Carmen Miranda, de Ruy Castro

Em termos de pesquisa, esta é a biografia mais impressionante que eu já li, e olha que sou apaixonada pelo gênero e li muita coisa boa. Ruy Castro se adianta a toda a qualquer curiosidade que o leitor possa ter e cobre todos os aspectos de tudo o que cerca Carmen: ficamos sabendo como era rua da primeiro endereço da família Miranda, o que a mãe de Carmen servia nos almoços, o que se ouvia nas rádios, o que era normal e permitido na época, a graduação formação daquele que seria do estilo Carmen – plataformas, turbante, barriga de fora, acessórios, cores e a alegria esfuziante – os namoros, as rotinas em shows e gravadoras. Da fase americana, ele nos informa dos gostos do público, descreve os locais onde Carmen cantava, opina sobre cada um dos seus filmes, conta fatos da vida de cada uma das muitas estrelas hollywoodianas que passaram pela vida dela, o impacto de Carmen na moda e as exigências que a vida nos EUA lhe impuseram. O resultado é uma qualidade de leitura que nos parece um romance, onde o leitor se vê transportado pra uma época nos seus detalhes mais deliciosos.

Por ser “alegre, bonita e comunicativa”, Caruso promoveu-a da oficina para o balcão, onde ela se tornou sua melhor funcionária, capaz de vender qualquer peça. Diante de uma cliente em dúvida sobre se um determinado chapéu lhe ficava bem, Carmen fazia uma demonstração: sacudia a cascata de cabelos, prendia-os e experimentava o chapéu em si mesma. Como tudo assentava em Carmen, a cliente se via como em um espelho, convencia-se de que ficaria linda e acabava levando o objeto. Certo dia, aconteceu de Carmen estar andando na rua, usando um chapéu de sua própria invenção, e ser abordada por uma mulher que lhe perguntou onde o tinha comprado. Ao saber que ela o havia criado, fez-lhe ali mesmo, na calçada, uma oferta por ele – que Carmen, achando graça, aceitou. (p.24)

Em entrevista pro Roda Viva, Ruy Castro diz que um dos requisitos fundamentais para fazer uma biografia é que o personagem de alguma forma o apaixone. E quanto mais detalhes ele nos revela sobre Carmen, mais apaixonado o leitor fica. Linda, generosa, divertida, inteligente, rápida, apaixonada, parecia ser impossível ficar indiferente ao charme dessa mulher. Dá a impressão de que ela seria a melhor no que quer que fizesse, nem que fosse virar fabricante de chapéus. Sua presença transformava qualquer lugar numa embaixada do Brasil, reunindo o talento em torno de si e transbordando calor. Como profissional, mereceu e trabalhou duro por cada palmo do que conquistou – excelente cantora, podia conhecer a música no próprio estúdio, pouco antes de entrar, e a gravação ficava perfeita. Nos filmes, era conhecida por ser a “garota de um único take” pelo mesmo motivo. Nunca faltava um compromisso, por pior que fosse a logística – seus adereços exigiam organização e espaço para serem transportados – ou seu estado de saúde.

Ali, as paredes do Broadhurst esqueceram-se de que já tinham ecoado os textos de Ibsen, Shaw e O´Neill, e trataram de se adaptar aos novos tempos. Carmen “cantava” com as mãos, os olhos, os quadris, os pés – “O que é que a baiana tem?”, “Touradas em Madrid” e “South American Way”, pela nova ordem – e todo um repertório de meneios, dengos e chamegos que dispensavam tradução. Ninguém entendia uma sílaba do que ela dizia, exceto o verso “Souse american way”, que arrancou as infalíveis gargalhadas. E nem era preciso. Carmen estava falando numa língua que a platéia de Nova York, habituada às grandes estreias, estava farta de entender: a do talento, talvez do gênio. A Broadway já operara aquela química muitas vezes – entre duas cortinas, transformar uma estreante numa deusa. Quase dez minutos depois, o número de Carmen e o primeiro ato de Streets of Paris terminaram e apoteose e consagração. Entre drinques, cigarros e cafés do intervalo, e já vazando para as ruas em volta do teatro, só um assunto interessava: Carmen Miranda. (p.210)

