O Mago

A leitura de O Mago fez com que eu me lembrasse de uma conversa que tive com uma amiga, fã de Van Gogh. De acordo com ela, era característico dos gênios sempre serem desajustados, diferentes, desequilibrados ou radicais. A sua genialidade vinha justamente disso, era a sua distância das pessoas comuns, a violência dos seus desejos que tornava suas expressões mais tocantes e verdadeiras. Argumentei contra, dizendo que essa idéia de genialidade era uma construção histórica relativamente recente. Citei exemplos grandes artistas que tiveram vidas comuns, recomendei a leitura de Mozart: a sociologia de um gênio e nada a convencia. Mais: pelo seu olhar, percebi que ela achou que eu defendendo esse ponto de vista em causa própria, que pretendia eu mesma – uma simples dona-de-casa certinha com um blog – me considerar gênia. Se minha amiga está certa, se a genialidade é reflexo do desajuste, O Mago não leva a outra conclusão possível senão esta: Paulo Coelho é um gênio.

Eu sentia o cheio do Anjo me rondando, a respiração do Anjo, o desejo do Anjo de levar alguém. Fiquei em silêncio e em silêncio perguntei o que ele queria. Ele me disse que tinha sido chamado e precisava levar alguém, prestar conta de seus serviços. Então peguei uma faca de cozinha, pulei o muro que dava para um terreno baldio, onde os favelados criavam cabras soltas, peguei uma delas e abri sua garganta de uma ponta à outra. O sangue esguichou alto, passando sobre o muro e respingando até nas paredes da minha casa. Mas o Anjo partiu satisfeito. Desde então tive certeza que jamais tentaria suicídio de novo.

p.137

Ler qualquer coisa escrita por Fernando Morais é garantia de um livro muito interessante e bem feito. Neste caso, o autor teve a sorte (ou a má sorte) de se dedicar à biografia de alguém que se deu ao trabalho (ou à megalomania) de anotar tudo o que fazia durante quarenta anos e guardar esses registros. O livro é recheado de momentos que “apesar de tudo estar indo bem”, Paulo Coelho continuava insatisfeito e “escreveu quase quinhentas páginas de diário”, sempre com a mesma queixa: estar longe do seu sonho de se tornar um grande escritor. A ironia é que ele se queixava muito e nunca se colocava de uma vez em frente à maquina para escrever. Durante toda sua vida, Paulo Coelho começou muitos projetos, ganhou dinheiro com quase todos eles, dormiu com mais mulheres do que parece ser possível contar, viajou de mochila e com drogas, deu trabalho aos seus pais e leu. Apesar de péssimo aluno, ele sempre leu muito. Bagagem cultural é o que nunca lhe faltou.

– Eu saí de casa para morrer.

A reação de Paulo foi surpreendente. Com ar grave, para que não restassem dúvidas de que falava sério, respondeu na hora:

– Estou muito chateado por ter interrompido tão importante processo. Se você decidiu morrer, vá em frente e se suicide.

Mas ela havia perdido a coragem. Na terceira noite seguida passada em claro, Gisa só abriu a boca para chorar, e ele não parou de falar um segundo. Explicou didaticamente que ela não tinha saída: depois de convocado à Terra, o Anjo da Morte só retornava levando uma alma. Contou que não adiantava recuar, porque o Anjo iria persegui-la eternamente, e mesmo que ela não quisesse mais morrer, ele poderia matá-la depois, por atropelamento, por exemplo. Lembrou do seu enfrentamento com o Anjo, na adolescência, quando teve que degolar uma cabra para não entregar a própria vida. A saída era essa, enfrentar o Anjo:

– Você precisa desafiá-lo. Faça o que combinou: tente se suicidar mas torça para escapar com vida.

