Depressão, o segredo que compartilhamos

Essa é a melhor discussão sobre depressão que eu já vi, numa palestra dada por quem sofre com ela e se dispôs a estudar o assunto. São questionamentos que vão desde como é reconhecer a depressão, conviver com remédios, a busca pela melhor terapia, até as implicações sociais, como o difícil diagnóstico naqueles que já vivem em condições precárias de vida.

 

Moby Dick e a violência como prazer

Tenho certeza de que um autor que procurasse uma editora com Moby Dick, hoje, não conseguiria ser publicado. Pelo menos, não do jeito que o livro é. O editor desejaria cortá-lo pela metade ou até mais, como nas muitas versões resumidas que se encontram por aí. Resumir Moby Dick não seria difícil: mantém-se as primeiras duzentas páginas, até o nome da baleia ser citado. Conta um certo número de páginas do final e tudo que há no meio pode ser deixado de lado. Com isso o leitor conheceria a história da caça à baleia Moby Dick, mas também perderia a essência do livro. São nas suas longas descrições, muito mais em Moby Dick sem si, que está o coração da história, o que ela quer transmitir ao leitor. Moby Dick é um daqueles livros que nos mostra muito mais do que o autor previra, ele é retrato de uma época.

Herman Melville foi ele mesmo um marujo, um caçador de baleias. O livro é uma declaração de amor à profissão, ressaltada em todos os seus aspectos, tudo o que ela envolve tanto em termos materiais quanto humanos. O leitor acompanha a escolha de um navio, sua preparação antes de embarcar, a hierarquia entre os comandantes, as diversas funções, os talentos necessários à tripulação, a rotina de uma vida à bordo, a etiqueta entre navios, as diferenças entre embarcações de funções e países distintos, etc. Cada aspecto é esmiuçado em capítulos pequenos, porém abundantes, o que faz com que grande parte das mais de 500 páginas do livro seja de descrições. A Moby Dick em si é citada ali e acolá. O leitor pode ficar fascinado ou achar tudo um tédio. Ok, mesmo quem ficar fascinado terá momentos de tédio.

É na relação com as baleias que está, na minha opinião, a parte mais interessante do livro. Tem descrições históricas, tipos, comportamento, diferenças, utilidades, anatomia, tudo o que se pode querer saber sobre baleias e mais um pouco, principalmente sobre a  cachalote – espécie que até então era considerada a maior do mundo e da qual se extraía o precioso óleo esparmecete. A caça às baleias (o “Leviatã”), pela falta de tecnologia, ainda era feita no braço. Os marujos a cercavam em pequenos botes a remo e atiravam contra ela seus arpões. Era tudo muito próximo, muito pessoal. Nessa luta entre homens e um animal tão maior e mais forte do que eles havia sentimentos de admiração e desafio. Às vezes é difícil entender como passagens de morte e sofrimento são alternadas com o desejo de entender as baleias e o reconhecimento diante de sua nobreza:

Quando penso mais nessa forte cauda, mais sinto minha deficiência para descrevê-la. Algumas vezes se pode notar nela gestos que, embora ornassem a mão de um homem, permanecem-nos totalmente inexplicáveis. Em um grande bando são tão notáveis, às vezes, esses misteriosos gestos, que alguns baleeiros dizem serem semelhantes aos sinais ou símbolos dos franco-maçons, e dizem que também na verdade o cachalote, por meio de tais gestos, conversa inteligentemente com o outro mundo. Há também alguns movimentos que a baleia faz com o corpo, que são estranhos e difíceis de explicar para seu mais experimentado atacante. Eu mal conheço o Leviatã, nem jamais o conhecerei. Mas, uma vez que não conheço nem a cauda do cachalote, como então lhe desvendar os segredos da fronte? Muito mais, como compreender-lhe a face, quando ele não a possui? Parece que ele diz: “Verás minhas partes posteriores, a cauda, mas a minha face, não a verás.” p.405

