A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

handmaid- esperma extra

Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

handmaids tale driver

.oOo.

A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

handmaid - women choice

* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Inveja e escolaridade na Série Napolitana, Elena Ferrante

Spoilers: sim, tem. Até o terceiro livro.

Até agora, julho de 2017, a Série Napolitana, é formada pelos seguintes livros: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida.

Vou me sentir produzindo um post caça níqueis, daqueles que colocam algo polêmico só para provocar a ira das pessoas, mas quem leu os livros sabe que eu tenho razão: a série napolitana é a história de uma amizade, sim, mas de uma amizade baseada em inveja e rivalidade mútuas, principalmente da parte da protagonista Lenu com relação à sua amiga Lila. Lenu diz logo no começo do primeiro livro, com todas as letras, que se aproximar de Lila foi a forma como ela conseguiu lidar com a inveja, ela se conformou com o papel secundário numa competição que estava destinada a perder. Por um lado, a inveja é explicável pelo fato de Lila ser acima da média. A facilidade de aprendizagem e as análises que faz do que lhe cai em mãos mostram que Lila tinha um QI elevado; como pessoa, é independente, corajosa, intensa, verdadeira, criativa, apta a quaisquer atividades físicas. Para completar o quadro, como se já tivesse qualidades o suficiente, quando se torna uma mulher, Lila fica linda. Outro motivo, que para mim é um dos grandes atrativos da história, é perceber que o Destino, num sadismo brincalhão, misturou os sonhos de ambas e fez com que cada visse a outra obter com facilidade o que desejava para si: a que ama estudar e se destaca por suas ideias não pode prosseguir os estudos; a romântica que adora crianças se vê sozinha por muito mais tempo do que gostaria.

Talvez por isso, ao contrário da maioria dos leitores da série, tenho no primeiro o meu livro preferido. Gosto de quando está tudo começando, quando elas são crianças com dramas pequenos num bairro violento. Gosto de torcer pela Lila menina destemida, que vence competição, que estuda sozinha e supera o conteúdo do colégio, enfrenta os meninos e parece ser capaz de qualquer coisa. Era óbvio que ela estava destinada a perder, que por mais que lesse jamais conseguiria suprir a falta de uma educação formal. Lila dizer a Lenu que ela é a sua amiga genial, que deve estudar pelas duas, foi como um plot twist pra mim. O primeiro livro tem pra mim o valor utópico do antes: antes de escolaridade, antes de papéis de gênero, antes das diferenças econômicas , enfim, antes dos papéis sociais as esmagassem – porque era apenas uma questão de tempo até que esmagassem. Se a proibição de estudar já não fosse o suficiente, ficou claro que o que aguardava Lila não era tão bom quanto ela prometia quando criança quando ela começa a chamar atenção dos homens. Excesso de beleza e inteligência numa mulher é quase como maldição rogada por bruxa. Vista como troféu pelos homens ricos do bairro e possível saída para melhorar de vida pela família, Lila se casa cedo e mal.

“Vamos, me ajude, ou vou me atrasar.”

Jamais a havia visto nua, me envergonhei. Hoje, posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar sobre seu corpo, de ser a testemunha participante de sua beleza de dezesseis anos poucas horas antes de que Stefano a tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a. Naquele momento foi apenas uma tumultuosa sensação de um inconveniente necessário, uma situação em que não se pode virar o rosto para o outro lado, não se pode afastar a mão sem dar a reconhecer o próprio desconcerto, sem o declarar justo ao se retrair, sem portanto entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem está nos perturbando, sem exprimir precisamente com a recusa a violenta expressão que nos abala, de modo que você se obrigar a continuar ali, a deixar o olhar sobre os ombros de menino, sobre os seios de mamilos crispados, sobre os quadris estreitos e as nádegas rijas, sobre o sexo escuríssimo, sobre as pernas compridas, sobre os joelhos tenros, sobre os tornozelos arredondados, sobre os pés elegantes; e você finge como se não fosse nada, quando na verdade tudo está em ato, presente, ali no quarto pobre e um tanto escuro, a mobília miserável ao redor, sobre o piso irregular e manchado de água, e o coração se agita, e suas veias se inflamam.

A amiga genial/ A história do sapato, 57.

O primeiro livro da série é essencial para se apegar aos personagens, que são sempre os mesmos, como se as mudanças fossem apenas uma troca de cadeiras, onde quem ontem era vizinho, amanhã é namorado e depois se torna cunhado. O bairro, uma periferia napolitana, é mais um personagem: a vizinha que enlouquece quando se apaixona pelo marido de outra, o agiota temido por todos, a briga de fogos de artifício, os pequenos comerciantes, etc. O bairro é o berço, amado e detestado, lugar de onde se quer fugir e não se consegue, origem do dialeto que eles falam sabendo que os define e empobrece diante do (idioma) italiano. Num meio ignorante, Lenu à princípio não percebe o que a educação pode fazer por ela e sente que a vida de estudante lhe deixa em suspenso enquanto todos à sua volta estão trabalhando e casando. Mas o caminho que se abre diante dela, diferente de todos à sua volta, transforma Lenu numa arrivista e é de grande sensibilidade a maneira como ela descreve as diferenças culturais e a superação exigente de quem tenta migrar para uma classe acima daquela de onde nasceu:

Estava entre os que se esforçavam dia e noite, que obtinham ótimos resultados, que eram até tratados com simpatia e estima, mas que nunca sustentariam com postura adequada a alta qualidade daqueles estudos. Eu sempre teria medo: medo de dizer uma frase errada, de usar um tom excessivo, de estar vestida inadequadamente, de revelar sentimentos mesquinhos, de não ter pensamentos interessantes.

