A balada de Bob Dylan, por Daniel Mark Epstein

Antes de falar da biografia, sou obrigada a falar do meu contexto, que determinou minha busca por ela e minha maneira de lê-la. Acredito que outras pessoas tenham uma história parecida.

Eu não sei inglês. Com os anos até aprendi a me virar, mas nunca fiz curso e não sou fluente. Na minha infância e adolescência, nos anos 80, não havia google e conseguir tradução de música não era instantâneo como hoje. Pra saber o que uma música dizia, eu tinha duas alternativas: a tradução que vinha na contracapa da revista Querida ou a do locutor do rádio, perto da meia noite, que recitava de maneira sexy frase por frase. Então, Bob Dylan, com sua voz analasada e longas frases incompreensíveis, nunca me atraiu. Ao longo da vida, aqui e ali, conheci fãs dele, aprendi a identificar alguns dos seus hits, meu ídolo português Miguel Araújo adora e Dylan ganhou um controvertido Nobel de literatura. Foi crescendo em mim a sensação de que havia ali uma importante referência que empobrecia meu conhecimento musical por estar alheia. Mas o que realmente me levou a Dylan foi Leonard Cohen, que é tão grande e repete, com a maior naturalidade, que se ele é o número 1, Dylan é o número 0, por estar fora de qualquer escala. Este seria o momento da vida que eu deveria acionar um fã de Dylan e passar com ele uma tarde inteira sentada no chão, cercada de LPs, enquanto ele me mostra suas preferidas e me explica cada fase e a revolução que cada música representa. Na ausência de tal pessoa, o jeito foi apelar para o lelivros.love e procurar uma biografia.

Foram os Deuses Protetores dos Ignorantes da Música que me fizeram baixar justo A balada de Bob Dylan: um retrato musical, de Daniel Mark Epstein. Ela era tudo o que eu precisava. Epstein é esse fã apaixonado que acompanhou a carreira de Dylan, pega na mão do leitor e o conduz à sua mesma paixão. Ele estava lá desde o começo, no histórico show de 1963, em Washington, como uma das pessoas mais jovens da platéia. E já ali a gente se pergunta: como é que um menino de 22 anos já tem tanto a dizer e com tanta qualidade?

Eu mencionei o fato de que esta canção, talvez mais do que as outras, me surpreendeu, pois mal podia acreditar que aquele jovem na minha frente a tivesse escrito. Eu não consigo me lembrar agora quando ouvi pela primeira vez “Boots of Spanish Leather” (como “Sweet Betsy from Pike”  ou “I´ve Been Worked on the Railroad”) apesar de estar quase certo que não foi de seus lábios.

Ela havia sido publicada na edição de verão da Sign Out!, em 1963, mas eu não a li imediatamente. Desde que Dylan começou a tocar a canção no início daquele ano, ela havia se espalhado de modo viral de mão em mão e de ouvido a ouvido, como uma balada do séc XIX. Devia haver uns vinte cantores folk como Gil Turner e Carol Hedin movendo-se de cidade em cidade e cantando “Boots of Spanish Leather”, identificando ou não sua fonte. Não havia uma linha na letra que a identificasse como contemporânea; muitos versos soavam atemporais, como pedras gastas e polidas por séculos de água correndo por cima delas. Os amantes da balada, seu compromisso e seu desejo, eram tão autênticos como qualquer fato ou ficção – ao menos desde que os amantes tinham como poder escolher seu destino. Em resumo, a canção soava como se estivesse por aí há gerações, pois tinha todas as qualidades de uma canção que duraria para sempre.

