Contato, de Carl Sagan

Esse livro me decepcionou de tal forma que resisti à ideia de escrever sobre ele. Não, não estou dizendo que o livro é ruim, e talvez seja justamente isso que me aborreça. É um ótimo livro. O começo, que nos faz conhecer a protagonista Ellie, solitária por ser uma mulher com uma enorme inteligência matemática, é apaixonante. A história, caso alguém não tenha visto o filme, é muito boa: Ellie trabalha num centro responsável por captar ondas de rádio vindas do espaço, em busca de padrões que demonstrem vida inteligente. E finalmente encontram. Como é justo pensar, essa vida inteligente e a linguagem utilizada não seriam a nossa, então existe um problema científico de destrinchar esses sinais, de pensar no que significa, quais suas consequências, coisa que Carl Sagan faz como ninguém. E há fascinantes descrições sobre o espaço, como esta:

A algumas centenas de quilômetros de altitude, a Terra enche metade do céu, e a faixa de azul que se estende de Mindanao a Bombaim, e que a vista discerne num único olhar, é de uma beleza estonteante. Minha terra, você pensa. Minha Terra. Esse é o meu mundo. É a ele que eu pertenço. Todas as pessoas que conheço, todas as-pessoas de quem já ouvi falar, cresceram aí, sob aquele azul implacável e lindo.

Você corre de horizonte a horizonte, em direção a leste, de alvorecer a alvorecer, circundando o planeta em uma hora e meia. Depois de algum tempo, passa a conhecê-lo, estuda suas idiossincrasias e anomalias. Pode-se ver tanta coisa a olho nu! Em breve a Flórida aparecerá outra vez. Por acaso, aquela tempestade tropical que você viu na última órbita, rodopiando e correndo pelo Caribe, já alcançou Fort Lauderdale? Estarão algumas das montanhas do Hindu Kuch livre de neve este verão? Você admira os recifes do mar de Coral. Contempla as geleiras da parte ocidental da Antártida e imagina se seu desaparecimento realmente inundaria todas as cidades litorâneas do planeta.

De dia, é difícil vislumbrar qualquer sinal dos habitantes. À noite, porém, tudo que você vê, com exceção da aurora polar, se deve aos seres humanos. Aquela faixa de luz é a costa leste dos Estados Unidos, um clarão contínuo de Boston até Washington. Do outro lado do mundo, vê-se a queima de gás natural na Líbia. As luzes ofuscantes da frota camaroneira do Japão movem-se na direção do mar da China Meridional. A cada órbita, a Terra conta novas histórias. Você avista uma erupção vulcânica em Kamtchatka, uma tempestade de areia proveniente do Saara aproximando-se do Brasil, uma excepcional queda de temperatura na Nova Zelândia. Você passa a pensar na Terra como um organismo, uma coisa viva. Passa a se preocupar com ela, a lhe querer bem. As fronteiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou os trópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. O planeta é real. (p.270-271)

O meu problema com o livro é que ele é mal acabado. Li em algum lugar (desculpe não te referenciar, realmente não lembro onde foi) que os autores americanos escrevem livros tão grandes porque ganham por página. Contato poderia cortar umas duzentas sem fazer a menor falta. Há personagens inteiros inúteis, conversas sem fim que não levam a lugar nenhum, descrições e descrições de coisas sem qualquer importância. Da metade pro final o livro se arrasta. Até mesmo o par romântico de Ellie some da história sem que seja dada a menor explicação sobre o que aconteceu. E o fim do livro, com surpresinha, tampouco me caiu bem. Muito melhor foi a abordagem dada no filme. Sempre fui da teoria “o livro é melhor”, mas desta vez terei que mudar de ideia.

Coisas frágeis, de Neil Gaiman

Fico dividida em escrever sobre Coisas frágeis. Peguei por causa do autor, que dispensa apresentações quando o assunto é HQ. Uma amiga havia me enviado a versão dele do conto da Bela Adormecida, que é tão terrível quanto definitiva, a melhor versão que eu já li. Então, a minha expectativa era alta ao pegar esse livro. São, como definiu o próprio autor, uma reunião de contos bastante diferentes. Mudam a forma de narrar, os personagens e os temas.