p. 276-277

Eu não sei nem definir o que lhe faltava: juízo, persistência, disciplina, caráter? A vida dele é uma das mais interessantes e ricas que eu já conheci, só que não se parece em nada do que se espera de um mago. Tenho muita curiosidade em saber que impacto essa biografia teve nos fãs, nos que viam nele um guru. Pelo que conheço dos místicos (falo como pessoa criada no meio), já seria bastante difícil engolir sua liberalidade sexual, sua covardia junto àqueles que o amavam, sua relação com dinheiro e a exploração dos outros em benefício próprio. Quem sonha em ter contato com mestres acredita em méritos, atuais e pregressos, e nada na trajetória do Paulo Coelho parece apontar para isso. E mesmo quando finalmente encontra seu mestre e se purifica, não vemos um Paulo Coelho santificado, tão diferente assim do que sempre foi. De tudo o que eu li, o que mais me surpreendeu foi:

Em bom português, Liano ia escrever metade do livro e editá-lo inteiro, e apareceria apenas como produtor (e ainda assim nas páginas internas). E conforme um adendo final proposto por Paulo, receberia apenas 5 por cento dos direitos autorais (isto é, 0,5 por cento do preço de capa do Manual Prático do Vampirismo), ficando os 95 por cento restante com o parceiro. Como se antevisse ali uma galinha que ainda lhe daria muitos ovos de ouro, Mandarino aceitou pacientemente as exigências do novato metido – e como Liano também não apresentou objeção, assinar o contrato uma semana depois do primeiro encontro. No prazo marcado, porém, só Liano entregou seus capítulos. Alegando excesso de trabalho na Shogun, Paulo não tinha escrito uma única sílaba da parte que lhe cabia. À medida que o tempo passava, as cobranças do parceiro e do editor Mandarino se tornaram diárias, mas o texto não saía. Só depois de muita pressão e de ver todos os prazos estourados é que ele afinal entregou seu texto à Eco. Na última hora, talvez arrependido da injustiça que cometera com o parceiro, autorizou a inclusão do nome de Liano na capa – ainda que em corpo pequeno, como se ele não fosse o co-autor, e sim um coadjuvante.

(….) Certamente nenhum daqueles convidados que circulavam pelo lobby do Glória bebericando vinho e sobraçando exemplares do livro recém-autografado sabia que, embora seu nome aparecesse na capa com muito mais destaque que o de Liano, Paulo não escrevera uma só palavra, uma única sílaba das 144 páginas do Manual. O autor jamais revelaria que, pressionado pelos prazos e sem ânimo para cumprir o prometido, resolveu contratar secretamente alguém para realizar a sua parte.

p. 444-446

Fernando Morais se abstém de julgar o quão verdadeiro é o contato de Paulo Coelho com anjos, ordens misteriosas e poderes mágicos. Depois que ele alcança o sucesso, o livro passa a descrever os números cada vez mais astronômicos de suas vendas, suas batalhas cada vez maiores, a vida de celebridade numa escala que é até difícil de entender. Para mim, que li durante a minha adolescência O diário de um mago e O alquimista e me senti tocada por ambos, me parece ainda mais coerente quando ele diz para perseguir seus sonhos e que o universo conspira a seu favor. Com ele deu certo, muito certo. Difícil é entender o porquê.

O evangelho de Barrabás

Eu não resisti à idéia de escrever sobre outro livro que tem Barrabás como tema. Principalmente, não resisti à idéia de ler outro livro do José Roberto Torero, um autor por quem fui apaixonada durante toda minha adolescência. Ainda mais que O evangelho de Barrabás foi escrito em parceria com Marcus Aurélius Pimenta, que rendeu aquele que é meu livro preferido de Torero – Terra Papagalli.

Mal atravessaram o batente da porta e José, afogueado por suas urgências de homem, levou Maria para a esteira.

Seus dedos tremiam como chamas enquanto ele tirava as vestes da esposa. Mas aconteceu que, quando finalmente a despiu, notou que o ventre dela estava bojudo.