Ela sonhava em casar e ter filhos, mas como resistir aos apelos do mundo que a puxavam cada vez mais alto? Jamais foi esquecida pelos seus grandes amores Mario Cunha, Carlos Alberto da Rocha Faria e Aloysio de Oliveira, mas nenhum deles a assumiu. O dinheiro não parava de entrar, os filmes, shows e convites tornavam sua rotina impossível. Um dos motivos da morte prematura de Carmen foi o fato de jamais ter conhecido a decadência, que a teria dado tempo de parar. Quando sua carreira nos EUA estava começando a decair, a Europa a reacendeu, ávida por encontrar os ídolos dos filmes que viam durante a guerra. As férias e as visitas ao Brasil eram sempre adiadas, assim como a necessidade de cuidar da sua saúde.

Eram quase quinze anos de um processo longo e inexorável. Começara no dia em que uma cápsula para dormir exigira outra para acordar. Tempos depois, a cápsula para dormir exigira outras cápsulas para dormir; e a cápsula para acordar, outras cápsulas para acordar. Um drinque cancelara uma cápsula e exigira outra cápsula. Essa cápsula cancelara o drinque e exigira outros drinques. Em meio à ciranda, as cápsulas e os drinques haviam cancelado uma quantidade de neurônios e, apesar dos recentes esforços de seu médico no Rio, Carmen já não sabia onde ficava a entrada a ou saída do infernal labirinto em que sua vida se convertera. (p.541)

Como outros artistas da sua geração – Marilyn Monroe e Judy Garland, por exemplo – Carmen foi vítima da união de dois fatores: a massacrante indústria do cinema e o abuso de remédios, cujos efeitos se desconheciam na época. De mulher saudável, forte e bem humorada, aos quarenta ela foi convertida a uma pessoa doente, com alterações de humor, crises de paranoia e aspecto envelhecido. O livro é belíssimo até mesmo no desfecho: somos conduzidos até aquela última noite, cheia de planos e o insuspeito fim – exatamente como a morte costuma ser. E o leitor acorda para um dos maiores nomes que a música brasileira já teve, tão presente nas milhões de figuras caricatas e turbantes que até nos esquecemos o porquê.

Dois grandes problemas das minorias

O livro Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade é daquelas referências que todo mundo deveria ter, especialmente aqueles que se identificam e lutam por qualquer minoria. Não apenas por colocar em palavras o que se sente na pele – por que se uma mulher ou um negro ou um gay comete um erro, ele repercute de maneira tão grande? – mas também por trazer insights que podem surpreender até os ativistas. Pelo menos foi isso o que eu senti quando o livro afirma que não é a diferença que define o preconceito, e sim que a eleição da diferença dá vazão a um desejo prévio de excluir. O grupo mais forte cria para si uma ideologia que atribui a si próprio todo carisma e vantagens sociais; aos diferentes são creditadas todas as desvantagens, que mais tarde adquirem status de diferenças étnicas, raciais, sexuais, etc.

Esse argumento, aparentemente tão radical e difícil de provar, surge quando Elias & Scotson tem a oportunidade de estudar o surgimento de dois bairros de trabalhadores num povoado industrial da Inglaterra, denominada (nome fictício) de Winston Parva. De acordo com dados relativos à renda, educação ou ocupação de seus habitantes, aquela seria considerada uma região homogênea. Mas os seus habitantes se viam de forma completamente diferente. Havia um grupo que se via como estabelecido, e encarnava os valores da boa sociedade, enquanto os moradores da outra região eram outsiders e eram estigmatizados com atribuição de delinquência, desorganização, etc. A base para a crença de serem os estabelecidos era sua antiguidade. Como ocuparam aquela região antes, criaram laços sociais que justificavam sua própria visão de superioridade. Os outros, mais recentes, ainda não haviam tido tempo de formar uma rede, e ao chegar já eram rotulados. Na falta de uma rede de apoio mútuo e sem a possibilidade de se defender, o grupo excluído passou a acreditar nessas atribuições negativas. Ou seja, muito mais do que nas diferenças raciais, sexuais ou culturais, o preconceito nos fala de relações de poder. As diferenças são justificativas e não causas. Muitas vezes – alerta o livro – as condições sociais de origem podem ter se modificado e os estereótipos persistem.

