Eu sou Malala, com Christina Lamb

De uma maneira ou de outra, a gente sabe que existe uma Malala antes de ler o livro e sabe que foi a pessoa mais jovem a receber o Nobel, que ela é muçulmana e luta pela educação de meninas. Quem lê o livro quer conhecer essa história e as autoras do livro – a própria Malala e Christina Lamb – parecem ter uma profunda compreensão do que essa menina representa. Eu sou Malala oferece ao leitor uma descrição sincera e ampla, que contempla Malala no contexto da família, dos amigos e da política. De forma inteligente e interessante, Malala é colocada com uma menina por um lado comum, que gosta de arrumar o cabelo e brincar com as amigas, e por outro bastante estimulada por um pai educador, idealista e muito atuante, que oferece a sua filha muito mais do que seria esperado – ao que ela corresponde amplamente, e pai e filha se tornam representantes da mesma luta. O livro nos oferece o ponto de vista paquistanês dos ataques de onze de setembro, o crescimento do Talibã, a ambiguidade interna com os EUA e o que leva uma adolescente a  “merecer” um tiro na cabeça.

Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. O primo de meu pai, Jehan Sher Khan Yousafzai, foi um dos poucos a nos visitar para celebrar meu nascimento e até mesmo nos deu uma boa soma em dinheiro. Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas da descendência masculina. Meu pai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu “Malala”. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: “Sei que há algo diferente nessa criança”. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas no meu berço, algo reservado somente aos meninos. (p.21-22)

Também eu não queria me render. Mas nos aproximávamos do prazo determinado pelo Talibã para que as meninas deixasse de ir à escola. Como impedir 50 mil meninas de ir à escola em pleno século XXI? Eu não parava de pensar – ou desejar – que algo mudaria e que as escolas permaneceriam abertas. Mas nosso prazo estava se esgotando. Tínhamos determinado que  sinal da Khushal seria o último a parar de tocar. A sra. Maryam até mesmo se casara, para poder ficar no Swat. Sua família havia se mudado para Karachi por causa do conflito e ela não podia morar sozinha. (p. 168)

Todos recitamos surahs do Corão e uma oração especial para proteger nossos queridos lares e nossa querida escola. Então o pai de Safina colocou o pé no acelerador e lá fomos nós, do pequeno mundo de nossas rua, casa e escola rumo ao desconhecido. Não sabíamos se algum dia voltaríamos a nossa cidade. Tínhamos visto fotos de como o Exército acabara com Bajaur, numa operação contra os talibãs, e pensamos que tudo aquilo que conhecíamos seria destruído.

As ruas estavam repletas. Eu nunca as vira tão movimentadas. Havia carros por toda parte, bem como riquixás, carroças puxadas por mulas e caminhões, todos lotados de pessoas com seus pertences. Havia até mesmo motos com famílias inteiras balançando-se sobre elas. Milhares de pessoas caminhavam apenas com a roupa do corpo. Parecia que todo vale estava em fuga. Diz-se que os pachtuns descendem de uma das tribos perdidas de Israel, e meu pai comentou: “É como se fôssemos israelistas fugindo do Egito, só que não temos nenhum Moisés para nos guiar”. Poucas pessoas sabiam para onde ir; a maioria apenas sabia que tinha de partir. Foi o maior êxodo da história pachtum. (p. 188-189)

Numa perspectiva mais literária, eu diria que Malala é um livro sobre perder e reconstruir o próprio lar; a perda de Malala, das outras meninas e dos paquistaneses em geral é tão profunda que é preciso construir um mundo novo, porque o lugar que amavam foi destruído pela violência, ignorância e disputas pelo poder. A história é tocante por ser muito próxima: os Yousafzai são uma família que querem nada mais do que o direito à felicidade e oferecer do melhor aos seus. Ao conhecer o contexto político, vemos os acontecimentos exteriores se avolumarem lá fora enquanto eles, pessoas comuns, nada podem fazer a respeito. Quando a violência se torna generalizada, Malala e os outros são engolidos, sua forma de viver é colocada em risco e preservar o mínimo de dignidade passa a ser um posicionamento político. Vemos as fotos da família no meio do livro, sabemos que agora eles vivem na Inglaterra, e para surpresa e choque etnocêntrico do leitor, sair do campo para ter acesso ao ápice da civilização não foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Malala já famosa e ganhadora de prêmios fala do tédio na Inglaterra, de um pai longe do que construiu, de uma mãe sem as amigas, uma escola onde não se sente amada. Há sim conforto e segurança, mas falta a cultura acolhedora, as montanhas e as flores, o pertencimento. Ser inglês ou ocidental não é o mundo ideal, o mundo ideal é um Paquistão mais justo. Como ela mesma conclui no fim do livro: “Eu sou Malala. Meu mundo mudou, eu não.”

