Gabriela, cravo e canela

gabriela-cravo-e-canela-jorge-amadoEu não vi nenhuma das três novelas e não vi o filme. Muito menos me interessei pela  minissérie, com Juliana Paes no papel título e Humberto Martins como Nacib. Mas eu achava que sabia tudo sobre Gabriela. Ela era Sonia Braga pendurada no telhado pra pegar uma pipa, despreocupada com a calcinha à mostra e os homens babando embaixo. Era um livro sobre uma mulher que enlouquecia os homens na machista Ilhéus. Se quisesse saber mais detalhes, bastava assistir o filme na íntegra no youtube.

Assisti uma palestra em que uma tradutora se queixava de que as pessoas não se davam mais ao trabalho de ler alguns clássicos infantis no original por causa dos desenhos da Disney. Se há uma adaptação Disney, supõe-se que já está tudo lá e a história está esgotada. E nem sempre – e ela alertou com exemplos muito interessantes do Pinóquio – o espírito da obra se mantém, tamanhas adaptações. Tenho a impressão de que Jorge Amado sofre do mesmo mal.

Muita coisa recordava ainda o velho Ilhéus de antes. Não o do tempo dos engenhos, das pobres plantações de café, dos senhores nobres, dos negros escravos, da casa ilustre dos Ávilas. Desse passado remoto sobravam apenas vagas lembranças, só mesmo o Doutor se preocupava com ele. Eram os aspectos de um passado recente, do tempo das grandes lutas pela conquista da terra. Depois que os padres jesuítas haviam trazido as primeiras mudas de cacau. Quando os homens, chegados em busca de fortuna, atiraram-se para as matas e disputaram, na boca das repetições e dos parabéluns, a posse de cada palmo de terra. Quando os Badarós, os Oliveiras, os Braz Damásio, os Teodoros das Baraúnas, outros muitos, atravessaram os caminhos, abriam picadas, à frente dos jagunços, nos encontros mortais. Quando as matas foram derrubadas e os pés de cacau plantados sobre cadáveres e sangue. Quando o caxixe reinou, a justiça posta a serviço dos interesses dos conquistadores de terra, quando cada grande árvore escondia um atirador na tocaia, esperando sua vítima. Era esse passado que ainda estava presente em detalhes da vida da cidade e nos hábitos do povo. Desaparecendo aos poucos, cedendo lugar às inovações, a recentes costumes. Mas não sem resistência, sobretudo no que se referia a hábitos, transformados pelo tempo quase em leis.

p.25

Tive com Jorge Amado o mesmo problema que tive com Virginia Woolf, após ler Orlando. Orlando para mim era um livro tão perfeito, que durante muitos anos me recusei a ler qualquer outra coisa de Woolf, acreditando que a decepção era inevitável. No caso de Jorge Amado, o livro que me deixou assim foi Dona Flor e seus dois maridos. Também demorei a ler esse livro por causa das imagens conhecidas, da Sonia Braga, da mão na bunda na saída da igreja, acompanhada de Zé Wilker nu. Eu me surpreendi, em Dona Flor, com um livro sensível, sobre amor e casamento, sobre o que é necessário e a busca pela felicidade. Um livro com uma personagem feminina forte, doce e séria, ao mesmo tempo que sensual e apaixonada. Temi encontrar em outra obra de Jorge Amado apenas uma repetição dos mesmos temas. O que eu não poderia imaginar é o quanto Gabriela vai além da sensibilidade de Dona Flor. Gabriela tem muitas tramas paralelas, todas interessantes. Além disso, nos faz conhecer até um pouco da história do Brasil, ao descrever mentalidades e costumes da época (será que apenas daquela época?)

, claro, o amor de Nacib e Gabriela. Há ali uma história de amor, a busca de um encaixe de indivíduos e expectativas diferentes. Gabriela é toda instinto, felicidade e prazer, alguém difícil de se identificar. Já Nacib é um personagem adorável; é a personificação do homem que vive e sofre as exigências da masculinidade. Como estrangeiro, e simbolicamente podemos pensar que um estrangeiro é sempre alguém fora do lugar, que não pertence por inteiro aos valores de onde está. Um lado de Nacib atende ao que se espera de um homem, com sua ambição, suas paixões e seu horror à infidelidade feminina. Por outro, o apego que ele tem às coisas simples da vida, ao comer bem e dormir, as fofocas do bar, o carinho dos amigos e, sobretudo, ao seu imenso coração, fazem de Nacib um crítico. Mesmo que não diga, ele reconhece o direito à busca da felicidade, mesmo às mulheres, e se compadece de todo aquele que sofre nessa busca. Nacib é um homem que tenta ser como se espera dele e nem sempre consegue. E é justamente esse desajuste que faz de Nacib querido e acertado. Ele consegue resolver sua situação de forma muito melhor que Jesuíno, o fazendeiro que que mata sua esposa Sinhazinha e seu amante, Osmundo, logo no início da trama.

