Três livros tão diferentes quanto bons

Nada como tomar chá de cadeira em aeroporto e ficar longe de casa para arranjar tempo para ler.  Li três livros muito bons durante a minha viagem, e não pude fazer uma crítica elaborada deles por não ter muita condição de ficar diante do computador. Por isso, segue uma crítica ligeira de cada um:

chandlerPara sempre ou nunca maisRaymond Chandler – Um dos livros do detetive Marlowe que eu mais gostei. Achei a história bem amarrada e dinâmica, apesar de não ter muitas daquelas observações ferinas e deliciosas que Chandler faz dos submundos. Logo de início, Marlowe é contratado para seguir uma mulher misteriosa, e logo ele se envolve em mistérios maiores. A explicação demora tanto pra chegar que eu até duvidei de que ela existisse.

O bom senso sempre fala tarde demais. O bom senso é o cara que lhe diz que você deveria ter regulado os freios na semana passada, antes de bater de frente nesta semana. O bom senso é como o jogador reserva que poderia ter feito a bola do jogo se estivesse no time. Mas ele nunca está. Ele assiste a tudo da arquibancada, uma garrafinha no bolso. O bom senso é um homenzinho num terno cinza, que jamais erra uma conta. Mas é sempre o dinheiro de outra pessoa que ele está contando.

Raymond Chandler/ Para sempre ou nunca mais p. 86-7

 

No país das últimas coisas, Paul Auster – Caí numa armadilha ao pegar esse livro.paul auster Minhas últimas leituras de Paul Auster me fizeram pensar que ele era um autor que só escrevia coisas fofas. Este país é quase como um Cidades Invisíveis versão decadência. São as últimas coisas porque a cidade se desfaz por todos os lados; o livro parece um exercício de imaginar que estratégias de sobrevivência as pessoas se serviriam se toda civilidade e esperança se acabasse. Enquanto a história da protagonista não se desenrola, somos levados a um pessimismo terrível.

Tantos de nosotros nos hemos convertido otra vez en niños! No es que lo haymos buscado, ya me entiendes, ni que seamos conscientes de ello. Pero cuando la fe desaparece, cuando comprendes que ni siquiera te queda la esperanza de recuperar la esperanza, entonces tiendes a llenas los espacios vacíos con sueños, pequeñas fantasías y cuentos infantiles que te ayuden a sobrevivir.

Paul Auster/ El país de las últimas cosas p.19

O Enigma do Coronel Fawcett: o Verdadeiro Indiana Jones, Hermes Leal–  Esse foi uma grata surpresa. A história de Fawcett, um inglês obcecado por encontrar a Atlântida no Brasil, enfrfawcettentando todo tipo de dificuldade nos rios e matas virgens, lidando com índios e a própria dificuldade de conseguir ajudantes, driblando o governo brasileiro e a própria imprensa que ele mobilizou, já é ótima. Aí quando o coronel some, a história fica melhor ainda: as crenças místicas da sua família, as expedições sérias e fantasiosas em busca do coronel, as muitas versões para o seu fim. No epílogo, o autor fala de uma expedição ingênua que ele e seus amigos tentam fazer em busca dos rastros de Fawcett e se vêem ludibriados por índios que nada têm de ingênuos.

O longo adeus

chandlerO gênero policial, de cara, não me interessou. Eu li muita Agatha Christie na minha adolescência, até cansar. O nome Philip Marlowe não me era estranho, por causa do Ernani Ssó. O fato de ser uma edição de bolso ajudava. Peguei porque a contracapa informava que O longo adeus era um dos maiores romances da literatura americana de todos os tempos. O superlativo, por mais que não fosse merecido, indicava um clássico. E clássicos sempre valem a pena, nem que seja para dizer que não gostou.

Se eu nunca havia lido Chandler ou Marlowe, como é que antecipadamente eu sabia que, por ser detetive, ele era um sujeito durão, solitário, um certo charme, cigarro no canto da boca, que apanha mas não se dobra, bebida alcoólica a qualquer hora do dia? E que ele tem suas conexões, uma relação pouco harmoniosa tanta com a polícia quanto com os bandidos, um escritório vazio e meio abandonado, não trabalha por dinheiro e sim por um sentido de honra bastante particular? Mais: como eu poderia antecipar as comparações interessantes, o humor e até mesmo a loira sedutora com culpa no cartório e que procura nosso herói para ajudar a encontrar seu marido desaparecido? Pior ainda: pra que ler Chandler e não os muitos que vieram depois, como Columbus ou até mesmo Ed Mort, depois de perceber tudo isso? Porque Chandler não é qualquer porcaria, ele não é qualquer um. Ele é o pai do gênero. Todos detetives particulares pé rapados são tributários a Marlowe. E tanta gente teve vontade de escrever detetives assim porque Chandler o faz com baita estilo:

Existem loiras e loiras, e isto é quase uma piada hoje em dia. Todas as loiras têm pontos em comum, exceto talvez as loiras metálicas que são tão loiras quanto um zulu embranquecido e com uma disposição tão macia quanto uma calçada. Há a loira pequena e engraçadinha, que anda perto do chão e ri agitada, a loira grande como uma estátua, que nos abraça com um simples olhar azul-gelado. Há a loira que nos dá uma olhada de alto a baixo e cheira bem que é uma beleza, brilha e se dependura no seu braço e está sempre muito, muito cansada quando você a leva pra casa. Ela fez um gesto desamparado e tem uma dor de cabeça danada e você tem vontade de bater nela e só não bate porque no fundo está satisfeito de ter descoberto da dor de cabeça antes de investir tempo, dinheiro e esperanças demais nela. Porque esta dor de cabeça via sempre existir, uma arma que nunca falha e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia.

Existe a macia e alcóolica loira que está a fim e não se importa com a roupas que veste desde que seja mink, ou para onde vai desde que seja para o Starlight Roof, onde tem champanha seco à beça. Existe a pequena e viva loira, que faz questão de pagar sua parte e vive cheia de raios de sol, bom senso, e sabe lutar judô, e pode puxar um chofer de caminhão por cima do ombro sem perder mais que uma linha do editorial do Saturday Review. Há a loira pálida com anemia de algum tipo não fatal mas incurável. É bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, você não está a fim, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard – ou então está estudando provençal. Ela adora música e quando a Filarmônica de Nova Iorque toca Hindemith é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto compasso depois. Ouvi falar que Toscanini também consegue fazer isso. São dois, portanto.

E por último existe aquela maravilha que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns milionários, um milhão por cabeça, e termina a vida com uma villa rosa-pálido em Cap d´Antibes, um Alfa-Romeo equipado com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo.

Essa é outra vantagem de se ler os clássicos: chegar na fonte, entender como e porquê tudo começou.