Colado no corpo do violão de Dylan estava um pedaço de papel com uma lista de músicas. Olhando para a lista, em certo momento, ele comentou que havia escrito algumas centenas de canções. Não mencionou isso com orgulho, e sim como se fosse uma riqueza embaraçosa; às vezes, admitiu, não conseguia se lembrar de todas as palavras. “Boots of Spanish Leather” provocou a necessária mudança de humor de drama para romance. Neste momento, Dylan se atrapalhou de modo cômico com o suporte da gaita. A iluminação do palco nunca variava, mas ainda assim o músico sinalizou uma mudança de clima tão forte como se atmosfera tivesse mudado de azul para dourado. (1.Lisner auditorium, 14 de dezembro de 1963)

O livro é dividido em quatro partes, cada uma tendo como base um show histórico de Dylan: Washington D.C. 1963, Madison Square Garden 1974, Tanglewood 1997 e Aberdeen 2009. É uma leitura que avança devagar, porque é irresistível querer ouvir cada música para entender o que está descrito e ter sua própria impressão. Se o leitor tiver tempo e curiosidade, com o pretexto de acompanhar as influências de Dylan, também conhecerá folk, rock e toda cultura que dialogou com Dylan – e, acreditem, foram muitos diálogos. No meio disso, as histórias lendárias ou não, cultivadas pelo próprio Dylan ou não, e uma tentativa de entender a mistura única de um cantor que nunca foi o mais bonito, nem a melhor voz, nem o melhor instrumentista, nem a melhor presença de palco, mas que marcou para sempre a história da música – e até da literatura, de acordo com o Nobel. De alguém que partiu do zero, não apenas sem gostar das músicas como com uma certa resistência, já me flagrei doida pra chegar em casa e tocar uma certa música, aquela, uma bem comprida do Dylan. Acho que o livro cumpriu seu papel.

Carmen Miranda, de Ruy Castro

Em termos de pesquisa, esta é a biografia mais impressionante que eu já li, e olha que sou apaixonada pelo gênero e li muita coisa boa. Ruy Castro se adianta a toda a qualquer curiosidade que o leitor possa ter e cobre todos os aspectos de tudo o que cerca Carmen: ficamos sabendo como era rua da primeiro endereço da família Miranda, o que a mãe de Carmen servia nos almoços, o que se ouvia nas rádios, o que era normal e permitido na época, a graduação formação daquele que seria do estilo Carmen – plataformas, turbante, barriga de fora, acessórios, cores e a alegria esfuziante – os namoros, as rotinas em shows e gravadoras. Da fase americana, ele nos informa dos gostos do público, descreve os locais onde Carmen cantava, opina sobre cada um dos seus filmes, conta fatos da vida de cada uma das muitas estrelas hollywoodianas que passaram pela vida dela, o impacto de Carmen na moda e as exigências que a vida nos EUA lhe impuseram. O resultado é uma qualidade de leitura que nos parece um romance, onde o leitor se vê transportado pra uma época nos seus detalhes mais deliciosos.

Por ser “alegre, bonita e comunicativa”, Caruso promoveu-a da oficina para o balcão, onde ela se tornou sua melhor funcionária, capaz de vender qualquer peça. Diante de uma cliente em dúvida sobre se um determinado chapéu lhe ficava bem, Carmen fazia uma demonstração: sacudia a cascata de cabelos, prendia-os e experimentava o chapéu em si mesma. Como tudo assentava em Carmen, a cliente se via como em um espelho, convencia-se de que ficaria linda e acabava levando o objeto. Certo dia, aconteceu de Carmen estar andando na rua, usando um chapéu de sua própria invenção, e ser abordada por uma mulher que lhe perguntou onde o tinha comprado. Ao saber que ela o havia criado, fez-lhe ali mesmo, na calçada, uma oferta por ele – que Carmen, achando graça, aceitou. (p.24)

Em entrevista pro Roda Viva, Ruy Castro diz que um dos requisitos fundamentais para fazer uma biografia é que o personagem de alguma forma o apaixone. E quanto mais detalhes ele nos revela sobre Carmen, mais apaixonado o leitor fica. Linda, generosa, divertida, inteligente, rápida, apaixonada, parecia ser impossível ficar indiferente ao charme dessa mulher. Dá a impressão de que ela seria a melhor no que quer que fizesse, nem que fosse virar fabricante de chapéus. Sua presença transformava qualquer lugar numa embaixada do Brasil, reunindo o talento em torno de si e transbordando calor. Como profissional, mereceu e trabalhou duro por cada palmo do que conquistou – excelente cantora, podia conhecer a música no próprio estúdio, pouco antes de entrar, e a gravação ficava perfeita. Nos filmes, era conhecida por ser a “garota de um único take” pelo mesmo motivo. Nunca faltava um compromisso, por pior que fosse a logística – seus adereços exigiam organização e espaço para serem transportados – ou seu estado de saúde.

