A amarga vitória da medicina

Hoje, nada mais natural que quem precise de atendimento médico de urgência vá a um posto de saúde. É uma necessidade e um direito. Embora existam religiões que atribuam curas milagrosas à fé e o uso do que se chama de “medicina alternativa” – rótulo meio irônico, porque em geral indica o que não é reconhecido como medicina – é nos médicos que se deposita a maior confiança de diagnóstico e de cura. Na minha pesquisa de mestrado, sobre pessoas que se tornaram cegas na idade adulta, pude constatar a força de discurso médico. Não era o fato de acordaram sem enxergar que convencia as pessoas de que elas estavam cegas e sim a palavra do médico, o diagnóstico. E somente quando um médico dizia que eles não poderiam voltar a enxergar que eles podiam se conformar com sua condição e recomeçar a vida. Essa entrega radical é fruto de um processo histórico e indica a vitória do que entendemos como Medicina.

Foucault traça esse panorama no O nascimento da clínica. O argumento do livro é que o conhecimento sobre o corpo e suas doenças sempre existiu e que, através de estratégias de poder, foi centrado no que hoje chamamos de conhecimento médico. Essa reorganização gradual mudou nossa forma de olhar o organismo, substituiu a questão de “onde lhe dói?” pela  “o que você tem?”. Deixamos de lado a figura de curandeiros, parteiras e xamãs porque sua atividade se constituía, antes de tudo, pela prática. Hoje entendemos que o conhecimento empírico e o contato com o doente junto ao seu leito não são mais fontes do conhecimento médico – a medicina é formada por faculdades e hospitais, há apenas uma via de transmissão do seu saber. A maneira de entender a doença, o conhecimento do corpo humano, a capacidade de hierarquizar e classificar as variações dos sintomas, a criação de uma linguagem médica e a espacialização da medicina, contribuíram para tornar esse saber tão hermético que o leigo não ousa duvidar da medicina.

É um processo que ainda hoje é muito forte. Foi um luta para que acupuntura, que existe há milênios na China, finalmente tivesse sua eficácia reconhecida. E quando isso aconteceu, passou para o domínio da classe médica. Outro exemplo é polêmico projeto do Ato Médico, que retira a autoridade de vários profissionais da área de saúde – psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, biomédicos, fonoaudiólogos, farmacêuticos – em favor da palavra final de um médico. Vemos a medicina ampliar cada vez mais seu domínio sobre toda e qualquer forma de tratamento de saúde.

Os médicos se tornaram tão essenciais que a medicina hoje nos frustra. O alcance dela nos frustra, a lentidão de certas curas e até pelo fato de ainda existir tantas doenças incuráveis nos frustra. À medida que são comuns longas esperas, falta de leitos ou tratamentos caros demais, vemos que existe um sério problema em lidar com a demanda. Na interação com os pacientes, existem problemas de credibilidade – médicos que não ouvem seus pacientes, casos de erros e abusos, acusações de atender a interesses de grupos em detrimento da saúde da população. Os médicos, por outro lado, se dizem numa posição desconfortável com a alta expectativa depositada neles, entre a necessidade de atender bem versus atender mais. O poder acumulado pela medicina se tornou grande demais e exige cada vez mais investimento. Há uma frase atribuída a Gandhi que diz que “a multiplicidade de hospitais não é sinal de civilização, é sintoma de decadência”.

Um grande poder só é possível quando outros se vêem destituídos de poder. No caso da medicina, esse poder foi retirado de nós, os não-médicos. A busca por formas alternativas de cura tem sido taxada de ignorância e falta de cientificidade; para mim, ela é produto do próprio crescimento da medicina e sua impossibilidade de controlar tudo. Vejo nisso, também, a tentativa de tomar de volta o poder de cura que um dia tivemos.

