As emblemáticas mulheres de Mad Men II

* Contém spoilers. Leia também Betty (parte I) e Peggy (parte III)

Joan

Assim como Betty, a primeira coisa que chama atenção em Joan é sua beleza. Mas enquanto Betty tem uma beleza clássica, delicada, Joan transpira sensualidade. Seus seios enormes não permitiriam uma mulher passar desapercebida, e Joan não quer passar desapercebida – ela tem consciência do seu poder e faz questão de usá-lo. Num local onde as mulheres só ocupam funções tradicionais de apoio – secretárias, recepcionistas, datilógrafas, etc – e onde a subserviência profissional se mistura à sexual, era claro que uma mulher tão provocante seria amante de alguém. Em pouco tempo, descobrimos quem é o privilegiado: Roger Sterling, o homem mais poderoso do escritório, um dos donos da agência. Joan escolheu um homem proporcional ao preço que tem.

A partir daí é possível perceber que Joan usa o sexo como moeda de troca, que usa a aparência a seu favor. Ela é uma das personagens mais misteriosas de Mad Men; nada sabemos sobre sua origem ou sua família. Quando a série começa, Joan já é uma mulher segura, ciente das regras, sem ilusões a respeito do mundo machista em que vive. Não sabemos de onde ela tirou tanto know-how, podemos apenas adivinhar que um dia ela também já foi ingênua. Com outras mulheres, sua atitude é agressiva e competitiva, até mesmo maldosa. Ela não apenas não é amiga de ninguém, como é incapaz de acreditar nas boas intenções delas. É sempre com os homens que ela mostra seu lado benevolente; deles, espera que cedam com facilidade a qualquer pedido seu. Ela nunca é incisiva, sempre insinuante. Ela representa que o poder que as mulheres sempre tiveram nos bastidores, entre amantes, nos pedidos sussurrados ao pé do ouvido. É um poder que não consta em memorandos, que não pode ser declarado publicamente e nem fica registrado em biografias. O que não quer dizer que não seja eficiente.

Só que esse recurso feminino às vezes se volta contra a própria Joan, que tem dificuldade em ser levada à sério. Ela é competente e organizada no que faz, e possui grande habilidade interpessoal. Ela atua tão bem nos bastidores que seu trabalho custa a ser reconhecido. Sua aparência serve de desculpa para desmerecerem o que ela faz, como se por trás não houvesse dedicação e trabalho duro. Isso fica bastante claro quando ela ajuda informalmente no fortalecimento do recém-criado Departamento de Televisão. Nesse curto período, leva lê roteiros em casa, tem idéias, ajuda a conquistar os clientes. Quando sua função se torna importante demais para ser informal, criam um cargo e contratam um homem, para que ela possa “voltar a cuidar das suas coisas”. O mais espantoso nesse episódio é que não passa pela cabeça de nenhum dos envolvidos que a própria Joan gostaria de continuar na função. Mais de uma vez ela declara não sonhar em subir, como Peggy fez; ao mesmo tempo, a vemos ressentida por ser continuamente deixada para trás. Talvez mais do que não querer, Joan não acredita.

Se à primeira vista Joan parece uma mulher moderna, com o passar do tempo passamos a perceber que isso é apenas uma fachada. Pensando bem, conseguir as coisas através do sexo é uma estratégia antiga. Ela não apenas não busca outra maneira de fazer as coisas, como parece se irritar quando alguém o faz. Sua relação com Peggy demonstra esse conflito. Todas as vezes que Peggy tenta defendê-la, inclusive demitindo um funcionário que a desautorizava por vê-la apenas como mulher objeto, Joan desmerece, ironiza – “Se eu quisesse que ele fosse demitido, conseguiria isso com um jantar”. Ela não parece aceitar ou acreditar em outras formas de poder feminino, que a relação entre homens e mulheres não seja intermediada por sexo. Quando consegue um bom partido disposto a casar com ela, Joan rapidamente adota uma postura tradicional: tenta esconder seu passado, se propõe a deixar de trabalhar, pára de evitar a gravidez. Todos os seus recursos, no fim, tinham o objetivo de torná-la uma mulher respeitável.

As emblemáticas mulheres de Mad Men I

A série Mad Men, ambientada nos anos 60, gira em torno da figura de Don Draper e o mundo da publicidade. É um meio machista, um ambiente de trabalho onde as mulheres servem os homens sexualmente e/ou como secretárias. Em meio àqueles homens poderosos, é possível perceber as estratégias de poder permitidas às mulheres da época. Elas não podiam aspirar os mesmos cargos que eles, o que não quer dizer que não possuíam sua própria maneira de influenciar nas decisões. Aqui destacarei alguns dos caminhos escolhidos pelas mulheres retratadas na série. Para quem não assistiu Mad Men, quer assistir e não gosta de spoilers, recomendo não prosseguir na leitura.

