Vida querida, de Alice Munro

Uma literatura de mulheres, feita por mulheres, para mulheres. Quando li essas reivindicações pela primeira vez, fiquei na dúvida. Claro, temos um número desproporcional de escritores homens e seus personagens de ficção masculinos. Às mulheres, na literatura e fora dela, sempre foram destinados os papéis mais secundários. A minha dúvida é se seria possível sentir a diferença entre bons personagens femininos construídos por homens de bons personagens femininos escritos por mulheres. Logo nos primeiros contos do Vida Querida, de Alice Munro, a resposta é um sonoro SIM.

Ler Munro é o prazer de ler uma literatura feminina, mesmo sem saber que diferença de sabor é essa. Talvez possamos pensar na diferença entre as duas literaturas analisando os personagens masculinos da própria Munro. Dos quatorze contos, em apenas dois os personagens principais são homens. Um deles, Trem, começa com um ex-soldado que pula de um trem para fugir não sabemos do quê, e o desenvolvimento da história é desinteressante. Ao contrário dos outros contos, achei que nesse a autora não conseguiu nos envolver e acreditar nas  motivações do personagem. O outro conto, Orgulho, parte do ponto de vista de um homem que nasceu com lábio leporino. Pelos seus questionamentos e, principalmente, pelas coisas que omite, percebemos que por conta dessa característica ele foi relegado, desde sempre, a um papel menor e assexuado. A maneira correta e pouco ambiciosa que ele leva a vida, sua amizade intensa e pura com uma mulher, seu envelhecimento muito anterior ao físico – tudo nele remete ao feminino. Em quantas mulheres não reconhecemos essas características, mulheres que foram criadas para pouco, limites em que a mulher é reduzida a um horizonte muito estreito? Me pareceu muito significativo que o único protagonista homem realmente interessante do livro seja uma outra forma de mulher, ou a forma machista como se vê uma mulher: um homem limitado, com defeito.

Meu pai, que era muito mais estimado que a minha  mãe, era um homem que acreditava em aceitar as cartas que lhe caíssem nas mãos. Minha mãe, não. Ela tinha ascendido da sua vida de menina de fazenda para se tornar professora, mas isso não era o bastante, não havia lhe dado a posição de que ela gostaria de ter na cidade. Ela estava morando no lugar errado e não tinha dinheiro, mas de qualquer maneira não estava preparada. Ela sabia jogar euchre, mas não bridge. Ficava ofendida pela visão de uma mulher fumando. Tenho a impressão de que as pessoas a achavam intrometida e excessivamente gramatical. Ela dizia coisas como “independente disso” e “deveras”. Ela soava como se tivesse nascido numa família esquisita que sempre falava dessa maneira. E não tinha. Eles não falavam assim. Lá na fazenda, as minhas tias e tios falavam como todo mundo. E eles não gostavam muito de minha mãe também. (Vozes, p.286)

Alguns contos tem momentos tão belos que chegam a doer, incompreensões e estratégias de sobrevivência tão femininas. Parece que o olhar mais familiar da autora é o infantil, que permite assistir a realidade e ao mesmo tempo entender tão pouco sobre ela. O olhar de menina nos permite conhecer mães que querem mais do que a sua classe social permite, que abandonam maridos por amores ou que se deixam dominar por eles, que se conformam com amizades e das ilusões que se engole para ter um homem; quem mais, além de uma mulher, poderia falar de mães que insistem em fazer cachinhos fora de moda, de amigas mais velhas que admiramos e só querem  ir pro baile pra dançar, da dor sem reação de ser abandonada por um homem que até ontem dizia que nos amava? A maior parte das histórias é de longa duração e mostra o efeito do tempo sobre cidades, relacionamentos e opiniões. Como todo livro de contos, uns são melhores do que os outros e notamos a persistência de certas abordagens. Mas Alice Munro vale muito a pena e faz jus à fama.