O Linguado, de Günter Grass

As pessoas te perguntarão que Bíblia é essa que você leva para cima e para baixo quando estiver lendo O Linguado e você se verá obrigado a contar, em poucas palavras, do que se trata o livro. E isso será meio difícil, cada resposta sairá de uma maneira. Nenhuma delas poderá deixar de dizer que é um livro sobre um linguado – um peixe mesmo – que ajuda os homens ao longo da história a se libertar do domínio feminino. Pra alguns você citará que na idade das pedras as mulheres antes era trisseúdas, ou seja, tinham três seios, e, assim, “aos homens nada faltava”. Outras vezes vai contar que se fala de comida o tempo todo, como se fosse um livro culinário, o que vai deixar o leitor de receitas animado, mas você vai alertar que as receitas falam de cabeças cozinhadas dentro de cabeças e outras combinações difíceis de experimentar. Se você disser que o protagonista/narrador lembra de suas diversas vidas e mulheres, precisará esclarecer que não é um livro reencarnacionista. O Linguado é dividido pelos meses de gestação e há também um tribunal feminista, mas eu juro que o que melhor descreve essa ficção é dizer que é uma Fábula. Fábula, aquele gênero que costuma ser construído ao longo do tempo, oralmente, e tem um formato fácil de reconhecer e quase impossível para um autor contemporâneo imaginar, sentar e escrever de maneira convincente. E assim é.

E quem ainda quiser cozinhar como a gorda Gret e tiver um motivo parecido ao dela, quando eu, o seu companheiro de cama na época, não sentia mais vontade, não queria mais repartir a sua carne, mas de rabo mole me perguntava apenas pelo sentido de tudo aquilo e vivia jogado por aí, preguiçosamente por aí, que se atenha à seguinte receita.

Tome doze a dezessete cristas de galo, coloque-as de molho em leite morno até que a pele das cristas se deixe puxar facilmente, ponha de molho as cristas em água fria para que o seu vermelho descore e fique surpreendentemente branco, depois as salpique com limão, como a gorda Gret fazia com suco de pepino, passe as cristas em ovo batido, frite-as ligeiramente de ambos os lados e siva-as sobre rodelas de aipo estufadas na manteiga a qualquer mocinho, que, como eu naquele tempo, tenha dificuldade de ficar teso, de ser tão másculo como o galo, mesmo que tenha motivos bastantes para deixar a cabecinha cair. Pois fácil não era viver à sua sombra: a gorda Gret não dava nada por um rabo mole. Sempre me endireitava o pilão. Vale a pena imitar suas receitas. (p.280)

Assim como O Tambor (outro livro de Günter Grass), aqui também tem sexo e escatologia, mas sem o bizarro; por outro lado, o humor também não é tão exuberante. O Linguado é um daqueles livros que eu classifico de “aproveitar a viagem”, que a graça está em se deixar guiar pelo universo do autor – aprecie as soluções, as mudanças, as loucuras; esqueça o final porque ele virá por si só. Logo no início a lista de todas as Ilsebill e seus pares intimida, dá a impressão de que teremos que sempre retornar a lista para entender o que se passa. Bobagem; o narrador vai e volta o tempo todo, nas histórias e nos poemas, e gera um efeito acumulativo onde uma história ajuda a explicar a outra. Eles passeiam por todas as épocas, são filhos e netos de si mesmos; a alimentação ora é de papa de glicéria, ou cheia de pimentas, ou uma ode à batata – ou não se alimentam de nada, porque a fome, a peste e as penitências também fazem parte. As vidas dos personagens conta um pouco da história caxúbia (região da Polônia que Grass transforma num mundo) e as mudanças nos costumes. É hilária a maneira como se fala das funções corporais com tanta naturalidade, as metáforas para descrever o sexo, os peidos, as fezes, os cus. O Linguado é uma doce e longa reflexão sobre o amor e relacionamentos. Como mulher, achei muito interessante ler na fala masculina – racional no Linguado e emocional no narrador – a maneira como eles se sentem impactados por nós, no que para eles é um grande poder: as nossas “covinhas”, o preparo da comida, o poder da natureza ligado à magia e à própria concepção. No embate para tornar o mundo patriarcal, livre da passividade feliz oferecida pelo seio, o Linguado reconhece nas mulheres a capacidade de transformar as desvantagens em formas renovadas de poder. Ao mesmo tempo, o tribunal feminista aponta que à mulher foi destituição da atuação da mulher na esfera pública, os desejos femininos ficaram submetidos às necessidades masculinas e o discurso de amor recai numa exigência de sacrifícios constantes – e nesse momento, a fala delas também é a minha fala. Fico com vontade de colar passagens ótimas (e longas) aqui, que falam desse cotidiano de lidar com um outro, desejado e desejante, de ganhar perdendo e perder ganhando, os arranjos constantes para fazer uma relação (que é um terceiro ser e pode gerar um fisicamente) funcionar. O próprio embate é uma demonstração de que não há respostas fáceis. Como eu disse antes sobre o livro, e que de certa forma é o que o livro nos diz sobre a vida: há de se aproveitar a viagem.