É uma ambiguidade difícil de entender. Primeiro pela violência contra os animais. Hoje nos compadecemos do sofrimento animal e ninguém mais concorda que o homem tenha direito de matar e exterminar a natureza da maneira que quiser. O livro tem um pensamento muito anterior à noção de ecologia e nos faz perceber como chegamos aqui. Há um capítulo que diz que por mais que se matem dezenas de milhares de baleias por ano e já esteja mais difícil encontrá-las, as baleias sempre darão um jeito de existir, então é possível caçar sem limites. Nos momentos que a baleia consegue surpreender seus agressores ou vinga a morte de outras do seu bando, são sempre descritos como parte da sua maldade. Depois de morta, a baleia precisa ser cortada, e seu matador tem direito a se deliciar num banquete. Da cabeça da cachalote é retirado o espermacete, que é descrito como leitoso, cheiroso, uma substância divina. Seus restos são cozidos, retalhados, repartidos com tubarões. Nem ao menos há pudores ou respeito por filhotes ou baleias grávidas.

Outro aspecto importante é a descrição a adrenalina da caça: a morte como uma forma de vitória, o prazer em ser agente de sofrimento. Esse sentimento, que parece ser tão antigo quanto homem, está presente em relatos de guerras, em duelos, em vinganças pessoais, na relação de respeito e temor a tiranos cruéis e até mesmo em histórias infantis. Hoje não mais os toleramos, não dentro da normalidade. A violência como forma de prazer é, para nossa civilização, característica do comportamento doentio dos psicopatas – personagem que tememos, reprovamos e estudamos profundamente. O sangue e a violência nunca deixaram de existir, mas que sejam praticadas longe dos olhos e da forma mais institucionalizada possível. De matadouros à violência policial, nada disso deve chegar ao cidadão comum e ferir sua sensibilidade.

É provável que a violência faça parte da própria constituição do homem, que seja um sentimento atávico que jamais possa ser eliminado. A violência que reprimimos na caça reaparece de outras formas. Como espectador, por exemplo, o homem satisfaz seu desejo de violência ao assistir lutas e ver filmes. Nas lutas, a força e a ferocidade dos oponentes satisfazem a platéia, que ao mesmo tempo não precisa temer pela saúde dos envolvidos – existem regras, é de verdade mas não tanto assim.  Filmes e séries que retratam violência são praticamente onipresentes. Neles, dá-se preferência a uma violência repetitiva, cerebral, cada dia mais sofisticada, ou seja: violência praticada pela figura do psicopata. Existe também o tema da transformação do cidadão pacífico em um homem violento. É como se disséssemos: pode acontecer com qualquer um, na essência somos todos violentos. Moby Dick traz de volta esses sentimentos, e mostra uma violência ainda não tão pacificada pelo comportamento civilizado.

Profissional da ajuda

Há quem brigue comigo quando descobre que sou formada em psicologia e optei por não exercer. É como se eu fosse um padre que abandonou a batina. Comparar meu abandono da psicologia com um sacerdócio faz sentido porque as pessoas que costumam brigar comigo, coincidência ou não, são ligadas a crenças religiosas ou místicas. Para elas, a psicologia é uma grande oportunidade de ajudar o próximo, um karma grande e nobre a ser queimado, e deixar isso de lado é esquecer do propósito mais alto que deveria reger minha vida.

Estava tendo a última conversa com aquele espírita, que seria a última justamente por ele não aceitar minha posição. Ele estava tentando me convencer a ser psicóloga. Eu aleguei falta de vontade, de vocação, descrença e todos os meus motivos. Muitos argumentos depois, ele então aceitou que eu não quisesse viver disso – mas então que eu fosse psicóloga num serviço voluntário, meia hora que fosse, uma vez por semana? Tive que concordar que isso era razoável (nós nos conhecemos justamente num serviço voluntário). Aí eu lhe apontei a questão legal, que eu não tenho e nunca tive CRP (registro no conselho profissional), e que seria ilegal me apresentar como psicóloga. Aí ele me disse que se eu me oferecesse a uma instituição, e pedisse a essa instituição me pagar apenas o correspondente a esse valor do CRP, para ir lá conversar, que seja, meia hora por semana com um menor de rua. Aí eu levantei a questão:

– Não tenho nada contra fazer esse serviço voluntário, mas porque eu precisaria me apresentar como psicóloga pra isso? Não bastaria eu chegar lá, eu mesma, com o conhecimento que tenho e conversar com o menino? Por que eu teria que fazer isso me apresentando como psicóloga, de crachá e de guarda-pó? Faz tanta diferença assim?