História do novo sobrenome/ Juventude, 106.

Entre os seus, todos que encontram Lila se dão conta de seu magnetismo, e em qualquer tarefa que se proponha – desenhar sapatos, administrar uma loja – tem um toque especial. Mas sempre numa escala pequena, doméstica, porque o mundo desprovido de educação acessível à Lila é pequeno. Por mais que se torne capaz de revolucionar e dar a volta por cima, a falta da educação formal torna Lila sempre uma pessoa “e se”.

A sinceridade é um ponto chave na série, uma sinceridade que não poupa nem a própria narradora. Ela nos mostra uma violência sem fim da periferia napolitana – que resolve os assuntos com surras e mortes, que leva uma criança a ser jogada pela janela pelo seu próprio pai, que faz com que apanhar do marido seja tão comum a ponto de ser demonstração de ombridade. Ela nos fala de um machismo profundo, arraigado em homens e mulheres, onde a própria Lila que era capaz de enfrentar um homem com o dobro do tamanho dela aceite com naturalidade ser violentada e espancada pelo marido; ou nos episódios que Lenu é bolinada por homens mais velhos, apenas porque a situação se mostrou propícia para eles. Principalmente, o livro é claro no tratamento da inveja, nos momentos que Lenu está sempre se comparando com Lila como se – nas palavras da própria Lenu – a vida de ambas fossem os dois pratos de uma balança e que para uma estar por cima a outra precisa estar por baixo. Na maior parte do tempo, Lenu se queixa dos sucessos de Lila, que está bem enquanto ela está mal; aí, quando Lenu está bem, ela vai ter com Lila ou vê algo de Lila e imediatamente se descobre não tão bem assim, porque o que Lila tem é mais intenso, ou superior, ou até mesmo é a base do aparente sucesso de Lenu. O momento mais forte desse processo, para mim, é o final do segundo livro, quando Lenu ao invés de ficar feliz com o seu primeiro romance, o compara com uma história que Lila escreveu na infância. Aí ela decide procurar Lila, que está numa situação de pobreza e subemprego assustadora. Ao interromper o trabalho da amiga com as mãos machucadas num ambiente totalmente insalubre, Lenu só consegue dizer: “Aconteceu uma coisa maravilhosa, escrevi um livro!”. E como se tudo aquilo não fosse suficiente, ao perceber que Lila se desfaz do tal livro de infância assim que fica sozinha, Lenu se reduz de novo à sua inveja – que Lila sim entendia das coisas, era superior a tudo aquilo, etc.

Há momentos que o leitor se pergunta se Lila é tão interessante ou é tudo fruto de uma mente paranoicamente invejosa. Como quando o marido de Lenu diz que achou Lila uma pessoa horrível, e ela começa a achar que ele falou aquilo para se defender do fascínio que sentiu. Quando finalmente consegue dormir com Nino, lá vai a outra perguntar se o desempenho na cama era melhor do que o da amiga. A vida adulta faz com que cada uma siga sua vida e o contato entre elas – e a consequente comparação  – perde cada vez mais o sentido. Lila passa a ser uma amiga de telefonemas esporádicos e notícias distantes. Quando Lenu passa a ter o foco da história mais para si, somos obrigados a dar razão ao que ela disse o tempo todo, ao que todos os personagens diziam: Lila é muito mais interessante, mostra mais Lila porque isto está muito comum.

Uma visão sobre o Comandante d´O Conto da Aia

Alerta de spoiler: O livro é de 1985 e tem filme, série, peça de teatro, desenho. Aqui os spoilers abundam por ser uma discussão e não uma resenha.

“Beije-me como se sentisse vontade”, pede o Comandante a Offread. O Conto da Aia é narrado em primeira pessoa e Offred, sua protagonista, oferece ao leitor uma visão tão limitada da sua realidade quanto o que ela mesma vê: um quarto onde precisa ficar trancada, uma janela com uma pequena visão do jardim, palavras ríspidas de mulheres, olhares cobiçosos dos homens. Tudo parece uma espécie de prisão de luxo, tanto que às vezes a própria Offread faz menção ao fato de ser um privilégio ter o que comer e estar naquela posição – o que nos faz adivinhar o que há algo pior ao mesmo tempo que isso seja difícil de imaginar. Como em qualquer sistema opressivo dos bons, as contradições estão em toda parte: ela veste vermelho e se cobre, ela serve ao sexo e não pode sentir prazer, ela é uma privilegiada e não tem liberdade nenhuma. Nada pertence a Offread, nem o seu próprio nome, que é ligado à família onde está e deve ser dado à outra, quando o prazo dela estar naquela casa e tentar gerar um filho se esgotar.

Há tempo de sobra. Esta é uma das coisas para as quais não estava preparada – a quantidade de tempo não preenchido, o longo parênteses de nada. Tempo como som de ruído fora de sintonia. Se ao menos eu pudesse bordar. Tecer, tricotar, alguma coisa para fazer com as mãos. Quero um cigarro. Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco a fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas agora vejo o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio.

Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.