Betty

Impossível não olhar para Betty sem admiração, sem reparar o quanto ela é linda. Para quem assiste a série de olho no visual, nos penteados e nas roupas, Betty representa o que há de mais bonito no período. Ela usa os melhores vestidos, tem o cabelo impecável, e até mesmo sua maneira de fumar é charmosa. Ela não é apenas um ideal de beleza, como representa um ideal de mulher. Bem nascida, foi mimada pelos seus pais para ser uma boneca. Como esposa de Don Draper, contribuía para formar dele a imagem de homem de sorte e bem sucedido, por ter ao seu lado uma mulher que se mantém linda apesar de já ter filhos, que mesmo diante das crises sempre sabe se portar com discrição. É esse encanto que a torna desejada por todos que a conhecem, que permitem que ela obtenha o que quer sem ter que fazer esforço. Ela é “mulher pra casar”

Só que por detrás de toda essa imagem de perfeição, logo no início da série ela nos é apresentada como uma mulher angustiada por algo que ela mesma desconhece. Para quem esta de fora, é fácil identificar o motivo: Betty leva uma existência vazia. A inveja incontida que ela tem na desquitada da vizinhança, sua solidão, seu desejo de ser admirada, mostram a decepção que ela sente com o papel que lhe é reservado. A solução para isso é mandá-la a um psiquiatra, porque sua insatisfação parece sem sentido. O que mais uma mulher poderia desejar, além de um casamento próspero e filhos? Ela tampouco está disposta a questionar a vida que leva. A tentativa de lidar com suas angústias a levam a tentar novamente a carreira de modelo (para desistir rapidamente) e flertar com a idéia de trair Don. Ela provoca sutilmente os homens, mas não ultrapassa os limites, porque o papel de mulher perfeita também lhe é muito caro.

O casamento de Betty com Don nunca foi satisfatório, embora ambos tenham demorado pra se conscientizar disso. Ele sempre a traiu, com mulheres fortes e independentes, totalmente diferentes de Betty. Ela, por outro lado, parecia projetar todas as suas necessidades nele, e agia como uma criança que só faz o que quer. O sucesso financeiro de Don permitiu a Betty ter toda aparência que sempre quis; mas descobrir sua traição e sua verdadeira origem (muito pior do que ela poderia imaginar), destruíram esse pacto de maneira irremediável. Somente a partir daí ela consegue se sentir livre para buscar outro homem (e não outra alternativa). Graças a Henry Francis, ela consegue pular de um casamento a outro sem passar pelas dificuldades financeiras e falta de prestígio do desquite. Só que Henry, ao contrário de Don, é um homem mais velho e mais bem resolvido. Ele não demora a perceber que casou com uma mulher mimada e incoerente. Somente ao se casar de novo ela parece perceber que o problema não era Don e sim que o que ela busca não existe.

A pessoa difícil por detrás da aparência de perfeição fica muito clara na relação que Betty tem com os filhos, especialmente com a filha. Ela sempre foi intolerante e agressiva diante de qualquer desobediência, como se não suportasse que algo fosse diferente do esperado. Ela tenta recriar com Sally, sua filha mais velha, o mesmo ideal de comportamento e beleza que recebeu de seus pais. Só que o temperamento forte da filha prejudicam cada vez mais os seus projetos, o que torna a relação entre as duas uma guerra silenciosa, onde Sally sempre sai perdendo. É de cortar o coração ver a angústia de menina, visível a todos que a cercam, mas que não pode ser impedida porque tem como fonte sua própria mãe. É na filha que Betty demonstra toda insatisfação, toda agressividade que ela reprime. Ser uma mulher perfeita tem seus custos.
Leia também: Joan (parte II) e Peggy (parte III)

Viúvas na Índia

Li o Mahabharata porque cresci admirando o hinduísmo. Esse livro representa para os indianos o mesmo que a Bíblia para o resto do ocidente, com a vantagem de ser muito mais interessante. Uma das muitas histórias da complexa trama familiar do Mahabharata é a do rei Pandu.

