Eu sou Malala, com Christina Lamb

De uma maneira ou de outra, a gente sabe que existe uma Malala antes de ler o livro e sabe que foi a pessoa mais jovem a receber o Nobel, que ela é muçulmana e luta pela educação de meninas. Quem lê o livro quer conhecer essa história e as autoras do livro – a própria Malala e Christina Lamb – parecem ter uma profunda compreensão do que essa menina representa. Eu sou Malala oferece ao leitor uma descrição sincera e ampla, que contempla Malala no contexto da família, dos amigos e da política. De forma inteligente e interessante, Malala é colocada com uma menina por um lado comum, que gosta de arrumar o cabelo e brincar com as amigas, e por outro bastante estimulada por um pai educador, idealista e muito atuante, que oferece a sua filha muito mais do que seria esperado – ao que ela corresponde amplamente, e pai e filha se tornam representantes da mesma luta. O livro nos oferece o ponto de vista paquistanês dos ataques de onze de setembro, o crescimento do Talibã, a ambiguidade interna com os EUA e o que leva uma adolescente a  “merecer” um tiro na cabeça.

Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. O primo de meu pai, Jehan Sher Khan Yousafzai, foi um dos poucos a nos visitar para celebrar meu nascimento e até mesmo nos deu uma boa soma em dinheiro. Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas da descendência masculina. Meu pai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu “Malala”. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: “Sei que há algo diferente nessa criança”. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas no meu berço, algo reservado somente aos meninos. (p.21-22)

Também eu não queria me render. Mas nos aproximávamos do prazo determinado pelo Talibã para que as meninas deixasse de ir à escola. Como impedir 50 mil meninas de ir à escola em pleno século XXI? Eu não parava de pensar – ou desejar – que algo mudaria e que as escolas permaneceriam abertas. Mas nosso prazo estava se esgotando. Tínhamos determinado que  sinal da Khushal seria o último a parar de tocar. A sra. Maryam até mesmo se casara, para poder ficar no Swat. Sua família havia se mudado para Karachi por causa do conflito e ela não podia morar sozinha. (p. 168)

Todos recitamos surahs do Corão e uma oração especial para proteger nossos queridos lares e nossa querida escola. Então o pai de Safina colocou o pé no acelerador e lá fomos nós, do pequeno mundo de nossas rua, casa e escola rumo ao desconhecido. Não sabíamos se algum dia voltaríamos a nossa cidade. Tínhamos visto fotos de como o Exército acabara com Bajaur, numa operação contra os talibãs, e pensamos que tudo aquilo que conhecíamos seria destruído.

As ruas estavam repletas. Eu nunca as vira tão movimentadas. Havia carros por toda parte, bem como riquixás, carroças puxadas por mulas e caminhões, todos lotados de pessoas com seus pertences. Havia até mesmo motos com famílias inteiras balançando-se sobre elas. Milhares de pessoas caminhavam apenas com a roupa do corpo. Parecia que todo vale estava em fuga. Diz-se que os pachtuns descendem de uma das tribos perdidas de Israel, e meu pai comentou: “É como se fôssemos israelistas fugindo do Egito, só que não temos nenhum Moisés para nos guiar”. Poucas pessoas sabiam para onde ir; a maioria apenas sabia que tinha de partir. Foi o maior êxodo da história pachtum. (p. 188-189)

Numa perspectiva mais literária, eu diria que Malala é um livro sobre perder e reconstruir o próprio lar; a perda de Malala, das outras meninas e dos paquistaneses em geral é tão profunda que é preciso construir um mundo novo, porque o lugar que amavam foi destruído pela violência, ignorância e disputas pelo poder. A história é tocante por ser muito próxima: os Yousafzai são uma família que querem nada mais do que o direito à felicidade e oferecer do melhor aos seus. Ao conhecer o contexto político, vemos os acontecimentos exteriores se avolumarem lá fora enquanto eles, pessoas comuns, nada podem fazer a respeito. Quando a violência se torna generalizada, Malala e os outros são engolidos, sua forma de viver é colocada em risco e preservar o mínimo de dignidade passa a ser um posicionamento político. Vemos as fotos da família no meio do livro, sabemos que agora eles vivem na Inglaterra, e para surpresa e choque etnocêntrico do leitor, sair do campo para ter acesso ao ápice da civilização não foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Malala já famosa e ganhadora de prêmios fala do tédio na Inglaterra, de um pai longe do que construiu, de uma mãe sem as amigas, uma escola onde não se sente amada. Há sim conforto e segurança, mas falta a cultura acolhedora, as montanhas e as flores, o pertencimento. Ser inglês ou ocidental não é o mundo ideal, o mundo ideal é um Paquistão mais justo. Como ela mesma conclui no fim do livro: “Eu sou Malala. Meu mundo mudou, eu não.”