Abriram-se em espanto os olhos e a boca de José, que indagou: “Acaso tens um filho na barriga?”

Depois de olhar para o próprio corpo, Maria pôs-se de joelhos, juntou as mãos em prece, olhou para o teto e disse: “Milagre, milagre!”

Ao que José, cruzando os braços, perguntou: “De quem?”

p.9

Tal como em Chalaça e outros livros de Torero, o personagem principal é malandro, picaresco, boa praça, aventureiro. O livro tem o cuidado de não ser ofensivo com a fé cristã, criando um Barrabás que segue em paralelo a Jesus sem jamais encontrá-lo – com exceção, claro, da absolvição diante de Pilatos. Uma amiga já disse uma vez – com razão – que os diálogos são uma arte perdida nos livros de hoje. Os de Torero fogem a essa regra; seus diálogos são ricos e rendem os momentos mais interessantes do livro. Mais do que um romancista, vejo Torero seja um roteirista, basta ler sobre sua carreira para entender. Nas suas histórias tudo é muito visual, teatral e dinâmico. O evangelho de Barrabás começa tímido, e durante alguns momentos temi que meu lindo (desculpa a intimidade, Torero, foram muitas horas observando tuas fotos) tivesse perdido a mão, ou que sua obra tivesse envelhecido mal. Felizmente, à medida que avança, Barrabás se torna cada vez mais livre e hilariante. Como todo livro que faz referência à história, ele é muito melhor aproveitado quando o leitor conhece o período ou texto que lhe serviu de base – no caso, a Bíblia. É um livro leve e engraçado. Como bem disse o Ernani Ssó, existe uma tendência a menosprezar o humor na literatura, sendo que ele é justamente um dos efeitos mais difíceis de conseguir. E o Torero consegue, ô se consegue.

O problema da fé, meu e de Barrabás

Eu não fui batizada, mas durante um certo período da minha vida, tentei ser católica. Rezava terço, tentava ir à missa com frequencia, tinha os meus santos. Eu tentava com sinceridade e ainda assim sentia a minha fé oscilar. Alguns momentos tudo parecia fazer sentido, Deus estava comigo e eu me sentia tocada; em outros, estava totalmente só, repetindo palavras sem sentido para ninguém. Um dia, numa missa, ouvi o padre falar que “a Fé é um Dom Divino”, e não pude deixar de soltar um suspiro de alívio – que bom, então a culpa não é minha! Ele é que não havia me dado Dom o suficiente. Porque eu não conseguia ser constante na minha crença. Mais: a cada dia, minha hostilidade contra a religiões se fazia mais forte e pouco a pouco abri mão de todos esses rituais.

Por outro lado, também quis jogar todas as minhas crenças no lixo e me declarar atéia. Depois de ter vivido um período intensamente místico e crente, apostando todas as minhas fichas nisso, fui para a direção oposta e declarei que tudo era bobagem e historicamente construído. Dei as costas a tudo o que li, todo o material que tinha, todas as reflexões. Foi um desapego extremo, que só quem já viveu um apego extremo quem já viveu um apego extremo é capaz (e vice-versa). Até que durou. Só que comecei a ser assaltada por sensações estranhas e intuições, coisas que me faziam crer que havia uma ordem no mundo. Em alguns momentos, tudo parecia se encaixar, todo o mal parecia ter sua lição e nada me parecia em vão. Era a fé querendo voltar. E assim tenho vivido até hoje, numa mistura de fé e ceticismo totalmente incoerentes.