O rei Pandu estava na floresta quando viu dois cervos se acasalando. Ele os acerta com as suas flechas. Só que o cervo, na realidade, era filho de um poderoso asceta. Ele (o filho) e sua esposa haviam se transformado em cervos pra ter um filho. Indignado com a crueldade do rei, o sábio/cervo lhe rogou uma praga: que no dia que Pandu cedesse ao seu desejo sexual, morreria. Desesperado, o rei decide viver sozinho na floresta. Mas suas duas esposas, Madri e Kunti, decidem acompanhá-lo e viver também uma vida de austeridade. A Rainha Kunti havia recebido do sábio Dvrvasa o dom de invocar um semi-deus e ter filhos através dele, e o uso desse dom permitiu a ela e a Madri continuar a linhagem dos Pandavas. Mesmo sendo uma pessoa de grande bondade, sabedoria e controle, o rei Pandu era humano*…

A floresta amável estava viva, com frutas e flores a desabrochar, e palmeiras, esplendorosos caramanchões, manga e campaka celestial. O cenário colorido cintilava com o frescor da Primavera, rios e lagos cheios de lotus, e enquanto Pandu contemplava a floresta, o intrometido Cupido surgiu em seu coração.

Vestida em trajes brilhantes, Madri viu Pandu desportivo como um semideus, sua bela face inspirava afeição, e ela seguia atrás dele. Pandu observava sua jovem esposa, em seu fino vestido, caminhando ao longo, e seu desejo agora crescia como um fogo que arde das profundezas do seu combustível. Sozinho com Madri naquele vale isolado, Pandu viu o mesmo fogo queimando no coração de Madri, e ao fixar-lhe nos olhos amáveis, ele não pôde controlar seu desejo, pois tomara conta de toda sua vida.

Nessa floresta secreta o monarca segurou sua esposa à força. A deusa torceu-se e lutou com toda sua energia para impedi-lo, mas o desejo já o havia possuído, e Pandu nada lembrava da maldição. À força ele foi para cima de Madri no ato de amor.

O rei morre logo depois de satisfazer seu desejo e Madri assume a culpa de tê-lo feito ceder – quem mandou ser tão jovem e bonita? Então, pede para Kunti cuidar dos seus filhos e decide se juntar ao rei na pira funerária.

O problema é que por fazer parte de um livro sagrado, essa história passou a servir de modelo e inspiração. Na Índia é costume que as esposas sejam queimadas ao lado do marido. Tenho certeza de que é para repetir o sacrifício da rainha Madri.

* A descrição que tenho, de Willian Buck, não comete a liberdade imperdoável de colocar o Cupido no meio da história. Mas esta é melhor.

Calças

Há uma passagem na Bíblia que diz que as mulheres não devem se vestir como homens. Quando penso nisso, sempre me parece que Deus está reprovando, antecipamente, algumas personagens de Shakespeare. Essa condenação faz com que certas igrejas proíbam suas fiéis de usarem calças. E de terem o cabelo curto. A união de cabelo longo e saia – nunca acima do joelho – faz com que as crentes sejam reconhecidas de longe. Não adianta argumentar que há muito tempo as calças se tornaram uma roupa unissex (o cabelo, há menos tempo), porque na época bíblica não era. O que veio depois foi uma desobediência.

Não são apenas as mulheres que podem causar desgosto quando colocam calças. Isso acontece também com os índios. Equipes de TV gostam que eles coloquem pelo menos shorts, para não exibirem em horário nobre o que entendemos como indecente. Por outro lado, eles não devem cobrir muito mais do que isso, porque nada irrita mais do que um índio vestido. Índios de jeans, usando talheres e falando no celular faz as pessoas pensarem que eles já não são tão índios assim, que não há porque protegê-los, que eles são brasileiros iguais aos outros. Por causa disso, quando precisam reivindicar seus direitos, os índios se vestem de maneira tradicional – nus, corpos pintados, adereços artesanais. Senão, sua diferença cultural não é reconhecida.

A roupa é uma forma de comunicação. Ela mostra de maneira imediata e não verbal que as pessoas compartilham da mesma cultura. O vestuário, a moda, refletem o estilo de vida daqueles que o produzem. As roupas falam do que consideramos público e do que consideramos privado; o que deve ser escondido e o que deve ser apenas insinuado; como entendemos as diferenças entre os sexos, entre as gerações, entre os diferentes momentos da vida. O ato de vestir – ou despir – é uma atitude comunal. Ao entender que um período – de roupas, de música, de costumes, de qualquer coisa – deve ser mantido, tentamos engessar a história. Uma roupa fora do seu contexto é sempre desconfortável. Obrigar alguém a se vestir diferente, é privar a pessoa do anonimato daqueles que estão bem situados. Dizer que mulheres e índios não devem usar calças, a torna um símbolo de masculinidade e civilização. E demonstra os tabus que ainda temos em torno dos dois conceitos.