O grupo mais forte cria para si uma ampla rede de naturalização dessas relações. No caso das comunidades do livro, a fofoca era uma das principais armas. Imagine o que é possível fazer em grupos maiores e antigos. Não é preciso ir muito longe para lembrar que até a ciência já “explicou” a inferioridade de grupos. O objetivo dessas estratégias é a manutenção da diferença, fixar a distância. O grupo mais forte se protege: qualquer erro cometido por um dos seus membros não repercute ou encontra justificativas. Já o mesmo erro cometido por alguém do grupo outsider respinga em todo grupo e reforça o preconceito. No grupo estabelecido, um jovem que comete um delito é apenas um sujeito isolado, talvez com problemas, que errou. No grupo outsider, ele é o representante de uma coletividade – agiu conforme sua natureza, são todos assim, é o que eles fazem sempre. Isso soa familiar? A regra também vale ao contrário: um comportamento louvável de um indivíduo do grupo mais forte repercute sobre todos e confirma sua superioridade, enquanto uma atitude louvável no grupo mais fraco é uma exceção, um apesar de.

Na minha opinião, esses dois insights – o grupo excluído acreditar nas atribuições negativas do grupo mais forte e a maneira como qualquer atitude negativa de um de seus membros repercute sobre todos – são as maiores dificuldades dos movimentos pelas minorias. A exclusão é criada pelo grupo mais forte e o favorece amplamente; logo, cabe aos grupos excluídos buscarem a contra-estigmatização. Há a dificuldade de se reconhecer como excluído, porque o efeito imediato disso é abraçar desvantagens. O discurso do grupo mais forte é dominante. Esse discurso não é apenas algo que vem de fora – muitas vezes é a maneira como fomos criados, nossos critérios de beleza, nosso julgamento moral, a própria forma como nos relacionamos com o mundo. É uma luta que pode deixar o sujeito temporariamente sem lugar – ele abre mão do valor dominante em troca de valores que talvez ainda não existam. E, como minoria, o sujeito se vê sempre jogado na posição de representante. Se milita, mais ainda. É difícil ser julgado da forma mais rigorosa, ter que ter a conduta mais ilibada, não poder cometer um erro sem que isso confirme todos os julgamentos. É quase uma exigência de santidade: fale, mas não eleve a voz; se indigne, mas dentro da lei; lute, mas nunca se descontrole.

O que torna uma vida boa?

Durante 75 anos, a Universidade de Harvard tem acompanhado as mudanças físicas, relacionais, financeiras, desejos e realizações de 174 homens. No caminho tortuoso e imprevisível da vida desses homens, os pesquisadores encontraram alguns insights interessantes sobre a questão mais importante da vida humana: o que nos torna felizes.

(ative as legendas na barra, à direta)

O poder dos introvertidos

Quem é introvertido terá identificação imediata com essa palestra de Susan Cain, autora do best seller O poder dos introvertidos. O pouco que ela nos conta da sua história e até mesmo sua maneira de falar soam muito familiares para aqueles que passaram a vida sendo forçados a trabalhar em grupo e olhados com estranheza cada vez que faziam uma das coisas que os introvertidos mais gostam: estar sozinhos. A autora resgata não apenas o valor da interiorização e do silêncio para aqueles que os amam, mas também como uma qualidade deixada de lado pelas sociedades contemporâneas.

 

Buscas no site

Eu sei que este é um blog sério e família, mas não resisti à tentação de colocar as coisas estranhas que trouxeram leitores a este blog. Lá vai:

caminhando dura depois de da o cu – Foi difícil assim, amiga?

só me aceitou no face pra não ser desagradável – Sei como é…

sexo com homens afegãos o que eles gostam? – Adoro buscas com taras específicas.

cu fora do normal – Tenho até medo de digitar isso no google…

estimulo virtual para caminhar – Caminhe, caminhe!

