li Prosa da própria fronteira, o romance que acaba de publicar Julio Arward, este peculiar escritor em quem nunca me fiara demais, por considerar que ele simplesmente brincava de ser o duplo do romancista Justo Navarro.

p.13

Embora isso seja claramente uma idealização, gosto de pensar numa escrita que, de tão boa, não exija do leitor mais do que o básico. Não gosto da ideia de pré-requisitos, de que para enfrentar certas obras é preciso ter atrás de si obras fundamentais e uma intimidade de décadas com a escrita. É uma idealização, eu sei. Todas as formas de arte acabam criando seu público e apenas a repetição, o repertório e o conhecimento, tornam seus admiradores capazes de entender certas sutilezas. Mas gosto de pensar que o leitor mais experimentado é capaz de entender as sutilezas e as dificuldades de um grande romance, enquanto o leitor menos experimentado passará ao largo delas, mas sem deixar de se fascinar. Gosto de pensar no poder da escrita, no poder de assombrar e interessar mesmo aqueles que sabem pouco sobre ela.

Por isso, de cara, já não gostei da maneira como começa O Mal de Montano. Cheguei até a metade do livro apenas porque me obriguei, por querer conhecer um importante autor contemporâneo. Os primeiros parágrafos, acima transcritos, mostram: o livro começa com tantas citações que o leitor já se sente perdendo algo. Era uma festa privê para os muito cultos e ninguém me avisou? Para quem conhece todos os livros, autores e biografias citadas, deve ser interessante, uma festa; já eu senti que não faço parte do grupinho de amigos de Vila-Matas. A doença do mal de Montano é o mal do excesso de amor pela literatura, que leva a enxergar o mundo como uma grande narrativa, onde memória pessoal e de livros se misturam, e onde a vida está tão cheia de citações que a pessoa se torna um dicionário ambulante delas. Como proposta, achei interessante. Só que daí exigir que para gostar um livro o leitor precisa ser também muito aficionado em literatura, ter uma referência básica de autores e ter, também, certas pretensões como escritor, me parece um pouco demais.

Mesmo assim, vá lá, eu fui em frente. Gostei da primeira parte, da relação com Montano e seu bloqueio. Achei a segunda parte interessante, como um livro que explica a própria feitura do livro, contando os elementos que levaram o autor fictício da segunda parte a escrever a primeira parte. Só que o caminho percorrido se torna cada vez mais tedioso. Agora sou eu que declaro: que um autor exija dos seus leitores, que cite, que se referencie, que discorra, tudo é permitido. Mas que não seja chato. Podem me chamar de ignorante, podem me acusar de não ter apreciado um livro premiado de um autor famoso, podem dizer o que quiser – mas eu duvido que alguém seja capaz de se declarar apaixonado pelo livro. Ele não conquista, não emociona, não cria empatia. O narrador vai, volta, bebe, conversa com as pessoas, pensa, solta algumas baforadas sobre o ato de escrever. E nada disso fica, nada entusiasma. Quando me dei conta que não estava nem aí pra que direção a história tomaria, larguei mão. Meu mal de Montano me diz que todo livro precisa, no mínimo, despertar curiosidade sobre o seu final.

Meu primeiro Borges

Tenho um certo problema com alguns livros, geralmente os muito bons e de autores consagrados: não tenho a menor vontade de escrever sobre eles. De um lado porque não gosto da idéia de bater na mesma tecla, de me juntar à fileira dos muitos elogios. De outro, fico com receio de falar besteira. Na internet tem muita crítica profunda, inteligente e abalizada – e esse número à enésima potência de besteiras. Minha humilde contribuição para uma internet menos pior é tentar não aumentar esse número tão grande. Parafraseando Romário, eu sem publicar nada seria uma poeta.

Desse modo, eu estava determinada a fingir que não terminei o meu primeiro Borges – O aleph. Não era para ser o primeiro. Tenho na minha diminuta (por opção) biblioteca pessoal Ficções, que ensaiei ler algumas vezes. Antes de escrever isso aqui, peguei o livro para ver onde tinha parado e foi no fim do Prefácio. Veja que complicada a obra, nem passei do prefácio. E o prefácio não é nem tão longo. Lembro que esse prefácio me cansou tanto, me deixou tão confusa e tão reverente à obra de Borges que fiquei desestimulada a atacar o livro propriamente dito. Em todos os lugares é assim: análises complicadas e reverentes, elogios rasgados, invejas e comparações onde outros autores sempre saem perdendo quando comparados com Borges. Já que tinha que vestir e me armar com as armas de São Jorge antes de ler um simples livro, deixava sempre para depois.