A boa literatura tem o dom de nos tirar da solidão dos sentimentos mais diversos e inconfessáveis. O único motivo que me fez buscar Barrabás foi o fato de ter sido escrito por Pär Lagerkvist. A excelente impressão que me causou O anão, me fez querer ver como um autor excelente atuaria sobre outro livro. O tema – um livro sobre o que aconteceu depois àquele que não foi crucificado no lugar de Jesus – me causava antipatia. De certa forma temos uma idéia pré-concebida de que Barrabás acabou se convertendo, por mais que não exista nenhum registro a respeito da vida dele. Cremos que é impossível que não tenha acontecido – ele esteve perto de Jesus, viveu o nascimento do Cristianismo. Mas Pär Lagerkvist é meu amigo, é igual a mim, é um abandonado pelo Dom da Fé constante. O início da trama descreve o encontro de Barrabás e Jesus e nos permite adivinhar o tom do livro:

Mas, desde que o vira pela primeira vez, no pátio do pretório, sentia haver algo de extraordinário nele. Não sabia bem o que era, apenas o sentia. Parecia-lhe nunca ter visto um homem assim. Deve ter sido porque acabava de sair diretamente do cárcere, e seus olhos ainda não estavam acostumados à claridade, mas vira-o, no primeiro momento, rodeado de uma brilhante auréola de luz. Pouco depois, porém, o brilho havia desaparecido; seus olhos voltaram ao normal, viam tudo nitidamente, não apenas o homem solitário no pátio do palácio.

Barrabás/ capítulo I

Barrabás vê uma auréola, mas também a explica como simples ofuscamento. Em nenhum momento o autor conclui que Jesus era mesmo o Filho de Deus. Pelos olhos do cético Barrabás, vemos pessoas que se converteram e estão dispostas a morrer por isso. Acompanhamos a força da lembrança de Jesus, mas vemos também a ignorância sobre ele, a falta de organização e coerência no que se diz sobre ele (afinal, as informações eram pouco mais do que boatos), os equívocos e as decepções. Lemos e sentimos pena por aqueles que esperavam o reino de Deus no terceiro dia após a crucificação, ou para dali a alguns dias – estamos mais de dois mil anos no futuro e sabemos o que não acontece. Em fatos isolados para o próprio Barrabás, a fé em Jesus parece ser promissora e melhorar a vida dos que crêem, mas também pode ser coincidência. Barrabás a todo momento esbarra na fé a e busca, mergulha nela e emerge. E a sempre dúvida ressurge, resistente e pragmática como o próprio Barrabás.

Barrabás é um livro triste. Dizem que a falta de Deus é uma coisa triste, e tendo a concordar que talvez seja. A falta de fé, a incapacidade de se entregar e deixar de se basear nos fatos é mesmo triste. Ela nos faz duros e responsáveis. A questão não é encontrar Jesus, seja pessoal ou simbolicamente; a falta de fé é um sentido profundo de vida, um reconhecimento da solidão que nunca nos abandona. Eu me senti muito próxima a Barrabás e Pär Lagerkvist ao ler esse livro. Eu também tenho minhas oscilações, também gostaria de ser cem por cento (atéia ou crente) e não consigo.

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O anão e os santos

Uma amiga tinha curiosidade e uma noite foi num ritual de umbanda. Ela estava no meio de outros, numa roda, assistindo a ação dos médiuns, o batuque, as danças. Até que num determinado momento o médium recebeu uma entidade, que depois das devidas apresentações a avistou e foi até ela. Quando chegou bem perto dela, se acercou e propôs:

– Me diga quem você quer prejudicar. Me diga um nome, qualquer nome, que eu vou lá e faço isso por você.

Ela ficou paralisada e não respondeu nada. Durante muito tempo ela se perguntou que ligação teria com aquela entidade, por que ela lhe propôs fazer mal a alguém e, principalmente, se ela era uma pessoa tão ruim assim que no fundo deseja prejudicar os outros.