Reflexões sobre padecer no paraíso

Mulher, sexualidade e maternidade sempre parecem estar ligadas. Não podemos dizer o mesmo sobre homem, sexualidade e paternidade. O homem é muito a sua sexualidade, o tamanho do seu pênis, a frequencia com que faz sexo, com que quantidade de mulheres e todas outras demonstrações de virilidade. A idéia de paternidade é mais distante. Nunca vi oferecerem, à adolescente que engravida, a possibilidade do pai ficar com a criança enquanto ela cuida da sua vida. O filho está ligado a mãe por laços indubitáveis, enquanto sobre a paternidade pode pairar eterna dúvida (até que seja feito um exame de DNA). Alguns homens podem se irritar e procurar demonstrar o valor e a importância do amor paterno – mas a verdade é que muitos, e durante gerações, têm se sentido muito bem com a possibilidade de não estar presente que o papel oferece.

A sexualidade feminina, sempre se viu contaminada (e porque não dizer, aprisionada) pela idéia de maternidade. Apesar da maternidade ser fruto do sexo, é como se para as mulheres houvesse um antagonismo. De um lado a maternidade, com uma idéia de pureza, sacrifício, amor e dedicação. Um estado que transforma a mulher em algo superior, que a torna mais importante do que uma mulher comum. De outro o sexo, que na mulher é sujo quando excessivo, escancarado, com muitos parceiros. A mulher que dorme com muitos é uma puta, e ser filho de uma é a pior ofensa que se pode sofrer. Num ideal, a maternidade seria um fim em si, sem que pra isso a mulher desfrutasse do sexo. Penso nisso quando vejo o quanto o comportamento comedido é desejável e educado nas mulheres, e que a palavra pudor quase sempre se refere a isso; no extremo, isso se materializaria no costume de alguns povos de extirparem o clitoris. Em uma ponta, existe a mulher que sente prazer e dorme com muitos, e na outra o ideal de mulher como mãe que gera sem sexo, a Virgem Maria.

O imaginário sobre a maternidade é dominado por duas palavras bastante fortes: obrigação e amor. Em primeiro lugar, pela própria obrigação de amar. Assume-se que desde o instante que a mulher sabe que será mãe, ela sinta amor, que se não for instantaneo ao menos deve ser crescente. Esse amor serve para tornar suave todas as outros obrigações, que são muitas, mas que podem ser resumidas em uma frase: cuidar do bem estar da prole de maneira absoluta, em todos os níveis e durante toda a sua vida. Pouca coisa, não?

Por ser uma obrigação muito grande e muito forte, sempre surgem casos de mulheres que não conseguer estar à altura disso. Um exemplo que sempre me chama atenção é a comoção quando encontram bebês abandonados. Sustentar uma gravidez, ter um bebê nos braços e ser capaz de deixá-lo num lugar qualquer nos parece de uma maldade sem limites. Eu me pergunto se essa mulher não teria feito um aborto se pudesse. Na medida em que a irresponsabilidade de uma relação sexual desprotegida recai toda sobre à mulher, em que dizemos que interromper uma gravidez é a mesma coisa que um assassinato, em que ela é obrigada a amar, cuidar e se sacrificar pelo resto da vida depois de ter tido aquela relação sexual lá atrás, as mulheres são colocadas numa situação muito difícil. Acredito que as mulheres que fazem isso estejam tentando apagar o passado, ter a mesma vida que teriam se não tivessem sido mães. Coisa simples, se elas não fossem mulheres. O gesto de abandonar um bebê não necessariamente é monstruoso, pode ser apenas desesperado.

Por fim, eu quero encerrar com uma cena da primeira temporada série Desperate Housewifes. Nela, a perfeccionista Bree Van de Kamp está no terapeuta e começa a falar de Freud. Ela diz que Freud era um filho ingrato e deve ter causado muito desgosto à mãe dele. Como era possível ele ter falado aquelas coisas horríveis de quem cuidou das roupas dele, fez comida, limpou a casa e o alimentou durante boa parte da vida. Ainda mais naquela época, com pouca tecnologia, em que tudo era tão difícil e precisava ser feito à mão. Até o terapeuta se sensibilizou. Se às mães cabe a culpa de tantos traumas, é porque elas se fazem presente demais. Quem faz muito erra muito. Se um imaginário tão exigente persiste, é porque as mulheres têm feito de tudo para alcançarem a perfeição.