Encontrar sem querer uma edição novinha na biblioteca me fez decidir enfrentar a fera, e fiquei totalmente encantada pela primeira história do AlephO imortal. Não era possível que tão poucas páginas pudessem conter uma reflexão tão profunda sobre o que significa a morte e o tempo. Terminei O imortal com a impressão de que não precisaria ler mais nada. Aí avancei mais no livro e começaram a aparecer citações escolásticas, lendas, guerras, geografias e detalhes. Resultado: travei. Lembrei dos muitos Borges que citaram no meu caminho, senti aflorar meu complexo de inferioridade. Eu não sou a leitora que deveria ser. Em algum lugar do caminho intelectual a qual eu estava destinada, eu falhei. Sim, eu falhei. Sou experimentada demais pra me deixar seduzir por Cinquenta tons, mas não tenho a avidez e a paciência para ler Ulisses. Gosto de ler, mas também gosto de ver vídeos de gatinhos, acompanhar séries americanas e comer pão com manteiga; se eu começo um livro e a coisa se repete, ou não sei quem está falando, porque e pra onde a coisa está indo, bocejo até lacrimejar e o abandono sem dó. Desde que comecei a abandonar livros, virei abandonadora compulsiva: conquista-me ou abandono-te. Tô nem aí se o livro é famoso.

Confessei ao Milton, meu guru literario-espiritual, que não me sentia culta o suficiente para ler Borges, que ele citava umas coisas e eu não entendi lhufas. Aí o Milton me esclareceu que é assim mesmo, que Borges cita muitas coisas, inventa outras, passa por cultíssimo e nunca sabemos direito o que é verdade ou não. Ahhhh! Então, amigo leitor, aqui está a mensagem essencial deste texto: leia Borges mesmo sem ser culto porque pode ser mentirinha dele. Leia com o mesmo desprendimento de uma criança, que não se importa de conhecer tudo, desde que seja bem contado. E é.

Sobre o livro em si, cada história é um universo. Tem desde momentos deliciosos como “manejava com fluidez e ignorância várias línguas”, como detalhes pitorescos, viagens fantásticas, reflexões profundas sobre o homem, seu sentido e o universo. Achei a narrativa econômica, mas não à maneira de um Dalton Trevisan; é que cada história diz coisas demais num espaço pequeno, coisas que outro autor levaria um livro inteiro para dizer. Finalmente entendi porquê tantos elogios, fiquei pequena diante da genialidade de O aleph. E nada mais direi, porque a minha intenção é justamente querer torná-lo mais próximo.

O perigo de uma única história

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre o que ela chama de uma única história. Ela parte de livros, da única literatura que lhe era acessível quando criança, e reflete sobre visões que temos da África, de estrangeiros, de pobreza, de capacidades. A única história, a maneira única de colocar um assunto, se revela instrumento importante de opressão e perpetuação de preconceitos.

Parte 1:

Parte 2:

Retirado do Blogueiras Feministas.

Um insight literário sobre antidepressivos

Ana Terra não tomava antidepressivo.

Por mais que os remédios estejam se tornando comuns – perigosamente comuns -, é difícil não existir uma culpa com relação a isso. A pessoa deveria ser mais forte. Ela deveria conseguir viver sem ajuda medicamentosa e não consegue. Temos em mente que as gerações anteriores passaram por situações difíceis e nunca tomaram nada. Como se em algum lugar parte dessa força tivesse se perdido. Não somos mais aqueles defendem suas terras a tiros, matam suas próprias galinhas, têm e perdem muitos filhos no parto; como se com a pacificação do dia a dia tivesse ido embora a fibra e a capacidade de superação.

Só que Ana Terra – por mais realista e simbólica que ela seja – é apenas um personagem de ficção, uma suposição de um autor contemporâneo. Uma história semelhante escrita naquela época revelaria outros aspectos. O interessante de ler livros escritos em séculos passados é justamente o que é revelado sem que os autores tenham consciência: os costumes do dia a dia, as rotinas, as reações, o que há de mais prosaico, a leitura que as pessoas fazem da sua realidade. Eu notei algo lendo Charles Dickens, que também está presente em Jane Austen, que seria “a grande doença”. Depois de ficarem ricos e pobres, tomarem decisões difíceis e quase morrerem, comumente os personagens de Dickens caem doentes. Em Jane Austen, as mocinhas caem doentes depois de serem seduzidas por rapazes nobres e finalmente perceberem que eles não querem casar. Tanto num caso como no outro, os personagens ficam à beira da morte, fracos, delirantes. As pessoas à sua volta não sabem se eles serão capazes de sobreviver a tudo que passaram. É claramente uma maneira de digerir o que viveram, uma pausa para se acostumarem à sua nova realidade.

Antigamente as pessoas não tomavam antidepressivos, mas adoeciam e ficavam de luto. Hoje em dia tendemos a pensar no costume das mulheres de vestirem preto na viuvez como uma simples limitação. Como se toda viúva se sentisse como Scarllet O´Hara com vontade de participar do baile – a mesma Scarllet que, muitas páginas depois, adoece gravemente quando perde a filha. Os costumes relativos ao luto e às perdas não seriam tão duradouros se não fizessem sentido para os envolvidos. Mais do que vestir preto e adotar certas atitudes, antes havia um reconhecimento maior da dor e da necessidade de atender essa dor. Para atender a dor, era preciso tempo. Não se esperava que a pessoa passasse por situações penosas e na semana seguinte estivesse útil e sorridente de novo. Nem Ana Terra seria capaz disso sem tomar umas bolinhas.