Foi mais ou menos isso que eu senti ao ler e gostar tanto das maldades do livro O Anão. Sua certeza de pertencer a uma estirpe, muito embora ele também odeie todos os outros anões; a maneira como busca apenas o seu bem, nem que para isso destrua tudo a sua volta; o seu isolamento voluntário, muito mais importante do que qualquer outra vida; o desprezo que sente por todos que serve; a maneira como tende a procurar nas pessoas o seu pior aspecto; a crueza e desilusão com que fala de poetas, artistas e filósofos, tornam o Anão um personagem irresistível. A única coisa que ele ama são a si mesmo e a guerra. Se sei de sua maldade e a abomino, talvez não devesse ter sido um deleite lê-la…

Toda essa maldade me fez pensar no oposto, a bondade. Puxei da memória um costume que está tão fora de moda que parece que faz séculos que foi abandonado, e não faz mais do que algumas décadas: as pessoas liam sobre a vida dos santos. Esses livros podiam tanto ser organizados em ordem alfabética como de acordo com o calendário, porque todo dia tem o seu santo. Ao invés de ler maldades, as pessoas procuravam ler sobre aqueles que lhes pareciam ser os melhores exemplos; ao invés de ficarem confusas sobre os maus sentimentos que têm dentro de si, elas visualizavam um ideal a ser alcançado. A personalidade, tal como os músculos, podia ser exercitada num sentido bom – por isso o valor dos santos exemplos.

Ainda existe quem se empenhe nesse sentido, as religiões estão aí pra isso. Da minha parte, posso dizer que eu não sei o que é ser santo. Eu não sei como alguém santo se sente, não sei o que come, não sei o que faria no meu lugar. Nas poucas vezes que acreditei ter encontrado alguém mais próximo da santidade, me vi decepcionada, tal como o Anão com mestre Bernardo:

Modesto, ele! Enganei-me quando supus. Pelo contrário, é o homem mais orgulhoso que eu já conheci. A presunção constitui a própria essência do seu ser. O seu pensamento gostaria de reinar soberano num mundo que não lhe pertence.

Pode dar a impressão de modéstia, isso sim; no decorrer de suas especulações em todos os domínios possíveis, chega a dizer, por vezes, que não está seguro deste ou daquele pormenor e que apenas se esforça por encontrar a melhor explicação possível. Mas acredita conhecer o conjunto, a finalidade e o sentido do universo! Sua humildade só se manifesta nas pequenas coisas. É uma espécie deveras estranha de modéstia.

p.26

Quem pode dizer o que está na alma de cada um, quais são os nossos reais desejos, o que uma pessoa seria capaz de fazer se não pudesse ser vista? É impossível para mim, quando penso em santos, esquecer o quanto o celibato dos padres, que deveria santificá-los, os levou a coisas muito piores. Amar o bem não é ser capaz de praticá-lo – será que a mesma regra vale para o mal? Anões ou santos, ninguém nunca saberá o que somos profundamente, apenas o que fazemos.

Os manuscritos do mar Morto

A passagem do mar Morto é monótona, opressiva e medonha. Completamente impessoal. Uma paisagem sem fisionomia: as formas das colinas não sugerem rostos de deuses ou de homens, nem corpos de animais deitados. “Só o monoteísmo podia resultar disso”, falou um amigo meu, que conhecia a Palestina. “Em lugar nenhum há uma brecha para uma ninfa”. A relva da primavera começa a murchar – minha visita ocorreu no início de abril – e parecia um bolor esverdeado sobre pães imensos. De um marrom amarelado e frio, uma cor escura sem a riqueza da sombra, esses montes também se assemelhavam – foi a única imagem viva que me ocorreu – às corcovas dos camelos que ali pastavam, amarelos, sem brilho, desajeitados, tendo ao seu lado a cria de um branco sujo. Um rebanho de cabras pretas salpicava uma encosta. Cá e lá, sozinha no vazio, uma beduína, acocorada e imóvel, que parece tão atenta como uma pedra, vigia um camelo ou uma cabra; e passamos por alguns poucos abrigos dos beduínos, negros e rasgados, que bem poderiam ser as velhas tendas de Abraão.

p. 44

Grande parte do que conhecemos sobre os Evangelhos são traduções de traduções, versões escritas muito depois da época de Cristo e que nos fazem adivinhar quem seria essa figura que influenciou a história de maneira definitiva. Então, descobrir fragmentos inéditos que falam de seu período histórico e lancem luzes sobre quem ele seria e que influências sofreu seria ótimo, algo a ser comemorado e acolhido por todos, certo? Errado. Em Os manuscritos do mar Morto, Edmundo Wilson mostra o impacto e as dificuldades que surgiram em decorrência de surgimento desse novo material.