Pra ele fazia. Ele não soube explicar o porquê, mas continuou insistindo que eu deveria ir como psicóloga. Eu acho que o que ele mesmo não soube explicar é o poder do guarda-pó, do diploma, das instituições. Ele acreditava que tudo isso daria um peso às minhas palavras que normalmente elas não teriam. Talvez fosse muito mais isso do que eu, como pessoa, que pudesse ajudar o tal menino. Pessoalmente, discordo dessa posição. Acho que temos nos iludido demais com diplomas, com capacitações, com currículos. Isso é confundir forma com conteúdo, é confiar mais no certificado do que na coisa em si.

Antipsiquiatria e experiência pessoal

A antipsiquiatria foi um movimento que surgiu, como o próprio nome sugere, contra a psiquiatria. Se maiores autores foram Ssaz, Laing, Scheff e Goffman. Ssaz afirmava categoricamente que a doença mental não existe. O comportamento incompreendido de algumas pessoas as levariam a ser interpretadas como doentes e tratadas como tal por sua família, equipe médica e sociedade. O doente seria vítima de uma conspiração. Laing, ao estudar esquizofrênicos dentro da sua família, percebeu a presença do que chamou de duplo vínculo: é uma relação que gera conjunto de exigências autoritárias e contraditórias, que tornam impossível ao lado dependente responder de maneira racional. Por isso, a aparente incoerência do comportamento esquizofrênico faria sentido dentro do que lhe foi exigido no seu grupo primário. Scheff trabalha com a teoria da rotulação, que diz que um comportamento disfuncional ocorre em função do comportamento dos outros, e é a maneira como é interpretado que pode fazer com que ele seja visto como doentio. O comportamento transgressor original, que pode ter múltiplas origens (até mesmo orgânicas), faz com que lhe seja atribuído um esteriótipo patológico, que faz com que todas suas ações posteriores sejam interpretadas da mesma maneira. Por fim, Goffman, trabalha com o conceito de estigma. A sociedade é preconceituosa e trabalha em prol da desvalorização de alguns membros. Uma vez vítima do estigma de doente mental, é muito difícil se libertar.

Foi com esse pensamento que eu fui fazer estágio numa clínica psiquiátrica. Eu nem ao menos procurei por ele – uma amiga havia pedido uma vaga, arrumou coisa melhor, e pra não ficar feio me colocou no lugar dela. Eram duas alas, a de pacientes que ficam lá durante o dia e voltam para casa e a da internação. Assim que a gente entrava, tinha que ficar na Ala Dia. Ao contrário do que inicialmente parece, é na ala dia que estão os pacientes mais institucionalizados. Muita gente tem uma crise e se interna durante algumas semanas e nunca mais volta. Para estar na Ala Dia, o paciente estava diagnosticado há anos e tinha uma relação de rotina com o seu internamento. Quem estava na ala dia não tinha emprego- ser doente era seu emprego, o que ocupava seus dias de segunda a sexta. Fui para a clínica com aquela vontade que todo estagiário de psicologia parece ter: eu queria fazer a diferença. Queria fazer como nos filmes – eu encontraria um paciente largado no canto, daqueles que ninguém vê solução. Eu me aproximaria, me tornaria uma amiga e quando todos se dessem conta, ele faria progressos que ninguém nunca imaginou. Todas essas ilusões acabaram logo nos primeiros dias que passei lá.

Eram várias turmas. Uma turma gostava de ver TV, outros gostavam de ouvir rádio, alguns gostavam de desenhar, a maioria gostava de ficar sentada pelos cantos. Os estagiários – geralmente estagiárias, todas novinhas – chegavam e eram simpáticos, e algumas pessoas eram simpáticas também. Não encontrei a revolta que esperava, assim como não encontrei a vontade desesperada de ser salvo. Alguns tinham algo evidente. Lembro em especial de um que adorava conversar com as estagiárias, e logo no segundo dia já contava que andava sonhando com a gente. Talvez para observar a reação e tentar encontrar alguma acolhida, descrevia com detalhes o teor erótico desses sonhos… Na maioria das vezes era preciso conversar com a psicóloga ou ler os prontuários para adivinhar o motivo da internação. Ninguém gostava de sair conversando sobre isso, assim como ninguém aqui fora gosta de mostrar o saldo do banco em vermelho para os outros.