Parte V, capítulo 13

São pelo menos quatro mulheres na casa, e elas junto com o motorista servem apenas ao bem estar de um homem: o Comandante. De acordo com o ritual, ele deveria usar a aia apenas em dias prescritos, com a presença da sua esposa, as duas unidas como uma só carne, uma como a verdadeira companheira e a outra apenas como depositária do futuro filho de ambos. Da fora mais deserotizada possível, ele penetra uma aia impassível e ejacula. Mas, para a surpresa do leitor, o Comandante subverte as regras e, apesar de poder pedir o que quiser, leva a aia para o seu lugar mais privado da casa e se aproxima dela amigavelmente. Pede para jogar no tabuleiro, observa enquanto ela lê uma revista, conversa com ela. Ele lhe pede com olhares tristes o carinho que vai além da obrigação e passa a olhar para ela durante o sexo, o que a constrange, porque traz de novo ao ato que era mecânico uma presença. O Comandante se esforça para agradar e ser amado e parece ser, da mesma forma que Offread, um prisioneiro do seu papel. Nessa parte, rola uma paixãozinha enquanto a gente vai lendo.Como as feministas alertam: o machismo afeta os dois lados. Na prática, a divisão entre esposa e aia faz com que ele não seja próximo de nenhuma das duas. Os mesmo papéis que servem também isolam os homens em seu poder.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Parte IV, cap.15

Mas qualquer possibilidade de uma paixão vai embora quando sabemos mais sobre o Comandante: que ele havia feito esse jogo antes e que a aia anterior tinha cometido suicídio; que ele foi um dos responsáveis pela implementação daquele regime e que o justificava dizendo: “Queríamos transformar o mundo num lugar melhor. Melhor nunca significou bom para todos, sempre fica pior para alguns”. Alguns, no caso, é apenas toda população feminina…Ele foi um dos responsáveis por tirar de Offread até mesmo o direito de ter seu nome; ele sabia que aquele jogo podia ser mortal para ela, que arcaria com todos os ônus. Ele não fazia nada que pudesse ajudá-la individual e coletivamente e no entanto, ainda queria o seu calor. De sensível e oprimido, descobrimos no Comandante um homem vaidoso e voltado apenas para o seu prazer. Porque, apesar de ser meio sem graça aqui e ali, a submissão feminina é muito confortável. Offread sinaliza que mesmo o mais liberal dos homens ainda pode se sentir assim quando narra que seu marido Luke, o homem da época que ela era alguém, quis fazer sexo com ela no mesmo dia que todas as mulheres perderam seus empregos e o direito de usarem dinheiro. Offread estava totalmente abalada mas “pelo menos nós temos um ao outro” – se Luke iria cuidar dela, então tudo estava bem. Eu me lembrei do Livreiro de Cabul, com homens desejosos que as mulheres que usam burca e seguem estritas normas de conduta agissem – apenas e tão somente na hora do sexo – como as mulheres que aparecem nos filmes ocidentais. Em pouco tempo é isso que o Comandante faz: traz para Offread uma lingerie, a leva para a Casa de Jezebel e para a cama, em busca de uma relação sexual completa.

Mulheres com direitos cortados por canetada, mulheres colocadas sob a tutela masculina, mulheres divididas por funções, mulheres mantidas na ignorância, mulheres vigiadas, mulheres reduzidas ao desejo masculino – o livro é extremamente perturbador para qualquer mulher que o leia. Talvez a gente adivinhe, como a autora Margaret Atwood afirmou, que tudo aquilo já aconteceu de uma forma ou de outra – ou ainda pode acontecer. Até o Comandante levar Offread para o bordel, esta distopia ainda não havia me convencido. Em palavras, a minha crítica era: oprimir as mulheres ok, mas dessexualizar totalmente as relações e fazer delas apenas máquinas para fazer filhos não faz sentido, os homens não abririam mão do prazer que lhes é mais caro, o de dispor do corpo feminino. Aí quando surge a lingerie e o bordel, o quadro se completou para mim. Será que toda opressão e hipocrisia andam juntas? A esposa do comandante e a aia, colocadas em campos opostos, assim como as mulheres na cozinha, perdiam tempo com antipatias mútuas sem se dar conta de que eram todas vítimas. A conclusão do livro é óbvia: somos todas mulheres e não podemos deixar acontecer.

Eu sou Malala, com Christina Lamb

De uma maneira ou de outra, a gente sabe que existe uma Malala antes de ler o livro e sabe que foi a pessoa mais jovem a receber o Nobel, que ela é muçulmana e luta pela educação de meninas. Quem lê o livro quer conhecer essa história e as autoras do livro – a própria Malala e Christina Lamb – parecem ter uma profunda compreensão do que essa menina representa. Eu sou Malala oferece ao leitor uma descrição sincera e ampla, que contempla Malala no contexto da família, dos amigos e da política. De forma inteligente e interessante, Malala é colocada com uma menina por um lado comum, que gosta de arrumar o cabelo e brincar com as amigas, e por outro bastante estimulada por um pai educador, idealista e muito atuante, que oferece a sua filha muito mais do que seria esperado – ao que ela corresponde amplamente, e pai e filha se tornam representantes da mesma luta. O livro nos oferece o ponto de vista paquistanês dos ataques de onze de setembro, o crescimento do Talibã, a ambiguidade interna com os EUA e o que leva uma adolescente a  “merecer” um tiro na cabeça.

Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. O primo de meu pai, Jehan Sher Khan Yousafzai, foi um dos poucos a nos visitar para celebrar meu nascimento e até mesmo nos deu uma boa soma em dinheiro. Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas da descendência masculina. Meu pai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu “Malala”. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: “Sei que há algo diferente nessa criança”. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas no meu berço, algo reservado somente aos meninos. (p.21-22)

Também eu não queria me render. Mas nos aproximávamos do prazo determinado pelo Talibã para que as meninas deixasse de ir à escola. Como impedir 50 mil meninas de ir à escola em pleno século XXI? Eu não parava de pensar – ou desejar – que algo mudaria e que as escolas permaneceriam abertas. Mas nosso prazo estava se esgotando. Tínhamos determinado que  sinal da Khushal seria o último a parar de tocar. A sra. Maryam até mesmo se casara, para poder ficar no Swat. Sua família havia se mudado para Karachi por causa do conflito e ela não podia morar sozinha. (p. 168)

Todos recitamos surahs do Corão e uma oração especial para proteger nossos queridos lares e nossa querida escola. Então o pai de Safina colocou o pé no acelerador e lá fomos nós, do pequeno mundo de nossas rua, casa e escola rumo ao desconhecido. Não sabíamos se algum dia voltaríamos a nossa cidade. Tínhamos visto fotos de como o Exército acabara com Bajaur, numa operação contra os talibãs, e pensamos que tudo aquilo que conhecíamos seria destruído.