O que é realmente interessante no livro é a maneira como os manuscritos incomodaram. Como Edmund Wilson diz, a ciência estava acostumada com um certo número de informações e – por mais que elas tivessem lacunas – tudo a respeito do material existente já estava escrito e as teorias formuladas. Os manuscritos foram um problema para os primeiros que reconheceram seu valor, que tiveram que lutar contra o descrédito, encontrar especialistas, enfrentar acusações de charlatanismo. Depois de reconhecidos, os manuscritos geraram disputas entre países, acadêmicas e financeiras. Os manuscritos tratam, principalmente, grupo chamado de essênios e que seriam a ponte entre o judaísmo e o futuro catolicismo; isso gerou disputas religiosas e desagradou tanto católicos quanto judeus. Até o autor, Edmundo Wilson, ao escrever as primeiras reportagens que deram origem ao livro, também acabou sendo alvo de interesses religiosos e disputas de ego.

Quem está de fora poderá perguntar aos católicos: se Cristo tinha uma identidade humana como Jesus de Nazaré, que numa época e lugar definidos, enfrentou o sistema judaico e a ocupação romana, por que seria chocante supor que Ele tivesse colhido algumas de Suas idéias teológicas dos mestres das seitas do mar Morto, hoje identificados em geral com os essênios, da mesma forma que presumivelmente aprendera carpintaria na oficina de José, ou que alguns de seus ditos e ações possam representar um repúdio a esses mestres? Um católico inteligente e culto por certo não se perturbará – pois sabe que seu Cristo apareceu em determinado momento, numa situação histórica especial – ao descobrir que certos elementos desse contexto agora se tornam mais distintos. Entretanto muitos católicos – como muitos membros de qualquer grupo religioso – não são inteligentes e cultos. Tentar preencher com mais fatos históricos o contexto humano da trajetória de Cristo equivale a correr o risco de enfraquecer a lenda que o populacho ignorante adora e não deve questionar para que a Igreja mantenha a sua autoridade.

p.119-120

Mais do que dos essênios, Os manuscritos do mar Morto conta uma história do conhecimento, da dificuldade em aceitar mudanças, dos mecanismos políticos envolvidos, do efeito duradouro que pessoas específicas têm na ciência. A primeira parte do livro trata dos momentos mais imediatos à descoberta dos manuscritos. Nas partes seguintes, com os manuscritos reconhecidos, Wilson fala do impacto que eles tiveram na vida de várias pessoas, no que foi construído em volta deles, dos limites exteriores e políticos. Além disso, visita o estado de Israel e discute religião. É um meta-livro que conquista até quem não está nem aí pra religião.

Leituras incorretas e o sujeito que lê

Ler um livro com idéias da qual discordamos é incômodo. Foi difícil passar dos primeiros capítulos de Lolita. O livro é narrado em primeira pessoa, na pessoa do pedófilo. Nas primeiras páginas existe uma justificativa para esse comportamento, ou seja, ele tenta justificar o injustificável. Quase desisti… e que bom que não o fiz. Passadas essas primeiras páginas, extremamente necessárias dentro da história, o livro se revelou uma grande experiência. Ele é crítico, divertido, envolvente e – pasmem – nada  pornográfico. É um excelente livro, um dos melhores que eu já li. Mesmo que a idéia de um homem abusar de uma criança não tenha nada de bela.