O Tambor, de Günter Grass

A primeira parte deste livro é de passar vergonha por gargalhar sozinho em público, foi uma das coisas mais engraçadas que li na minha vida. Só por ela, pela construção de um personagem trancado no hospício e megalômano que conta uma história tão extraordinária sobre si mesmo e a sua família – a avó com saias cor de batata sobrepostas, o avô incendiário, as partidas de skat entre a mãe, o marido e o “pai presuntivo”, os vizinhos, as aventuras sexuais de todos eles – já fariam O Tambor valer a leitura. E que delícia de prosa!

Poderia tê-lo detido com um chamado ou com um rufor do tambor que trazia comigo. Sentia-o debaixo do meu sobretudo. Bastava abrir um botão e ele teria emergido para o ar glacial. Levando as mãos os bolsos do abrigo estaria de posse das baquetas. São Huberto, o caçador, não disparou quando já tinha na mira do tiro aquele cervo singular. Saulo converteu-se em Paulo. Átila deu meia-volta quando o Papa Leão levantou o dedo com o anel. Mas eu disparei, e não me converti e nem dei meia-volta, me mantive caçador, me mantive Oskar, procurando ir até o final: não me desabotoei, não deixei que meu tambor saísse ao ar glacial, não cruzei minhas baquetas sobre a branca e nívea lâmina de lata, nem permiti que a noite de janeiro se convertesse em noite de tambor, mas gritei em silêncio, gritei como gritam talvez as estrelas ou os peixes nas profundezas; gritei primeiro ao céu, para que deixasse cair neve fresca, e logo ao vidro: ao vidro espesso, ao vidro caro, ao vidro barato, ao vidro transparente, ao vidro que dividia em dois mundos, ao vidro místico e virginal; enderecei meu grito ao vidro da vitrine, entre Jan Bronski e o colar, fazendo um corte na medida da mão de Jan, que eu conhecia bem, e deixei que o recorte circular de vidro resvalasse como se fosse uma tampa: como se fosse a porta do céu e do infinito. E Jan não estremeceu, mas deixou que sua mão enluvada emergisse do bolso do abrigo e penetrasse no céu; a luva abandonou o inferno e tirou do céu um colar cujos rubis teriam convindo a todos os anjos, inclusive os decaídos; e fez com que a mão cheia de rubis e de couro voltasse ao bolso; e ele continuava ali, diante da vitrine aberta, ainda que fosse perigoso e já não sangrassem ali os rubis que imporiam a seu olhar ou ao de Parsifal uma direção imutável. (p.155-156)

Mas ele vai avançando nas datas, avisando que aquilo aconteceu em 35, 36, 38… até chegar numa ação que seria trivial se por acaso não fosse 1º de setembro de 39, na Polônia. Chegamos na segunda parte do livro e ele deixa de ser apenas uma brincadeira. Há alguns detalhes do livro que escapam ao leitor não-europeu ou, dito de outra forma, que farão muito mais sentido para os que estão familiarizados com detalhes sobre a Segunda Guerra. O nome dos personagens, por exemplo: Jan Bronski, Alfred Matzerath, Sigsmund Markus, não me diziam nada a respeito de suas origens e mais tarde se tornam importantes dentro da história por serem poloneses, alemães e judeus. Ou quando ele faz referência a cavaleiros atacando tanques como se fossem moinhos de vento – esse episódio, pouco conhecido, é a última carga de cavalaria da história, quando os poloneses tentaram se defender dos tanques alemães a cavalo. A Segunda Guerra foi inovadora no uso da tecnologia e o resultado desse ataque foi o massacre que vocês podem imaginar. Se por um lado o nosso distanciamento temporal e geográfico nos faz perder muitos detalhes, por outro o livro acaba mostrando o que há de cotidiano numa guerra: impacto da entrada no partido na imagem pessoal, amigos que se vêm separados por ideologias, jovens que não são absorvidos pelo sistema, novas relações comerciais, solidariedade forçada pelas circunstâncias, um mundo onde a morte e a reconstrução são tão presentes que se banalizam.