Foram seis meses de estágio, e nesse período não salvei ninguém. E aprendi a jogar sinuca. Ou melhor, aprendi a segurar o taco e acertar a bola, porque sou péssima em sinuca. Por entender muito rápido que não salvaria ninguém, me relacionava com eles como me relacionaria com qualquer outra pessoa aqui fora. Isso me causou uma dor de cabeça muito grande, uma única vez; no geral fez com que os pacientes gostassem muito de mim. Eu tinha uma certa vergonha da equipe médica passar por mim quando estava com o taco na mão; já os pacientes pareciam gostar muito de me ver jogar tão mal. Conversavamos sobre TV, filmes, algumas vezes sobre nada. Pra não dizer que não fiz nenhum vínculo importante, fiquei próxima de uma adolescente, pouca coisa mais nova do que eu, com o diagnóstico de esquizofrenia. A única coisa que ela tinha de diferente era ser quieta e ter um olhar vazio. Ela não parecia ter motivos pra ficar ali, e receberia alta em breve. Só que quando fui fazer estudo de caso e entrevistei o irmão dela, descobri que antes de ser medicada ela sumia de casa de madrugada, andando, e que havia ameaçado a família com um facão.

Essas experiências todas me fizeram ver o porquê a antipsiquiatria é bonita como teoria, mas que contribuiu muito pouco ou nada para ajudar a vida de doentes psiquiátricos. Porque é muito difícil lidar com alguém assim -com alguém que te ameaça comum facão, ou que assedia todas as mulheres que encontra ou que parece indiferente a qualquer contato. É fácil dizer que as pessoas precisam de compreensão; mas é difícil saber o que fazer. É preciso tanta disposição, tempo, dinheiro, abertura e a coragem que na prática talvez não seja possível. Principalmente: eu vi que receber um diagnóstico psiquiátrico realmente estigmatiza profundamente; mas, como toda estigmatização, ela oferece à pessoa um ponto de vista diferente. A partir do estigma, eles olhavam a normalidade – com todas suas cobranças, reprimendas e dores – e calculavam a validade dela. Em outras palavras, a importância de ser normal é posta em dúvida. Muitos, claramente, passaram a preferir viver do outro lado. Querer que todos adotem nossa visão de normalidade, que a felicidade está em ser produtivo e pai de família, também não deixa de ser uma forma de violência.

Fast psicologia

Cena 1 : Coisas que odeio em mim.

Esse programa se propõe a resolver dez problemas em apenas um dia. A californiana Jane se queixa de que ela não consegue esquecer o namorado com quem viveu mais de cinco anos e de quem estava separada há dois. Eles chamam sua melhor amiga para lhe dar apoio e um psicólogo. Diante das câmeras, ela fala da saudades que sente dele e chora. O psicólogo pede para ela escrever no papel todos os seus medos e mágoas com relação a esse assunto. Depois, discursa sobre ela estar começando um novo período na sua vida, simbolizado pela queima do papel onde ela havia descrito seus problemas.

Cena 2: Super Nanny.

A especialista Super Nanny ajuda pais que não conseguem educar seus filhos. As cenas mostram Mary oprimida por seus dois filhos. Ela carrega suas mochilas, apanha deles quando os contraria e se sente extremamente culpada quando coloca qualquer limite. Super Nanny lhe dá uma mochila cheia e as duas saem para caminhar. Chegam ao topo de uma montanha. Quando Mary abre sua mochila, ela está cheia de pedras. Aquelas pedras, Super Nanny lhe diz, representam toda culpa que ela tem carregado inutilmente. Ela é convidada a nomear cada pedra com uma de suas culpas e joga-las fora.

Cena 3: Guro do estilo.