As ruas estavam repletas. Eu nunca as vira tão movimentadas. Havia carros por toda parte, bem como riquixás, carroças puxadas por mulas e caminhões, todos lotados de pessoas com seus pertences. Havia até mesmo motos com famílias inteiras balançando-se sobre elas. Milhares de pessoas caminhavam apenas com a roupa do corpo. Parecia que todo vale estava em fuga. Diz-se que os pachtuns descendem de uma das tribos perdidas de Israel, e meu pai comentou: “É como se fôssemos israelistas fugindo do Egito, só que não temos nenhum Moisés para nos guiar”. Poucas pessoas sabiam para onde ir; a maioria apenas sabia que tinha de partir. Foi o maior êxodo da história pachtum. (p. 188-189)

Numa perspectiva mais literária, eu diria que Malala é um livro sobre perder e reconstruir o próprio lar; a perda de Malala, das outras meninas e dos paquistaneses em geral é tão profunda que é preciso construir um mundo novo, porque o lugar que amavam foi destruído pela violência, ignorância e disputas pelo poder. A história é tocante por ser muito próxima: os Yousafzai são uma família que querem nada mais do que o direito à felicidade e oferecer do melhor aos seus. Ao conhecer o contexto político, vemos os acontecimentos exteriores se avolumarem lá fora enquanto eles, pessoas comuns, nada podem fazer a respeito. Quando a violência se torna generalizada, Malala e os outros são engolidos, sua forma de viver é colocada em risco e preservar o mínimo de dignidade passa a ser um posicionamento político. Vemos as fotos da família no meio do livro, sabemos que agora eles vivem na Inglaterra, e para surpresa e choque etnocêntrico do leitor, sair do campo para ter acesso ao ápice da civilização não foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Malala já famosa e ganhadora de prêmios fala do tédio na Inglaterra, de um pai longe do que construiu, de uma mãe sem as amigas, uma escola onde não se sente amada. Há sim conforto e segurança, mas falta a cultura acolhedora, as montanhas e as flores, o pertencimento. Ser inglês ou ocidental não é o mundo ideal, o mundo ideal é um Paquistão mais justo. Como ela mesma conclui no fim do livro: “Eu sou Malala. Meu mundo mudou, eu não.”

O Linguado, de Günter Grass

As pessoas te perguntarão que Bíblia é essa que você leva para cima e para baixo quando estiver lendo O Linguado e você se verá obrigado a contar, em poucas palavras, do que se trata o livro. E isso será meio difícil, cada resposta sairá de uma maneira. Nenhuma delas poderá deixar de dizer que é um livro sobre um linguado – um peixe mesmo – que ajuda os homens ao longo da história a se libertar do domínio feminino. Pra alguns você citará que na idade das pedras as mulheres antes era trisseúdas, ou seja, tinham três seios, e, assim, “aos homens nada faltava”. Outras vezes vai contar que se fala de comida o tempo todo, como se fosse um livro culinário, o que vai deixar o leitor de receitas animado, mas você vai alertar que as receitas falam de cabeças cozinhadas dentro de cabeças e outras combinações difíceis de experimentar. Se você disser que o protagonista/narrador lembra de suas diversas vidas e mulheres, precisará esclarecer que não é um livro reencarnacionista. O Linguado é dividido pelos meses de gestação e há também um tribunal feminista, mas eu juro que o que melhor descreve essa ficção é dizer que é uma Fábula. Fábula, aquele gênero que costuma ser construído ao longo do tempo, oralmente, e tem um formato fácil de reconhecer e quase impossível para um autor contemporâneo imaginar, sentar e escrever de maneira convincente. E assim é.

E quem ainda quiser cozinhar como a gorda Gret e tiver um motivo parecido ao dela, quando eu, o seu companheiro de cama na época, não sentia mais vontade, não queria mais repartir a sua carne, mas de rabo mole me perguntava apenas pelo sentido de tudo aquilo e vivia jogado por aí, preguiçosamente por aí, que se atenha à seguinte receita.

Tome doze a dezessete cristas de galo, coloque-as de molho em leite morno até que a pele das cristas se deixe puxar facilmente, ponha de molho as cristas em água fria para que o seu vermelho descore e fique surpreendentemente branco, depois as salpique com limão, como a gorda Gret fazia com suco de pepino, passe as cristas em ovo batido, frite-as ligeiramente de ambos os lados e siva-as sobre rodelas de aipo estufadas na manteiga a qualquer mocinho, que, como eu naquele tempo, tenha dificuldade de ficar teso, de ser tão másculo como o galo, mesmo que tenha motivos bastantes para deixar a cabecinha cair. Pois fácil não era viver à sua sombra: a gorda Gret não dava nada por um rabo mole. Sempre me endireitava o pilão. Vale a pena imitar suas receitas. (p.280)