é muita vadia pra pouco – Esse nem conseguiu concluir.

caminhando para velhice e vc – Eu também, fazer o quê.

mulheres dando a vivera pro cavalo zoofilia – Ai…

como limpar book do banheiro – Pra gente que gosta de ler em todos os ambientes.

www.porno.pessoas.precisano.de.money.tubos.categores – Juro que não entendi.

zoofilia guia real 2013 tioria – Credo, tem guia, igual Guia Quatro Rodas?

mobidique livro – HAHAHAHAHAHA!

como o cisne negro mata o cisne branco documentario – Violência animal.

eu não amava animais – Que triste, amigo.

“sentir prazer sem sexo” – Ler um bom livro, dançar, comer…

nen sempre acredite no que te falam pode ser mentira – Concordo plenamente.

fotos de homens com o saco de fora – ….

videos pornos de maridos que levam suas esposas para se diverti com outras mulheris e outros homeis – Hahahahaha, amei o mulheris e homeis!

videos curtos video mulher gostosa traindo marido oficina – Tem que ser curto, se for longo ele perde a paciência.

todos os alunos da sétima b do samuel wainer 2013 – Esse quer organizar uma reunião de turma.

filmes porno com gozadas de jean val jean – Isso sim é gostar de Os Miseráveis!

muheres sem caus e sem sutam – Hein?

sonhar com buraco,mulher gravida e guaiamum – Buraco, grávida e… guaiamum?

Os manuscritos do mar Morto

A passagem do mar Morto é monótona, opressiva e medonha. Completamente impessoal. Uma paisagem sem fisionomia: as formas das colinas não sugerem rostos de deuses ou de homens, nem corpos de animais deitados. “Só o monoteísmo podia resultar disso”, falou um amigo meu, que conhecia a Palestina. “Em lugar nenhum há uma brecha para uma ninfa”. A relva da primavera começa a murchar – minha visita ocorreu no início de abril – e parecia um bolor esverdeado sobre pães imensos. De um marrom amarelado e frio, uma cor escura sem a riqueza da sombra, esses montes também se assemelhavam – foi a única imagem viva que me ocorreu – às corcovas dos camelos que ali pastavam, amarelos, sem brilho, desajeitados, tendo ao seu lado a cria de um branco sujo. Um rebanho de cabras pretas salpicava uma encosta. Cá e lá, sozinha no vazio, uma beduína, acocorada e imóvel, que parece tão atenta como uma pedra, vigia um camelo ou uma cabra; e passamos por alguns poucos abrigos dos beduínos, negros e rasgados, que bem poderiam ser as velhas tendas de Abraão.

p. 44

Grande parte do que conhecemos sobre os Evangelhos são traduções de traduções, versões escritas muito depois da época de Cristo e que nos fazem adivinhar quem seria essa figura que influenciou a história de maneira definitiva. Então, descobrir fragmentos inéditos que falam de seu período histórico e lancem luzes sobre quem ele seria e que influências sofreu seria ótimo, algo a ser comemorado e acolhido por todos, certo? Errado. Em Os manuscritos do mar Morto, Edmundo Wilson mostra o impacto e as dificuldades que surgiram em decorrência de surgimento desse novo material.

O que é realmente interessante no livro é a maneira como os manuscritos incomodaram. Como Edmund Wilson diz, a ciência estava acostumada com um certo número de informações e – por mais que elas tivessem lacunas – tudo a respeito do material existente já estava escrito e as teorias formuladas. Os manuscritos foram um problema para os primeiros que reconheceram seu valor, que tiveram que lutar contra o descrédito, encontrar especialistas, enfrentar acusações de charlatanismo. Depois de reconhecidos, os manuscritos geraram disputas entre países, acadêmicas e financeiras. Os manuscritos tratam, principalmente, grupo chamado de essênios e que seriam a ponte entre o judaísmo e o futuro catolicismo; isso gerou disputas religiosas e desagradou tanto católicos quanto judeus. Até o autor, Edmundo Wilson, ao escrever as primeiras reportagens que deram origem ao livro, também acabou sendo alvo de interesses religiosos e disputas de ego.

