Imortalidade, por Jorge Luis Borges

A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do casual. Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é um eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre incansáveis espelhos. Nada pode acontecer uma única vez, nada é preciosamente precário.

O imortal, p. 21/ O Aleph

Eu procurei essa história por toda parte, tal como o protagonista procurou o rio, desde que um professor a contou na faculdade. E saber de antemão o que aconteceria de nada diminuiu o impacto da descoberta. Sou precipitada em dizer que se for para ler uma única coisa que Borges escreveu, essa é uma excelente recomendação?

Moby Dick e a violência como prazer

Tenho certeza de que um autor que procurasse uma editora com Moby Dick, hoje, não conseguiria ser publicado. Pelo menos, não do jeito que o livro é. O editor desejaria cortá-lo pela metade ou até mais, como nas muitas versões resumidas que se encontram por aí. Resumir Moby Dick não seria difícil: mantém-se as primeiras duzentas páginas, até o nome da baleia ser citado. Conta um certo número de páginas do final e tudo que há no meio pode ser deixado de lado. Com isso o leitor conheceria a história da caça à baleia Moby Dick, mas também perderia a essência do livro. São nas suas longas descrições, muito mais em Moby Dick sem si, que está o coração da história, o que ela quer transmitir ao leitor. Moby Dick é um daqueles livros que nos mostra muito mais do que o autor previra, ele é retrato de uma época.

Herman Melville foi ele mesmo um marujo, um caçador de baleias. O livro é uma declaração de amor à profissão, ressaltada em todos os seus aspectos, tudo o que ela envolve tanto em termos materiais quanto humanos. O leitor acompanha a escolha de um navio, sua preparação antes de embarcar, a hierarquia entre os comandantes, as diversas funções, os talentos necessários à tripulação, a rotina de uma vida à bordo, a etiqueta entre navios, as diferenças entre embarcações de funções e países distintos, etc. Cada aspecto é esmiuçado em capítulos pequenos, porém abundantes, o que faz com que grande parte das mais de 500 páginas do livro seja de descrições. A Moby Dick em si é citada ali e acolá. O leitor pode ficar fascinado ou achar tudo um tédio. Ok, mesmo quem ficar fascinado terá momentos de tédio.

É na relação com as baleias que está, na minha opinião, a parte mais interessante do livro. Tem descrições históricas, tipos, comportamento, diferenças, utilidades, anatomia, tudo o que se pode querer saber sobre baleias e mais um pouco, principalmente sobre a  cachalote – espécie que até então era considerada a maior do mundo e da qual se extraía o precioso óleo esparmecete. A caça às baleias (o “Leviatã”), pela falta de tecnologia, ainda era feita no braço. Os marujos a cercavam em pequenos botes a remo e atiravam contra ela seus arpões. Era tudo muito próximo, muito pessoal. Nessa luta entre homens e um animal tão maior e mais forte do que eles havia sentimentos de admiração e desafio. Às vezes é difícil entender como passagens de morte e sofrimento são alternadas com o desejo de entender as baleias e o reconhecimento diante de sua nobreza:

Quando penso mais nessa forte cauda, mais sinto minha deficiência para descrevê-la. Algumas vezes se pode notar nela gestos que, embora ornassem a mão de um homem, permanecem-nos totalmente inexplicáveis. Em um grande bando são tão notáveis, às vezes, esses misteriosos gestos, que alguns baleeiros dizem serem semelhantes aos sinais ou símbolos dos franco-maçons, e dizem que também na verdade o cachalote, por meio de tais gestos, conversa inteligentemente com o outro mundo. Há também alguns movimentos que a baleia faz com o corpo, que são estranhos e difíceis de explicar para seu mais experimentado atacante. Eu mal conheço o Leviatã, nem jamais o conhecerei. Mas, uma vez que não conheço nem a cauda do cachalote, como então lhe desvendar os segredos da fronte? Muito mais, como compreender-lhe a face, quando ele não a possui? Parece que ele diz: “Verás minhas partes posteriores, a cauda, mas a minha face, não a verás.” p.405

É uma ambiguidade difícil de entender. Primeiro pela violência contra os animais. Hoje nos compadecemos do sofrimento animal e ninguém mais concorda que o homem tenha direito de matar e exterminar a natureza da maneira que quiser. O livro tem um pensamento muito anterior à noção de ecologia e nos faz perceber como chegamos aqui. Há um capítulo que diz que por mais que se matem dezenas de milhares de baleias por ano e já esteja mais difícil encontrá-las, as baleias sempre darão um jeito de existir, então é possível caçar sem limites. Nos momentos que a baleia consegue surpreender seus agressores ou vinga a morte de outras do seu bando, são sempre descritos como parte da sua maldade. Depois de morta, a baleia precisa ser cortada, e seu matador tem direito a se deliciar num banquete. Da cabeça da cachalote é retirado o espermacete, que é descrito como leitoso, cheiroso, uma substância divina. Seus restos são cozidos, retalhados, repartidos com tubarões. Nem ao menos há pudores ou respeito por filhotes ou baleias grávidas.