Quando o livro se torna mais ambicioso ao destruir o estranho cotidiano familiar de Oskar, faz ainda mais sentido a escolha do autor ao criar um personagem principal tão singular: de acordo com o próprio Oskar, ele já nasceu psicologicamente maduro e por decisão própria decidiu não crescer para além dos 3 anos de idade. Para que os adultos pudessem ter uma explicação a respeito do seu desenvolvimento – adultos precisam de explicação – ele se atirou escada abaixo quando engatinhava. O descompasso entre a inteligência e o aspecto físico faz com que ele esteja sempre à margem e consiga atuar como adulto ou como criança quando lhe convém. Na sua perversidade, Oskar me lembrou muito O Anão de Pär Lagerkvist, cuja capacidade nunca é totalmente reconhecida por causa de sua condição física e lhe serve de vantagem. E como Oskar é louco – a primeira informação que nos é dada é que ele vai rememorar a vida de dentro do hospício – a fronteira do que é possível se desfaz, e não tem a menor importância que ele toque um tambor o tempo todo (por isso o nome do livro) ou se era realmente verdade que ele quebrava vidros com a voz ou que os adultos à volta dele fossem sexualmente tão exuberantes. Caso não tenha ficado claro em tudo o que escrevi até agora, é preciso que se diga: o livro é delirante, engraçado e até mesmo informativo, mas há sempre uma morbidez de fundo. Talvez não pudesse ser diferente ao se falar desse período histórico. Fui procurar saber um pouco sobre Günter Grass e descobri que ele revelou coisas feias sobre sua participação nas Waffen-SS quando jovem. As pessoas ficaram decepcionadas e no resumo é colocada uma frase de Oskar para explicar a relação do autor com seu passado: “Não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança”. Se pensarmos que Oskar tem um pouco de Grass, O Tambor adquire ares de um brilhante expurgo pessoal.

Extinção, de Thomas Bernhard

Embora tenha amado de paixão Extinção e esteja num caso de amor com Thomas Bernhard, quando aquela amiga me viu lendo o livro e me perguntou do que se tratava, eu fiquei constrangida. Ela é uma das pessoas que eu conheço que tem a vida familiar mais sólida e satisfatória e um livro e um autor que se dedica a falar mal da própria família da forma como Bernhard faz não é para qualquer leitor. Mesmo para mim ele não foi recomendado com entusiasmo. Além dessa característica que citei, à medida que Bernhard foi amadurecendo (tenho aqui em mãos Perturbação, o segundo romance dele), ele foi se aperfeiçoando no fluxo de pensamentos e com isso abandonando os diálogos e as divisões de parágrafos. Extinção, seu último romance, tem apenas dois longos parágrafos, que são as duas partes do livro.

Meu relato nada mais é a não ser uma extinção, dissera a Gambetti. Meu relato simplesmente extingue Wolfseeg. Até cerca das onze fiquei com Gambetti na Piazza del Popolo, disse comigo observando as fotos sobre minha escrivaninha. Todos nós carregamos uma Wolfsegg conosco e temos vontade de extingui-la para nossa salvação, ao querermos pô-la por escrito, queremos aniquila-la, extingui-la. Mas a maior parte do tempo não temos força para uma tal extinção. Mas provavelmente agora seja o momento. Estou na idade certa, dissera a Gambetti, na idade ideal para um tal propósito. Meu apartamento na Piazza Minerva, dissera a Gambetti, na penumbra as cortinas quase todas baixadas, para ser deixado em paz, para estar seguro da luz romana e começar o trabalho. O que me impede, dissera a Gambetti, de começar nesse instante? Mas logo em seguida: acreditamos poder dar início a um tal propósito e no entanto não estamos em condições para tanto, tudo está sempre contra nós e contra um tal propósito, assim continuamos a adiá-lo e nunca arranjamos tempo, assim tantos trabalhos intelectuais que deviam ser escritos não são escritos, tantos rascunhos que temos o tempo inteiro, anos a fio, décadas a fio, em nossa cabeça continuam em nossa cabeça. Alegamos todas as razões possíveis para não ter que começar um tal trabalho, desencavamos todos os pretextos possíveis, invocamos todos os espíritos possíveis, que só podem ser todos espíritos malignos, para não ter de começar quando devíamos começar. Essa é a tragédia daquele que quer escrever, que continue sempre a invocar quem impede a sua escrita, dissera a Gambetti, uma tragédia que ao mesmo tempo é uma perfeita e pérfida comédia. (p.147-148)