Ali, as paredes do Broadhurst esqueceram-se de que já tinham ecoado os textos de Ibsen, Shaw e O´Neill, e trataram de se adaptar aos novos tempos. Carmen “cantava” com as mãos, os olhos, os quadris, os pés – “O que é que a baiana tem?”, “Touradas em Madrid” e “South American Way”, pela nova ordem – e todo um repertório de meneios, dengos e chamegos que dispensavam tradução. Ninguém entendia uma sílaba do que ela dizia, exceto o verso “Souse american way”, que arrancou as infalíveis gargalhadas. E nem era preciso. Carmen estava falando numa língua que a platéia de Nova York, habituada às grandes estreias, estava farta de entender: a do talento, talvez do gênio. A Broadway já operara aquela química muitas vezes – entre duas cortinas, transformar uma estreante numa deusa. Quase dez minutos depois, o número de Carmen e o primeiro ato de Streets of Paris terminaram e apoteose e consagração. Entre drinques, cigarros e cafés do intervalo, e já vazando para as ruas em volta do teatro, só um assunto interessava: Carmen Miranda. (p.210)

Ela sonhava em casar e ter filhos, mas como resistir aos apelos do mundo que a puxavam cada vez mais alto? Jamais foi esquecida pelos seus grandes amores Mario Cunha, Carlos Alberto da Rocha Faria e Aloysio de Oliveira, mas nenhum deles a assumiu. O dinheiro não parava de entrar, os filmes, shows e convites tornavam sua rotina impossível. Um dos motivos da morte prematura de Carmen foi o fato de jamais ter conhecido a decadência, que a teria dado tempo de parar. Quando sua carreira nos EUA estava começando a decair, a Europa a reacendeu, ávida por encontrar os ídolos dos filmes que viam durante a guerra. As férias e as visitas ao Brasil eram sempre adiadas, assim como a necessidade de cuidar da sua saúde.

Eram quase quinze anos de um processo longo e inexorável. Começara no dia em que uma cápsula para dormir exigira outra para acordar. Tempos depois, a cápsula para dormir exigira outras cápsulas para dormir; e a cápsula para acordar, outras cápsulas para acordar. Um drinque cancelara uma cápsula e exigira outra cápsula. Essa cápsula cancelara o drinque e exigira outros drinques. Em meio à ciranda, as cápsulas e os drinques haviam cancelado uma quantidade de neurônios e, apesar dos recentes esforços de seu médico no Rio, Carmen já não sabia onde ficava a entrada a ou saída do infernal labirinto em que sua vida se convertera. (p.541)

Como outros artistas da sua geração – Marilyn Monroe e Judy Garland, por exemplo – Carmen foi vítima da união de dois fatores: a massacrante indústria do cinema e o abuso de remédios, cujos efeitos se desconheciam na época. De mulher saudável, forte e bem humorada, aos quarenta ela foi convertida a uma pessoa doente, com alterações de humor, crises de paranoia e aspecto envelhecido. O livro é belíssimo até mesmo no desfecho: somos conduzidos até aquela última noite, cheia de planos e o insuspeito fim – exatamente como a morte costuma ser. E o leitor acorda para um dos maiores nomes que a música brasileira já teve, tão presente nas milhões de figuras caricatas e turbantes que até nos esquecemos o porquê.