É com essa morte que o livro começa e termina, como se a história de Jesuíno e Sinhazinha fosse madrinha do amor de Nacib e Gabriela. O contraste entre as duas histórias e a maneira como seus protagonistas as resolvem, representa um processo maior, que de certa forma é também o tema do livro: o progresso de Ilhéus. No agitado ano de 1925, de safra recorde, Ilhéus vive intensamente a mudança. Na política, ela motivada pelo embate de Mudinho Falcão e Ramiro Bastos; o primeiro buscando o progresso e o outro, pioneiro na construção de Ilhéus que luta pela manutenção do status quo. Vemos uma cidade que quer expandir seu porto, abre clubes, funda jornais, recebe artistas, realiza saraus e, ao mesmo tempo, ainda resolve as coisas com jagunços, ameaças, tiros, surras. Nas relações entre os gêneros, Malvina, a filha do coronel Melk, representa a mudança feminina, que quer mais do que os papéis que lhe são tradicionalmente reservados: esposa, que tem seus direitos e deveres ligados ao lar; concubina, sustentada por homens ricos e também devedoras a eles; e as livres e marginalizadas prostitutas. Malvina, escolarizada e inteligente, quer ser livre num sentido profundo, e não apenas à serviço do homem que a sustenta. Para resolver esse conflito, ela é obrigada a se retirar. Mas os que ficam, como Josué e Glória e o próprio casal Nacib e Gabriela, mostram que a ainda há espaço para negociação; eles se tornam pioneiros de uma maneira nova (e um pouco mais aberta) de se relacionar.

A maior riqueza do livro está, a meu ver, na maneira como somos conduzidos a acompanhar mudanças sociais profundas do ponto de vista no seu dia a dia. São personagens, pessoas comuns, que na busca pelos seus interesses, modificam o lugar onde vivem e o influenciam. Eles agem conforme suas bases culturais e os costumes que os cercam, ora cedendo, ora negociando. No fim daquele ano – ano de Gabriela, ano de Mudinho Falcão, ano do porto de Ilhéus, um ano definitivo – muitas coisas acontecem. E mesmo as que aparentemente voltaram pro seu lugar estão diferentes, mais modernas.

Porrada

Não sou uma grande noveleira. Sou do tipo que gosta de acompanhar mais pela capa das revistas de fofoca do que pelas novelas em si. Mesmo assim, me salta aos olhos o quantidade de personagens de novelas que são espancados. Há um ou outro caso de denúncia de violência contra a mulher, mas quem geralmente apanha são vilãs. E por outras mulheres, as mocinhas. O público adora e eleva muito a índice de audiência no capítulo onde a porrada é exibida. Nas novelas mais antigas, a vilã recebia um sonoro tapa, como a ambiciosa Maria de Fátima de Vale Tudo (1988-1989). Em novelas mais recentes, como Senhora do Destino (2004-2005) ou Celebridade (2o03-2004), a mocinha conta com ajuda de amigos para encurralar a vilã e bater à vontade, até saciar toda sua sede de vingança.
Imagem de Amostra do You Tube
Onde foram parar as vitórias morais – a mocinha desvenda todos os equívocos, fica ao lado do homem que ama, rica, feliz e ética? A vilã amargaria o fracasso, ou até mesmo a loucura, sem que pra isso precisasse passar pelo hospital. Isso parece ter se tornado insuficiente para o público. Depois de passar uma novela inteira perdendo tudo, queremos ver a mocinha deixar de ser tão boa e sujar as mãos; queremos um revide físico, que a vilã sofra na pele tudo o que ela fez. A bondade superior dos que apenas sofrem parece passiva demais. Mocinhas assim deixaram de ser verossímeis, esse tipo de ética não gera empatia. Quando ela parte para a porrada, mocinha e vilãs invertem seus papéis; como na vida real, bem e mal se confundem. É difícil encontrar alguém que não se identifique com as vítimas; por isso, ser capaz de revidar com violência eleva alguém à categoria de herói.
Imagem de Amostra do You Tube
Não é todo mundo que tem um inimigo para bater. Ter um vilão, alguém responsável por todos os nossos males, não deixa de ser um privilégio. Eu rezo toda noite pra ter inimigos com os do Maluf, mas ninguém nunca se deu ao trabalho de fazer um grande depósito na Suíça em meu nome. O que acontece no dia a dia é uma série de aborrecimentos que atingem a todos de maneira bastante impessoal: ter que lidar com uma burocracia cara, lenta e burra cada vez que é preciso tirar algum papel oficial; horas de espera em hospitais ou falhas no atendimento em planos de saúde, o que leva as pessoas a pagarem duas vezes por serviços ruins; longos minutos de musiquinhas ou ter que repetir várias vezes a mesma informação para serviços de telemarketing; demissões que independem da atuação do funcionário e que se devem unicamente por corte de custos e por aí vai. Ninguém se interessa, ninguém nunca é o responsável por nenhum dos nossos problemas.
Imagem de Amostra do You Tube
Quem trabalha na linha de frente com o atendimento ao público conhece bem a necessidade de descontar a raiva nos outros. Os casos de violência gratuita que estão cada vez mais comuns. Todos se sentem esmagados coletivamente. A passividade, a atitude de suportar os inconvenientes sem revidar é a atitude mais exigida do cidadão comum. Se a mocinha da novela simplesmente deixar passar, estará repetindo o que acontece o tempo todo. Novela não é apenas um pedaço de vida real, ela tem uma função de catarse. Se as vilãs agora apanham nas novelas, é porque agora o público sente uma grande vontade de bater.