Assim como O Tambor (outro livro de Günter Grass), aqui também tem sexo e escatologia, mas sem o bizarro; por outro lado, o humor também não é tão exuberante. O Linguado é um daqueles livros que eu classifico de “aproveitar a viagem”, que a graça está em se deixar guiar pelo universo do autor – aprecie as soluções, as mudanças, as loucuras; esqueça o final porque ele virá por si só. Logo no início a lista de todas as Ilsebill e seus pares intimida, dá a impressão de que teremos que sempre retornar a lista para entender o que se passa. Bobagem; o narrador vai e volta o tempo todo, nas histórias e nos poemas, e gera um efeito acumulativo onde uma história ajuda a explicar a outra. Eles passeiam por todas as épocas, são filhos e netos de si mesmos; a alimentação ora é de papa de glicéria, ou cheia de pimentas, ou uma ode à batata – ou não se alimentam de nada, porque a fome, a peste e as penitências também fazem parte. As vidas dos personagens conta um pouco da história caxúbia (região da Polônia que Grass transforma num mundo) e as mudanças nos costumes. É hilária a maneira como se fala das funções corporais com tanta naturalidade, as metáforas para descrever o sexo, os peidos, as fezes, os cus. O Linguado é uma doce e longa reflexão sobre o amor e relacionamentos. Como mulher, achei muito interessante ler na fala masculina – racional no Linguado e emocional no narrador – a maneira como eles se sentem impactados por nós, no que para eles é um grande poder: as nossas “covinhas”, o preparo da comida, o poder da natureza ligado à magia e à própria concepção. No embate para tornar o mundo patriarcal, livre da passividade feliz oferecida pelo seio, o Linguado reconhece nas mulheres a capacidade de transformar as desvantagens em formas renovadas de poder. Ao mesmo tempo, o tribunal feminista aponta que à mulher foi destituição da atuação da mulher na esfera pública, os desejos femininos ficaram submetidos às necessidades masculinas e o discurso de amor recai numa exigência de sacrifícios constantes – e nesse momento, a fala delas também é a minha fala. Fico com vontade de colar passagens ótimas (e longas) aqui, que falam desse cotidiano de lidar com um outro, desejado e desejante, de ganhar perdendo e perder ganhando, os arranjos constantes para fazer uma relação (que é um terceiro ser e pode gerar um fisicamente) funcionar. O próprio embate é uma demonstração de que não há respostas fáceis. Como eu disse antes sobre o livro, e que de certa forma é o que o livro nos diz sobre a vida: há de se aproveitar a viagem.

O Tambor, de Günter Grass

A primeira parte deste livro é de passar vergonha por gargalhar sozinho em público, foi uma das coisas mais engraçadas que li na minha vida. Só por ela, pela construção de um personagem trancado no hospício e megalômano que conta uma história tão extraordinária sobre si mesmo e a sua família – a avó com saias cor de batata sobrepostas, o avô incendiário, as partidas de skat entre a mãe, o marido e o “pai presuntivo”, os vizinhos, as aventuras sexuais de todos eles – já fariam O Tambor valer a leitura. E que delícia de prosa!

Poderia tê-lo detido com um chamado ou com um rufor do tambor que trazia comigo. Sentia-o debaixo do meu sobretudo. Bastava abrir um botão e ele teria emergido para o ar glacial. Levando as mãos os bolsos do abrigo estaria de posse das baquetas. São Huberto, o caçador, não disparou quando já tinha na mira do tiro aquele cervo singular. Saulo converteu-se em Paulo. Átila deu meia-volta quando o Papa Leão levantou o dedo com o anel. Mas eu disparei, e não me converti e nem dei meia-volta, me mantive caçador, me mantive Oskar, procurando ir até o final: não me desabotoei, não deixei que meu tambor saísse ao ar glacial, não cruzei minhas baquetas sobre a branca e nívea lâmina de lata, nem permiti que a noite de janeiro se convertesse em noite de tambor, mas gritei em silêncio, gritei como gritam talvez as estrelas ou os peixes nas profundezas; gritei primeiro ao céu, para que deixasse cair neve fresca, e logo ao vidro: ao vidro espesso, ao vidro caro, ao vidro barato, ao vidro transparente, ao vidro que dividia em dois mundos, ao vidro místico e virginal; enderecei meu grito ao vidro da vitrine, entre Jan Bronski e o colar, fazendo um corte na medida da mão de Jan, que eu conhecia bem, e deixei que o recorte circular de vidro resvalasse como se fosse uma tampa: como se fosse a porta do céu e do infinito. E Jan não estremeceu, mas deixou que sua mão enluvada emergisse do bolso do abrigo e penetrasse no céu; a luva abandonou o inferno e tirou do céu um colar cujos rubis teriam convindo a todos os anjos, inclusive os decaídos; e fez com que a mão cheia de rubis e de couro voltasse ao bolso; e ele continuava ali, diante da vitrine aberta, ainda que fosse perigoso e já não sangrassem ali os rubis que imporiam a seu olhar ou ao de Parsifal uma direção imutável. (p.155-156)

Mas ele vai avançando nas datas, avisando que aquilo aconteceu em 35, 36, 38… até chegar numa ação que seria trivial se por acaso não fosse 1º de setembro de 39, na Polônia. Chegamos na segunda parte do livro e ele deixa de ser apenas uma brincadeira. Há alguns detalhes do livro que escapam ao leitor não-europeu ou, dito de outra forma, que farão muito mais sentido para os que estão familiarizados com detalhes sobre a Segunda Guerra. O nome dos personagens, por exemplo: Jan Bronski, Alfred Matzerath, Sigsmund Markus, não me diziam nada a respeito de suas origens e mais tarde se tornam importantes dentro da história por serem poloneses, alemães e judeus. Ou quando ele faz referência a cavaleiros atacando tanques como se fossem moinhos de vento – esse episódio, pouco conhecido, é a última carga de cavalaria da história, quando os poloneses tentaram se defender dos tanques alemães a cavalo. A Segunda Guerra foi inovadora no uso da tecnologia e o resultado desse ataque foi o massacre que vocês podem imaginar. Se por um lado o nosso distanciamento temporal e geográfico nos faz perder muitos detalhes, por outro o livro acaba mostrando o que há de cotidiano numa guerra: impacto da entrada no partido na imagem pessoal, amigos que se vêm separados por ideologias, jovens que não são absorvidos pelo sistema, novas relações comerciais, solidariedade forçada pelas circunstâncias, um mundo onde a morte e a reconstrução são tão presentes que se banalizam.

