Meu melhor livro – Orlando

Eu acho a leitura comparável ao vício. Existem aqueles que possuem uma blindagem natural, que podem entrar em contato com a droga mais sedutora sem se viciar. Eles entram e saem quando querem, jamais deixam que aquilo tome conta de suas vidas. Outros são frágeis, influenciáveis, e logo adquirem o status de heavy-users. Só que quando falamos de drogas no sentido mais comum do termo, existe um caminho natural e um fim. Reza o senso comum que todos começam com drogas leves, talvez até legalizadas – cigarro, álcool, cogumelos, maconha – que acostumam o organismo e são porta de entrada para coisas realmente fortes – heroína, cocaína, crack. Só que com livros – ufa, finalmente consegui chegar lá! – não existe esse caminho previsível. A cada leitura surge o problema do que ler em seguida. O leitor precisa de algo novo, algo melhor, algo diferente. Essa é a grande dificuldade de ser um heavy user. Poucos livros – apenas o inesquecíveis- ficam melhores com o tempo, poucos merecem uma releitura.

Quando entrei em contato com Orlando pela primeira vez, eu já era uma leitora rodada. Eu já havia abandonado os livros com figuras, até as pequenas. Chorar ou rir sozinha já fazia parte da minha rotina, assim como me apaixonar por pessoas que nunca existiram e achar que conheço lugares que nunca visitei. Já havia passado pelos mistérios de Agatha Christie e as cenas picantes dos Sidney Sheldon, tinha perdido a minha inocência. Enfim, já não era mais uma leitora que pergunta, antes de ler, quantas páginas o livro tem. O que viesse eu encarava, desde que fosse de qualidade, desde que desse barato.

Orlando me deu barato desde as primeiras linhas, quando ele começa o livro olhando pela janela e perde subitamente a inspiração. Logo nas primeiras linhas, num parágrafo que não acaba mais, Virginia Woolf nos apresenta toda linhagem de Orlando, seu aspecto físico, nos faz adivinhar onde vive e nos identifica com o seu caráter. Tudo é descrito de uma maneira tão leve que parece que estamos ao lado de alguém que nos sussurra ao ouvido, ou um contador de histórias, ou uma mesa farta, ou qualquer tipo de metáfora que indique algo feito com muita facilidade e prazer.

Meu amor por esse livro é tão grande que durante anos fui incapaz de ler qualquer outra coisa de Virginia Woolf, porque duvidava que ela tivesse sido capaz de repetir o feito de Orlando, que algum outro livro pudesse ser tão prazeroso de ler quanto esse, mesmo feito das mesmas mãos. Como é possível criar um lindo, nobre, vivendo séculos e passando por mais coisas do que qualquer mortal é capaz de passar, e sem com isso fazer com que o leitor o odeie pela sua extrema boa sorte? Eu já li Orlando várias vezes e em nenhuma senti que realmente conhecesse o personagem, mesmo quando ele sofre por amor, mesmo quando seus pensamentos são comparados a pratos nas mãos de um copeiro, mesmo quando foge, quando volta e finalmente…

É possível amar Orlando pela mão segura que o escreveu, que consegue traçar perfis precisos destacando as mais variadas características, que repete palavras (como na parte que fala da mão da rainha quando apresentada a Orlando) para criar um ritmo interessante na leitura, que congela e acelera o tempo, conta fatos e impressões, mistura observações deliciosas e prosaicas com coisas que calam fundo na alma do leitor. Mas é possível também amar Orlando pela história sempre inesperada, pela ingenuidade e romantismo do jovem Orlando, pelo seu contato com rainhas, com russos, com ciganos, com o outro lado do gênero, com admiradores, com puxa-sacos. São também personagens de Orlando sua linhagem, sua casa, a passagem dos anos, a Inglaterra.

Eu sou de ler muito e reler pouco, e esse é um livro que me consegue capturar sempre. Começo a ler umas linhas e quando vejo estou na página cento e alguma coisa. Saber o que vai acontecer, ao invés de tirar o meu interesse, antecipa o meu prazer e quando vejo o livro já terminou. Por falar nisso, o amor à sinceridade me faz revelar: a única escorregada nesse livro tão maravilhoso são justamente as últimas páginas, que abusam de um certo experimentalismo, digamos assim. Nunca deixo de ler, mas elas não fazem jus ao resto da obra.

Ontem, 70 anos da morte de Virginia Woolf

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultâneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu- todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. De modo é que é a cois mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, Vem! Estou moralmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo, e necessitando de outro eu) Orlando?, o Orlando de que ela necessita não vir; essses eus de que somos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe pudermos prometer um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multipilicar a sua própria experiência às diferentes condições que impões os seus diferentes eus- e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de forma.

Orlando

Eu não sabia o que era ter um autor até conhecer Virginia Woolf. O seu autor é uma escolha literária, mas também uma escolha tão inconsciente como se apaixonar. E ao mesmo tempo é constante como um parentesco. Posso gostar de muitos outros autores, mas na hora de escolher um autor e um livro, meu coração não hesita em dizer: Orlando, Virginia Woolf.