O Tambor, de Günter Grass

A primeira parte deste livro é de passar vergonha por gargalhar sozinho em público, foi uma das coisas mais engraçadas que li na minha vida. Só por ela, pela construção de um personagem trancado no hospício e megalômano que conta uma história tão extraordinária sobre si mesmo e a sua família – a avó com saias cor de batata sobrepostas, o avô incendiário, as partidas de skat entre a mãe, o marido e o “pai presuntivo”, os vizinhos, as aventuras sexuais de todos eles – já fariam O Tambor valer a leitura. E que delícia de prosa!

Poderia tê-lo detido com um chamado ou com um rufor do tambor que trazia comigo. Sentia-o debaixo do meu sobretudo. Bastava abrir um botão e ele teria emergido para o ar glacial. Levando as mãos os bolsos do abrigo estaria de posse das baquetas. São Huberto, o caçador, não disparou quando já tinha na mira do tiro aquele cervo singular. Saulo converteu-se em Paulo. Átila deu meia-volta quando o Papa Leão levantou o dedo com o anel. Mas eu disparei, e não me converti e nem dei meia-volta, me mantive caçador, me mantive Oskar, procurando ir até o final: não me desabotoei, não deixei que meu tambor saísse ao ar glacial, não cruzei minhas baquetas sobre a branca e nívea lâmina de lata, nem permiti que a noite de janeiro se convertesse em noite de tambor, mas gritei em silêncio, gritei como gritam talvez as estrelas ou os peixes nas profundezas; gritei primeiro ao céu, para que deixasse cair neve fresca, e logo ao vidro: ao vidro espesso, ao vidro caro, ao vidro barato, ao vidro transparente, ao vidro que dividia em dois mundos, ao vidro místico e virginal; enderecei meu grito ao vidro da vitrine, entre Jan Bronski e o colar, fazendo um corte na medida da mão de Jan, que eu conhecia bem, e deixei que o recorte circular de vidro resvalasse como se fosse uma tampa: como se fosse a porta do céu e do infinito. E Jan não estremeceu, mas deixou que sua mão enluvada emergisse do bolso do abrigo e penetrasse no céu; a luva abandonou o inferno e tirou do céu um colar cujos rubis teriam convindo a todos os anjos, inclusive os decaídos; e fez com que a mão cheia de rubis e de couro voltasse ao bolso; e ele continuava ali, diante da vitrine aberta, ainda que fosse perigoso e já não sangrassem ali os rubis que imporiam a seu olhar ou ao de Parsifal uma direção imutável. (p.155-156)

Mas ele vai avançando nas datas, avisando que aquilo aconteceu em 35, 36, 38… até chegar numa ação que seria trivial se por acaso não fosse 1º de setembro de 39, na Polônia. Chegamos na segunda parte do livro e ele deixa de ser apenas uma brincadeira. Há alguns detalhes do livro que escapam ao leitor não-europeu ou, dito de outra forma, que farão muito mais sentido para os que estão familiarizados com detalhes sobre a Segunda Guerra. O nome dos personagens, por exemplo: Jan Bronski, Alfred Matzerath, Sigsmund Markus, não me diziam nada a respeito de suas origens e mais tarde se tornam importantes dentro da história por serem poloneses, alemães e judeus. Ou quando ele faz referência a cavaleiros atacando tanques como se fossem moinhos de vento – esse episódio, pouco conhecido, é a última carga de cavalaria da história, quando os poloneses tentaram se defender dos tanques alemães a cavalo. A Segunda Guerra foi inovadora no uso da tecnologia e o resultado desse ataque foi o massacre que vocês podem imaginar. Se por um lado o nosso distanciamento temporal e geográfico nos faz perder muitos detalhes, por outro o livro acaba mostrando o que há de cotidiano numa guerra: impacto da entrada no partido na imagem pessoal, amigos que se vêm separados por ideologias, jovens que não são absorvidos pelo sistema, novas relações comerciais, solidariedade forçada pelas circunstâncias, um mundo onde a morte e a reconstrução são tão presentes que se banalizam.

