Vida em outros universos

Meu contato com a ficção científica sempre se deu principalmente via Asimov, que nunca me pareceu um escritor que gostasse da escrita. Quando digo gostar da escrita, falo do prazer (ou necessidade) que o escritor tem de combinar as palavras de maneira a se expressar da maneira mais bela, perfeita e/ou precisa. Asimov sempre me pareceu ter muitas histórias para contar, e infelizmente o único meio possível para transmiti-las era esse, escrever. Se ele pudesse, nos transmitiria as ideias via USB. Nenhum parágrafo dele me parece ser escrito com ou para dar prazer, apenas para comunicar. E quando não está contando fatos e se vê obrigado a colocar um pouco de subjetividade – como no caso das cenas de sexo -, Asimov fica claramente ruim.

Por causa de Asimov fiquei com a impressão de que escritores de ficção científica não são capazes de escrever com beleza. Estava enganada. Olha que belo prefácio tem o livro 2011: uma odisseia no espaço:

Por detrás de cada homem vivo hoje estão trinta fantasmas, pois essa é a proporção pelo qual os mortos superam os vivos. Desde a aurora do tempo, aproximadamente cem bilhões de seres humanos já caminharam sobre o planeta terra.

Ora, esse é um número interessante, pois, por uma curiosa coincidência, existem aproximadamente cem bilhões de estrelas em nosso Universo local, a Via Láctea. Então, para cada homem que já viveu, brilha uma estrela nesse Universo.

Mas cada uma dessas estrelas é um sol, muitas vezes bem mais brilhante e glorioso do que a pequenina estrela próxima que, para nós, é o Sol. E muitos – talvez a maioria – desses sóis alienígenas têm planetas girando ao redor deles. Então, quase certamente existe Terra suficiente no céu para dar a cada membro da espécie humana, desde o primeiro homem-macaco, seu próprio paraíso – ou inferno – do tamanho de um mundo.

Quantos desses paraísos ou infernos em potencial são hoje habitados, e por quais espécies de criaturas, não temos como saber. O mais próximo fica um milhão de vezes mais distante do que Marte ou Vênus, estes objetivos ainda remotos da próxima geração. Mas as barreiras da distância estão desmoronando; um dia encontraremos nossos iguais, ou nossos senhores, entre as estrelas.

Os homens têm levado muito tempo para encarar essa perspectiva; alguns ainda esperam que ela jamais venha a se tornar realidade. Cada vez mais pessoas, entretanto, estão se perguntando: ” Por que esses encontros ainda não aconteceram, já que nós mesmos estamos prestes a nos aventurar no espaço?”

Realmente, por que não? Eis aqui uma possível resposta a essa pergunta muito sensata. Mas, por favor, lembrem-se: esta é apenas uma obra de ficção.

A realidade, como sempre, será muito mais estranha.

Arthur C. Clark

Meu primeiro Borges

Tenho um certo problema com alguns livros, geralmente os muito bons e de autores consagrados: não tenho a menor vontade de escrever sobre eles. De um lado porque não gosto da idéia de bater na mesma tecla, de me juntar à fileira dos muitos elogios. De outro, fico com receio de falar besteira. Na internet tem muita crítica profunda, inteligente e abalizada – e esse número à enésima potência de besteiras. Minha humilde contribuição para uma internet menos pior é tentar não aumentar esse número tão grande. Parafraseando Romário, eu sem publicar nada seria uma poeta.

Desse modo, eu estava determinada a fingir que não terminei o meu primeiro Borges – O aleph. Não era para ser o primeiro. Tenho na minha diminuta (por opção) biblioteca pessoal Ficções, que ensaiei ler algumas vezes. Antes de escrever isso aqui, peguei o livro para ver onde tinha parado e foi no fim do Prefácio. Veja que complicada a obra, nem passei do prefácio. E o prefácio não é nem tão longo. Lembro que esse prefácio me cansou tanto, me deixou tão confusa e tão reverente à obra de Borges que fiquei desestimulada a atacar o livro propriamente dito. Em todos os lugares é assim: análises complicadas e reverentes, elogios rasgados, invejas e comparações onde outros autores sempre saem perdendo quando comparados com Borges. Já que tinha que vestir e me armar com as armas de São Jorge antes de ler um simples livro, deixava sempre para depois.

Encontrar sem querer uma edição novinha na biblioteca me fez decidir enfrentar a fera, e fiquei totalmente encantada pela primeira história do AlephO imortal. Não era possível que tão poucas páginas pudessem conter uma reflexão tão profunda sobre o que significa a morte e o tempo. Terminei O imortal com a impressão de que não precisaria ler mais nada. Aí avancei mais no livro e começaram a aparecer citações escolásticas, lendas, guerras, geografias e detalhes. Resultado: travei. Lembrei dos muitos Borges que citaram no meu caminho, senti aflorar meu complexo de inferioridade. Eu não sou a leitora que deveria ser. Em algum lugar do caminho intelectual a qual eu estava destinada, eu falhei. Sim, eu falhei. Sou experimentada demais pra me deixar seduzir por Cinquenta tons, mas não tenho a avidez e a paciência para ler Ulisses. Gosto de ler, mas também gosto de ver vídeos de gatinhos, acompanhar séries americanas e comer pão com manteiga; se eu começo um livro e a coisa se repete, ou não sei quem está falando, porque e pra onde a coisa está indo, bocejo até lacrimejar e o abandono sem dó. Desde que comecei a abandonar livros, virei abandonadora compulsiva: conquista-me ou abandono-te. Tô nem aí se o livro é famoso.

