Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna

quintaavenidaVocês vão me perdoar ter colocado em destaque o subtítulo do livro, que na realidade se chama Quinta Avenida, 5 da manhã. Posso dizer sem medo que foi a minha melhor aquisição em 2013. É muito raro passar numa livraria e encontrar por cinco reais um livro que não parece valer muito mais do que isso. O preço original é de quarenta, mas quem compraria? A capa e a contra capa possuem elogios rasgados e a declaração de que se trata de um best-seller, mas e quantos não são? Nunca ouvi falar do livro e do seu autor (Sam Wasson), peguei unicamente porque era uma pechincha. E é um daqueles livros raros salvam vidas em fins de semana chuvosos deprimentes. Ele é todo interessante, de ler numa sentada e tentar enfiar goela abaixo de todos os nossos amigos, porque dá uma vontade louca de comentar. Sintam só os primeiros parágrafos da introdução:

Como um daqueles acidentes que não são realmente acidentes, a escolha da “boazinha” Audrey para o papel da “não tão boazinha” garota de programa Holly Golightly mudou o rumo das mulheres no cinema, dando voz ao que até então era uma mudança não expressa no gênero nos anos 50. Sempre houve sexo em Hollywood, mas antes de Bonequinha de Luxo, só as garotas más é que faziam sexo. Com poucas exceções, garotas boazinhas no cinema tinham de se casar antes de ganhar seu primeiro fade out, enquanto as mais provocantes ganhavam fades outs o tempo todo e com todo tipo de homem em praticamente todas as posições (sociais) . Nem é preciso dizer, no fim elas pagavam o preço pela diversão. As meninas más sofriam/ se arrependiam, amavam/ casavam, ou sofriam/ se arrependiam/ casavam/ morriam; mas a ideia geral era basicamente a mesma: senhoritas, não tentem fazer isso em casa. Só que em Bonequinha de Luxo, de repente – porque era Audrey que fazia o papel – , morar sozinha, sair, andar linda e ficar um pouco bêbada não era mais tão ruim. Ser solteira, na verdade, não parecia motivo de vergonha. Parecia divertido.

Embora possam ter deixado passar, ou não ter identificado isso de imediato, a pessoas que conheceram a Holly Golightly de Audrey em 1961 experimentaram , pela primeira vez, a glamourosa fantasia de uma vida de independência desenfreada e excêntrica e liberdade sexual sofisticada; o melhor de tudo, era uma fantasia possível de se realizar. Até Bonequinha de Luxo, as mulheres glamourosas do cinema ocupavam um estrato disponível apenas para as damas loucamente chiques, envoltas em cetim debruado  de arminho, do boulevard, nas quais ninguém, a não ser a verdadeira estrela de cinema, podia se transformar. Mas Holly era diferente. Ela usava coisas simples. Não eram coisas caras. E pareciam fantásticas.

p. 17-18

O livro conta a trajetória do filme. Ao situar Bonequinha de Luxo nos anos 50, descobrimos o quanto o filme revolucionou sua época e a vida dos que se envolveram nele. O autor nos faz entender o papel do cinema durante a guerra, quem são e como são escolhidas as estrelas de cinema, o papel reservado às mulheres no pós-guerra (impossível não lembrar de Mad Men). Vemos as questões que se colocam a roteiristas, diretores e grandes estúdios na hora de se fazer um filme, o que precisa ser cortado e em nome de quê. Encontramos Truman Capote, como escritor e figura legendária da alta sociedade americana, conhecemos um pouco da ascensão de Audrey, seu novo tipo de beleza e sua relação com a moda. Existe até uma simbologia por detrás do famoso vestidinho preto, que tinha conotações sexuais ao estar ligado à viuvez. Há também deliciosas fofocas de bastidores, como descobrir que Audrey preferia surgir nas primeiras cenas de Bonequinha chupando apenas um sorvete ou a dificuldade de criar Moon River, uma música feita especialmente para o alcance vocal limitado dela.

Cinéfilos adorarão. Fãs de Audrey, feministas, historiadores, jornalistas, curiosos em geral também.