Ela tem o sonho de novo naquela noite.

No sonho, ela está de pé, com seus irmãos e sua irmã, à margem do campo de batalha. É verão, e a grama tem um tom peculiarmente viçoso de verdade: um verde saudável, como um campo de críquete ou a encosta convidativa dos South Downs, para o norte, vindo do litoral. Há cadáveres na grama. Nenhum deles é humano: ela pode ver um centauro, com a garganta cortada, no chão, ali perto. A metade cavalo é de um castanho vivo. Sua pele humana está torrada pelo sol. Ela olha fixamente para o pênis do cavalo, pensando nos centauros se acasalando, e imagina um beijo daquele rosto barbado. Seus olhos correm para a garganta cortada e a poça vermelho-escura ao redor, e ela sente um calafrio.

Moscas voam em volta dos corpos.

As flores silvestres misturam-se à grama. Desabrocharam de ontem pela primeira vez em… quanto tempo? Cem anos? Mil? Cem mil? Ela não sabe.

Tudo isto era neve, ela pensa, olhando para o campo de batalha.

Ontem, tudo isso era neve. Sempre inverno e nunca Natal.

O problema de Susan, p.96

Como dizer? Por ser um autor bastante badalado numa área que não é propriamente a dele, dizer que o livro é ruim parece ser o prazer de ser do contra, de fustigar os fãs e demonstrar uma certa mágoa do espaço e publicidade pelo nome famoso. É dizer: se fosse desconhecido, quem sabe nem fosse publicado, e se publicado, certamente não seria um sucesso. Não serei radical a ponto de dizer que o livro é ruim, porque não é. Ao mesmo tempo, realmente não consigo compartilhar do entusiasmo dos fãs. As histórias são imaginativas, bastante visuais, com uma dose de fantasia meio terror, omissões e interrupções bruscas que deixam as conclusões no ar. Mas pra qualquer um dos recursos utilizados, consigo pensar meia dúzia de autores que fazem ou fizeram muito melhor. Há histórias mais bem acabadas, há surpresas mais surpreendentes, há interrupções, etc. Enfim, é bem feito mas não me conquistou. Mas acho que seria um bom livro para leitores não-aficionados.

Outro Paul Auster

Embalada pelo livro anterior, li Desvarios do Brooklyn. Como dá pra perceber, nem me animo a escrever uma crítica. Não há um único trecho digno de nota. O livro é bem escrito; a história do homem sem perspectivas que se muda pro bairro e lá encontra seu jovem sobrinho também sem perspectivas promete. Mas aí, muito antes do livro realmente terminar, as coisas se resolvem de maneira mágica e fofa, tais como filmes americanos. Assim como me recuso a ir pro cinema pra ver filmes assim, e espero que eles passem na TV, Desvarios do Brooklyn também só vale a leitura se você não tiver nada melhor para ler e quiser descansar a mente.

Uma desistência – O mal de Montano

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Em fins do século 20, o jovem Montano, que acabava de publicar seu perigoso romance sobre o enigmático caso dos escritores que renunciam a escrever, foi apanhado nas redes de sua própria ficção, apesar de sua tendência compulsiva à escrita, e converteu-se num escritor totalmente bloqueado, paralisado, ágrafo trágico.

Em fins do século 20 – hoje, 15 de novembro de 2000, para ser mais preciso – , visitei-o em sua casa de Nantes e, tal como esperava, encontrei-o tão triste e tão seco que bem se poderia aplicar a Montano uns versos de Pushkin e dele dizer que “vive errando/ na penumbra dos bosques/ com o romance perigoso”.