Quando o livro se torna mais ambicioso ao destruir o estranho cotidiano familiar de Oskar, faz ainda mais sentido a escolha do autor ao criar um personagem principal tão singular: de acordo com o próprio Oskar, ele já nasceu psicologicamente maduro e por decisão própria decidiu não crescer para além dos 3 anos de idade. Para que os adultos pudessem ter uma explicação a respeito do seu desenvolvimento – adultos precisam de explicação – ele se atirou escada abaixo quando engatinhava. O descompasso entre a inteligência e o aspecto físico faz com que ele esteja sempre à margem e consiga atuar como adulto ou como criança quando lhe convém. Na sua perversidade, Oskar me lembrou muito O Anão de Pär Lagerkvist, cuja capacidade nunca é totalmente reconhecida por causa de sua condição física e lhe serve de vantagem. E como Oskar é louco – a primeira informação que nos é dada é que ele vai rememorar a vida de dentro do hospício – a fronteira do que é possível se desfaz, e não tem a menor importância que ele toque um tambor o tempo todo (por isso o nome do livro) ou se era realmente verdade que ele quebrava vidros com a voz ou que os adultos à volta dele fossem sexualmente tão exuberantes. Caso não tenha ficado claro em tudo o que escrevi até agora, é preciso que se diga: o livro é delirante, engraçado e até mesmo informativo, mas há sempre uma morbidez de fundo. Talvez não pudesse ser diferente ao se falar desse período histórico. Fui procurar saber um pouco sobre Günter Grass e descobri que ele revelou coisas feias sobre sua participação nas Waffen-SS quando jovem. As pessoas ficaram decepcionadas e no resumo é colocada uma frase de Oskar para explicar a relação do autor com seu passado: “Não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança”. Se pensarmos que Oskar tem um pouco de Grass, O Tambor adquire ares de um brilhante expurgo pessoal.

O longo adeus

chandlerO gênero policial, de cara, não me interessou. Eu li muita Agatha Christie na minha adolescência, até cansar. O nome Philip Marlowe não me era estranho, por causa do Ernani Ssó. O fato de ser uma edição de bolso ajudava. Peguei porque a contracapa informava que O longo adeus era um dos maiores romances da literatura americana de todos os tempos. O superlativo, por mais que não fosse merecido, indicava um clássico. E clássicos sempre valem a pena, nem que seja para dizer que não gostou.

Se eu nunca havia lido Chandler ou Marlowe, como é que antecipadamente eu sabia que, por ser detetive, ele era um sujeito durão, solitário, um certo charme, cigarro no canto da boca, que apanha mas não se dobra, bebida alcoólica a qualquer hora do dia? E que ele tem suas conexões, uma relação pouco harmoniosa tanta com a polícia quanto com os bandidos, um escritório vazio e meio abandonado, não trabalha por dinheiro e sim por um sentido de honra bastante particular? Mais: como eu poderia antecipar as comparações interessantes, o humor e até mesmo a loira sedutora com culpa no cartório e que procura nosso herói para ajudar a encontrar seu marido desaparecido? Pior ainda: pra que ler Chandler e não os muitos que vieram depois, como Columbus ou até mesmo Ed Mort, depois de perceber tudo isso? Porque Chandler não é qualquer porcaria, ele não é qualquer um. Ele é o pai do gênero. Todos detetives particulares pé rapados são tributários a Marlowe. E tanta gente teve vontade de escrever detetives assim porque Chandler o faz com baita estilo:

Existem loiras e loiras, e isto é quase uma piada hoje em dia. Todas as loiras têm pontos em comum, exceto talvez as loiras metálicas que são tão loiras quanto um zulu embranquecido e com uma disposição tão macia quanto uma calçada. Há a loira pequena e engraçadinha, que anda perto do chão e ri agitada, a loira grande como uma estátua, que nos abraça com um simples olhar azul-gelado. Há a loira que nos dá uma olhada de alto a baixo e cheira bem que é uma beleza, brilha e se dependura no seu braço e está sempre muito, muito cansada quando você a leva pra casa. Ela fez um gesto desamparado e tem uma dor de cabeça danada e você tem vontade de bater nela e só não bate porque no fundo está satisfeito de ter descoberto da dor de cabeça antes de investir tempo, dinheiro e esperanças demais nela. Porque esta dor de cabeça via sempre existir, uma arma que nunca falha e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia.

Existe a macia e alcóolica loira que está a fim e não se importa com a roupas que veste desde que seja mink, ou para onde vai desde que seja para o Starlight Roof, onde tem champanha seco à beça. Existe a pequena e viva loira, que faz questão de pagar sua parte e vive cheia de raios de sol, bom senso, e sabe lutar judô, e pode puxar um chofer de caminhão por cima do ombro sem perder mais que uma linha do editorial do Saturday Review. Há a loira pálida com anemia de algum tipo não fatal mas incurável. É bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, você não está a fim, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard – ou então está estudando provençal. Ela adora música e quando a Filarmônica de Nova Iorque toca Hindemith é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto compasso depois. Ouvi falar que Toscanini também consegue fazer isso. São dois, portanto.

E por último existe aquela maravilha que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns milionários, um milhão por cabeça, e termina a vida com uma villa rosa-pálido em Cap d´Antibes, um Alfa-Romeo equipado com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo.

Essa é outra vantagem de se ler os clássicos: chegar na fonte, entender como e porquê tudo começou.

Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna

quintaavenidaVocês vão me perdoar ter colocado em destaque o subtítulo do livro, que na realidade se chama Quinta Avenida, 5 da manhã. Posso dizer sem medo que foi a minha melhor aquisição em 2013. É muito raro passar numa livraria e encontrar por cinco reais um livro que não parece valer muito mais do que isso. O preço original é de quarenta, mas quem compraria? A capa e a contra capa possuem elogios rasgados e a declaração de que se trata de um best-seller, mas e quantos não são? Nunca ouvi falar do livro e do seu autor (Sam Wasson), peguei unicamente porque era uma pechincha. E é um daqueles livros raros salvam vidas em fins de semana chuvosos deprimentes. Ele é todo interessante, de ler numa sentada e tentar enfiar goela abaixo de todos os nossos amigos, porque dá uma vontade louca de comentar. Sintam só os primeiros parágrafos da introdução:

Como um daqueles acidentes que não são realmente acidentes, a escolha da “boazinha” Audrey para o papel da “não tão boazinha” garota de programa Holly Golightly mudou o rumo das mulheres no cinema, dando voz ao que até então era uma mudança não expressa no gênero nos anos 50. Sempre houve sexo em Hollywood, mas antes de Bonequinha de Luxo, só as garotas más é que faziam sexo. Com poucas exceções, garotas boazinhas no cinema tinham de se casar antes de ganhar seu primeiro fade out, enquanto as mais provocantes ganhavam fades outs o tempo todo e com todo tipo de homem em praticamente todas as posições (sociais) . Nem é preciso dizer, no fim elas pagavam o preço pela diversão. As meninas más sofriam/ se arrependiam, amavam/ casavam, ou sofriam/ se arrependiam/ casavam/ morriam; mas a ideia geral era basicamente a mesma: senhoritas, não tentem fazer isso em casa. Só que em Bonequinha de Luxo, de repente – porque era Audrey que fazia o papel – , morar sozinha, sair, andar linda e ficar um pouco bêbada não era mais tão ruim. Ser solteira, na verdade, não parecia motivo de vergonha. Parecia divertido.

Embora possam ter deixado passar, ou não ter identificado isso de imediato, a pessoas que conheceram a Holly Golightly de Audrey em 1961 experimentaram , pela primeira vez, a glamourosa fantasia de uma vida de independência desenfreada e excêntrica e liberdade sexual sofisticada; o melhor de tudo, era uma fantasia possível de se realizar. Até Bonequinha de Luxo, as mulheres glamourosas do cinema ocupavam um estrato disponível apenas para as damas loucamente chiques, envoltas em cetim debruado  de arminho, do boulevard, nas quais ninguém, a não ser a verdadeira estrela de cinema, podia se transformar. Mas Holly era diferente. Ela usava coisas simples. Não eram coisas caras. E pareciam fantásticas.

p. 17-18

O livro conta a trajetória do filme. Ao situar Bonequinha de Luxo nos anos 50, descobrimos o quanto o filme revolucionou sua época e a vida dos que se envolveram nele. O autor nos faz entender o papel do cinema durante a guerra, quem são e como são escolhidas as estrelas de cinema, o papel reservado às mulheres no pós-guerra (impossível não lembrar de Mad Men). Vemos as questões que se colocam a roteiristas, diretores e grandes estúdios na hora de se fazer um filme, o que precisa ser cortado e em nome de quê. Encontramos Truman Capote, como escritor e figura legendária da alta sociedade americana, conhecemos um pouco da ascensão de Audrey, seu novo tipo de beleza e sua relação com a moda. Existe até uma simbologia por detrás do famoso vestidinho preto, que tinha conotações sexuais ao estar ligado à viuvez. Há também deliciosas fofocas de bastidores, como descobrir que Audrey preferia surgir nas primeiras cenas de Bonequinha chupando apenas um sorvete ou a dificuldade de criar Moon River, uma música feita especialmente para o alcance vocal limitado dela.

Cinéfilos adorarão. Fãs de Audrey, feministas, historiadores, jornalistas, curiosos em geral também.

O encontro do velho e do novo, por George R. R. Martin

got vol 3Chega de Game of Thrones, eu sei. É que esse trecho não diz respeito especialmente ao livro, à série. Os nomes e as os eventos citados são apenas ilustrações. Esta cena, que revela pouco ou quase nada da história, tem outra importância. Ela expressa o encontro do futuro e do passado, do que é e o que foi, o velho e o novo. Ela mostra o que acontece quando o mais experiente tenta dizer algo para o cheio de possibilidades. O mais velho se reconhece no mais novo, que se acredita o primeiro do mundo. De um lado, existe o incômodo e o desejo de provar alguma coisa; do outro, a arrogância de quem está apenas começando. Começos são tão belos, tão promissores… Já o fracasso é coisa de gente velha – ou nos envelhece, não sei. O diálogo entre jovens e velhos costuma ser tão desencontrado que esta cena me parece uma anedota que estamos condenados a repetir sempre, enquanto existir humanidade.