As tais Frenéticas

as tais freneticasComo avisam o doutor Drauzio Varella no prefácio e a própria autora na introdução, o livro As tais Frenéticas – eu tenho uma louca dentro de mim é sincero e despretensioso, o que não quer dizer que seja desinteressante. As Frenéticas dispensam apresentações: foram e conviveram com os maiores nomes da música brasileira no anos 70. Quem conta os inúmeros causos é a ex-Frenética Sandra Pêra, irmã de Marília Pêra, ex-cunhada de Nelson Motta, mãe de uma filha de Gonzaguinha, ex-colega de apê de Ney Matogrosso, e por aí vai… É um livro cheio de fotos, com capítulos curtinhos e mais ou menos cronológico. A gente senta pra dar uma olhadinha e não consegue largar mais.

As Frenéticas começam de uma maneira tão improvável que parece conto de fadas: Nelson Motta recebe a proposta de agitar uma casa noturna que seria demolida em poucos meses, convida sua cunhada atriz, que convida amigas também atrizes e cantoras. “Regina também lembrou de Edir de Castro, recém separada de Zé Rodrix, com uma filha pequena, a Joy, ainda abalada com a separação e precisando trabalhar para vida ficar bacana. No dia seguinte lá estavam as duas, prontas.” Elas serviriam mesas e por volta da meia noite, cantariam algumas músicas em cima do balcão. Elas foram atrás das gorjetas, só queriam um emprego temporário. O Dancing virou febre, elas entraram em contato com seus ídolos (“Alguém pode imaginar o que é ter Gal Costa te vendo cantar? Caetano? Não, ninguém pode”) e durante os primeiros anos, tudo o que tocavam virava sucesso. E o sucesso, visto por dentro, é muito menos glamouroso do que se pensa. Sandra fala das viagens cansativas, de ganhar pouco, das drogas – mas aviso que seu olhar nada tem de amargo. O sucesso é mostrado como apenas um pedaço da vida, algo que acontece junto picuinhas, amores, família e pequenos momentos de felicidade.

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Não lembro precisamente a data, mas foi durante a primeira saída do Rio. Era um festival de rock, um camping pop em Belo Horizonte. Vários artistas se apresentaram, me lembro da Gal, do Joelho de Porco e de várias outras bandas. Quando chegamos, o tumulto já estava armado. O Joelho de Porco tinha acabado de se apresentar e, durante o show, alguém tentou subir no palco e foi impedido, acho que de forma meio bruta, pelos seguranças. Então outros também começaram a subir no palco. Houve confusão e ouvíamos mil histórias, que não sei quem caiu no palco, que quebraram não sei que aparelhagem, que alguém havia ido parar no hospital. Enfim, fomos para o palco depois de muita espera e tensão. O som era de sétima qualidade. Os microfones não funcionavam. Por causa disso, cometemos mil erros, pois não nos ouvíamos direito, mas arrebentamos com nossa energia. Não entendo até hoje como o público muitas vezes não percebe, não ouve ou não liga para os deslizes que às vezes são cometidos pelos seus ídolos enquanto cantam.

A noite estava linda! O céu coalhado de estrelas, um vento totalmente à favor, gostoso. Eu, para variar, banhada em suor. Meu cabelo era imenso, todo molhado, era como se eu tivesse lavado a cabeça. Estava meio em êxtase, mas aflita com aquela aparelhagem sem retorno, com medo de estar cantando mal, quando, de repente, no meio de uma canção, vi uma estrela cair do céu! Fiquei louca! Era a primeira vez na vida que eu via uma estrela cadente. Tentei mostrar às outras, não consegui. Ela caiu só pra mim. Riscou o céu inteiro enquanto eu cantava. Eu pensava: é sorte, Sandra, é sorte.