Quando o livro se torna mais ambicioso ao destruir o estranho cotidiano familiar de Oskar, faz ainda mais sentido a escolha do autor ao criar um personagem principal tão singular: de acordo com o próprio Oskar, ele já nasceu psicologicamente maduro e por decisão própria decidiu não crescer para além dos 3 anos de idade. Para que os adultos pudessem ter uma explicação a respeito do seu desenvolvimento – adultos precisam de explicação – ele se atirou escada abaixo quando engatinhava. O descompasso entre a inteligência e o aspecto físico faz com que ele esteja sempre à margem e consiga atuar como adulto ou como criança quando lhe convém. Na sua perversidade, Oskar me lembrou muito O Anão de Pär Lagerkvist, cuja capacidade nunca é totalmente reconhecida por causa de sua condição física e lhe serve de vantagem. E como Oskar é louco – a primeira informação que nos é dada é que ele vai rememorar a vida de dentro do hospício – a fronteira do que é possível se desfaz, e não tem a menor importância que ele toque um tambor o tempo todo (por isso o nome do livro) ou se era realmente verdade que ele quebrava vidros com a voz ou que os adultos à volta dele fossem sexualmente tão exuberantes. Caso não tenha ficado claro em tudo o que escrevi até agora, é preciso que se diga: o livro é delirante, engraçado e até mesmo informativo, mas há sempre uma morbidez de fundo. Talvez não pudesse ser diferente ao se falar desse período histórico. Fui procurar saber um pouco sobre Günter Grass e descobri que ele revelou coisas feias sobre sua participação nas Waffen-SS quando jovem. As pessoas ficaram decepcionadas e no resumo é colocada uma frase de Oskar para explicar a relação do autor com seu passado: “Não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança”. Se pensarmos que Oskar tem um pouco de Grass, O Tambor adquire ares de um brilhante expurgo pessoal.

Extinção, de Thomas Bernhard

Embora tenha amado de paixão Extinção e esteja num caso de amor com Thomas Bernhard, quando aquela amiga me viu lendo o livro e me perguntou do que se tratava, eu fiquei constrangida. Ela é uma das pessoas que eu conheço que tem a vida familiar mais sólida e satisfatória e um livro e um autor que se dedica a falar mal da própria família da forma como Bernhard faz não é para qualquer leitor. Mesmo para mim ele não foi recomendado com entusiasmo. Além dessa característica que citei, à medida que Bernhard foi amadurecendo (tenho aqui em mãos Perturbação, o segundo romance dele), ele foi se aperfeiçoando no fluxo de pensamentos e com isso abandonando os diálogos e as divisões de parágrafos. Extinção, seu último romance, tem apenas dois longos parágrafos, que são as duas partes do livro.

Meu relato nada mais é a não ser uma extinção, dissera a Gambetti. Meu relato simplesmente extingue Wolfseeg. Até cerca das onze fiquei com Gambetti na Piazza del Popolo, disse comigo observando as fotos sobre minha escrivaninha. Todos nós carregamos uma Wolfsegg conosco e temos vontade de extingui-la para nossa salvação, ao querermos pô-la por escrito, queremos aniquila-la, extingui-la. Mas a maior parte do tempo não temos força para uma tal extinção. Mas provavelmente agora seja o momento. Estou na idade certa, dissera a Gambetti, na idade ideal para um tal propósito. Meu apartamento na Piazza Minerva, dissera a Gambetti, na penumbra as cortinas quase todas baixadas, para ser deixado em paz, para estar seguro da luz romana e começar o trabalho. O que me impede, dissera a Gambetti, de começar nesse instante? Mas logo em seguida: acreditamos poder dar início a um tal propósito e no entanto não estamos em condições para tanto, tudo está sempre contra nós e contra um tal propósito, assim continuamos a adiá-lo e nunca arranjamos tempo, assim tantos trabalhos intelectuais que deviam ser escritos não são escritos, tantos rascunhos que temos o tempo inteiro, anos a fio, décadas a fio, em nossa cabeça continuam em nossa cabeça. Alegamos todas as razões possíveis para não ter que começar um tal trabalho, desencavamos todos os pretextos possíveis, invocamos todos os espíritos possíveis, que só podem ser todos espíritos malignos, para não ter de começar quando devíamos começar. Essa é a tragédia daquele que quer escrever, que continue sempre a invocar quem impede a sua escrita, dissera a Gambetti, uma tragédia que ao mesmo tempo é uma perfeita e pérfida comédia. (p.147-148)