Esguio como uma espada, ágil e em forma, Sor Loras Tyrell usava uma túnica de linho branca como a neve e calções brancos de lã, com um cinto dourado em volta da cintura e uma rosa de ouro prendendo seu manto de seda fina. Os cabelos eram de um suave desarranjo castanho, e os olhos também eram castanhos, e brilhantes de insolência. Ele acredita que isso é um torneio e acabaram de anunciar sua justa.

– Dezessete anos e um cavaleiro da Guarda Real – disse Jaime – Deve se sentir orgulhoso. Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, tinha dezessete nos quando foi nomeado. Sabia disso?

– Sim, senhor.

– E sabia que eu tinha quinze?

– Isso também, senhor. – e sorriu.

Jaime odiou aquele sorriso.

– Eu era melhor do que você, Sor Loras. Era maior, mais forte e era mais rápido.

– E agora é mais velho – disse o rapaz. – Senhor.

Teve que rir. Isso é absurdo demais. Tyrion riria de mim sem dó se me ouvisse agora, comparando o pinto com esse rapazinho verde.

– Mais velho e mais sábio, Sor. Devia aprender comigo.

– Tal como você aprendeu com Sor Boros e Sor Meryn?

Aquela flecha se aproximou demais do alvo.

– Aprendi com Touro Branco e Barristan, o Ousado – disse bruscamente Jaime – Aprendi com Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã, que conseguiria matar vocês cinco com a mão esquerda enquanto mijava com a direita. Aprendi com o Príncipe Lewyn de Dorne com Sor Oswell Whent e Sor Jnothor Darry, todos eles homens bons.

– Todos eles homens mortos.

Ele sou eu, compreendeu Jaime subitamente. Estou falando comigo mesmo tal como eu era, cheio de uma arrogância convencida e de uma cavalaria sem base. Isso é o que acontece quando se é bom demais e novo demais.

Game of Thrones vol.3 p.690

Expectativas, rejeição e sabedoria em Tyrion, um Lannister com defeito

Ser o que se espera – só não digo que é uma sensação deliciosa porque só nos apercebemos dela quando perdemos. Um exemplo muito simples é a experiência de estar usando uma roupa inadequada numa festa. Ficamos subitamente cônscios dos nossos gestos, das nossas diferenças, dos olhares. Estar errado em algum momento é um desconforto simples, e ele nos ocorre muitas vezes durante a vida. Fazemos de tudo para evitá-lo: procuramos saber quais são as roupas, quem estará lá, o que se faz naquela situação, que pessoas estarão. Sondamos o terreno, procuramos conhecer as regras. Há graus diferentes de desconforto – se estar com o traje de festa errado é ruim, imagine qual a sensação de ter nascido no sexualidade “errada”, ou no corpo errado. Essas coisas são possíveis porque sentimos que existe uma distância entre quem somos e o que os outros buscam ao nos olhar. Todos julgamos e somos julgados, atuamos o tempo todo, de maneira consciente e inconsciente. O descompasso entre o que somos e o que deveríamos ser nos obriga a buscar soluções. É normal tentar se encaixar; nem sempre é possível. Mais: nem sempre é desejável.

(Contém spoilers da primeira temporada de Game of Thrones)

lannistersA casa Lannister de Game of Thrones tem como símbolo o leão dourado, e o lema: Ouça-me rugir. Além disso, todos sabem que “um Lannister sempre paga suas dívidas”, o que pode tanto significar subornos como retaliações. No início da trama, onde fica difícil guardar quem é quem, a que casa cada um pertence e o que faz, uma coisa fica muito clara: os Lannisters são os vilões. Eles são tão ricos, loiros e bonitos quanto ambiciosos, frios e inescrupulosos. O patriarca da família, Twyin Lannister, é tão frio e calculista que nem ao menos sorri. Todas suas atitudes visam apenas aumentar o poder e honra de sua casa. A Rainha Cersei, sua filha, segue pelo mesmo caminho. A diferença entre pai e filha é apenas nas armas usadas. Como mulher, Cersei precisa agir nos bastidores, com informantes e chantagens. Seu irmão gêmeo e amante, Jaime, é conhecido como Regicida, por ter como função proteger o rei e ter abusado dela ao assassinar o rei Aerys Targaryen. Para manter em segredo o seu caso com a irmã, Jaime não hesita em jogar Bran Stark pela janela. Um dos frutos dessa relação incestuosa, o Rei Joffrey, revela-se vaidoso, mentiroso e sádico desde o início.

Com Tyrion, o filho mais novo de Lorde Twyin, as coisas dão errado. Ele é um anão e sua Tyrion_Lannistermãe morre durante o parto. Game of Thrones descreve um mundo medieval, então os personagens não têm para com Tyrion os pudores e gentilezas que hoje consideraríamos corretos. Ele é claramente acusado, por parte da sua irmã, de ter matado sua mãe. As pessoas não se cansam de chamá-lo de anão, duende, meio-homem, etc. Mais de uma vez, ele diz que se não fosse seu elevado nascimento, teria sido jogado fora, transformado em bobo ou atração de algum circo de aberrações. Ser o Lannister “defeituoso” faz com que ele viva a situação de não pertencer inteiramente à sua família, àquele mundo.