As emblemáticas mulheres de Mad Men III

* Contém spoilers. Leia também Betty (parte I) e Joan (parte II)

Peggy

Ela diz para si mesma que quer casar, como qualquer outra moça da sua idade. Só que ela tem feito de tudo para evitar que isso realmente se concretize. Não sabemos até que ponto ela é consciente disso, apenas sabemos que ela deixa as oportunidades passarem – ou se livra delas – cada vez que precisa fazer uma escolha. Foi assim com a gravidez que levou em segredo, foi assim com o namoro sério que estava tendo com Mark. A série começa com a chegada de Peggy à Sterling Cooper, para ocupar o cargo de secretária de Don. É através dela que passamos a conhecer os personagens e aquele mundo pouco a pouco nos é revelado. O senso de oportunidade e a inteligência fazem com que Peggy rapidamente deixe de ser uma simples secretária e se torne braço direito de Don. Não é exagero dizer que ela é a versão feminina dele, que também é dela que a série se trata.

Peggy é um patinho feio. Ela não apenas não chama atenção pelos seus atributos físicos como se veste e se comporta de maneira recatada. Alguns tentam ajudá-la, ao dizer que uma mulher precisa estar bonita e feminina para vencer; outros, mais cruéis, a chamam de nazista, fria, feia, recalcada, old fashion. Quando ouve de alguém que é atraente, Peggy duvida. Suas maneiras mais recatadas combinam com sua origem suburbana e católica, com a qual ela tem uma relação conflituosa. Mas também são uma escolha, uma estratégia para lidar com o machismo a sua volta. Peggy quer ser vista como uma profissional e sabe que papel os homens com quem convive esperam das mulheres. Ao se tornar a primeira mulher redatora, ela rompe com todas as expectativas a seu respeito. Ela deixa de pertencer ao mundo das mulheres e não é vista como homem. Isso a torna detestada pelos dois grupos. A saída para lidar com esse ambiente hostil é ser ainda mais competente, trabalhar mais do que qualquer um à sua volta, ser mais rigorosa do que todos os seus colegas. Os outros podem aproveitar; ela tem consciencia da fragilidade da sua posição. Mesmo com todo esse cuidado, atribuem sua promoção ao fato de ter dormido com Draper. Ele a vê como uma amiga e uma extensão de si mesmo; ela não consegue deixar de se sentir pouco atraente por ele jamais ter tentado alguma coisa a mais.

De todas as mulheres da série, Peggy é que encarna melhor os conflitos que se tornariam comuns às mulheres atuais. Ela valoriza o modelo tradicional da feminilidade, que espera que as mulheres sejam bonitas, uma beleza buscada em função de ter valor para os homens. Só que um dos atributos dessa feminidade é a capacidade de ficar atrás – a grande mulher está sempre atrás do grande homem, nunca ao lado e muito menos à frente. Ao recusar esse papel secundário, Peggy sente que comprometeu também sua feminilidade. Ela não quer escolher entre respeito profissional e afeto. Na falta de um modelo que abarque as duas coisas, Peggy acaba desbravando novos caminhos. Gradualmente, abandona os valores da sua família, mesmo depois de ter tentado com sinceridade voltar a frequentar a igreja. Ela se muda para Manhattan com a justificativa de que fica mais fácil ir ao trabalho, mas a verdade é que ela quer ser diferente, ela quer muito mais. Mesmo ambiciosa, ela é uma das poucas que não está disposta a tudo para subir, que não usa as pessoas. Com os homens, ela faz sexo por amor ou por diversão, jamais por interesse.

Nas quatro temporadas, ela é o personagem que mais se modificou. Ela inicia a série caipira, inadequada, grávida de uma relação ocasional. À medida que avança, ela se torna capaz de absorver e aproveitar as oportunidades que aparecem. Mesmo mantendo o estilo discreto, ela passou a se vestir melhor. Quando sua posição profissional fica mais consolidada, ela se tornou menos rígida e se mostrou à altura de lidar com o machismo dos colegas. Seu jeito sério aliado à vontade de conhecer o novo renderam momentos engraçados, como quando pede para experimentar maconha ou trabalha nua ao lado de um colega que a acusa de repressora. Peggy se torna cada diz mais interessante e inesperada. Ela pode se tornar uma ambiciosa publicitária assim como pode continuar uma das poucas pessoas éticas da série, quase um símbolo. Só o desenrolar da trama responderá.