A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa

Eu já tive orgulho besta da nossa brasilidade linguista nos deixar distante do resto da América Latina, a que fala espanhol. Hoje lamento o quanto saímos perdendo. Até as traduções em português lusitano nos são difíceis, então temos que torcer para as nossas editoras fazerem traduções especialmente para nós. Enquanto isso, os mexicanos leem com a maior naturalidade livros publicados na Argentina e por aí vai. Nossa ignorância se estende aos autores latino americanos e sabemos que existiu Borges e olhe lá. Só essa ignorância explica que tão poucos saibam que Mario Vargas Llosa, premiado autor peruano que ganhou o Nobel de literatura de 2010, escreveu um livro excelente sobre a guerra de Canudos no início dos anos 80. Inspirado por Euclides da Cunha, Llosa fez uma extensa pesquisa histórica com documentos e visitou os locais onde aconteceu a guerra. O resultado é um romance vivo, informativo e que consegue nos atingir de uma forma que Euclides da Cunha já não consegue mais. Este trecho – belíssimo – mostra o quanto homem e natureza, que estavam separados n´Os Sertões, se unem no romance de Llosa e mostram um pouco do significado da figura de Antônio Conselheiro às milhares de pessoas que o seguiram:

Dava conselhos ao entardecer, quando os homens voltavam da roça, as mulheres tinham terminado seus afazeres domésticos e as crianças já estavam dormindo. Falava nos descampados lisos e pedregosos que há em todos os povoados do sertão, no cruzamento das ruas principais, e que poderiam ser chamadas de praças se tivessem bancos, coretos, jardins ou se ainda conservassem os que tiveram um dia e foram destruídos pela seca, pelas pragas, pela negligência. Falava na hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de ficar escuro e estrelado, cintila em flocosas nuvens brancas, cinzentas ou azuladas e se vê lá no alto, sobre a imensidão do mundo, um vasto fogo de artifício. Falava na hora em que se acendem as fogueiras para espantar os insetos e fazer a comida, quando o calor sufocante diminui e sopra uma brisa que deixa as pessoas com mais ânimo para suportar a doença, a fome e os padecimentos da vida.

Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar especialmente para nenhuma das pessoas que o cercava, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através da aglomeração de velhos, mulheres, homens e crianças, para algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam, porque eram absolutamente sabidas desde tempos imemoriais e absorvidas junto com o leite materno. Coisas atuais, tangíveis, cotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Juízo Final, que podiam acontecer, talvez, antes que o povoado reconstruísse a capela desmoronada. (p. 16-17)

O livro é um calhamaço de 600 páginas e de vez em quando o leitor se vê com a mesma impaciência dos exércitos: Canudos não vai cair nunca? Canudos se tornou um problema justamente por ter demorado a cair. Para nos fazer entender o significado de Canudos para a época e para as pessoas que influenciou, o Guerra do fim do mundo parte de diferentes pontos de vista, tanto de personagens centrais como de outros que surgem apenas em poucos capítulos e nos dão informações pontuais. Do “lado de fora” temos, dentre outros, o Jornalista Míope (cujo nome nunca é revelado e nos faz pensar numa homenagem a Euclides da Cunha), o comunista Galileo Gall, o monarquista Barão de Canabrava. São personagens que enxergam a guerra no seu sentido político e, entre prejuízos pessoais e equívocos, se sentem desafiados por um fenômenos que ultrapassa qualquer lógica. Ao lado do Conselheiro podemos citar: Beatinho, Leão de Natuba, Pajeú, Mãe dos Homens, Antonio Villanova, João Satã. Seu séquito era formado por bandidos e vítimas, religiosos e recém-convertidos, ignorantes e alguns poucos com cultura, alguns nem ao menos acreditavam em tudo o que ele dizia – mas todos eram dotados de grande sinceridade e fizeram de Canudos um projeto de vida. O único personagem cujo ponto de vista nunca conhecemos é do próprio Conselheiro, que termina o livro como um mistério: era um fanático ou um enviado de Deus? Visto como inimigo da República por pregar a volta da Monarquia, ele demonstra a triste confusão da ignorância ao se colocar contra o casamento civil e o sistema métrico decimal e acreditar que o censo tinha por finalidade re-escravizar os negros. Ao mesmo tempo, é impossível negar seu poder de persuasão, carisma, convicção e capacidade de falar ao coração do seu povo. Mesmo conhecendo a Guerra de Canudos pelos livros de história e por já fazer parte do nosso imaginário, Guerra do fim do mundo consegue resgatar no leitor o sentimento de Euclides da Cunha e de muitos que estiveram envolvidos naquela guerra: a vontade de que fosse diferente, a constatação do absurdo de dizimar um povoado com mais de vinte mil pessoas reunidas pela fé e a vontade de viver melhor.