(Tyrion) Deixe-me dar alguns conselhos, bastardo. Nunca esqueça o que você é. O resto do mundo nunca se esquecerá. Use isso como uma armadura e isso nunca poderá usado para machucar você.
(Jon) O que diabos você sabe sobre ser um bastardo?
(Tyrion) Todos os anões são bastardos aos olhos dos seus pais.
(retirado daqui)

O sentimento de estar desencaixado no mundo é comum àqueles que, por um motivo ou outro, não podem ou não conseguem se enquadrar. Tyrion, com seu nanismo, se enquadra no conceito de estigma. Estigma é quando o sujeito possui um atributo considerado extremamente negativo por aqueles que o cercam. Esse atributo, de tão marcante, faz com que todas as suas relações sociais sejam dominadas por ele. Ser anão – assim como ser loiro ou moreno, olhos azuis ou negros – não determina qualquer déficit de caráter, capacidade ou inteligência. Mas ser tratado de maneira diferente, ser julgado e desconsiderado a todo instante, sim. Quem possui um estigma físico não consegue se esconder e é desqualificado sempre que se apresenta. A Tyrion, por seu nascimento, estava reservado um lugar nobre; seu nanismo o condena a ser um outsider. Isso cria nele uma sensibilidade e uma identificação com os mais fracos, que nunca seria possível atribuir a um Lannister: “Eu tenho um lugar sensível no meu coração para aleijados, bastardos e coisas quebradas.”

tyrion jesus

Se por um lado a rejeição e o sentimento de desencaixe são dolorosos, eles permitem ao estigmatizado um olhar crítico sobre sua realidade. Um estigmatizado não pode, devido à sua própria condição, alimentar ilusões sobre a maneira como o mundo funciona. Nunca pertencer inteiramente aos seus e estar sempre fora das expectativas pode ser uma experiência enriquecedora, uma forma de sabedoria. Tyrion é uma prova disso. A sua inegável inteligência, o reconhecimento de suas limitações e o senso de humor, faz com que Tyrion consiga transitar entre todos, tire vantagem das situações e seja um dos personagens mais interessantes da série. São deles os momentos mais espirituosos e engraçados, os desejos e as dores mais humanas, as reviravoltas mais surpreendentes. Em meio à luta desmedida pelo poder de sua família, ele se mostra capaz de se colocar à parte da disputa e olhar para os envolvidos tais como eles são. Ao mesmo tempo, ele é hábil o suficiente para jogar o jogo e não se deixar manipular. Quando tem algum poder em mãos, Tyrion sempre procura a solução mais justa dentro das possibilidades. Sua ação não busca o Bem acima de tudo, como fazia Eddard Stark; ele procura equilibrar o que é possível fazer sem perder sua posição. Por isso mesmo, Tyrion consegue sobreviver e é muito mais eficiente. Em resumo, é impossível não amar Tyrion Lannister. A popularidade desse personagem é tamanha que chegou até o ator que o vive, Peter Dinklage. Popular, adorado e sexy, Dinklage ganhou um Emmy (20011) e Golden Globe (2012) graças a Tyrion.

peter dinklage

(Contém spoilers da terceira temporada de Game of Thrones)

A série reservou reviravoltas interessantes, e uma delas é o destino de Jaime Lannister. Enquanto Tyrion era o irmão feio e indesejado, Jaime sempre foi tudo o que se esperava de um Lannister. Sua beleza, sua habilidade como cavaleiro, seus modos arrogantes, seu caso incestuoso com a irmã – tudo nele apontava para um vilão. Logo no início da série ele se mostra debochado, desrespeitoso e sem qualquer empatia com o sofrimento alheio. Dá para perceber que Jaime se sente muito bem dentro da sua própria pele, ele vê o mundo de cima. Tudo isso desmorona, pouco a pouco, quando ele é capturado e posteriormente levado por Brienne para ser trocado por Sansa e Arya. Nesse longo caminho de volta para casa, Jaime aprende a admirar Brienne, é torturado e tem sua mão direita cortada. Jaime se vê destituído da segurança que sempre teve por ser um Lannister, e da admiração que sua beleza e perfeição física sempre lhe deram. O homem que surge (Atenção: situação ainda não explicitada na terceira temporada, apenas no livro) em meio a Jaime Lannisteresse sofrimento busca o amor de sua família, especialmente da irmã, e quer viver de maneira coerente aos seus sentimentos. Jaime aprende a ver por detrás das aparências e a se importar com o sofrimento alheio, sendo capaz de grandes gestos de heroísmo. Ou seja, à sua maneira, ele se aproxima de Tyrion, em quem pensa constantemente depois que tem sua mão cortada. Agora Tyrion e Jaime possuem um novo laço: o problema físico, o estigma. Jaime é a prova de quem somos é um frágil reflexo das alternativas que a realidade nos oferece.