Nesse mesmo tema, um dia veio parar nas minhas mãos uma revista de circulação pequena, cujo nome eu não lembro, com o público alvo de skatistas. Havia naquele número um artigo polêmico sobre zoofilia. O artigo vinha lacrado, com o aviso de que chocou muita gente. Fiquei curiosa e fui direto nas páginas lacradas. Foi um dos artigos mais divertidos da minha vida. O artigo descrevia as características sexuais de vários animais, cuidados que um humano precisa ter se decidir copular com eles e por fim terminava com a história do filme de maior sucesso do Zé do Caixão: 24 horas de sexo explícito, protagonizado pela atriz Vânia Bournier e um pastor alemão. O que havia de polêmico no texto era a maneira como ele foi escrito: em nenhum momento seu autor chama a zoofilia de doença e se coloca contra ela. Parecia um artigo da Revista Nova.

O que quero dizer com essas aventuras literato-sexuais é que ler não é concordar. Entre  a intenção do autor e a interpretação do leitor existe um universo. O mesmo conteúdo pode excitar, chocar ou causar riso. Atualmente existe muito barulho em torno da obra de Monteiro Lobato (que nunca li), acusada de racista. Ao que me consta, ninguém nega o racismo do autor em certas partes, e sim a possibilidade de oferecer isso a crianças sem contribuir para perpetuação de preconceitos. Como é muito difícil controlar a variável do sujeito e suas interpretações, nossas atenções se voltam sobre o que lhe cai em mãos, principalmente de crianças: o quanto idéias ruins são toleráveis porque têm um contexto? É preciso debater certas idéias antes de disponibilizá-las ou é tão difícil e perigoso que é mais fácil abandoná-las? A radicalização de algumas posturas pode levar a: nada justifica o acesso idéias discordantes, precisamos controlar de antemão todo material acessível.

Isso não é novo. Penso em religiões, que estimulam seus fiéis a lerem, ouvirem e comentarem apenas o que diz respeito à sua fé. Para citar algo que li recentemente, lembro dos efeitos do governo talibã sobre o Afeganistão. Tem a famosa burca e restrições às mulheres que causam desespero só de ouvir: proibição de frequentarem escolas, de andarem sozinhas, de exibirem qualquer parte do seu corpo em público, de se dirigirem a qualquer homem que não pertença à família. Além disso, os talibãs interferiram em pequenas coisas como: proibição de ter fotos, de ingerir bebidas alcoólicas, de dançar. Nem preciso dizer que não se pode ler livros desfavoráveis à fé muçulmana. Até empinar pipa foi proibido. Para nós, tudo isso soa como barbárie; para os seus implantadores havia a intenção de purificar os costumes através da supressão de tudo o que desviasse a sociedade do comportamento bom.

Vejo por detrás de tudo isso uma descrença no sujeito. Acho justo temer pela falta de discernimento de uma criança ao ler uma afirmação racista num livro que lhe foi oferecido na escola – mas o que justifica esse mesmo controle sobre um adulto? Numa explicação religiosa, podemos afirmar que o Mau é tão insidioso que travestirá coisas ruins com a aparência de boas. Numa perspectiva histórica, arrisco, eu poderia citar que a II Guerra nos deixou como legado uma profunda descrença na ciência e na capacidade de discernimento do homem. Para muitos existe um Bom imutável e indiscutível – eu não acredito nisso. Mesmo que ele exista, a questão de quem tem autoridade e discernimento para reconhecê-lo não é simples.

Quando ditaduras tentavam impor uma forma correta de arte, ela raramente ficava boa. Parece haver uma antipatia natural entre a expressão artística e o moralismo. Existem livros bons em seu aspecto literário que não são necessariamente livros de boas idéias. São livros que podem descrever coisas chocantes, defender pontos de vista intoleráveis, contribuir para a manutenção de preconceitos. Colocar um bom livro ruim na mão de um leitor é sempre um risco: ele pode abandonar a leitura, pode relevar a informação como liberdade poética ou – o mais arriscado de tudo – pode começar a achar que coisas ruins não são tão más assim. O importante é que esse risco exista, para todos os livros e todos os leitores. Não há crítica e esclarecimento na unanimidade.