As emblemáticas mulheres de Mad Men II

* Contém spoilers. Leia também Betty (parte I) e Peggy (parte III)

Joan

Assim como Betty, a primeira coisa que chama atenção em Joan é sua beleza. Mas enquanto Betty tem uma beleza clássica, delicada, Joan transpira sensualidade. Seus seios enormes não permitiriam uma mulher passar desapercebida, e Joan não quer passar desapercebida – ela tem consciência do seu poder e faz questão de usá-lo. Num local onde as mulheres só ocupam funções tradicionais de apoio – secretárias, recepcionistas, datilógrafas, etc – e onde a subserviência profissional se mistura à sexual, era claro que uma mulher tão provocante seria amante de alguém. Em pouco tempo, descobrimos quem é o privilegiado: Roger Sterling, o homem mais poderoso do escritório, um dos donos da agência. Joan escolheu um homem proporcional ao preço que tem.

A partir daí é possível perceber que Joan usa o sexo como moeda de troca, que usa a aparência a seu favor. Ela é uma das personagens mais misteriosas de Mad Men; nada sabemos sobre sua origem ou sua família. Quando a série começa, Joan já é uma mulher segura, ciente das regras, sem ilusões a respeito do mundo machista em que vive. Não sabemos de onde ela tirou tanto know-how, podemos apenas adivinhar que um dia ela também já foi ingênua. Com outras mulheres, sua atitude é agressiva e competitiva, até mesmo maldosa. Ela não apenas não é amiga de ninguém, como é incapaz de acreditar nas boas intenções delas. É sempre com os homens que ela mostra seu lado benevolente; deles, espera que cedam com facilidade a qualquer pedido seu. Ela nunca é incisiva, sempre insinuante. Ela representa que o poder que as mulheres sempre tiveram nos bastidores, entre amantes, nos pedidos sussurrados ao pé do ouvido. É um poder que não consta em memorandos, que não pode ser declarado publicamente e nem fica registrado em biografias. O que não quer dizer que não seja eficiente.

Só que esse recurso feminino às vezes se volta contra a própria Joan, que tem dificuldade em ser levada à sério. Ela é competente e organizada no que faz, e possui grande habilidade interpessoal. Ela atua tão bem nos bastidores que seu trabalho custa a ser reconhecido. Sua aparência serve de desculpa para desmerecerem o que ela faz, como se por trás não houvesse dedicação e trabalho duro. Isso fica bastante claro quando ela ajuda informalmente no fortalecimento do recém-criado Departamento de Televisão. Nesse curto período, leva lê roteiros em casa, tem idéias, ajuda a conquistar os clientes. Quando sua função se torna importante demais para ser informal, criam um cargo e contratam um homem, para que ela possa “voltar a cuidar das suas coisas”. O mais espantoso nesse episódio é que não passa pela cabeça de nenhum dos envolvidos que a própria Joan gostaria de continuar na função. Mais de uma vez ela declara não sonhar em subir, como Peggy fez; ao mesmo tempo, a vemos ressentida por ser continuamente deixada para trás. Talvez mais do que não querer, Joan não acredita.

Se à primeira vista Joan parece uma mulher moderna, com o passar do tempo passamos a perceber que isso é apenas uma fachada. Pensando bem, conseguir as coisas através do sexo é uma estratégia antiga. Ela não apenas não busca outra maneira de fazer as coisas, como parece se irritar quando alguém o faz. Sua relação com Peggy demonstra esse conflito. Todas as vezes que Peggy tenta defendê-la, inclusive demitindo um funcionário que a desautorizava por vê-la apenas como mulher objeto, Joan desmerece, ironiza – “Se eu quisesse que ele fosse demitido, conseguiria isso com um jantar”. Ela não parece aceitar ou acreditar em outras formas de poder feminino, que a relação entre homens e mulheres não seja intermediada por sexo. Quando consegue um bom partido disposto a casar com ela, Joan rapidamente adota uma postura tradicional: tenta esconder seu passado, se propõe a deixar de trabalhar, pára de evitar a gravidez. Todos os seus recursos, no fim, tinham o objetivo de torná-la uma mulher respeitável.

