Propriedade privada

Antes de visitar a casa dela, eu achava que aquelas casas da revista Casa Claudia eram bonitas e chiques. Por isso posso dizer que nem estava preparada para visitar um lugar tão bonito. A casa foi construída ao pé de uma montanha e tem a vista inteira voltada a uma cachoeira, em frente a um dos parques mais bonitos de Curitiba. Móveis orientais, detalhes em cada parede, jardim de inverno, ofurô envidraçado com visão magnífica, tudo distribuido em três pavimentos integrados. Na parte da frente da casa, sacadas e varandas com toda estrutura para receber os amigos. Não é de se admirar que um dia a casa tenha sido invadida, e ela ainda teve sorte que os ladrões levaram apenas os eletrônicos. Sinal de que eram ladrões respeitadores e burros, porque os artigos de decoração e móveis valiam muito mais do que qualquer TV de tela plana.

Assustada, ela resolveu arranjar um cachorro, um filhote de rottweiller. Eles passeiam juntos no parque. E deve ter sido num desses passeios que ela travou o diálogo que a fez soltar fogo pelas ventas de indignação. A coisa chegou a mim em forma de reclamação:

– Porque esse país onde nós vivemos é cada um por si. O governo não nos dá nada, não cuida de nada, ninguém está nem aí com a nossa segurança. Você acredita que eu fui reclamar da segurança pro guarda do parque e ele me respondeu que “tem família”? Então ele não vai me proteger porque “tem família”? Que tivesse procurado outra profissão, então!

Isso aí. As classes D e E tinham mais é que dar a vida para proteger a propriedade privada das suas elites.