O Mago

A leitura de O Mago fez com que eu me lembrasse de uma conversa que tive com uma amiga, fã de Van Gogh. De acordo com ela, era característico dos gênios sempre serem desajustados, diferentes, desequilibrados ou radicais. A sua genialidade vinha justamente disso, era a sua distância das pessoas comuns, a violência dos seus desejos que tornava suas expressões mais tocantes e verdadeiras. Argumentei contra, dizendo que essa idéia de genialidade era uma construção histórica relativamente recente. Citei exemplos grandes artistas que tiveram vidas comuns, recomendei a leitura de Mozart: a sociologia de um gênio e nada a convencia. Mais: pelo seu olhar, percebi que ela achou que eu defendendo esse ponto de vista em causa própria, que pretendia eu mesma – uma simples dona-de-casa certinha com um blog – me considerar gênia. Se minha amiga está certa, se a genialidade é reflexo do desajuste, O Mago não leva a outra conclusão possível senão esta: Paulo Coelho é um gênio.

Eu sentia o cheio do Anjo me rondando, a respiração do Anjo, o desejo do Anjo de levar alguém. Fiquei em silêncio e em silêncio perguntei o que ele queria. Ele me disse que tinha sido chamado e precisava levar alguém, prestar conta de seus serviços. Então peguei uma faca de cozinha, pulei o muro que dava para um terreno baldio, onde os favelados criavam cabras soltas, peguei uma delas e abri sua garganta de uma ponta à outra. O sangue esguichou alto, passando sobre o muro e respingando até nas paredes da minha casa. Mas o Anjo partiu satisfeito. Desde então tive certeza que jamais tentaria suicídio de novo.

p.137

Ler qualquer coisa escrita por Fernando Morais é garantia de um livro muito interessante e bem feito. Neste caso, o autor teve a sorte (ou a má sorte) de se dedicar à biografia de alguém que se deu ao trabalho (ou à megalomania) de anotar tudo o que fazia durante quarenta anos e guardar esses registros. O livro é recheado de momentos que “apesar de tudo estar indo bem”, Paulo Coelho continuava insatisfeito e “escreveu quase quinhentas páginas de diário”, sempre com a mesma queixa: estar longe do seu sonho de se tornar um grande escritor. A ironia é que ele se queixava muito e nunca se colocava de uma vez em frente à maquina para escrever. Durante toda sua vida, Paulo Coelho começou muitos projetos, ganhou dinheiro com quase todos eles, dormiu com mais mulheres do que parece ser possível contar, viajou de mochila e com drogas, deu trabalho aos seus pais e leu. Apesar de péssimo aluno, ele sempre leu muito. Bagagem cultural é o que nunca lhe faltou.

– Eu saí de casa para morrer.

A reação de Paulo foi surpreendente. Com ar grave, para que não restassem dúvidas de que falava sério, respondeu na hora:

– Estou muito chateado por ter interrompido tão importante processo. Se você decidiu morrer, vá em frente e se suicide.

Mas ela havia perdido a coragem. Na terceira noite seguida passada em claro, Gisa só abriu a boca para chorar, e ele não parou de falar um segundo. Explicou didaticamente que ela não tinha saída: depois de convocado à Terra, o Anjo da Morte só retornava levando uma alma. Contou que não adiantava recuar, porque o Anjo iria persegui-la eternamente, e mesmo que ela não quisesse mais morrer, ele poderia matá-la depois, por atropelamento, por exemplo. Lembrou do seu enfrentamento com o Anjo, na adolescência, quando teve que degolar uma cabra para não entregar a própria vida. A saída era essa, enfrentar o Anjo:

– Você precisa desafiá-lo. Faça o que combinou: tente se suicidar mas torça para escapar com vida.

p. 276-277

Eu não sei nem definir o que lhe faltava: juízo, persistência, disciplina, caráter? A vida dele é uma das mais interessantes e ricas que eu já conheci, só que não se parece em nada do que se espera de um mago. Tenho muita curiosidade em saber que impacto essa biografia teve nos fãs, nos que viam nele um guru. Pelo que conheço dos místicos (falo como pessoa criada no meio), já seria bastante difícil engolir sua liberalidade sexual, sua covardia junto àqueles que o amavam, sua relação com dinheiro e a exploração dos outros em benefício próprio. Quem sonha em ter contato com mestres acredita em méritos, atuais e pregressos, e nada na trajetória do Paulo Coelho parece apontar para isso. E mesmo quando finalmente encontra seu mestre e se purifica, não vemos um Paulo Coelho santificado, tão diferente assim do que sempre foi. De tudo o que eu li, o que mais me surpreendeu foi:

Em bom português, Liano ia escrever metade do livro e editá-lo inteiro, e apareceria apenas como produtor (e ainda assim nas páginas internas). E conforme um adendo final proposto por Paulo, receberia apenas 5 por cento dos direitos autorais (isto é, 0,5 por cento do preço de capa do Manual Prático do Vampirismo), ficando os 95 por cento restante com o parceiro. Como se antevisse ali uma galinha que ainda lhe daria muitos ovos de ouro, Mandarino aceitou pacientemente as exigências do novato metido – e como Liano também não apresentou objeção, assinar o contrato uma semana depois do primeiro encontro. No prazo marcado, porém, só Liano entregou seus capítulos. Alegando excesso de trabalho na Shogun, Paulo não tinha escrito uma única sílaba da parte que lhe cabia. À medida que o tempo passava, as cobranças do parceiro e do editor Mandarino se tornaram diárias, mas o texto não saía. Só depois de muita pressão e de ver todos os prazos estourados é que ele afinal entregou seu texto à Eco. Na última hora, talvez arrependido da injustiça que cometera com o parceiro, autorizou a inclusão do nome de Liano na capa – ainda que em corpo pequeno, como se ele não fosse o co-autor, e sim um coadjuvante.

(….) Certamente nenhum daqueles convidados que circulavam pelo lobby do Glória bebericando vinho e sobraçando exemplares do livro recém-autografado sabia que, embora seu nome aparecesse na capa com muito mais destaque que o de Liano, Paulo não escrevera uma só palavra, uma única sílaba das 144 páginas do Manual. O autor jamais revelaria que, pressionado pelos prazos e sem ânimo para cumprir o prometido, resolveu contratar secretamente alguém para realizar a sua parte.

p. 444-446

Fernando Morais se abstém de julgar o quão verdadeiro é o contato de Paulo Coelho com anjos, ordens misteriosas e poderes mágicos. Depois que ele alcança o sucesso, o livro passa a descrever os números cada vez mais astronômicos de suas vendas, suas batalhas cada vez maiores, a vida de celebridade numa escala que é até difícil de entender. Para mim, que li durante a minha adolescência O diário de um mago e O alquimista e me senti tocada por ambos, me parece ainda mais coerente quando ele diz para perseguir seus sonhos e que o universo conspira a seu favor. Com ele deu certo, muito certo. Difícil é entender o porquê.

Ler era mais simples

Posso dizer que ano passado me converti ao calvinismo – não o calvinismo religião, e sim que passei a ser fã de Ítalo Calvino. Depois das Cosmicômicas e Cidades Invisíveis decidi deixar o blog em paz e parar de escrever sempre sobre ele – o que não significa que deixei de ler. Li Barão entre as árvores, Visconde partido ao meio e estou nas Fábulas Italianas. Teria pouco a dizer sobre esses livros sem ser repetitiva: que Ítalo Calvino é genial, que cada livro dele é um deleite, que sua imaginação parece não ter limites e que tudo é muito dinâmico e prazeroso. A leitura dele me faz sentir algo que há muito não sentia, que é o entusiasmo e a certeza de que o próximo livro será bom. Porque ser leitor não é fácil. A cada livro que eu termino um problema se inicia.

Eu lembro a maravilha que era na minha época de Coleção Vagalume, quando todos os livros valiam a pena. Uns valiam mais do que outros, mas eu sempre os terminava. O que me chamava atenção eram as histórias. Se eram imaginativas, o livro era bom. Mesmo quando ruins, quaisquer livros valiam a pena e garantiam muitas horas de privacidade e de prazer. Isso sem falar do conforto de uma série inteira para vasculhar e não ter que me preocupar de não ter o que ler. Eu pensava que leria a série toda e foi justamente quando seus livros não me agradaram mais é que o problema começou: qual o meu próximo livro? Passei a precisar vasculhar estantes, ir atrás de obras e autores clássicos, descobrir gêneros, estar atenta à indicações e tantos outros segredos para farejar um bom livro que uso até hoje.

Ao contrário da maioria, não condeno que lê Paulo Coelho ou os tons de cinza. Acho que é a semelhante à condenação que antigamente havia com quem lia quadrinhos. Hoje há todo uma cultura HQ e alguns quadrinhos são verdadeiras obras de arte; quando eu era pequena, entendia-se que quem lia quadrinho nunca conseguia evoluir como leitor, que aquilo era subcultura. Bobagem, coisa de quem não acredita no prazer de ler. Tem até a história de um amigo, que tinha um pai que era contra histórias em quadrinhos. Então quando a gente começa a citar Recruta Zero, Turma da Mônica, Tio Patinhas, Riquinho e outros, ele não sabe de nada. O que meu amigo leu na infância foi A vida dos grandes estadistas, isso sim leitura que forma o caráter de uma criança.