O enredo em si é simples: após voltar de uma visita à família, na Áustria, o protagonista recebe um telegrama das irmãs avisando que seus pais e seu irmão mais velho morreram num acidente de carro. A partir daí, num diálogo imaginário com seu aluno Gambetti, ele reavalia seu passado, as péssimas relações com sua família e a forma como influenciaram quem ele é. A primeira parte do livro é inteiramente dedicada à primeira noite e o impacto imediato da notícia. Fico meio sem palavras para descrever esse livro, de tão bem escrito. Não sou a maior fã de fluxo de pensamentos, mas o de Bernhard é feito com tal maestria que simplesmente não nos entediamos, não encontramos emenda e não desejamos que pare. É contraditório e assumidamente exagerado. É possível ouvir a voz do protagonista, mergulhar no seu mundo interior e achar que realmente aquilo é uma longa reflexão. Ele pensa muito e “fala” muito, retorna aos mesmos assuntos, mas de formas diferentes e enriquecido de outras informações. Ao rever sua vida, novos personagens vão entrando, as várias ações vão se explicando e formando um quadro cada vez mais completo de cada um.  A família é retratada com crueza e depois o próprio protagonista entende que não é bem assim, e que ao mesmo tempo o é, sempre e em todas as famílias; ao assumir o amor e o ódio, as mutilações e a incompreensão causadas pelo convívio, sem se corrigir ou esconder, ele usa o exagero como método para chegar à verdade. Quando chegamos na segunda parte do livro e a Wolfseeg, conhecemos intimamente aquela propriedade, a relação entre as pessoas e o significado de cada coisa; então,cada passo dele é um passo nosso e queremos saber até onde é possível ir para se extinguir uma Wolfseeg.

Dizer a verdade, por Thomas Bernhard

“Em casa, eu mencionava o que havia visto, mas, como sempre acontece quando se conta a alguém algo pavoroso, inumano, simplesmente aterrador, ninguém acreditava, não queriam ouvir e, como sempre haviam feito, chamavam a terrível verdade de mentira. Mas não se deve deixar de dizer a verdade às pessoas; quaisquer que sejam as circunstâncias, não se deve calar ou, menos ainda, falsificar aquilo que de terrível e pavoroso se viu e ouviu. Minha tarefa só pode ser a de comunicar as minhas percepções, tenham elas o efeito que tiverem, relatar sempre as percepções que me pareçam dignas de comunicar aos outros, aquilo que estou vendo ou aquilo que ainda hoje trago na memória, quando, como agora, volto os olhos para trinta anos atrás; se muita coisa já não me é clara, outras revelam-se com demasiada nitidez, como se tivessem acontecido ontem. A fim de se salvar, os interlocutores não acreditam e com frequência descreem do que há de mais óbvio. A pessoas se recusam a ser perturbadas pelo encrenqueiro que lhes tira o sossego. Sempre fui esse tipo de encrenqueiro, a vida toda, continuo sendo e sempre vou ser o encrenqueiro que meus parentes sempre julgaram que eu era; até onde minha memória alcança, já minha mãe me chamava de encrenqueiro, assim como meu tutor, meus irmãos, sou sempre o encrenqueiro, a cada momento, a cada linha que escrevo. Minha existência sempre perturbou, o tempo todo. Sempre perturbei e irritei as pessoas. Tudo o que escrevo, tudo que faço é perturbação e irritação. Minha vida inteira, toda minha existência nada mais é do que perturbação e irritação ininterruptas. Porque chamo atenção para fatos perturbadores e irritantes. Existem aqueles que deixam os outros em paz e aqueles que perturbam e irritam, categoria à qual pertenço. Não sou o tipo de pessoa que deixa os outros em paz, nem quero ser uma pessoa assim.”