p.64

Por falar em amores, meu sentimento final ao ler o livro foi de tristeza. Não pelo fim das Frenéticas, que logo no começo a autora deixa claro que sabia que não durariam para sempre. Eu me senti triste pela morte de Gonzaguinha, descrito com tanta doçura que é impossível não ficar apaixonada. Não sei se de maneira consciente ou não, a maneira como a história é construída faz dele o grande protagonista. Quando Sandra volta do fim do Dancing e ouve seus discos, quando ele a encontra apavorada no avião, quando oferece às Frenéticas a música Feijão Maravilha… Gonzaguinha é aquele amor que está à espera enquanto Sandra está ocupada demais curtindo, crescendo. Um dias eles se encontram, prontos, e desse grande amor nasce uma filha. Dá vontade de acreditar que vão ser felizes para sempre. No fim do livro, numas das últimas fotos, Gonzaguinha está com a filha nas costas, lindos. Fica a sensação de que aquela festa em que vale tudo acabou em algum lugar dos anos 80.

A música que passou a me irritar depois da minha pesquisa

Eu adorava essa música e a versão que eu tenho é justamente a do clipe. A letra fala de uma cena que Alejandro Sanz teria testemunhado, de um deficiente visual que pede a uma moça para lhe descrever o pôr-do-sol. No final, quando ela se vai – depois da promessa de que retornaria no dia seguinte -, o rapaz perguntou ao Alejandro se ela era bonita, ao que ele lhe responde – Mais do que a lua.

Quem não tiver paciência pra ver o clipe pode conhecer a letra aqui.

Não é que a música seja horrivelmente preconceituosa ou forçada. Minha irritação com ela é muito mais por exagerar em algo mais banal. Talvez aí esteja o preconceito – em achar que estar apaixonado ou passar uma cantada é algo de extraordinário apenas por ter sido feita por alguém com deficiência.
Eu convivi com pessoas com diversos graus de deficiência visual – de visão residual à perda completa de visão – por causa de um serviço voluntário que mais tarde gerou a idéia pra uma pesquisa, o que me levou a conviver mais ainda com essa realidade. Aprendi a ultrapassar a barreira da pena ou do extraordinário. Para quem enxerga, parece inconcebível pensar num mundo sem a visão, e que isso lhe acontecesse, no resto da vida ela lhe faria falta. Pelo que ouvi de quem está nessa situação, não é verdade. Não enxergar, ter nos outros uma voz, uma presença e um cheiro, é algo que acostuma. Só com o preconceito que não se acostuma.
Então não consigo achar romântico quando o enamorado sem visão da música fala “mis ojos son tu voz”, “a tu lado puedo olvidar que para mi siempre es de noche” e, pior – “que no daria yo por contemplarte, aunque sea un solo instante”. Não veria essa pena de si mesmo, esse desejo de ser o que não é, de utilizar um sentido que não tem, como algo saudável. Das duas uma: ou isso fala de alguém que ainda não aprendeu a conviver com a sua condição, ou da projeção de alguém que enxerga e não consegue entender a vida de outra forma.
A parte final da música, quando o rapaz pergunta se a moça era bonita, é bastante familiar. Quem perde a visão faz isso com frequencia – de perguntar para os outros como uma pessoa é fisicamente. Por estarem interessados ou mera curiosidade. Se possível, consultam várias pessoas, pra ter um parecer ainda mais completo. O rapaz da música realmente parece encantado com a moça. Mas nisso também não há algo extraordinário. Quando convivi com homens que perderam a visão, eu não entendia a quantidade de cantadas que eles passavam. Bastava conversar com uma mulher um pouco mais gentil para as insinuações e perguntas começarem. Eles faziam o que a gente chama de “atirar para todos os lados”.
No decorrer da minha pesquisa, a motivação pra isso ficou mais clara. As mulheres possuem uma tendência a cuidar muito de deficientes, mas essa relação tende para o materno. De um lado, isso é de grande ajuda; de outro, causa problemas quando um homem quer ser visto como tal. Isso sem falar que ser deficiente diminui bastante o “apelo” de alguém nas relações com o sexo oposto. Acredito que essa atitude de se colocar como homem disponível logo que interage com qualquer mulher, tem o objetivo de aproveitar todas as chances e de deixar claro para todos que lá há um homem, não apenas um deficiente.
São detalhes que mudam totalmente o sentido da música: um desejo de ver que não existe, um romance açucarado onde ele não existe. Não dá mais pra ouvir da mesma forma.
(Estou com um artigo quase pronto sobre o meu livro, a ser publicado em breve. Quando for, colocarei o link aqui. E quem quiser um exemplar do livro – autografado e mais barato -, é só falar comigo)