A participante abre seu guarda-roupa a um especialista, que analisam seu tipo físico e estilo para lhe propor um novo visual. Depois de conhecer Sue, o especialista conclui que ela têm um grave problema de auto-estima. Então marcam para ela uma consulta com um psicólogo que atende várias estrelas. Na consulta, ele faz com que ela desfile com uma roupa feita de saco de lixo – “o que pode ser pior do que se vestir de saco de lixo?”. Depois a mostra a vários espelhos de imagem deformada, que simbolizam a maneira como os outros a vêem. Por fim, diante do espelho normal, ela conclui que o melhor é ser ela mesma.

A psicologia, como ciência, nasceu sob influência do pensamento filosófico europeu. Para muitos o marco está em Descartes, que ao dividir a res cogitans da res extensa, ou seja, a parte psíquica da física, iniciou uma forma de ver o indivíduo e estudá-lo. A psicologia estaria separada da biologia e outras ciências materiais por se debruçar sobre aquilo que se manifesta no físico e possui suas próprias origens e leis – para tanto, merece um método específico de estudo. Wundt em 1873 ele publicou o livro Fundamentos da Psicologia Física e é considerado o pai da psicologia. Ele criou em 1879 o primeiro laboratório de psicologia. Como é possível perceber, a psicologia experimental ainda dialogava muito com experimentos fisiológicos. Idéias hoje associadas à psicologia como inconsciente, repressão e libido surgiram graças a Freud. Em 1895, no Estudos Sobre a Histeria, Freud procura minimizar o discurso físico em torno da histeria para privilegiar a dimensão psicológica.

O tratamento psicológico, quando pensado em função do inconsciente e traumas infantis, é bastante dispendioso. A preocupação com o tempo e a cura não foi uma prioridade no nascimento da disciplina. A psiquiatria nunca teve um histórico de curas, apenas de controle. A psicanálise também não se propõe a curar. Na tipologia da psicanálise, o sujeito normal é um neurótico. O neurótico é aquele que entende a adere às regras sociais, mesmo que isso lhe cause sofrimento. A repressão da libido é entendida como condição básica da civilização. A única coisa que a psicanálise pode propor aos seus pacientes é o ajustamente social e alívio de alguns sintomas. Com Jung, o paciente terapeutizado se propõe a fazer um mergulho tão profundo no seu inconsciente que atinge o inconsciente da própria humanidade. Reich, outro discipulo eminente de Freud, propunha uma verdadeira revolução sexual: a neurose invidividual, fruto de uma repressão sexual, não poderia encontrar sua plena manifestação numa sociedade puritana e repressora. Por isso, a libertação da indivíduo necessariamente passaria pela libertação da própria sociedade.

Nos Estados Unidos surgiu uma outra maneira de entender a psicologia, muito mais prática e direta. Lá surgiu a psicologia comportamental, também chamada de behaviorismo. O behaviorismo metodológico de Watson (1878-1958) se propunha a abandonar os processos cognitivos e se limitar ao comportamento observável. Skinner (1904-1990) levou o método comportamental a outro patamar, ao propor que através do comportamento observável é possível conhecer e modificar a dimensão psíquica. Para tanto era preciso fazer uma análise comportamental, ter objetivos claros, levar em conta possível condicionamentos e propor modificações ambientais. Isso tornou possível a criação de terapias mais rápidas. Embora criticado pelo seu mecanicismo e por ignorar a questão da liberdade pessoal, o behaviorismo se mostrou muito eficaz em tratamentos como os de fobias, distúrbios de sexualidade, necessidades educativas especiais, entre outros.

O que ninguém poderia prever é até onde a idéia da rapidez e simplificação poderia nos levar. O behaviorismo se livrou do inconsciente e essa nova modalidade de terapia se livrou do condicionamento. Restou apenas o comportamento. Em programas de TV, palestras motivacionais e qualquer evento que dure algumas horas, é possível alguém usar algum objeto como metáfora – papel para simbolizar as dificuldades, pedras transformadas em culpa, espelho e roupa em auto-imagem – e propor com isso uma mudança de vida. Pela popularidade do método, não duvido que isso possa causar uma sensação imediata de alívio. Acho que se as questões de uma pessoa fossem simples como carregar pedras, ela mesma já teria dado conta de resolver o problema. Essa simplificação extremada não possui nenhuma base consistente; ela pode ser resultado da solicitação crescente que a psicologia sofre da sociedade. E certamente contribuirá para a desvalorização da psicologia.

