Paternidade voluntária

Já escrevi aqui falando das mães, e do quanto esse papel é pesado. A paternidade está livre de todas essas sanções. É possível para o homem ser apenas doador de esperma. A partir da concepção, ele pode sumir a qualquer momento: pode não estar presente na gravidez, pode não acompanhar o nascimento do filho, pode negar a ele seu sobrenome e direitos legais, pode sumir na infância e pro resto da vida. Mesmo para aqueles que não somem, é sempre possível ser um pai que acompanha apenas os momentos gostosos, e reserva à mãe toda a tarefa desagradável de exigir limpeza, pontualidade, lições de casa, enfim, a tarefa de transformar um filho num civilizado, num cidadão. Há um episódio do New Adventuries of Old Christinne que trata disso: o filho dela passa a semana inteira esperando pelo fim de semana, quando encontra seu pai e se diverte muito. Estar com ela era fazer as coisas chatas – mas ao mesmo tempo, era estar in home.

Sou filha de pais separados e vivi algo que infelizmente é bastante comum: pais que levam os filhos a escolherem um lado. Vivi isso na minha infância, vi na infância de outras pessoas da minha família, vejo na sobrinha do Luiz. E vejo até em casais casados há muitos anos, mas que mantém o casamento por interesses muito diferentes do amor. Como os filhos geralmente moram com a mãe, mesmo sem perceber escolhem o lado dela; eles acreditam na razão da mãe ou que a família dela possui os melhores valores. Entendo que é difícil deixar de viver com alguém e ainda sentir admiração pelo outro – ou pelo menos não deixar transparecer a raiva e o desprezo. Some-se isso à tendência dos mais jovens a verem o mundo em preto e branco, com vilões e mocinhos, e está feito: o pai é o mau, o inútil, o dispensável. Em casos assim, há a tendência a passar um vida inteira de mágoa e acusação com o pai, para apenas na idade adulta conseguir ver as coisas em perspectiva. Depois, lamenta-se tantos anos de equívocos e afastamento. Acho tão triste, porque fiz com o meu e não consigo evitar que façam com os pais dos outros. Levar uma vida para entender o pai parece ser um caminho inevitável para muitos. Existe até um termo técnico para isso: síndrome da alienação parental.

É fácil se afastar sendo pai, é fácil afastar a figura do pai. Justamente por essas facilidades a paternidade assumida se torna tão bonita. Eles não precisam e podem não ser tantos quanto gostaríamos, mas existem sim pais que fazem de tudo para estar com os filhos. Pais completamente babões, apaixonados, que planejam suas vidas de maneira a estarem presentes o máximo possível. Um dia estava no ônibus e senti lagrimas saltarem aos olhos ao ver o pai com um filho – o menino, bastante desajeitado, fazia questão de sentar sozinho no banco que ainda era alto pra ele. O pai o acompanhou com olhos amorosos, e teve cuidado de deixar o menino se virar sozinho. Esse pai me fez lembrar de todo o imaginário que cerca esse papel, da mãe com suas asas quentinhas e o pai que prepara para o mundo. É um alívio uma mulher não ter que assumir tudo, e é muito bonito quando um homem se dispõe a ser essa figura.