Quem está de fora poderá perguntar aos católicos: se Cristo tinha uma identidade humana como Jesus de Nazaré, que numa época e lugar definidos, enfrentou o sistema judaico e a ocupação romana, por que seria chocante supor que Ele tivesse colhido algumas de Suas idéias teológicas dos mestres das seitas do mar Morto, hoje identificados em geral com os essênios, da mesma forma que presumivelmente aprendera carpintaria na oficina de José, ou que alguns de seus ditos e ações possam representar um repúdio a esses mestres? Um católico inteligente e culto por certo não se perturbará – pois sabe que seu Cristo apareceu em determinado momento, numa situação histórica especial – ao descobrir que certos elementos desse contexto agora se tornam mais distintos. Entretanto muitos católicos – como muitos membros de qualquer grupo religioso – não são inteligentes e cultos. Tentar preencher com mais fatos históricos o contexto humano da trajetória de Cristo equivale a correr o risco de enfraquecer a lenda que o populacho ignorante adora e não deve questionar para que a Igreja mantenha a sua autoridade.

p.119-120

Mais do que dos essênios, Os manuscritos do mar Morto conta uma história do conhecimento, da dificuldade em aceitar mudanças, dos mecanismos políticos envolvidos, do efeito duradouro que pessoas específicas têm na ciência. A primeira parte do livro trata dos momentos mais imediatos à descoberta dos manuscritos. Nas partes seguintes, com os manuscritos reconhecidos, Wilson fala do impacto que eles tiveram na vida de várias pessoas, no que foi construído em volta deles, dos limites exteriores e políticos. Além disso, visita o estado de Israel e discute religião. É um meta-livro que conquista até quem não está nem aí pra religião.

A amarga vitória da medicina

Hoje, nada mais natural que quem precise de atendimento médico de urgência vá a um posto de saúde. É uma necessidade e um direito. Embora existam religiões que atribuam curas milagrosas à fé e o uso do que se chama de “medicina alternativa” – rótulo meio irônico, porque em geral indica o que não é reconhecido como medicina – é nos médicos que se deposita a maior confiança de diagnóstico e de cura. Na minha pesquisa de mestrado, sobre pessoas que se tornaram cegas na idade adulta, pude constatar a força de discurso médico. Não era o fato de acordaram sem enxergar que convencia as pessoas de que elas estavam cegas e sim a palavra do médico, o diagnóstico. E somente quando um médico dizia que eles não poderiam voltar a enxergar que eles podiam se conformar com sua condição e recomeçar a vida. Essa entrega radical é fruto de um processo histórico e indica a vitória do que entendemos como Medicina.

Foucault traça esse panorama no O nascimento da clínica. O argumento do livro é que o conhecimento sobre o corpo e suas doenças sempre existiu e que, através de estratégias de poder, foi centrado no que hoje chamamos de conhecimento médico. Essa reorganização gradual mudou nossa forma de olhar o organismo, substituiu a questão de “onde lhe dói?” pela  “o que você tem?”. Deixamos de lado a figura de curandeiros, parteiras e xamãs porque sua atividade se constituía, antes de tudo, pela prática. Hoje entendemos que o conhecimento empírico e o contato com o doente junto ao seu leito não são mais fontes do conhecimento médico – a medicina é formada por faculdades e hospitais, há apenas uma via de transmissão do seu saber. A maneira de entender a doença, o conhecimento do corpo humano, a capacidade de hierarquizar e classificar as variações dos sintomas, a criação de uma linguagem médica e a espacialização da medicina, contribuíram para tornar esse saber tão hermético que o leigo não ousa duvidar da medicina.