Confessei ao Milton, meu guru literario-espiritual, que não me sentia culta o suficiente para ler Borges, que ele citava umas coisas e eu não entendi lhufas. Aí o Milton me esclareceu que é assim mesmo, que Borges cita muitas coisas, inventa outras, passa por cultíssimo e nunca sabemos direito o que é verdade ou não. Ahhhh! Então, amigo leitor, aqui está a mensagem essencial deste texto: leia Borges mesmo sem ser culto porque pode ser mentirinha dele. Leia com o mesmo desprendimento de uma criança, que não se importa de conhecer tudo, desde que seja bem contado. E é.

Sobre o livro em si, cada história é um universo. Tem desde momentos deliciosos como “manejava com fluidez e ignorância várias línguas”, como detalhes pitorescos, viagens fantásticas, reflexões profundas sobre o homem, seu sentido e o universo. Achei a narrativa econômica, mas não à maneira de um Dalton Trevisan; é que cada história diz coisas demais num espaço pequeno, coisas que outro autor levaria um livro inteiro para dizer. Finalmente entendi porquê tantos elogios, fiquei pequena diante da genialidade de O aleph. E nada mais direi, porque a minha intenção é justamente querer torná-lo mais próximo.

Luz em Agosto

A primeira parte do livro Luz em Agosto, de Faulkner, é como acompanhar a formação de nuvens de tempestade. Começamos o livro com a caminhada de uma mulher grávida e a história se interrompe num ponto. Depois somos apresentados a outro personagem, e depois outro, e mais outro, a ponto de você se perguntar se aquele desfile de pessoas levará à algum lugar. Até que você percebe que a trajetória de todos se une e se mistura num só acontecimento, para a história se centralizar num personagem específico – Joe. E depisi que isso acontece, o leitor não consegue abandonar o livro até descobrir o fim todos os que apresentados no início da trama.

Imagino que um dos maiores problemas ao escrever uma história seja o da empatia. Logo no início do livro, o leitor deve se apaixonar por um dos personagens principais, senão abandonará a leitura. Sem empatia, de nada adiantará lhe dar um final feliz ou exterminar toda a família do herói. Cada autor resolve esse problema de uma maneira particular. Para mim é muito claro que Dostoiévski leva pelo menos a metade do livro apenas apresentando os personagens. Ok, Crime e Castigo começa logo com o assassinato. Mas depois a história esfria. Os personagens no início dos livros de Dostoiésvki ficam muito tempo andando, esquentando as mãos nos samovares, conversando com padres, reunindo a família ou simplesmente se conhecendo. É preciso, por parte do leitor de Dostoiévski, uma certa boa vontade; vale a pena, mas a história demora pra pegar no tranco. Faulkner, ao esconder do leitor qual personagem seguiremos, cria um suspense interessante e nos envolve com cada um. Outro recurso que cumpre a mesma função é a maneira como ele mistura passado, presente e futuro durante a narrativa.

Não é um livro difícil de ler por sua linguagem e forma, embora a necessidade de traçar a genealogia de tanta gente às vezes se torne cansativo e confuso. Mas é um livro exigente, incômodo. Joe sofre muito e nós sofremos junto. É um personagem que se esforça tanto e a única coisa que consegue é manter-se vivo. Como falso-branco ou branco-negro, ele expõe um preconceito racial tão grande que chega a ser difícil de entender. É como se o sangue negro fosse a personificação do Mal. Essa hereditariedade misteriosa, essa maldade que vem de berço, funciona como um estigma e determina toda a trajetória de Joe. Ele sente necessidade de se declarar, como quem busca algum tipo de perdão; essa fraqueza o torna algoz de si mesmo, que não é capaz de pedir para os outros ignorarem o que ele mesmo recorda todo o tempo. Joe sofre de uma perseguição sem razão e sem escapatória muito pior do que a kafkiana, por ser completa e íntima.

No livro é muito clara a barreira fundamental entre um ser humano e outro, tão grande que nem ao menos é expressa. Todos os personagens de Faulkner são solitários, de uma solidão profunda, permanente e dolorida. A relação entre pais e filhos apenas coloca sobre os últimos o peso da hereditariedade e a impossibilidade de superação individual. Os que tentam apelar para a religião se tornam loucos, agressivos e – por consequencia – ainda mais solitários. A única excessão do livro é justamente a mulher grávida do início, Lena. Ela é a única que parece preservar uma certa pureza, uma crença no ser humano e uma fé tão grande que leva à duvidas sobre sua capacidade de julgamento – e no fim do livro, nos detalhes, ela mostra que sabe muito bem o que está fazendo. É com ela que o livro inicia e com ela que o livro termina, fechando o ciclo. Com isso o autor parece nos indicar que aquelas histórias foram apenas radiografias de muitas outras histórias, de sofrimentos e heróis (ou anti-heróis) anônimos que existem em todos os lugares.