Análise de música popular

Recebi o post da análise existencialista de uma música de Alexandre Pires e achei muito divertida. Claro que não é um tratado filosófico, e acho até chata a pressa que algumas pessoas têm em apontar todos os erros e incoerências do que lêem. As tentativas de pegar algo popular, ou de massa, ou cult e fazer disso análise filosóficas aproxima duas linguagens e não deve ser desprezada. Existem análises sobre os Simpsons, Star Trek, House, só para citar os que eu conheço.

Durante a faculdade, na matéria de Antropologia III, fomos convidados a encontrar um letra da música popular brasileira e fazer alguma análise sobre o conteúdo que havíamos estudado – Escola Sociológica Francesa e Lévi-Strauss. Transcrevo o que fiz na época. Nunca recebi esse trabalho de volta, por isso não sei o quanto a análise está boa ou não. Pelo menos serviu pra passar.

Vou mostrando como sou/ Vou sendo como posso– Durkheim foi o primeiro a apontar a diferença entre o ideal de sociedade (o que eu mostro) e como ela realmente é (o que eu sou). A diferença entre seu discurso, conceito sobre si mesma, e o que ela realmente pode nas suas práticas diárias. Levi-Strauss chama atenção para a questão do inconsciente. As motivações reais são ignoradas pelo próprio indivíduo, e até mesmo seu discurso é ilusório.Às vezes, a explicação que parece obvia pode ser a mais enganosa, por camuflar melhor a realidade. É a diferença entre a ordem do vivido e do concebido.

Essa contradição faz com que o etnólogo tenha que redobrar sua atenção para não se levar pelo discurso. Na pesquisa de campo, isso se reflete na necessidade de verificar várias vezes a mesma informação, de procurar um número grande de elementos. Isso pode gerar a questão: a sociedade elabora sobre si uma mentira?

Jogando meu corpo no mundo/ Andando por todos os cantos-Não. O discurso atua no campo das idéias, que de acordo com Levi- Strauss é sempre mais rico e é a matriz das atitudes. Ao jogar-se no mundo, andar por todos os cantos, ou seja, ao atuar, necessariamente as coisas são diferentes. O campo das idéias pode ser mais rico, mas o mundo possui maneiras de atuação particulares, que as diferenciam do discurso.

E pela lei natural dos encontros/ E deixo e recebo um tanto – Certas coisas são tão freqüentes nas sociedades humanas que podem até ser pensadas como “leis naturais”. Para Levi-Strauss, o tabu do incesto seria uma lei universal. A dádiva maussiana pode ser considerada uma lei natural? O fato de pessoas ou sociedades se encontrarem, e nesse encontro deixarem e receberem algo umas das outras. Esse trecho explicita a relação envolvida nas trocas, que nunca deixa iguais àqueles que nela se envolvem, seja…

Passo aos olhos nus/ Ou vestidos de lunetas– … por uma simples troca de olhar, ou de vestimentas fantásticas. A construção do eu sempre se faz na alteridade, na comparação do que é semelhante do que não é. O conhecimento do outro é natural, porque o humano não pode jamais ser pensando sozinho, desligado da sua sociedade ou da cultura. E quanto mais distante ou desconhecido, mais fantástico e/ou temido o outro nos parece.

Passado, presente/ Participo sendo o mistério do planeta– Durkheim apontava que o caráter coercitivo dos fatos sociais estava no fato de serem, dentre outras coisas, anteriores aos indivíduos. Ao nascer, cada um encontra uma sociedade com uma história e uma forma de organização particulares. História esta que se faz presente em todos os que vivem na sociedade, na medida em que todos compartilham da mesma cultura.