É um processo que ainda hoje é muito forte. Foi um luta para que acupuntura, que existe há milênios na China, finalmente tivesse sua eficácia reconhecida. E quando isso aconteceu, passou para o domínio da classe médica. Outro exemplo é polêmico projeto do Ato Médico, que retira a autoridade de vários profissionais da área de saúde – psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, biomédicos, fonoaudiólogos, farmacêuticos – em favor da palavra final de um médico. Vemos a medicina ampliar cada vez mais seu domínio sobre toda e qualquer forma de tratamento de saúde.

Os médicos se tornaram tão essenciais que a medicina hoje nos frustra. O alcance dela nos frustra, a lentidão de certas curas e até pelo fato de ainda existir tantas doenças incuráveis nos frustra. À medida que são comuns longas esperas, falta de leitos ou tratamentos caros demais, vemos que existe um sério problema em lidar com a demanda. Na interação com os pacientes, existem problemas de credibilidade – médicos que não ouvem seus pacientes, casos de erros e abusos, acusações de atender a interesses de grupos em detrimento da saúde da população. Os médicos, por outro lado, se dizem numa posição desconfortável com a alta expectativa depositada neles, entre a necessidade de atender bem versus atender mais. O poder acumulado pela medicina se tornou grande demais e exige cada vez mais investimento. Há uma frase atribuída a Gandhi que diz que “a multiplicidade de hospitais não é sinal de civilização, é sintoma de decadência”.

Um grande poder só é possível quando outros se vêem destituídos de poder. No caso da medicina, esse poder foi retirado de nós, os não-médicos. A busca por formas alternativas de cura tem sido taxada de ignorância e falta de cientificidade; para mim, ela é produto do próprio crescimento da medicina e sua impossibilidade de controlar tudo. Vejo nisso, também, a tentativa de tomar de volta o poder de cura que um dia tivemos.

Temas acadêmicos

Teoricamente, qualquer tema é possível de ser estudado através de métodos científicos, desde que ele receba um recorte que o permita ser transformado numa pesquisa. Na prática, somos tão determinados pela nossa forma de pensar que é difícil fazer um recorte diferente dos caminhos já utilizados. Nossa sociedade valoriza alguns assuntos, se envergonha de outros, simplesmente não pensa em muitas coisas. E o mundo acadêmico, parte dessa sociedade mas com características particulares de grupo, não poderia ser diferente.

Lembro de alguns exemplos simples: a maneira como era constragedor para mim dizer que estava pesquisando cegos, no meu mestrado. Só faltavam falar “oh, que bonito!”. O estigma que recai sobre eles recaia também sobre mim como pesquisadora. O que eu fazia simplesmente não era levado à sério como pesquisa, ela era vista apenas caridade. Pior ainda se na conversa estivesse alguém que fazia uma pesquisa política. Um dos meus professores de ciência política já havia dito em sala que “os alunos mais inteligentes sempre se voltam para a política”, e parece que todos os alunos de ciência política compartilhavam dessa crença. Porque o trabalho deles era difícil, institucional, legal, afetava muita gente. As pessoas silenciavam diante de tamanha importância, nem ousavam se pronunciar perante algo tão hermético. O que não tinha problema nenhum, porque os alunos de política estava sempre prontos a discursarem sobre o seu trabalho. A vontade deles de falar era inversamente proporcional a de ouvir quem pesquisava coisas tolas, sociologia da cultura por exemplo. Mas preconceito mesmo sofria uma amiga que ia estudar o luxo e a história da Cartier. Um dos nossos professores disse na cara dela que considerava um absurdo utilizar um mestrado em sociologia – um curso engajado e crítico – pra estudar um tema fútil.

Imagino que Foucault, antes de ser o Foucault de quem todos ouvimos falar, tenha sido olhado de lado quando dizia que estava estudando sexualidade. Ou quando Da Matta estudou o carnaval, ou o problema que deve ter sido formar o núcleo de pesquisa da USP especializado em novelas. Minha mãe viu mais de uma pessoa passar no mestrado em letras com um excelente projeto sobre Paulo Coelho e ser sutilmente pressionado a escrever sobre gente mais desconhecida e consistente. Como Bourdieu nos faz entender – numa abordagem inédita de algo antes impensável – o que declaramos gostar (e ouso também dizer: pesquisar) nos coloca numa posição diferente perante os outros.