Origem, p 240-241

A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa

Eu já tive orgulho besta da nossa brasilidade linguista nos deixar distante do resto da América Latina, a que fala espanhol. Hoje lamento o quanto saímos perdendo. Até as traduções em português lusitano nos são difíceis, então temos que torcer para as nossas editoras fazerem traduções especialmente para nós. Enquanto isso, os mexicanos leem com a maior naturalidade livros publicados na Argentina e por aí vai. Nossa ignorância se estende aos autores latino americanos e sabemos que existiu Borges e olhe lá. Só essa ignorância explica que tão poucos saibam que Mario Vargas Llosa, premiado autor peruano que ganhou o Nobel de literatura de 2010, escreveu um livro excelente sobre a guerra de Canudos no início dos anos 80. Inspirado por Euclides da Cunha, Llosa fez uma extensa pesquisa histórica com documentos e visitou os locais onde aconteceu a guerra. O resultado é um romance vivo, informativo e que consegue nos atingir de uma forma que Euclides da Cunha já não consegue mais. Este trecho – belíssimo – mostra o quanto homem e natureza, que estavam separados n´Os Sertões, se unem no romance de Llosa e mostram um pouco do significado da figura de Antônio Conselheiro às milhares de pessoas que o seguiram:

Dava conselhos ao entardecer, quando os homens voltavam da roça, as mulheres tinham terminado seus afazeres domésticos e as crianças já estavam dormindo. Falava nos descampados lisos e pedregosos que há em todos os povoados do sertão, no cruzamento das ruas principais, e que poderiam ser chamadas de praças se tivessem bancos, coretos, jardins ou se ainda conservassem os que tiveram um dia e foram destruídos pela seca, pelas pragas, pela negligência. Falava na hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de ficar escuro e estrelado, cintila em flocosas nuvens brancas, cinzentas ou azuladas e se vê lá no alto, sobre a imensidão do mundo, um vasto fogo de artifício. Falava na hora em que se acendem as fogueiras para espantar os insetos e fazer a comida, quando o calor sufocante diminui e sopra uma brisa que deixa as pessoas com mais ânimo para suportar a doença, a fome e os padecimentos da vida.

Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar especialmente para nenhuma das pessoas que o cercava, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através da aglomeração de velhos, mulheres, homens e crianças, para algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam, porque eram absolutamente sabidas desde tempos imemoriais e absorvidas junto com o leite materno. Coisas atuais, tangíveis, cotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Juízo Final, que podiam acontecer, talvez, antes que o povoado reconstruísse a capela desmoronada. (p. 16-17)

O livro é um calhamaço de 600 páginas e de vez em quando o leitor se vê com a mesma impaciência dos exércitos: Canudos não vai cair nunca? Canudos se tornou um problema justamente por ter demorado a cair. Para nos fazer entender o significado de Canudos para a época e para as pessoas que influenciou, o Guerra do fim do mundo parte de diferentes pontos de vista, tanto de personagens centrais como de outros que surgem apenas em poucos capítulos e nos dão informações pontuais. Do “lado de fora” temos, dentre outros, o Jornalista Míope (cujo nome nunca é revelado e nos faz pensar numa homenagem a Euclides da Cunha), o comunista Galileo Gall, o monarquista Barão de Canabrava. São personagens que enxergam a guerra no seu sentido político e, entre prejuízos pessoais e equívocos, se sentem desafiados por um fenômenos que ultrapassa qualquer lógica. Ao lado do Conselheiro podemos citar: Beatinho, Leão de Natuba, Pajeú, Mãe dos Homens, Antonio Villanova, João Satã. Seu séquito era formado por bandidos e vítimas, religiosos e recém-convertidos, ignorantes e alguns poucos com cultura, alguns nem ao menos acreditavam em tudo o que ele dizia – mas todos eram dotados de grande sinceridade e fizeram de Canudos um projeto de vida. O único personagem cujo ponto de vista nunca conhecemos é do próprio Conselheiro, que termina o livro como um mistério: era um fanático ou um enviado de Deus? Visto como inimigo da República por pregar a volta da Monarquia, ele demonstra a triste confusão da ignorância ao se colocar contra o casamento civil e o sistema métrico decimal e acreditar que o censo tinha por finalidade re-escravizar os negros. Ao mesmo tempo, é impossível negar seu poder de persuasão, carisma, convicção e capacidade de falar ao coração do seu povo. Mesmo conhecendo a Guerra de Canudos pelos livros de história e por já fazer parte do nosso imaginário, Guerra do fim do mundo consegue resgatar no leitor o sentimento de Euclides da Cunha e de muitos que estiveram envolvidos naquela guerra: a vontade de que fosse diferente, a constatação do absurdo de dizimar um povoado com mais de vinte mil pessoas reunidas pela fé e a vontade de viver melhor.