Os advogados contra a ditadura

Eu já ouvi que todos os que foram presos e torturados durante a ditadura “fizeram por merecer”. Sempre me pergunto que diabo de colégios são esses que não falam do golpe de 64 aos alunos, ou que ensinam o assunto de maneira tão ruim que há quem esteja convencido de que nossos presos políticos eram assassinos, terroristas e/ou (ironia das ironias) torturadores – e não apenas (em sua maioria) jovens que ousavam falar ou pensar algo diferente do que o Regime prescrevia. É nesse sentido que vejo muito valor neste documentário que conta a história de advogados perseguidos durante a Ditadura. Ele demonstram que o patrulhamento e a violência eram tais que apenas advogar  e auxiliar as famílias dos que tiveram parentes presos era motivo para também ser perseguido e torturado.

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A REVOLUÇÃO VIRAL – Como um grupo cultural previamente tido como irrisório mudou a balança política do país da noite para o dia

Por Rafael Savastano

Tem sido impossível desgrudar da TV e da internet na última semana. E, por incrível que pareça, não é por causa da Copa das Confederações, que tem sido vendida como um ensaio geral para a Copa do Mundo de 2014. Ao contrário do que até o mais insano dos insanos poderia prever, os últimos dias viram a eclosão de um movimento político popular como o país não via há mais de 20 anos, bem no meio de uma edição de gala, em solo nacional, de um evento esportivo que o senso comum sempre ditou ser um grande alienador das massas. De lá para cá, tenho lido e assistido inúmeras análises, opiniões, palpites, até mesmo os bons e velhos “chutes” por parte de toda sorte de cientistas políticos, catedráticos, medalhões da mídia, etc. Tenho visto todas as esferas de poder, de todos os partidos, apavorados como se estivessem saindo do banho e encontrassem um urso feroz e faminto no meio do banheiro, no caminho da porta. Atordoados, eles tiveram que rever suas agendas políticas no susto sem nem ao menos entender como um urso daquele tamanho passou pela porta sem que eles notassem. A grande diversão da minha vida nos últimos dias tem sido imaginar o teor das reuniões de cúpula emergenciais que foram convocadas do Oiapoque ao Chuí. E mesmo agora, que a reivindicação inicial da turba foi atendida com um misto de contragosto e derrota pelos governantes das principais metrópoles do Brasil, ninguém ainda conseguiu entender a essência do movimento.

Bem, eu não sou cientista político, nem filósofo, e muito menos catedrático. Mas eu sou um integrante do que provavelmente foi o elemento chave que inverteu a ordem das coisas, um grupo cultural que até semana passada eu nem tinha real compreensão de que fazia parte, ou sequer que existia. Mas daqui de dentro, enxergo muitas peças que se encaixam perfeitamente e completam o quebra-cabeça que tem tirado o sono dos analistas políticos, e por isso acho que vale a pena tentar esclarecer e enriquecer o debate.

Para começar a explicação, vamos resgatar um termo que já saiu de moda, mas que curiosamente se encaixa melhor para explicar os eventos atuais do que qualquer jargão que surgiu desde então: Cibercultura. (….)

Leia o resto aqui.

