Coisas frágeis, de Neil Gaiman

Fico dividida em escrever sobre Coisas frágeis. Peguei por causa do autor, que dispensa apresentações quando o assunto é HQ. Uma amiga havia me enviado a versão dele do conto da Bela Adormecida, que é tão terrível quanto definitiva, a melhor versão que eu já li. Então, a minha expectativa era alta ao pegar esse livro. São, como definiu o próprio autor, uma reunião de contos bastante diferentes. Mudam a forma de narrar, os personagens e os temas.

Ela tem o sonho de novo naquela noite.

No sonho, ela está de pé, com seus irmãos e sua irmã, à margem do campo de batalha. É verão, e a grama tem um tom peculiarmente viçoso de verdade: um verde saudável, como um campo de críquete ou a encosta convidativa dos South Downs, para o norte, vindo do litoral. Há cadáveres na grama. Nenhum deles é humano: ela pode ver um centauro, com a garganta cortada, no chão, ali perto. A metade cavalo é de um castanho vivo. Sua pele humana está torrada pelo sol. Ela olha fixamente para o pênis do cavalo, pensando nos centauros se acasalando, e imagina um beijo daquele rosto barbado. Seus olhos correm para a garganta cortada e a poça vermelho-escura ao redor, e ela sente um calafrio.

Moscas voam em volta dos corpos.

As flores silvestres misturam-se à grama. Desabrocharam de ontem pela primeira vez em… quanto tempo? Cem anos? Mil? Cem mil? Ela não sabe.

Tudo isto era neve, ela pensa, olhando para o campo de batalha.

Ontem, tudo isso era neve. Sempre inverno e nunca Natal.

O problema de Susan, p.96

Como dizer? Por ser um autor bastante badalado numa área que não é propriamente a dele, dizer que o livro é ruim parece ser o prazer de ser do contra, de fustigar os fãs e demonstrar uma certa mágoa do espaço e publicidade pelo nome famoso. É dizer: se fosse desconhecido, quem sabe nem fosse publicado, e se publicado, certamente não seria um sucesso. Não serei radical a ponto de dizer que o livro é ruim, porque não é. Ao mesmo tempo, realmente não consigo compartilhar do entusiasmo dos fãs. As histórias são imaginativas, bastante visuais, com uma dose de fantasia meio terror, omissões e interrupções bruscas que deixam as conclusões no ar. Mas pra qualquer um dos recursos utilizados, consigo pensar meia dúzia de autores que fazem ou fizeram muito melhor. Há histórias mais bem acabadas, há surpresas mais surpreendentes, há interrupções, etc. Enfim, é bem feito mas não me conquistou. Mas acho que seria um bom livro para leitores não-aficionados.