Ubik, de Philip K. Dick

Saber que Philip K, Dick era um escritor bastante adaptado para o cinema, que dele são Blade Runner e o Vingador do Futuro, ao invés de me animar a ler deram aquela preguiça, a mesma que a gente se vê tendo com Jorge Amado: se eu já vi na TV, já sei o que acontece, então vou dedicar o meu tempo lendo algo diferente. Mas como sou fã de ficção científica, foi se tornando obrigatório para mim ler PKD. Peguei Ubik sem ter a menor ideia do que se tratava, apenas pela capa, que dizia: na lista dos cem melhores romances em língua inglesa da Time. E sabia que não tinha virado filme.

Refletindo, Pat disse:

-Parece uma coisa tão… negativa. Eu não faço nada. Não faço os objetos mexerem, não transformo pedras em pão, nem dou a luz sem fecundação ou reverto processos patológicos em pessoas doentes. Nem leio mente. Nem vejo o futuro, nenhum talento comum do tipo. Só anulo a habilidade de outra pessoa. Parece… – Ela gesticulou. -Bestificante.

-Como fator de sobrevivência da raça humana – explicou Joe – , é tão útil quanto os talentos psi. Especialmente para nós, Padrões. O fatos antipsi é uma restauração natural do equilíbrio ecológico. Um inseto aprende a voar, então outro aprende a construir uma teia para prendê-lo. Isso é o mesmo que não saber voar? Os mariscos desenvolveram conchas duras para se protegerem. Portanto, pássaros aprenderam a voar com o marisco para o alto e largá-lo numa rocha. Nesse sentido, você é uma forma de vida predadora para os Psis, e os Psis são formas de vida que têm como presa os Padrões. Isso faz de você uma amiga da classe dos Padrões. Equilíbrio, o ciclo completo, predador e presa. Parece ser um sistema eterno, e, francamente, não vejo como poderia ser melhorado. (p.33-34)

É um livro perturbador. Primeiro porque, como em toda ficção científica, a gente se vê num mundo diferente e se apega nos poucos indícios que o autor nos dá – fechaduras que exigem 5 centavos para abrir, mortos que mantém a consciência por sistemas de meia vida, viagens a longa distância feitas com facilidade – para entender no que aquele mundo difere do nosso. PKD localiza esse livro na década de 90, mas obviamente ela não é os anos 90 que nós vivemos. Estamos ainda nos acostumando com uma guerra entre talentos de espionagem entre empresas, feitas por pessoas com capacidade de ler pensamentos e influenciar decisões, quando surge uma moça com um talento difícil de entender e que modifica o passado. Depois de um acontecimento chave, toda realidade em torno do protagonista – que também não é claro logo nas primeiras páginas – deixa de fazer sentido. A moça e seu talento misterioso têm algo a ver com isso? O acontecimento chave alterou a relação espaço/tempo? Os fatos envolvem apenas os personagens ou é um acontecimento de escala global? Parece difícil que o autor consiga dar um final satisfatório a tantas questões e ele dá. Na verdade, mais de um, as informações parecem surgir como caixas dentro de caixas. Não tem como não terminar o livro rendido à mente de Dick: o sujeito era um gênio.

o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe

Quando pedi indicação aos meus amigos de FB e dei três possíveis livros do Valter Hugo Mãe para ler – A máquina de fazer espanhóis, O filho de mil homens e O remorso de Baltazar Serapião – este foi o único que não teve nenhum voto. Durante a leitura, e principalmente ao terminar, acredito ter entendido o motivo. Ele não tem nada a ver com a qualidade do livro, que é imensa, e sim, digamos, a uma certa angústia politicamente correta do mundo. A ação é centrada em Serapião e o que ele nos apresenta um mundo onde o leitor adivinha uma organização medieval da existência, onde as mulheres são consideradas misteriosas, inferiores, maléficas e poderosas. São muitos os trechos, todos ótimos, que tratam disso. Elas são a preocupação central de Serapião.