Isso, no entanto, não retira do individuo sua particularidade. Nenhum individuo contém a totalidade da sua sociedade. A maneira como os diversos fatores externos influenciaram seu aparato interno, continua algo muito particular. Por isso, cada um continua sendo um mistério, com uma participação e essência próprias.

O tríplice mistério do estoque– Ao falar de estoque, podemos lembrar do estoque de inhame do chefe envolvido no kula. A forma de estocar, fazia parte da atribuição dentro do ritual da dádiva. Algumas vezes, este estoque era formado apenas para ser destruído de forma ritual. O estoque não existia por si ou para uma mera satisfação econômica, ele fazia parte de algo maior, somente explicado pelo contexto da dádiva. Se a entendermos como tríplice, este se refere às três obrigações que ela envolve: dar, receber e retribuir.

Que eu passo por e sendo ele/ No que fica em cada um– A dádiva não é apenas econômica, nem religiosa, nem ritualística, nem comercial ou estética; ela envolve todas essas esferas e muitas outras, o que a torna um fenômeno social total. Cada um passa pela dádiva e é ao mesmo tempo objeto da dádiva. Pelos conceitos de hau – a essencial da pessoa que fica com a coisa dada- e mana– a força que faz as coisas circularem-vemos que a dádiva não é uma simples troca de objetos. Ela é uma troca espiritual, pois cada um dá um pouco de si quando troca. E ao pensarmos que a dádiva envolve toda a sociedade, ela nos fala de uma troca entre culturas, sociedades e humanidades. A troca aproxima as pessoas e faz com que compartilhem a essência que lhes é comum.

No que sigo meu caminho/ E no ar que fez que assistiu– Os mitos, para Levi-Strauss, não podem ser analisados de modo estritamente funcional. Os mitos possuem origem em si mesmos, estão “no ar”. Eles só podem sofrer uma comparação com outros mitos, pois eles funcionam com uma lógica e caminhos próprios.

Abra um parênteses/ Não esqueça– Apesar do evidente papel da sociedade, na classificação, das regras, nas religiões, até mesmo atuando no corpo do individuo, não podemos esquecer que …

Que independente disso /Eu não passo de um malandro/ De um moleque do Brasil– A sociedade é constituída por pessoas, e as estruturas não funcionam sozinhas. Embora determinada por muitos fatores e circunscrita pelos limites dados pela formação dada por sua sociedade, o individuo tem um espaço de ação, que usa de diversas maneiras. Algumas vezes, sua maneira de atuar pode se tornar manipuladora (bem destacado por Leach), ou “malandra”.

Que peço e dou esmolas– Ao dar e pedir esmolas ao mesmo tempo, há um reconhecimento que na dádiva todos irão dar e receber. Aquele que dá, encontra-se numa posição de superioridade, mas esta não se mantém eternamente. Como a dádiva por natureza implica em circulação, em algum momento o individuo terá de receber- e se encontrar numa posição menos favorável. Ao falar em esmolas, cabe lembrar, pode ser compreendida como um sacrifício/ dádiva oferecida aos deuses, pois aquele que a recebe não retribuirá a dádiva, papel que cabe ao divino. Como a pessoa da musica dá e pede esmolas, podemos considerar que ela faz e recebe coisas que só cabe ao divino retribuir.

Mas ando sempre/ Com mais de um/ Por isso ninguém vê/ Minha sacola– . Mesmo quando só, o individuo está acompanhado pela sociedade que o formou. E para haver troca, sempre precisa haver mais de um envolvido. O individuo é ex-centrico a si mesmo- seu centro encontra-se na sociedade. A “sacola”, por ser um objeto estritamente pessoal que acompanha sempre o indivíduo, por ser entendida como símbolo do eu ou do particular em cada um.Neste sentido, pela sacola nunca ser vista, podemos compreender que o indivíduo nunca é apenas um mero reflexo do todo, que a maneira como ele particulariza uma série de fatores o torna único e desconhecido.