A pesquisa que eu fraudei

No segundo ano de psicologia havia a matéria de Métodos de Pesquisa. A disciplina era dada apenas por uma professora, a Pesquisadora do PauOco. Ela era uma das mais produtivas do departamento; por ser uma das mais produtivas, uma das mais importantes e que trazia mais dinheiro. Não demorei a descobrir o porquê – através da disciplina de métodos, há mais de uma década ela obrigava o curso inteiro a trabalhar pra ela. O pretexto era que tivéssemos uma vivência em pesquisa, que colocássemos em prática o que aprendíamos em sala de aula. Na realidade, éramos tão somente mão de obra não-remunerada para inúmeros projetos pessoais. No primeiro dia de aula, a PauOco escreveu no quadro o nome das quatro pesquisas desenvolvidas por ela no momento. Cada aluno deveria se voluntariar a pelo menos uma. Quem não o fizesse não passava na disciplina de Métodos, e por consequencia não tinha pré-requisito pra quase o curso inteiro. Quis fazer a que me parecia mais inocente, a de mulheres com TPM. Não chegamos a dez “voluntárias”.

A pesquisa já estava sendo desenvolvida há uns dois anos. Nossa tarefa aplicar o instrumento, que consistia em duas folhas. Na primeira, a dos dados, constavam o nome completo das mulheres, telefone, idade e profissão. O outro era uma tabela com trinta e um dias e a descrição de uns cinquenta sintomas de TPM. Era tanto sintoma que só faltava unha encravada: dor lombar, aumento do apetite sexual, diminuição do apetite sexual, choro, irritabilidade, inchaço na mama, pele oleosa, etc. A mulher deveria preencher o primeiro dia da tabela no primeiro dia da menstruação e marcar dia a dia quais dos mais de cinquenta sintomas ela teve. Para complicar mais a coisa, ela deveria marcar os sintomas em graus de intensidade, onde deixar em branco significava que ela não teve, 1 que o teve numa intensidade baixa, 2 que apresentou o sintoma moderadamente e 3 que apresentou o sintoma com muita intensidade. Ela deveria parar de preencher a tabela no início da menstruação seguinte, ou seja, a maioria das mulheres não chegaria nos trinta e um dias. No fim desse período, eu pegaria a tabela de volta. Acho que deu pra perceber o quão complicado e pouco funcional era preencher aquilo.

O projeto acabara de ser aprovado em algum financiamento, então nós (as alunas) precisamos fazer algumas correções. Foi até engraçado, porque o projeto não tinha nada a ver com a realidade. Lá dizia que os dados seriam coletados por uma equipe de pesquisa. Que receberiamos informações sobre a TPM. Que fariamos ligações semanais a todas as nossas entrevistadas. Que as apoiariamos e estariamos aptas a responder suas dúvidas. E, principalmente, que seriamos pagas pra fazer tudo isso. Claro que nenhuma de nós recebeu qualquer salário. Alias, isso era prática comum no departamento: eles pediam bolsa e conseguiam uma ou duas. Com base no número de bolsas oficiais, um ou dois alunos eram inscritos, sendo que na verdade tinha sempre muito mais gente trabalhando. Algumas pesquisas chegavam a ter vinte alunos. Isso porque todos os alunos do curso, de uma maneira ou de outra, eram obrigados a estar em alguma pesquisa. O aluno que oficialmente recebia bolsa podia virar escravo particular ou ter que dividir o valor dela com outros, ficava a critério do professor. Para estimular tanta gente trabalhando de graça, eles diziam que aquilo enriquecia nosso curriculo. Tudo era feito em prol dos nossos curriculos. Lembro que a PauOco fez questão de anotar nossos nomes, porque eles constariam na publicação da pesquisa sobre TPM.