Masculino e feminino em Arya e Sansa Stark

(Contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Game of Thrones)

Duvido que exista alguém que acompanhe ou leia Game of Thrones e goste mais de Sansa do que de Arya Stark. As duas filhas de Eddard Stark se mostram diferentes logo nas primeiras páginas: Sansa é bonita, borda bem, gosta de contos de cavalarias e de ser agradável; Arya é indomável, inábil em trabalhos manuais e gostaria de ela mesma ser um cavaleiro. Enquanto uma sonha em ser princesa, a outra rejeita a idéia de casar; uma gosta do luxo e do conforto enquanto a outra quer explorar o mundo. O desejo de ambas é atendido quando Eddard Stark morre pouco antes de fugir do castelo com as filhas. Sansa fica e Arya foge. Ao fugir, por razões de segurança, Arya passa a fingir que é um menino – confusão que ela já causava antes, por causa de suas atitudes. O destino que elas seguem mostram as dificuldades e as diferenças dos caminhos esperados por homens e mulheres.

Arya, agora chamada de Arryn, passa a estar sempre em movimento. Logo ao abandonar o castelo, fica pelas ruas e assiste, da praça, a morte do seu pai. Yoren tenta protegê-la levando-a para Muralha, mas morre ao ser atacado por uma patrulha de Lannisters. A partir daí ela toma papel ainda mais ativo na sua fuga, e passa a proteger mais do que ser protegida. Ela lidera Torta Quente e Gendry (o bastardo do rei Robert) na fuga de Harrenhal, toma sozinha a decisão sobre as três mortes que Jaqen H’ghar lhe oferece, tenta a todo custo ir a Correrrio, é capturada, tenta fugir de novo… Ela demonstra a força, a coragem e o destemor que associamos aos homens e só consegue fazer tudo isso porque se coloca como homem. No papel de menino, sofre, apanha, passa fome. Mesmo quando descoberta, é assim que ela tenta ser vista pelos que estão ao seu redor e volta para esse papel masculino sempre que pode. Ser mulher nos contextos violentos que ela foi colocada significava duas coisas: ser estuprada ou ser capturada.

Enquanto o masculino é associado ao exterior, ao movimento e ao dia (A dominação masculina, Bourdieu), Sansa cumpre bem seu papel feminino de dentro, imóvel, escondido. Ela é guardada na corte, representa uma valiosa moeda de troca quando a guerra começa. Sua proteção é também sua prisão, serve mais aos outros do que a si mesma.  Sansa é quem se ajoelha e pede para Joffrey poupar a vida de seu pai. Nesse momento e em outros, ela deposita sobre os homens todo poder de decisão sobre seu destino. Suas expectativas e seu amor são frustrados quando Joffrey faz com que seu pai executado na sua frente. O impacto da morte de Eddard é ruim para suas duas filhas, mas de maneiras totalmente diferentes. Para Arya, o mundo; em Sansa, uma mudança interna. Ela continua noiva de Joffrey, só que já não o suporta. No seu sadismo, Joffrey faz questão de ter Sansa por perto, de fazê-la sofrer e jamais poder demonstrar sua insatisfação. Ela apanha e precisa cobrir seus hematomas, assumindo para si a vergonha de apanhar. Por fora, Sansa vive no melhor dos mundos – prometida do rei, dorme em camas confortáveis, vive num castelo, é bela. Só que o preço a pagar é ser impedida de buscar o que quer, vigiar seu comportamento e suas palavras constantemente. Qualquer passo em falso e ela pode perder o pouco que tem. É uma maneira silenciosa e difícil se ser forte. É uma maneira feminina.

A trajetória de Sansa me lembra uma das histórias do livro Os cisnes selvagens: três filhas da China. A primeira mulher retratada nesse livro ascende socialmente ao se tornar concubina de um homem importante, que a instala numa confortável casa em outra cidade. Durante toda união, ele foi visitá-la apenas duas vezes. Esse homem não lhe devia qualquer explicação, apenas o sustento. Então, enquanto ele decidia se a visitava ou não, ela tinha obrigação de ficar esperando. Apenas esperar, deve ser fácil, é o que se pensa. Mas esse esperar implicava ficar trancada em casa e manter toda a compostura de uma mulher comprometida. A casa onde ela vivia era cheia de empregados. A reputação da mulher sozinha em casa era tão frágil e os empregados tão poderosos, que bastava que eles espalhassem ou mentissem sobre o  que uma mulher fazia para que ela fosse colocada na rua. Na prática, a concubina era refém dos seus empregados, e precisava bajulá-los constantemente, oferecer presentes, agradar, conquistar sua simpatia. Em suma, uma prisão sem grades e uma guerra feita de sorrisos.