O enredo em si é simples: após voltar de uma visita à família, na Áustria, o protagonista recebe um telegrama das irmãs avisando que seus pais e seu irmão mais velho morreram num acidente de carro. A partir daí, num diálogo imaginário com seu aluno Gambetti, ele reavalia seu passado, as péssimas relações com sua família e a forma como influenciaram quem ele é. A primeira parte do livro é inteiramente dedicada à primeira noite e o impacto imediato da notícia. Fico meio sem palavras para descrever esse livro, de tão bem escrito. Não sou a maior fã de fluxo de pensamentos, mas o de Bernhard é feito com tal maestria que simplesmente não nos entediamos, não encontramos emenda e não desejamos que pare. É contraditório e assumidamente exagerado. É possível ouvir a voz do protagonista, mergulhar no seu mundo interior e achar que realmente aquilo é uma longa reflexão. Ele pensa muito e “fala” muito, retorna aos mesmos assuntos, mas de formas diferentes e enriquecido de outras informações. Ao rever sua vida, novos personagens vão entrando, as várias ações vão se explicando e formando um quadro cada vez mais completo de cada um.  A família é retratada com crueza e depois o próprio protagonista entende que não é bem assim, e que ao mesmo tempo o é, sempre e em todas as famílias; ao assumir o amor e o ódio, as mutilações e a incompreensão causadas pelo convívio, sem se corrigir ou esconder, ele usa o exagero como método para chegar à verdade. Quando chegamos na segunda parte do livro e a Wolfseeg, conhecemos intimamente aquela propriedade, a relação entre as pessoas e o significado de cada coisa; então,cada passo dele é um passo nosso e queremos saber até onde é possível ir para se extinguir uma Wolfseeg.

Dizer a verdade, por Thomas Bernhard

“Em casa, eu mencionava o que havia visto, mas, como sempre acontece quando se conta a alguém algo pavoroso, inumano, simplesmente aterrador, ninguém acreditava, não queriam ouvir e, como sempre haviam feito, chamavam a terrível verdade de mentira. Mas não se deve deixar de dizer a verdade às pessoas; quaisquer que sejam as circunstâncias, não se deve calar ou, menos ainda, falsificar aquilo que de terrível e pavoroso se viu e ouviu. Minha tarefa só pode ser a de comunicar as minhas percepções, tenham elas o efeito que tiverem, relatar sempre as percepções que me pareçam dignas de comunicar aos outros, aquilo que estou vendo ou aquilo que ainda hoje trago na memória, quando, como agora, volto os olhos para trinta anos atrás; se muita coisa já não me é clara, outras revelam-se com demasiada nitidez, como se tivessem acontecido ontem. A fim de se salvar, os interlocutores não acreditam e com frequência descreem do que há de mais óbvio. A pessoas se recusam a ser perturbadas pelo encrenqueiro que lhes tira o sossego. Sempre fui esse tipo de encrenqueiro, a vida toda, continuo sendo e sempre vou ser o encrenqueiro que meus parentes sempre julgaram que eu era; até onde minha memória alcança, já minha mãe me chamava de encrenqueiro, assim como meu tutor, meus irmãos, sou sempre o encrenqueiro, a cada momento, a cada linha que escrevo. Minha existência sempre perturbou, o tempo todo. Sempre perturbei e irritei as pessoas. Tudo o que escrevo, tudo que faço é perturbação e irritação. Minha vida inteira, toda minha existência nada mais é do que perturbação e irritação ininterruptas. Porque chamo atenção para fatos perturbadores e irritantes. Existem aqueles que deixam os outros em paz e aqueles que perturbam e irritam, categoria à qual pertenço. Não sou o tipo de pessoa que deixa os outros em paz, nem quero ser uma pessoa assim.”

Origem, p 240-241

A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa

Eu já tive orgulho besta da nossa brasilidade linguista nos deixar distante do resto da América Latina, a que fala espanhol. Hoje lamento o quanto saímos perdendo. Até as traduções em português lusitano nos são difíceis, então temos que torcer para as nossas editoras fazerem traduções especialmente para nós. Enquanto isso, os mexicanos leem com a maior naturalidade livros publicados na Argentina e por aí vai. Nossa ignorância se estende aos autores latino americanos e sabemos que existiu Borges e olhe lá. Só essa ignorância explica que tão poucos saibam que Mario Vargas Llosa, premiado autor peruano que ganhou o Nobel de literatura de 2010, escreveu um livro excelente sobre a guerra de Canudos no início dos anos 80. Inspirado por Euclides da Cunha, Llosa fez uma extensa pesquisa histórica com documentos e visitou os locais onde aconteceu a guerra. O resultado é um romance vivo, informativo e que consegue nos atingir de uma forma que Euclides da Cunha já não consegue mais. Este trecho – belíssimo – mostra o quanto homem e natureza, que estavam separados n´Os Sertões, se unem no romance de Llosa e mostram um pouco do significado da figura de Antônio Conselheiro às milhares de pessoas que o seguiram:

Dava conselhos ao entardecer, quando os homens voltavam da roça, as mulheres tinham terminado seus afazeres domésticos e as crianças já estavam dormindo. Falava nos descampados lisos e pedregosos que há em todos os povoados do sertão, no cruzamento das ruas principais, e que poderiam ser chamadas de praças se tivessem bancos, coretos, jardins ou se ainda conservassem os que tiveram um dia e foram destruídos pela seca, pelas pragas, pela negligência. Falava na hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de ficar escuro e estrelado, cintila em flocosas nuvens brancas, cinzentas ou azuladas e se vê lá no alto, sobre a imensidão do mundo, um vasto fogo de artifício. Falava na hora em que se acendem as fogueiras para espantar os insetos e fazer a comida, quando o calor sufocante diminui e sopra uma brisa que deixa as pessoas com mais ânimo para suportar a doença, a fome e os padecimentos da vida.

Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar especialmente para nenhuma das pessoas que o cercava, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através da aglomeração de velhos, mulheres, homens e crianças, para algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam, porque eram absolutamente sabidas desde tempos imemoriais e absorvidas junto com o leite materno. Coisas atuais, tangíveis, cotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Juízo Final, que podiam acontecer, talvez, antes que o povoado reconstruísse a capela desmoronada. (p. 16-17)

O livro é um calhamaço de 600 páginas e de vez em quando o leitor se vê com a mesma impaciência dos exércitos: Canudos não vai cair nunca? Canudos se tornou um problema justamente por ter demorado a cair. Para nos fazer entender o significado de Canudos para a época e para as pessoas que influenciou, o Guerra do fim do mundo parte de diferentes pontos de vista, tanto de personagens centrais como de outros que surgem apenas em poucos capítulos e nos dão informações pontuais. Do “lado de fora” temos, dentre outros, o Jornalista Míope (cujo nome nunca é revelado e nos faz pensar numa homenagem a Euclides da Cunha), o comunista Galileo Gall, o monarquista Barão de Canabrava. São personagens que enxergam a guerra no seu sentido político e, entre prejuízos pessoais e equívocos, se sentem desafiados por um fenômenos que ultrapassa qualquer lógica. Ao lado do Conselheiro podemos citar: Beatinho, Leão de Natuba, Pajeú, Mãe dos Homens, Antonio Villanova, João Satã. Seu séquito era formado por bandidos e vítimas, religiosos e recém-convertidos, ignorantes e alguns poucos com cultura, alguns nem ao menos acreditavam em tudo o que ele dizia – mas todos eram dotados de grande sinceridade e fizeram de Canudos um projeto de vida. O único personagem cujo ponto de vista nunca conhecemos é do próprio Conselheiro, que termina o livro como um mistério: era um fanático ou um enviado de Deus? Visto como inimigo da República por pregar a volta da Monarquia, ele demonstra a triste confusão da ignorância ao se colocar contra o casamento civil e o sistema métrico decimal e acreditar que o censo tinha por finalidade re-escravizar os negros. Ao mesmo tempo, é impossível negar seu poder de persuasão, carisma, convicção e capacidade de falar ao coração do seu povo. Mesmo conhecendo a Guerra de Canudos pelos livros de história e por já fazer parte do nosso imaginário, Guerra do fim do mundo consegue resgatar no leitor o sentimento de Euclides da Cunha e de muitos que estiveram envolvidos naquela guerra: a vontade de que fosse diferente, a constatação do absurdo de dizimar um povoado com mais de vinte mil pessoas reunidas pela fé e a vontade de viver melhor.

Ubik, de Philip K. Dick

Saber que Philip K, Dick era um escritor bastante adaptado para o cinema, que dele são Blade Runner e o Vingador do Futuro, ao invés de me animar a ler deram aquela preguiça, a mesma que a gente se vê tendo com Jorge Amado: se eu já vi na TV, já sei o que acontece, então vou dedicar o meu tempo lendo algo diferente. Mas como sou fã de ficção científica, foi se tornando obrigatório para mim ler PKD. Peguei Ubik sem ter a menor ideia do que se tratava, apenas pela capa, que dizia: na lista dos cem melhores romances em língua inglesa da Time. E sabia que não tinha virado filme.

Refletindo, Pat disse:

-Parece uma coisa tão… negativa. Eu não faço nada. Não faço os objetos mexerem, não transformo pedras em pão, nem dou a luz sem fecundação ou reverto processos patológicos em pessoas doentes. Nem leio mente. Nem vejo o futuro, nenhum talento comum do tipo. Só anulo a habilidade de outra pessoa. Parece… – Ela gesticulou. -Bestificante.

-Como fator de sobrevivência da raça humana – explicou Joe – , é tão útil quanto os talentos psi. Especialmente para nós, Padrões. O fatos antipsi é uma restauração natural do equilíbrio ecológico. Um inseto aprende a voar, então outro aprende a construir uma teia para prendê-lo. Isso é o mesmo que não saber voar? Os mariscos desenvolveram conchas duras para se protegerem. Portanto, pássaros aprenderam a voar com o marisco para o alto e largá-lo numa rocha. Nesse sentido, você é uma forma de vida predadora para os Psis, e os Psis são formas de vida que têm como presa os Padrões. Isso faz de você uma amiga da classe dos Padrões. Equilíbrio, o ciclo completo, predador e presa. Parece ser um sistema eterno, e, francamente, não vejo como poderia ser melhorado. (p.33-34)

É um livro perturbador. Primeiro porque, como em toda ficção científica, a gente se vê num mundo diferente e se apega nos poucos indícios que o autor nos dá – fechaduras que exigem 5 centavos para abrir, mortos que mantém a consciência por sistemas de meia vida, viagens a longa distância feitas com facilidade – para entender no que aquele mundo difere do nosso. PKD localiza esse livro na década de 90, mas obviamente ela não é os anos 90 que nós vivemos. Estamos ainda nos acostumando com uma guerra entre talentos de espionagem entre empresas, feitas por pessoas com capacidade de ler pensamentos e influenciar decisões, quando surge uma moça com um talento difícil de entender e que modifica o passado. Depois de um acontecimento chave, toda realidade em torno do protagonista – que também não é claro logo nas primeiras páginas – deixa de fazer sentido. A moça e seu talento misterioso têm algo a ver com isso? O acontecimento chave alterou a relação espaço/tempo? Os fatos envolvem apenas os personagens ou é um acontecimento de escala global? Parece difícil que o autor consiga dar um final satisfatório a tantas questões e ele dá. Na verdade, mais de um, as informações parecem surgir como caixas dentro de caixas. Não tem como não terminar o livro rendido à mente de Dick: o sujeito era um gênio.