O efeito positivo, no caso, é que para meu filho – porque Montano é meu filho – errar na penumbra dos bosques levou-o a recuperar uma certa paixão pela leitura, e disso me beneficiei eu, que não faz muito, e por sua recomendação, li Prosa da própria fronteira, o romance que acaba de publicar Julio Arward, este peculiar escritor em quem nunca me fiara demais, por considerar que ele simplesmente brincava de ser o duplo do romancista Justo Navarro.

p.13

Embora isso seja claramente uma idealização, gosto de pensar numa escrita que, de tão boa, não exija do leitor mais do que o básico. Não gosto da ideia de pré-requisitos, de que para enfrentar certas obras é preciso ter atrás de si obras fundamentais e uma intimidade de décadas com a escrita. É uma idealização, eu sei. Todas as formas de arte acabam criando seu público e apenas a repetição, o repertório e o conhecimento, tornam seus admiradores capazes de entender certas sutilezas. Mas gosto de pensar que o leitor mais experimentado é capaz de entender as sutilezas e as dificuldades de um grande romance, enquanto o leitor menos experimentado passará ao largo delas, mas sem deixar de se fascinar. Gosto de pensar no poder da escrita, no poder de assombrar e interessar mesmo aqueles que sabem pouco sobre ela.

Por isso, de cara, já não gostei da maneira como começa O Mal de Montano. Cheguei até a metade do livro apenas porque me obriguei, por querer conhecer um importante autor contemporâneo. Os primeiros parágrafos, acima transcritos, mostram: o livro começa com tantas citações que o leitor já se sente perdendo algo. Era uma festa privê para os muito cultos e ninguém me avisou? Para quem conhece todos os livros, autores e biografias citadas, deve ser interessante, uma festa; já eu senti que não faço parte do grupinho de amigos de Vila-Matas. A doença do mal de Montano é o mal do excesso de amor pela literatura, que leva a enxergar o mundo como uma grande narrativa, onde memória pessoal e de livros se misturam, e onde a vida está tão cheia de citações que a pessoa se torna um dicionário ambulante delas. Como proposta, achei interessante. Só que daí exigir que para gostar um livro o leitor precisa ser também muito aficionado em literatura, ter uma referência básica de autores e ter, também, certas pretensões como escritor, me parece um pouco demais.

Mesmo assim, vá lá, eu fui em frente. Gostei da primeira parte, da relação com Montano e seu bloqueio. Achei a segunda parte interessante, como um livro que explica a própria feitura do livro, contando os elementos que levaram o autor fictício da segunda parte a escrever a primeira parte. Só que o caminho percorrido se torna cada vez mais tedioso. Agora sou eu que declaro: que um autor exija dos seus leitores, que cite, que se referencie, que discorra, tudo é permitido. Mas que não seja chato. Podem me chamar de ignorante, podem me acusar de não ter apreciado um livro premiado de um autor famoso, podem dizer o que quiser – mas eu duvido que alguém seja capaz de se declarar apaixonado pelo livro. Ele não conquista, não emociona, não cria empatia. O narrador vai, volta, bebe, conversa com as pessoas, pensa, solta algumas baforadas sobre o ato de escrever. E nada disso fica, nada entusiasma. Quando me dei conta que não estava nem aí pra que direção a história tomaria, larguei mão. Meu mal de Montano me diz que todo livro precisa, no mínimo, despertar curiosidade sobre o seu final.

Desistências

O blog está às moscas, eu sei. É que me envolver demais com dança me deixa agitada e não consigo ler. Só tenho me mantido fiel ao Nêmesis, porque é um livro que leio num momento muito específico – e porque Asimov é aquilo de sempre. Tendo em vista que não estou num momento muito literário, talvez tenha feito umas escolhas meio injustas: parei de ler O diabo e outras histórias. Acho que não me afino com Tolstói. Li o primeiro conto e achei intolerante e moralista. Não que um autor não possa escolher um lado, mas que seja mais sutil, que pelo menos tente ter alguma empatia. Peguei também Sargento Getúlio, porque adoro João Ubaldo, e estou pra desistir a qualquer momento. Achei o início interessante, e me lembrou bastante Grande Sertão: Veredas pelo uso da linguagem popular. Mas Riobaldo não é só linguagem, ele tem uma doçura que conquista o leitor rapidamente. No Sargento Getúlio a tal linguagem está me parecendo pura masturbação literária, não gostei.

Pode ser só injustiça minha. Mas a vida é curta e os livros são muitos, então vou em frente.