As emblemáticas mulheres de Mad Men I

A série Mad Men, ambientada nos anos 60, gira em torno da figura de Don Draper e o mundo da publicidade. É um meio machista, um ambiente de trabalho onde as mulheres servem os homens sexualmente e/ou como secretárias. Em meio àqueles homens poderosos, é possível perceber as estratégias de poder permitidas às mulheres da época. Elas não podiam aspirar os mesmos cargos que eles, o que não quer dizer que não possuíam sua própria maneira de influenciar nas decisões. Aqui destacarei alguns dos caminhos escolhidos pelas mulheres retratadas na série. Para quem não assistiu Mad Men, quer assistir e não gosta de spoilers, recomendo não prosseguir na leitura.

Betty

Impossível não olhar para Betty sem admiração, sem reparar o quanto ela é linda. Para quem assiste a série de olho no visual, nos penteados e nas roupas, Betty representa o que há de mais bonito no período. Ela usa os melhores vestidos, tem o cabelo impecável, e até mesmo sua maneira de fumar é charmosa. Ela não é apenas um ideal de beleza, como representa um ideal de mulher. Bem nascida, foi mimada pelos seus pais para ser uma boneca. Como esposa de Don Draper, contribuía para formar dele a imagem de homem de sorte e bem sucedido, por ter ao seu lado uma mulher que se mantém linda apesar de já ter filhos, que mesmo diante das crises sempre sabe se portar com discrição. É esse encanto que a torna desejada por todos que a conhecem, que permitem que ela obtenha o que quer sem ter que fazer esforço. Ela é “mulher pra casar”

Só que por detrás de toda essa imagem de perfeição, logo no início da série ela nos é apresentada como uma mulher angustiada por algo que ela mesma desconhece. Para quem esta de fora, é fácil identificar o motivo: Betty leva uma existência vazia. A inveja incontida que ela tem na desquitada da vizinhança, sua solidão, seu desejo de ser admirada, mostram a decepção que ela sente com o papel que lhe é reservado. A solução para isso é mandá-la a um psiquiatra, porque sua insatisfação parece sem sentido. O que mais uma mulher poderia desejar, além de um casamento próspero e filhos? Ela tampouco está disposta a questionar a vida que leva. A tentativa de lidar com suas angústias a levam a tentar novamente a carreira de modelo (para desistir rapidamente) e flertar com a idéia de trair Don. Ela provoca sutilmente os homens, mas não ultrapassa os limites, porque o papel de mulher perfeita também lhe é muito caro.

O casamento de Betty com Don nunca foi satisfatório, embora ambos tenham demorado pra se conscientizar disso. Ele sempre a traiu, com mulheres fortes e independentes, totalmente diferentes de Betty. Ela, por outro lado, parecia projetar todas as suas necessidades nele, e agia como uma criança que só faz o que quer. O sucesso financeiro de Don permitiu a Betty ter toda aparência que sempre quis; mas descobrir sua traição e sua verdadeira origem (muito pior do que ela poderia imaginar), destruíram esse pacto de maneira irremediável. Somente a partir daí ela consegue se sentir livre para buscar outro homem (e não outra alternativa). Graças a Henry Francis, ela consegue pular de um casamento a outro sem passar pelas dificuldades financeiras e falta de prestígio do desquite. Só que Henry, ao contrário de Don, é um homem mais velho e mais bem resolvido. Ele não demora a perceber que casou com uma mulher mimada e incoerente. Somente ao se casar de novo ela parece perceber que o problema não era Don e sim que o que ela busca não existe.

A pessoa difícil por detrás da aparência de perfeição fica muito clara na relação que Betty tem com os filhos, especialmente com a filha. Ela sempre foi intolerante e agressiva diante de qualquer desobediência, como se não suportasse que algo fosse diferente do esperado. Ela tenta recriar com Sally, sua filha mais velha, o mesmo ideal de comportamento e beleza que recebeu de seus pais. Só que o temperamento forte da filha prejudicam cada vez mais os seus projetos, o que torna a relação entre as duas uma guerra silenciosa, onde Sally sempre sai perdendo. É de cortar o coração ver a angústia de menina, visível a todos que a cercam, mas que não pode ser impedida porque tem como fonte sua própria mãe. É na filha que Betty demonstra toda insatisfação, toda agressividade que ela reprime. Ser uma mulher perfeita tem seus custos.
Leia também: Joan (parte II) e Peggy (parte III)