Reflexões sobre padecer no paraíso

Mulher, sexualidade e maternidade sempre parecem estar ligadas. Não podemos dizer o mesmo sobre homem, sexualidade e paternidade. O homem é muito a sua sexualidade, o tamanho do seu pênis, a frequencia com que faz sexo, com que quantidade de mulheres e todas outras demonstrações de virilidade. A idéia de paternidade é mais distante. Nunca vi oferecerem, à adolescente que engravida, a possibilidade do pai ficar com a criança enquanto ela cuida da sua vida. O filho está ligado a mãe por laços indubitáveis, enquanto sobre a paternidade pode pairar eterna dúvida (até que seja feito um exame de DNA). Alguns homens podem se irritar e procurar demonstrar o valor e a importância do amor paterno – mas a verdade é que muitos, e durante gerações, têm se sentido muito bem com a possibilidade de não estar presente que o papel oferece.

A sexualidade feminina, sempre se viu contaminada (e porque não dizer, aprisionada) pela idéia de maternidade. Apesar da maternidade ser fruto do sexo, é como se para as mulheres houvesse um antagonismo. De um lado a maternidade, com uma idéia de pureza, sacrifício, amor e dedicação. Um estado que transforma a mulher em algo superior, que a torna mais importante do que uma mulher comum. De outro o sexo, que na mulher é sujo quando excessivo, escancarado, com muitos parceiros. A mulher que dorme com muitos é uma puta, e ser filho de uma é a pior ofensa que se pode sofrer. Num ideal, a maternidade seria um fim em si, sem que pra isso a mulher desfrutasse do sexo. Penso nisso quando vejo o quanto o comportamento comedido é desejável e educado nas mulheres, e que a palavra pudor quase sempre se refere a isso; no extremo, isso se materializaria no costume de alguns povos de extirparem o clitoris. Em uma ponta, existe a mulher que sente prazer e dorme com muitos, e na outra o ideal de mulher como mãe que gera sem sexo, a Virgem Maria.

O imaginário sobre a maternidade é dominado por duas palavras bastante fortes: obrigação e amor. Em primeiro lugar, pela própria obrigação de amar. Assume-se que desde o instante que a mulher sabe que será mãe, ela sinta amor, que se não for instantaneo ao menos deve ser crescente. Esse amor serve para tornar suave todas as outros obrigações, que são muitas, mas que podem ser resumidas em uma frase: cuidar do bem estar da prole de maneira absoluta, em todos os níveis e durante toda a sua vida. Pouca coisa, não?

Por ser uma obrigação muito grande e muito forte, sempre surgem casos de mulheres que não conseguer estar à altura disso. Um exemplo que sempre me chama atenção é a comoção quando encontram bebês abandonados. Sustentar uma gravidez, ter um bebê nos braços e ser capaz de deixá-lo num lugar qualquer nos parece de uma maldade sem limites. Eu me pergunto se essa mulher não teria feito um aborto se pudesse. Na medida em que a irresponsabilidade de uma relação sexual desprotegida recai toda sobre à mulher, em que dizemos que interromper uma gravidez é a mesma coisa que um assassinato, em que ela é obrigada a amar, cuidar e se sacrificar pelo resto da vida depois de ter tido aquela relação sexual lá atrás, as mulheres são colocadas numa situação muito difícil. Acredito que as mulheres que fazem isso estejam tentando apagar o passado, ter a mesma vida que teriam se não tivessem sido mães. Coisa simples, se elas não fossem mulheres. O gesto de abandonar um bebê não necessariamente é monstruoso, pode ser apenas desesperado.

Por fim, eu quero encerrar com uma cena da primeira temporada série Desperate Housewifes. Nela, a perfeccionista Bree Van de Kamp está no terapeuta e começa a falar de Freud. Ela diz que Freud era um filho ingrato e deve ter causado muito desgosto à mãe dele. Como era possível ele ter falado aquelas coisas horríveis de quem cuidou das roupas dele, fez comida, limpou a casa e o alimentou durante boa parte da vida. Ainda mais naquela época, com pouca tecnologia, em que tudo era tão difícil e precisava ser feito à mão. Até o terapeuta se sensibilizou. Se às mães cabe a culpa de tantos traumas, é porque elas se fazem presente demais. Quem faz muito erra muito. Se um imaginário tão exigente persiste, é porque as mulheres têm feito de tudo para alcançarem a perfeição.