à brunilde rebentou-lhe no meio das pernas em sangue, um dia em que carregava palha para os animais. ficou assim encarnada no meio do campo, a chamar a minha mãe em surdina e a dizer nojices com as mãos nas suas partes da natureza. era assim como se rebentasse um fruto maduro, um tomate que se desfizesse, e ali ficasse a sair-lhe de dentro, a cheirar mal e a doer. a minha mãe roubou-a dos nossos olhos, furiosa com o destino, e todos soubemos que se cobririam uma à outra em segredos, semelhantes e porcas de corpo, condenadas à inferioridade, à fraqueza. um corpo que as obrigava, sem falta, a uma maleita reiterada, como um inimigo habitando dentro delas, era o pior que se podia esperar, um empecilho de toda perfeição, e tão belas se deixavam quanto doloridas e acossadas. por isso eram instáveis, temperamentais, aflitas de coisas secretas e imaginárias, a prepararem vidas só delas sem sentido à lógica. tinham artefatos e maneiras de parecer gente sem quererem perder tudo o que deviam perder. eram, como sabíamos bem, perigosas. (p.19)

Como dá para perceber no trecho, esse é um dos livros que Mãe adotava o recurso de não usar maiúsculas, o que a mim não disse nada. A prosa é deliciosa e a cadência de linguagem falada arcaica me remete a Guimarães Rosa, embora seja muito mais fácil de ler. Colado na consciência de Serapião, o leitor consegue ver apenas pelos seus olhos, que tem como questão essencial a possível traição que sofre da sua esposa Ermesina e seu senhor Dom Afonso, a quem deve obediência. Serapião reafirma a autoridade e superioridade masculina perante as mulheres o livro inteiro, o que é apenas mais um reflexo do seu fracasso. Através da violência e a posse ele tenta controlar um universo da qual não entende nada. Apoiada pelas próprias crenças medievais, a história vai ficando cada vez mais fantástica, as ações mais radicais e chega um ponto que o leitor se torna incapaz de prever o próximo passo de qualquer personagem. Por amor, prazer ou bruxaria se é capaz de tudo. O livro é cômico, violento, absurdo… Não tem como contar mais sem entregar a história. Lembro de ninguém ter me recomendado este livro e penso, a maneira Marilac: Se este é o livro impopular, POHAN, então imagina como são os outros.

A vontade de beleza, por Darcy Ribeiro

“Outra vertente do meu encantamento pelos índios vinha de meu assombro diante do exercício da vontade de beleza que eu via expressar-se infinitas vezes, de mil modos e formas. Aos poucos fui percebendo que as sociedades singelas guardam, entre outras características que perdemos, a de não ter despersonalizado nem mercantilizado sua produção, o que lhes permite exercer a criatividade como um ato natural da vida diária. Cada índio é um fazedor que encontra enorme prazer em fazer bem tudo o que faz. É também um usador, com plena consciência das qualidades singulares dos objetos que usa.

Quero dizer com isso, tão-somente, que a índia que trança um reles cesto de carregar mandioca coloca no seu fazimento dez vezes mais zelo e trabalho do que seria necessário para o cumprimento de sua função de utilidade. Esse trabalho a mais e esse zelo prodigioso só se explicam com o atendimento a uma necessidade imperativa, pelo cumprimento de uma determinação tão assentada na vida indígena que é inimaginável que alguém descuide dela. Aquela cesteira, que põe tanto empenho no fazimento do seu cesto, sabe que ela própria se retrata inteiramente nele. Uma vez feito, ele é seu retrato reconhecível por qualquer outra mulher na aldeia que, olhando, lerá nele, imediatamente, pela caligrafia cestária que exibe, a autoria de quem o fez.

Não havendo para os índios fronteiras entre uma categoria de coisas tidas como artísticas e outras, vistas como vulgares, eles ficam livres para criar o belo. Lá uma pessoa, ao pintar seu corpo, ao modelar um vaso, ou ao trançar um cesto, põe no seu trabalho o máximo de vontade de perfeição e um sentido de beleza só comparável com o de nossos artistas quando criam. Um índio que ganha de outro um utensílio ou adorno ganha, com ele, a expressão do ser de quem o fez. O presente estará ali, recordando sempre que aquele bom amigo existe e é capaz de fazer coisas tão lindas.

Essa compreensão importa na conclusão de que a verdadeira função que os índios esperam de tudo o que fazem é a beleza. Incidentalmente, suas belas flechas, sua preciosa cerâmica têm um valor de utilidade. Mas sua função real, vale dizer, sua forma de contribuir para a harmonia da vida coletiva e para a expressão de sua cultura, é criar beleza.”

Confissões, p. 150-160

Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.