A pesquisa que eu fraudei

No segundo ano de psicologia havia a matéria de Métodos de Pesquisa. A disciplina era dada apenas por uma professora, a Pesquisadora do PauOco. Ela era uma das mais produtivas do departamento; por ser uma das mais produtivas, uma das mais importantes e que trazia mais dinheiro. Não demorei a descobrir o porquê – através da disciplina de métodos, há mais de uma década ela obrigava o curso inteiro a trabalhar pra ela. O pretexto era que tivéssemos uma vivência em pesquisa, que colocássemos em prática o que aprendíamos em sala de aula. Na realidade, éramos tão somente mão de obra não-remunerada para inúmeros projetos pessoais. No primeiro dia de aula, a PauOco escreveu no quadro o nome das quatro pesquisas desenvolvidas por ela no momento. Cada aluno deveria se voluntariar a pelo menos uma. Quem não o fizesse não passava na disciplina de Métodos, e por consequencia não tinha pré-requisito pra quase o curso inteiro. Quis fazer a que me parecia mais inocente, a de mulheres com TPM. Não chegamos a dez “voluntárias”.

A pesquisa já estava sendo desenvolvida há uns dois anos. Nossa tarefa aplicar o instrumento, que consistia em duas folhas. Na primeira, a dos dados, constavam o nome completo das mulheres, telefone, idade e profissão. O outro era uma tabela com trinta e um dias e a descrição de uns cinquenta sintomas de TPM. Era tanto sintoma que só faltava unha encravada: dor lombar, aumento do apetite sexual, diminuição do apetite sexual, choro, irritabilidade, inchaço na mama, pele oleosa, etc. A mulher deveria preencher o primeiro dia da tabela no primeiro dia da menstruação e marcar dia a dia quais dos mais de cinquenta sintomas ela teve. Para complicar mais a coisa, ela deveria marcar os sintomas em graus de intensidade, onde deixar em branco significava que ela não teve, 1 que o teve numa intensidade baixa, 2 que apresentou o sintoma moderadamente e 3 que apresentou o sintoma com muita intensidade. Ela deveria parar de preencher a tabela no início da menstruação seguinte, ou seja, a maioria das mulheres não chegaria nos trinta e um dias. No fim desse período, eu pegaria a tabela de volta. Acho que deu pra perceber o quão complicado e pouco funcional era preencher aquilo.

O projeto acabara de ser aprovado em algum financiamento, então nós (as alunas) precisamos fazer algumas correções. Foi até engraçado, porque o projeto não tinha nada a ver com a realidade. Lá dizia que os dados seriam coletados por uma equipe de pesquisa. Que receberiamos informações sobre a TPM. Que fariamos ligações semanais a todas as nossas entrevistadas. Que as apoiariamos e estariamos aptas a responder suas dúvidas. E, principalmente, que seriamos pagas pra fazer tudo isso. Claro que nenhuma de nós recebeu qualquer salário. Alias, isso era prática comum no departamento: eles pediam bolsa e conseguiam uma ou duas. Com base no número de bolsas oficiais, um ou dois alunos eram inscritos, sendo que na verdade tinha sempre muito mais gente trabalhando. Algumas pesquisas chegavam a ter vinte alunos. Isso porque todos os alunos do curso, de uma maneira ou de outra, eram obrigados a estar em alguma pesquisa. O aluno que oficialmente recebia bolsa podia virar escravo particular ou ter que dividir o valor dela com outros, ficava a critério do professor. Para estimular tanta gente trabalhando de graça, eles diziam que aquilo enriquecia nosso curriculo. Tudo era feito em prol dos nossos curriculos. Lembro que a PauOco fez questão de anotar nossos nomes, porque eles constariam na publicação da pesquisa sobre TPM.