Como não tinha outra maneira, lá fui eu, de posse dos instrumentos, arranjar mulheres. Fui atrás de outras amigas de curso, de amigas da escola de música, de parentes, de amigas do grupo de teatro de um amigo. Expliquei direitinho o que elas tinham de fazer, todas entenderam e estavam dispostas a participar. Consegui distribuir umas vinte tabelas. Cheguei na primeira supervisão tranquila, diria até mesmo orgulhosa. Quando a PauOco perguntou quantos questionários foram distribuidos, pasmem – o meu foi o menor número. Teve gente que distribuiu mais de cem. Eu literalmente passei vergonha. Foi como aparecer de jeans num casamento, ou ser uma mulher comum no meio de misses, ou um homem de proporções normais no meio de atores pornôs avantajados. Foi péssimo e a PauOco me repreendeu. Como minhas colegas conseguiram tantas entrevistas e eu trazia aquela mixaria. Certamente eu não havia me empenhado, não estava levando a pesquisa à sério. Que procurasse mais pessoas. Vi que teria que partir para desconhecidas, porque o meu círculo de relações eu já havia esgotado.

No fim de semana seguinte, contei com a ajuda do porteiro e fiz uma varredura em todas as moradoras do meu prédio. Fui de apartamento em apartamento, em todos os vinte e três andares, com seis apartamentos por andar. Entre os que me atenderam, os apartamentos em que não moravam apenas homens, as moradoras que não estavam na menopausa e as que aceitaram participar, consegui a marca de quarenta tabelas distribuidas. Dessas, um mês depois, só consegui recuperar uma. Lembro que a folha estava quase em branco, com um X num sintoma qualquer bem no meio da tabela. Tentei falar alguma coisa, mas a mulher estava orgulhosa do que ela havia feito em nome da ciência. Não fazia o menor sentido, mas o que eu ia fazer, mandar preencher de novo? Agradeci e peguei.

As reuniões com a PauOco eram quinzenais. Cheguei novamente confiante, porque tinha realmente me empenhado – falei com desconhecidas, dobrei o meu número de mulheres. Quando as outras começaram a falar de quantos tabelas distribuiram… Foram números estratosféricos, todas haviam distribuido mais de cem. Uma delas distribuiu quinhentas! Ela alegou que era porque morava na Casa da Estudante. Eu já podia dizer adeus ao meu diploma pelo olhar que a PauOco me lançou. Já eu olhei indignada para as minhas colegas, aquele bando de mentirosas. Claro que nada daquilo era verdade, era impossível arranjar tantas mulheres e com tanta facilidade. Nem que a fulana morasse no Copan ela arranjaria quinhentas mulheres no espaço de alguns dias. Quase explodi. Mas aí me toquei do que estava acontecendo, que a única ingênua ali era eu. Claro que a PauOco sabia que aqueles números não eram verdadeiros. Nem se recebessemos o salário que o projeto dizia que receberíamos. Ela não estava nem aí pra como e quando eu trouxesse aquelas folhas, desde que tivessem nomes de mulheres e fosse em grande número.

Entrei no esquema. Na época minha mãe trabalhava atendendo o público, então ela virava pras mulheres e perguntava: “Quer ajudar numa pesquisa sobre TPM? Então preencha nessa tabela os sintomas que você tem.” Assim conseguimos vários nomes. Mas eram questionários demais. Toda reunião a PauOco nos cobrava centenas de folhas e anotava nossos resultados, igual avaliação de desempenho. Comecei a usar nomes de mulheres conhecidas, mesmo sem ter falado da pesquisa com elas. Pessoas cujo nome eu apenas sei, mulheres que um dia fizeram parte da minha vida. Apelei para mulheres que por acaso apareciam na TV falando do seu bairro, mulheres que já morreram, nomes inventados, listas telefônicas. Centenas de mulheres participaram da minha pesquisa de TPM sem saber. Minnie Mouse só não revelou se tem cólica porque mora em outro país. Criar tantos nomes era um verdadeiro pesadelo, que só acabou no fim do ano letivo. Todas nós passamos de ano.

Muitos anos depois, acabou caindo nas minhas mãos a pesquisa já publicada, numa revista científica. A PauOco era a única autora. Na última página, em itálico, estava escrito: Um agradecimento especial às alunas do curso de Psicologia da Universidade X.