Não há canções e nem aventuras na maneira feminina mais tradicional de sobreviver. É um caminho que não faz mudar de cenário, não tem atitudes avassaladoras e nem atos de heroísmo. Não faz conhecer pessoas e mundos novos; geralmente nem sai do portão de casa. Por fora, deve parecer suave. É um esforço que existe mais no que não é dito, no que não é feito, na espera, na manutenção. Pouca gente o escolheria se pudesse. Tanto é assim que as mulheres têm reivindicado, sempre que podem, maior controle sobre suas vidas. Arya é mil vezes mais interessante do que Sansa. No fim, é possível que Arya consiga conciliar masculino e feminino, tenha aventuras e um grande amor, talvez vire até uma rainha. Já Sansa… quem se importa? Só que eu não posso terminar o texto sem um acréscimo: o caminho feminino não apenas negação, não é tão destituído e frágil quanto a trajetória de Sansa. Ela não sabe jogar o jogo, ela se deixa levar pelos contos de cavalaria e tenta obter a piedade masculina. “Lágrimas não são as únicas armas de uma mulher. A melhor arma está entre as pernas. Aprenda a usá-la”, lhe diz Cersei num arroubo de sinceridade. A Rainha Cersei, assim como Melisandre (Sacerdotisa Vermelha), mostram que o jogo de bastidores pode ser tão ou mais importante do que o jogo dos tronos.

O anão e os santos

Uma amiga tinha curiosidade e uma noite foi num ritual de umbanda. Ela estava no meio de outros, numa roda, assistindo a ação dos médiuns, o batuque, as danças. Até que num determinado momento o médium recebeu uma entidade, que depois das devidas apresentações a avistou e foi até ela. Quando chegou bem perto dela, se acercou e propôs:

– Me diga quem você quer prejudicar. Me diga um nome, qualquer nome, que eu vou lá e faço isso por você.

Ela ficou paralisada e não respondeu nada. Durante muito tempo ela se perguntou que ligação teria com aquela entidade, por que ela lhe propôs fazer mal a alguém e, principalmente, se ela era uma pessoa tão ruim assim que no fundo deseja prejudicar os outros.

Foi mais ou menos isso que eu senti ao ler e gostar tanto das maldades do livro O Anão. Sua certeza de pertencer a uma estirpe, muito embora ele também odeie todos os outros anões; a maneira como busca apenas o seu bem, nem que para isso destrua tudo a sua volta; o seu isolamento voluntário, muito mais importante do que qualquer outra vida; o desprezo que sente por todos que serve; a maneira como tende a procurar nas pessoas o seu pior aspecto; a crueza e desilusão com que fala de poetas, artistas e filósofos, tornam o Anão um personagem irresistível. A única coisa que ele ama são a si mesmo e a guerra. Se sei de sua maldade e a abomino, talvez não devesse ter sido um deleite lê-la…

Toda essa maldade me fez pensar no oposto, a bondade. Puxei da memória um costume que está tão fora de moda que parece que faz séculos que foi abandonado, e não faz mais do que algumas décadas: as pessoas liam sobre a vida dos santos. Esses livros podiam tanto ser organizados em ordem alfabética como de acordo com o calendário, porque todo dia tem o seu santo. Ao invés de ler maldades, as pessoas procuravam ler sobre aqueles que lhes pareciam ser os melhores exemplos; ao invés de ficarem confusas sobre os maus sentimentos que têm dentro de si, elas visualizavam um ideal a ser alcançado. A personalidade, tal como os músculos, podia ser exercitada num sentido bom – por isso o valor dos santos exemplos.

Ainda existe quem se empenhe nesse sentido, as religiões estão aí pra isso. Da minha parte, posso dizer que eu não sei o que é ser santo. Eu não sei como alguém santo se sente, não sei o que come, não sei o que faria no meu lugar. Nas poucas vezes que acreditei ter encontrado alguém mais próximo da santidade, me vi decepcionada, tal como o Anão com mestre Bernardo:

Modesto, ele! Enganei-me quando supus. Pelo contrário, é o homem mais orgulhoso que eu já conheci. A presunção constitui a própria essência do seu ser. O seu pensamento gostaria de reinar soberano num mundo que não lhe pertence.

Pode dar a impressão de modéstia, isso sim; no decorrer de suas especulações em todos os domínios possíveis, chega a dizer, por vezes, que não está seguro deste ou daquele pormenor e que apenas se esforça por encontrar a melhor explicação possível. Mas acredita conhecer o conjunto, a finalidade e o sentido do universo! Sua humildade só se manifesta nas pequenas coisas. É uma espécie deveras estranha de modéstia.

p.26

Quem pode dizer o que está na alma de cada um, quais são os nossos reais desejos, o que uma pessoa seria capaz de fazer se não pudesse ser vista? É impossível para mim, quando penso em santos, esquecer o quanto o celibato dos padres, que deveria santificá-los, os levou a coisas muito piores. Amar o bem não é ser capaz de praticá-lo – será que a mesma regra vale para o mal? Anões ou santos, ninguém nunca saberá o que somos profundamente, apenas o que fazemos.