Outro aspecto importante é a descrição a adrenalina da caça: a morte como uma forma de vitória, o prazer em ser agente de sofrimento. Esse sentimento, que parece ser tão antigo quanto homem, está presente em relatos de guerras, em duelos, em vinganças pessoais, na relação de respeito e temor a tiranos cruéis e até mesmo em histórias infantis. Hoje não mais os toleramos, não dentro da normalidade. A violência como forma de prazer é, para nossa civilização, característica do comportamento doentio dos psicopatas – personagem que tememos, reprovamos e estudamos profundamente. O sangue e a violência nunca deixaram de existir, mas que sejam praticadas longe dos olhos e da forma mais institucionalizada possível. De matadouros à violência policial, nada disso deve chegar ao cidadão comum e ferir sua sensibilidade.

É provável que a violência faça parte da própria constituição do homem, que seja um sentimento atávico que jamais possa ser eliminado. A violência que reprimimos na caça reaparece de outras formas. Como espectador, por exemplo, o homem satisfaz seu desejo de violência ao assistir lutas e ver filmes. Nas lutas, a força e a ferocidade dos oponentes satisfazem a platéia, que ao mesmo tempo não precisa temer pela saúde dos envolvidos – existem regras, é de verdade mas não tanto assim.  Filmes e séries que retratam violência são praticamente onipresentes. Neles, dá-se preferência a uma violência repetitiva, cerebral, cada dia mais sofisticada, ou seja: violência praticada pela figura do psicopata. Existe também o tema da transformação do cidadão pacífico em um homem violento. É como se disséssemos: pode acontecer com qualquer um, na essência somos todos violentos. Moby Dick traz de volta esses sentimentos, e mostra uma violência ainda não tão pacificada pelo comportamento civilizado.

A velhice e o nada

Insistir em deixar de lado a busca irracional pela juventude e beleza cai no vazio, porque o oposto de juventude e beleza acaba sendo feiúra e velhice. São poucos aqueles a quem damos o privilégio de serem considerados desejáveis mesmo depois dos cinquenta. Geralmente são intelectuais ou artistas; quero ver uma pessoa comum ser considerada linda com todos os atributos da velhice: cabelos ralos e brancos, rugas, pele flácida, excesso de peso. Ao contrário, elogiamos constantemente os que conseguem envelhecer sem parecer que envelheceram, o que nada mais é do que um desejo constante de juventude. Para Elias, no A solidão dos moribundos, nosso horror à velhice estaria intimamente ligado ao horror à morte. Os velhos, na sua decadência física, nos lembrariam da nossa própria decadência. Afastá-los do olhar seria afastar também essa lembrança desagradável. Não vemos mais ganhos e não nos preparamos mais à idéia de morrer; é como se a morte tivesse se tornado um acidente. Cito Hebe Camargo, que mesmo aos 83 anos e lutando contra o câncer, parece ter surpreendido as pessoas ao morrer.

Penso em outra questão, que nada tem a ver com angústias existenciais e é muito característica da nossa época, fruto do que Bauman chama de liquidez. As rápidas mudanças do capitalismo e a nossa sociedade de consumo levaram a uma cultura do descartável, que vai muito além dos objetos. Descartamos amores, amizades, projetos, tristezas. Se não pela certeza de que encontraremos outros muito facilmente, às vezes apenas com um clique, o fazemos pela exigência do mercado. Se não estivermos felizes e produtivos na segunda-feira seguinte, possivelmente alguém capaz disso tomará o nosso lugar em pouco tempo. Se não somos capazes de nos apresentar assim apenas pela força da nossa personalidade, apelamos para os remédios. A lentidão natural dos mais velhos – tanto fruto da diminuição de energia quanto pela dificuldade de absorver as mudanças tecnológicas – é o que há de pior para esse estilo de vida. Não vemos mais porquê apelar para os mais velhos e achamos que eles nem entendem do que estamos falando. O respeito aos mais velhos se tornou uma exigência educada, não mais reflexo de uma admiração. A força e a autoridade da velhice estavam ligadas a valores que hoje estão completamente esvaziados: vasta experiência de vida, conhecimento das tradições, capacidade de raciocinar friamente, decisões ponderadas, resistência ao novo, o olhar além das aparências, etc.

Ao mesmo tempo, enquanto ficar velho de corpo é inevitável, para ficar velho de espírito é preciso preparação. A sabedoria não chega de maneira automática com a velhice. Quem não conhece velhos apenas de corpo – ridículos na sua tentativa de lutar contra o tempo, vazios de quaisquer valores, apenas um arremedo feio do que foram na juventude. Como na questão do ovo e da galinha, nosso apego à juventude gera velhos que não sabem envelhecer e a velhice vazia de alguns nos faz pensar que não há nada de desejável na passagem dos anos.