Minha razão de viver, Samuel Wainer

Minha razão de viver: memórias de um repórter é um livro para ser devorado, obrigatório para quem se interessa por jornalismo e política. Cheguei a Samuel Wainer pelas citações dele em Chatô, antigo patrão e um de seus ferrenhos inimigos, e na autobiografia de Danuza Leão, sua ex-mulher, que o descreve como um homem cosmopolita e charmoso. É uma autobiografia baseada nas fitas que o próprio Samuel gravou, com a intenção de transformá-las num livro e não teve tempo de concluir o projeto. De acordo com seu organizador, Augusto Nunes, é uma autobiografia inovadora pela sinceridade, pela maneira como descreve francamente derrotas, fraquezas e corrupções. Depois disso, o gênero da autobiografia no Brasil nunca mais poderia permanecer o mesmo, com suas visões idealizadas e unicamente elogiosas. Ao ler sobre a trajetória pública e jornalística de Samuel, concluímos que ser inovador era uma de suas marcas.

O livro já começa dando ao leitor o feito mais conhecido de Wainer: ter feito com Getúlio Vargas a entrevista definitiva que o levou de volta ao poder. Em 1947, o então senador Getúlio Vargas havia resolvido retirar-se da vida pública e se isolou em São Borja, sua cidade natal. Ele havia governado o país durante quinze anos e acusava o Congresso de tentar desmoralizá-lo. Toda imprensa estava (e continuaria a estar durante muito tempo) contra ele. Nesse exílio voluntário, se recusava a receber jornalistas. Numa viagem feita ao Rio Grande do Sul com outras finalidades, Samuel toma a iniciativa de procurar Getúlio em busca de uma entrevista. O resultado desse encontro gerou a manchete “Eu voltarei como líder das massas” que agitou o país e colocou Getúlio na presidência por voto popular nas eleições de 1950.

De repente, a porta se abriu e vi Getúlio Vargas. Parecia um genuíno boneco gaúcho, semelhante àqueles que se vendem aos forasteiros como lembrança do Rio Grande do Sul. Baixinho, bombachas azuis, uma bonita camisa xadrez, lenço no pescoço, chapéu, botas pretas, charuto na boca, ele sorria. Pareceu-me um homem no auge do vigor físico e na plenitude da paz interior. Então repetiu a pergunta feita em 1947:

– Quem é Wainer?

– Sou eu, senador.

– E como vai o petróleo?

– Pelo que vejo, não sou eu que tenho que lhe pedir uma entrevista – brinquei – Eu é que vou ser entrevistado pelo senhor. Estou às suas ordens para dizer como vai o petróleo. Vamos conversar.

p.26-27

Esse encontro com Getúlio marca a ascensão política de Wainer, que passa a ter intimidade com o poder e revela, de maneira bastante crua, os jogos de influência, corrupção e alianças desse meio. Mas antes disso ele já era um grande jornalista. Ele encarna o ideal de todo repórter ao farejar e escrever sobre os acontecimentos importantes da sua época, como o julgamento de Nuremberg e a criação do estado de Israel. Quando descreve a fundação do jornal Última Hora – sua razão de viver – o leitor sente a adrenalina e a aventura do seu ato, que nasceu cheio de inimigos e desafiou o resto da imprensa, políticos e militares. Com o Última Hora, Wainer introduz inovações que mudaram para sempre a maneira de publicar jornal: uso de cores, fotos na primeira página, caderno de cultura, colunas sociais, seção de futebol, pontualidade na entrega às bancas, etc.

É um livro delicioso, de ritmo ágil e que o leitor devora em pouco tempo. Ele serve com o outro lado da história que lemos em Chatô, que faz muitas referências a Wainer. Serve, também, como um contraponto positivo ao que lemos em Chatô. Chateaubriand é uma figura sem dúvida marcante, mas muito desagradável e até mesmo mau; o Diários Associados é usado para fins tão torpes que terminamos a leitura completamente decepcionados com a imprensa. Em Wainer vemos um jornalista que amava sua profissão e procurou exercê-la com excelência. Mesmo quando usa de seu envolvimento com o poder, é sempre em benefício do seu jornal e não para enriquecer ou entrar para a política. Eu, que jamais havia me interessando pelo período do Estado Novo, passei a me interessar pela figura de Getúlio. Difícil vai ser encontrar um outro livro que descreva esse período de maneira tão envolvente.