Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.

Dois insights sobre a fama

Mozart morreu com a certeza de que tinha sido um fracasso, porque sua música não fazia sucesso no círculo que ele esperava que fizesse, a corte de Viena. Enquanto isso, em outras cidades da Europa, suas óperas alcançavam sucesso e se tivesse vivido um pouco mais, possivelmente Mozart teria sido aclamado ainda em vida. O que me parece interessante nessa história é perceber que a noção de sucesso e fama não existe de maneira absoluta; ela está ligada, principalmente, ao reconhecimento dos que nos estão próximos, ou daqueles cuja opinião valorizamos (que nem sempre são o mesmo grupo). É possível alegar que hoje, com a internet e a televisão, as coisas tenham mudado e a repercurssão nesses meios mostre a verdade. Quando lembro da surpresa da Amy Winehouse ao receber o Grammy, não me parece que as coisas sejam assim tão claras.Imagem de Amostra do You Tube

O vídeo mostra a performance toda do Grammy. A partir do minuto 5:49, o anúncio do prêmio e a reação de Amy.
Pesquisas, cópias vendidas, referências no Google e todos os outros dados são apenas números. A percepção que cada um tem do seu reconhecimento é dado pelas pessoas que lhe são próximas. Uma possível fama num país distante, com pessoas que nunca vistas, é muito abstrata. Lucélia Santos, graças à primeira versão da novela Escrava Isaura, era muito conhecida na China e aqui ninguém ficou sabendo. Apesar de tantas mudanças, se sentir famoso ainda é o calor do contato humano, é ser reconhecido nas ruas e dar autógrafos. É possível que se sinta mais famoso alguém conhecido na sua cidadezinha do que um autor ou um blogueiro com muitos leitores que jamais conhecerá.
Depois de um vídeo aparecer no Te dou um dado, Lucas Celebridade realmente se tornou uma celebridade, pelo menos nos meios virtuais. Esse video gerou um vaquinha que reformou a casa dele.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a entrevista do cantor Lobão ao portal UOL. Como era um programa ao vivo, para manter a interatividade, o entrevistador Mauricio Stycer a todo instante lia mensagens dirigidas ao cantor. Todas faziam referência ao fato dele ser “muito loco”, “surtado” e coisas desse teor. O próprio cantor se irrita com isso. Então ele declara (37:08): “Você não consegue ter uma interlocução. O cara que te detesta, ele não entende porra nenhuma. Geralmente o cara que te gosta, te gosta pelo motivo mais equivocado do mundo. Então não há forma de solidão mais cruel do que estar no meio desse tiroteio.“. Ser famoso, nesse sentido, é ser também muito desconhecido. Ter o nome e o rosto reconhecido não quer dizer que as pessoas têm noção do que você faz, ter fãs não quer dizer que eles saibam realmente quem você é. Conheço uma frase, atribuida a várias pessoas diferentes – ou seja, a frase se tornou mais famosa que seu dono – que diz que a fama é uma série de equívocos em torno do nome de alguém.