Medicina e ciência

Fico irritada quando dizem que quem procura medicinas alternativas é burro, desprovido de espírito científico. Primeiro que uma coisa não é sinônimo da outra. Depois, vejo que é muito mais fácil atribuir burrice ao número cada vez maior de pessoas descrentes com a medicina tradicional ao invés de se perguntar o porquê disso. Por que tanta descrença com a medicina e com a ciência? Porque elas não cumpriram suas promessas. A medicina tradicional avançado muito no que diz respeito a exames e diagnósticos. Os tratamentos, porém, continuam seguindo os métodos antigos de arrancar, queimar, deixar partes faltando ou substituir por outro pedaço do corpo. Médicos receitam drogas potentes pra “ver no que é que dá” porque o efeito delas não é totalmente conhecido ou controlável. Muitas dessas drogas e radiações são as mesmas de cinquenta anos atrás. Sejamos sinceros, o avanço da medicina que gostaríamos de ver é este:
Medicina e ciência não são sinônimos; biologia é ciência, medicina é uma prática. A medicina se beneficia dos conhecimentos científicos relativos ao funcionamento do corpo, estatísticas, comportamento humano e manipulação de drogas, dentre outros. A ciência possui paradigmas próprios relativos à neutralidade, crítica, criação de conceitos; já a medicina trabalha com idéias relativas à normalidade, patologia, cura. Uma se baseia em idéias e outra em seres humanos. Ambas possuem sua própria história, que em alguns pontos se encontram, mas que jamais podem ser confundidas uma com outra. Por fim, seus objetivos e o público alvo de ambas é diferente – uma busca a comunidade científica e um avanço cada vez maior do conhecimento, enquanto a outra se propõe a restabelecer a saúde da sua clientela.
Dizer que algo não foi comprovado cientificamente, muitas vezes, quer dizer apenas que ninguém se deu ao trabalho de pesquisar. Não quer dizer que é uma tolice, que não dá certo, que não tem o menor fundamento ou que crer naquilo é sinal de burrice. Pesquisas surgem de centros de pesquisa, que por sua vez são dominados por necessidades e políticas próprias. O que gera mais pesquisa é o que está mais em voga, o que não é sinônimo de ser o mais necessário. A malária mata muito mais pessoas por ano do que a AIDS, mas esta última recebe muito mais atenção (e verba) da comunidade científica. Mesmo que exista vontade, pesquisas avançam devagar porque exigem condições materiais específicas. Às vezes o que impede o avanço científico numa determinada área é algo básico como a dificuldade de coleta de material. Os anticoncepcionais femininos foram desenvolvidos mais cedo porque as amostras de urina já estavam disponíveis em exames de grávidas, enquanto a masculina precisava ser coletada…
Existe um amplo conhecimento que não foi absorvido pela medicina. São práticas milenares, coisas transmitidas entre gerações, conhecimentos populares. Essas coisas foram testadas na prática e se mostraram eficazes. Elas apenas não foram testadas por cientistas dentro de laboratórios, seus resultados não constam em revistas científicas. Quem prega a fidelidade absoluta à “medicina científica” ignora a dificuldade de alguns em ter acesso a médicos, seja pelo custo ou pela própria falta de profissionais. Quanto mais sofisticados os exames, mais caros. Ou ignora a dúvida legítima gerada por tratamentos ineficazes, ou eficazes de uma maneira muito agressiva – lembro da piada que diz “a operação foi um sucesso, só que o paciente morreu”. Eu vejo na busca pela medicina alternativa uma atitude crítica, de não olhar para a questão do conhecimento de maneira dogmática e não aceitar passivamente o que lhe é oferecido. Burro é quem faz o contrário.

Seu corpo sabe

É um arquivo que parecerá grande quando você abrir, mas é bem fácil devorar as sete páginas em que o Dr. Vernon Coleman discute vários aspectos da medicina. Destaco alguns pontos:

O fato é que nosso corpo é perfeitamente capaz de cuidar-se sozinho. No entanto, poucas pessoas aproveitam esses mecanismos de auto-cura e a capacidade de auto-proteção. Em vez disso, preferimos colocar nossa saúde e nossa vida nas mãos de “especialistas”, muitas vezes treinados para considerar o corpo e as doenças que o afligem com evidente estreiteza de visão.(….)

Como conseqüência importante desse relacionamento entre médicos e indústria farmacêutica, formas de terapia que não podem ser embaladas, vendidas e transformadas em um produto lucrativo são ignoradas tanto pelas revistas médicas quanto pelos próprios médicos, que obtêm suas informações através dessas revistas.

Por exemplo, embora cada vez mais estudos independentes comprovem que pessoas com hipertensão podem reduzir permanentemente sua pressão arterial aprendendo a relaxar, a maioria dos médicos ainda acredita que medicamentos são a única saída.(….)

Anos atrás, se você fosse ao médico dizendo que se sentia péssimo, na maior fossa, ele provavelmente teria receitado um tônico inócuo, conversado com você durante uns 20 minutos e aconselhado a sair e se divertir um pouco. Hoje, se você vai ao médico queixando-se do mesmo desânimo, ele provavelmente vai diagnosticá-lo como depressivo. Provavelmente, ele vai receitar um dos poderosos medicamentos atualmente disponíveis na praça.

Até recentemente, a depressão era uma doença relativamente rara, mas as coisas mudaram. Hoje, a depressão é uma das moléstias que mais aumenta no mundo. Milhões de pessoas sofrem de depressão. E o boom ocorrido no diagnóstico de depressão coincidiu com o desenvolvimento de anti-depressivos químicos especiais, novos e caros. Temo que muitas vezes a pessoa é diagnosticada como “depressiva” quando simplesmente está angustiada, infeliz ou cansada da vida que leva.(….)

Como a maioria dos médicos receita demais medicamentos diferentes, eles não têm idéia dos efeitos colaterais produzidos por aqueles que estão receitando. Portanto, lembre-se da Primeira Lei da Medicina Moderna de Coleman: “Se você desenvolver novos sintomas enquanto estiver sob tratamento para qualquer problema, provavelmente esses novos sintomas são causados pelo tratamento.” Um entre cada seis pacientes está no hospital porque os médicos o tornaram doente. O motivo é simples. São poucos os médicos e os doentes que conhecem a Primeira Lei da Medicina Moderna de Coleman. Você não deve esquecer nunca.

Leia o artigo completo aqui. Indicação do Alessandro Martins.