Ratos

Tenho uma grande admiração por ratos. Eu já tive um rato de estimação. Essa informação teria mais impacto antes, porque muitas pessoas passaram a achar ratos simpáticos depois de Ratatouille. Nos extras do DVD, tem um filminho dedicado inteiramente à informações sobre os ratos de verdade. Já eu sou de uma geração diferente, a do Mickey Mouse e o Jerry. Mickey Mouse é um camundongo sem nada de roedor, de um bom mocismo irritante. Já o Jerry, com sua esperteza e crueldade, era muito mais rato. Lembro da dona do Tom (cujo rosto nunca vimos) subindo desesperada na cadeira quando vê Jerry. Mesmo hoje, é assim que as mulheres aprendem a reagir na presença de um rato, subindo nas cadeiras e gritando por socorro.
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Rato é meu ascendente no horóscopo chinês, e a descrição do signo diz que eles são gregários, organizados e protetores. Só que quando combinado com o meu outro signo, a serpente, geralmente esses horóscopos me definem como interesseira, vingativa e capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que quero. Um pouco como os ratos do Guia do Mochileiro das Galáxias. Esse livro, um verdadeiro símbolo nerd, perde muito a sua graça quando lido depois dos vinte (meu caso). O que achei interessante foram os aliens chegam na Terra para conversar com a especie mais inteligente. A surpresa está no fato de que a humanidade é apenas a terceira espécie: antes da humanidade estão os golfinhos e os ratos encabeçam a lista. Concordo.
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O que me convenceu disso foi um livro interiro dedicado ao assunto: Todos os ratos do mundo: do Flautista de Hamelin a Mickey Mouse: O Irresistível Charme dos Roedores. Olha que informação interessante: desenvolver veneno contra ratos é muito difícil. Não se sabe se é pelo olfato, mas eles são muito desconfiados e simplesmente não comem certas substâncias, por mais que sejam misturadas aos ingredientes mais saborosos. E quando se deparam com algo novo, eles fazem com que os mais velhos ou mais fracos comam primeiro. Esses membros ficam dias em observação, e apenas depois desse período, se eles não mostrarem nenhuma reação, é que os outros comerão a comida. Venenos para ratos, por esse motivo, precisam não ter odor e só manifestarem seu efeito depois de alguns dias.
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Essa daqui é pra convencer de uma vez que eles são muito inteligentes: um navio estava infestado de ratos. Para exterminar a praga, o navio foi esvaziado, lacrado e colocaram tubos por pontos estratégicos onde seria liberado um veneno poderoso. Com aquela quantidade de veneno, durante tanto tempo e sem ter por onde sair, todos os ratos morreriam asfixiados e a praga terminaria. Só que quando terminou a administração de veneno, eles chegaram lá e encontraram os ratos, vivos. O que teria dado errado? Quando foram recolher os tubos, viram que em cada um havia um rato entalado. Ou seja, eles descobriram de onde o veneno saía e sacrificaram alguns membros para impedir que todos morressem.
As histórias de ratos são todas assim. Os ratos são tão poderosos porque pensam coletivamente. Ratos dão a impressão de serem uma grande inteligência, espalhada em pequenos corpos ágeis e de dentes afiados. Uma família de ratos sempre pensa no todo. Quando o lugar onde eles estão se torna pequeno e a comida escassa – experiência de alimentar um casal, deixando-o se reproduzir o quanto quiser, sem mudar de gaiola ou alterar a quantidade de ração – eles começam a fazer controle de natalidade e racionar comida. Por isso que só eles e as baratas (sem mérito por parte delas) sobreviveriam a uma hecatombe nuclear. Nós mal sobrevivemos a nós mesmos.

Férula, personagem de A Casa dos Espíritos

Ao longo de tantos anos de solidão e tristeza tinha ido decantando as emoções e limpando os sentimentos, até os reduzir a umas poucas terríveis e magníficas paixões, que a ocupavam por completo. Não tinha capacidade para as pequenas perturbações, para os rancores mesquinhos, as invejas dissimuladas, as obras de caridade, os carinhos mornos, a cortesia amável ou as considerações citadinas. Era um desses seres nascidos para a grandeza de um só amor, para o ódio exagerado, para a vingança apocalíptica e para o heroísmo mais sublime, mas não conseguiu realizar seu destino à medida da sua romântica vocação, e esse destino decorreu chato e cinzento, entre as paredes de um quarto de enferma, em míseros asilos, em tortuosas confissões, onde essa mulher grande, opulenta, de sangue ardente, feita para a maternidade, para a abundância, a ação e o ardor, se foi consumindo.

Isabel Allende/ A casa do espíritos