Como não tinha outra maneira, lá fui eu, de posse dos instrumentos, arranjar mulheres. Fui atrás de outras amigas de curso, de amigas da escola de música, de parentes, de amigas do grupo de teatro de um amigo. Expliquei direitinho o que elas tinham de fazer, todas entenderam e estavam dispostas a participar. Consegui distribuir umas vinte tabelas. Cheguei na primeira supervisão tranquila, diria até mesmo orgulhosa. Quando a PauOco perguntou quantos questionários foram distribuidos, pasmem – o meu foi o menor número. Teve gente que distribuiu mais de cem. Eu literalmente passei vergonha. Foi como aparecer de jeans num casamento, ou ser uma mulher comum no meio de misses, ou um homem de proporções normais no meio de atores pornôs avantajados. Foi péssimo e a PauOco me repreendeu. Como minhas colegas conseguiram tantas entrevistas e eu trazia aquela mixaria. Certamente eu não havia me empenhado, não estava levando a pesquisa à sério. Que procurasse mais pessoas. Vi que teria que partir para desconhecidas, porque o meu círculo de relações eu já havia esgotado.

No fim de semana seguinte, contei com a ajuda do porteiro e fiz uma varredura em todas as moradoras do meu prédio. Fui de apartamento em apartamento, em todos os vinte e três andares, com seis apartamentos por andar. Entre os que me atenderam, os apartamentos em que não moravam apenas homens, as moradoras que não estavam na menopausa e as que aceitaram participar, consegui a marca de quarenta tabelas distribuidas. Dessas, um mês depois, só consegui recuperar uma. Lembro que a folha estava quase em branco, com um X num sintoma qualquer bem no meio da tabela. Tentei falar alguma coisa, mas a mulher estava orgulhosa do que ela havia feito em nome da ciência. Não fazia o menor sentido, mas o que eu ia fazer, mandar preencher de novo? Agradeci e peguei.

As reuniões com a PauOco eram quinzenais. Cheguei novamente confiante, porque tinha realmente me empenhado – falei com desconhecidas, dobrei o meu número de mulheres. Quando as outras começaram a falar de quantos tabelas distribuiram… Foram números estratosféricos, todas haviam distribuido mais de cem. Uma delas distribuiu quinhentas! Ela alegou que era porque morava na Casa da Estudante. Eu já podia dizer adeus ao meu diploma pelo olhar que a PauOco me lançou. Já eu olhei indignada para as minhas colegas, aquele bando de mentirosas. Claro que nada daquilo era verdade, era impossível arranjar tantas mulheres e com tanta facilidade. Nem que a fulana morasse no Copan ela arranjaria quinhentas mulheres no espaço de alguns dias. Quase explodi. Mas aí me toquei do que estava acontecendo, que a única ingênua ali era eu. Claro que a PauOco sabia que aqueles números não eram verdadeiros. Nem se recebessemos o salário que o projeto dizia que receberíamos. Ela não estava nem aí pra como e quando eu trouxesse aquelas folhas, desde que tivessem nomes de mulheres e fosse em grande número.

Entrei no esquema. Na época minha mãe trabalhava atendendo o público, então ela virava pras mulheres e perguntava: “Quer ajudar numa pesquisa sobre TPM? Então preencha nessa tabela os sintomas que você tem.” Assim conseguimos vários nomes. Mas eram questionários demais. Toda reunião a PauOco nos cobrava centenas de folhas e anotava nossos resultados, igual avaliação de desempenho. Comecei a usar nomes de mulheres conhecidas, mesmo sem ter falado da pesquisa com elas. Pessoas cujo nome eu apenas sei, mulheres que um dia fizeram parte da minha vida. Apelei para mulheres que por acaso apareciam na TV falando do seu bairro, mulheres que já morreram, nomes inventados, listas telefônicas. Centenas de mulheres participaram da minha pesquisa de TPM sem saber. Minnie Mouse só não revelou se tem cólica porque mora em outro país. Criar tantos nomes era um verdadeiro pesadelo, que só acabou no fim do ano letivo. Todas nós passamos de ano.

Muitos anos depois, acabou caindo nas minhas mãos a pesquisa já publicada, numa revista científica. A PauOco era a única autora. Na última página, em itálico, estava escrito: Um agradecimento especial às alunas do curso de Psicologia da Universidade X.