Italo Calvino me dá essa segurança do livro bom. Esse recurso de gostar de um autor e ler tudo dele nem sempre funciona. Depois do Insustentável leveza do ser, achei que me tornaria fã do Milan Kundera. Li mais uns dois livros dele, também bem escritos, mas nada marcante. Também tentei seguir Isabel Allende, por causa do indiscutível Casa dos Espíritos. Ela realmente sabe contar histórias, mas ler dois livros seguidos sobre a família dela (O plano infinito e Paula) me deixou meio decepcionada e me perguntei se não era melhor ela abandonar essa prática de publicar um livro por ano. E por aí vai. No geral, não suporto ler muitos livros seguidos do mesmo autor. Começa a ficar repetitivo e perdemos a dimensão da sua grandeza. Por isso eu deixei um pouco de lado alguns grandes autores, cuja obra ainda quero devorar – Capote, Faulkner, Garcia Marquez, Bellow, Woolf – apenas para retomá-los sem a interferência da obra anterior.

Ler demais nos torna gourmets, nos torna chatos, nos torna exigentes. É a diferença entre provar um doce pela primeira vez e já conhecer todos os doces do mundo. Se um dia meu critério foi que a história fosse imaginativa, hoje quero personagens bens construídos, narrativa coerente, estilo próprio, ritmo, imprevisibilidade, contexto histórico… Pra piorar, além de ler, eu escrevo. Não o suficiente pra ter escrito qualquer coisa que sobreviva à sua postagem, mas o suficiente para apontar o dedo para a lua e achar que posso alguma coisa. Fico feliz em ter o Ítalo Calvino para saciar um pouco o meu vício. Ele resolveu o meu problema, por enquanto.

Best Sellers

Eu cresci numa casa cheia de livros, e não era raro que eu ouvisse o termo Best Sellers – livros que estavam há semanas na lista dos Best Sellers, um livro que era um Best Seller. Claro que eu não sabia o que queria dizer em inglês. Achei que aquilo era algum tipo de prêmio literário, um atestado de qualidade. Fiquei muito decepcionada quando soube que significava apenas Mais Vendido. Então era só isso? O livro que mais pessoas compraram, sem nenhum outro mistério? Nem ao menos delimita um padrão de escrita ; o mais vendido não quer dizer o melhor, o mais inovador. Alguns, que se vêem como verdadeiros gourmets literários, já diriam o seguinte: se é tão popular, sinal de que não é bom.

Paulo Coelho é um caso clássico. Dá para listar em ordem alfabética, cronológica e de importância centenas de autores mais inovadores, com narrativas mais interessantes, personagens mais bens construídos, nacionais ou estrangeiros, contemporâneos ou de várias épocas melhores do que ele. Dependendo que quem você conheça ou leia, de repente até o seu amigo Zé pode ser melhor do que o Paulo Coelho em um ou vários aspectos – o que não muda nada o fato dele ser o Zé e o Paulo Coelho um escritor mundialmente famoso. Pouco importa que Paulo Coelho não seja tão original, que muitas histórias sejam claramente inspiradas em parábolas orientais e só não pagam direitos autorais porque não existe direito autoral para parábola. Paulo Coelho é um dos que levam os críticos nacionais (porque ninguém diria isso lá fora) a confirmarem a idéia de que o segredo do best seller é sua mediocridade.

É só pensar um pouco pra perceber que isso não é verdade. Muitos best sellers preenchem todos os requisitos da boa literatura. Assim como existem livros bem feitos e originais que nunca passarão de poucas edições. Me parece que best sellers são fenômenos meio desconhecidos, uma surpresa, um talento. O que percebi na minha curta vida de pessoa que escreve é que é muito difícil acertar o coração do leitor. Existe uma sintonia fina entre o que é escrito e o que o público está desejoso para ler. Seja genial demais e é possível que isso soe falso, pedante. Fale apenas o trivial e é possível que ninguém se dê ao trabalho de avançar pelas linhas. Também é possível que você fale a coisa certa para o público certo, e simplesmente não seja marcante. Por isso que eu acredito que o best seller nunca é um equívoco, por mais que nos critérios gourmets possa parecer que sim.