Viver na floresta

O Ramayana é um dos livro religiosos hinduístas. Tem milhares de anos, é muito mais antigo que a Bíblia. Como texto religioso, ele tem servido até hoje como base para interpretações místicas e religiosas. Por conta dessas interpretações que eu – brasileira, nascida no século XX – decidi lê-lo. O início da história é muito interessante e me intrigou durante muito tempo. Peço desculpas antecipadas para aqueles que estudam o hinduísmo com profundidade, porque farei um resumo baseado nas minhas lembranças e cola de informações da internet:

Havia um rei santo chamado Dasharatha. Por rei santo se quer dizer que ele era virtuoso, justo, sábio, forte, governava bem e todos a sua volta eram felizes. Seu primogênito, Rama, para muitos é considerado uma das encarnações divinas do deus Krishna. Assim como seu pai, era forte, justo, virtuoso, etc. Sua esposa, Sita, tem uma origem tão pura e divina que nasceu da própria terra. Só que o rei Dashratha era casado com três mulheres, e sua esposa mais jovem, Kaikeyi, cobra dele uma promessa feita por amor: o rei empenhou sua palavra que atenderia qualquer pedido que ela fizesse. O que ela lhe pede é que seu filho Bháratta (o caçula) se tornasse o próximo rei. Rama, o primogênito, deveria ser exilado do reino para evitar qualquer interferência; para deixar Bháratta governar, Rama deveria viver na floresta como ermitão durante quatorze anos. O pedido soa mal pra todos – o rei fica abatido, todos os ministros ficam contra, o próprio Bháratta condena a atitude de Kaikeyi, mas ela permanece irredutível. A história chega aos ouvidos de Rama, que por iniciativa própria decide abandonar o reino para manter a promessa feita por seu pai. Ele, sua esposa e um dos seus irmãos, Lakshmana, partem para a floresta. Mesmo quando o rei morre de desgosto e Bháratta vai atrás do irmão lhe pedindo para assumir o trono, Rama não volta atrás.

O resto do livro narra as aventuras de Rama e os seus na floresta, o rapto de Sita, a aliança dele com outros reinos para recuperar a esposa, o surgimento de outra figura muito cultuada na Índia como símbolo de fidelidade e amizade- o deus-macaco Hanuman – e a trágica separação de Rama e Sita (que mereceria um post). Apenas depois dos quatorze anos Rama retorna ao seu reino, cheio de glórias que ele conquista por conta própria durante esses anos.

O que me intrigava nessa história era a importância da palavra do rei, a tal promessa que não podia ser quebrada. Eu achava – e as interpretações que eu li iam pelo mesmo caminho – que era uma questão de honra. Honrar a palavra empenhada. Mesmo que tenha sido uma  promessa afetuosa, mesmo que a promessa tenha sido arrancada por um ardil, com finalidades torpes? Ao invés de ser um exemplo de retidão, isso me parecia um apego excessivo às palavras, privilegiar a forma e não o conteúdo.

Passei muito tempo pensando que era isso. Um dia desses, sem motivos, me lembrei da história e percebi que a questão é muito mais profunda. Para a época que nós vivemos, nada no mundo pode ser mais importante que assumir um reino. Trabalhamos para ocupar a posição mais rica e de maior destaque. E fazemos isso com pressa, como se a menor distração ou atraso fosse ruim. Queremos ser reis para ontem. Com essa concepção de vida, o sacrifício de Rama não faz o menor sentido.

Nitidamente os personagens do Ramayana enxergam a vida de outra forma. Eles não têm a nossa pressa. Quem sabe para eles a vida fosse apenas um capítulo de uma ampla corrente de encarnações, então ela não tem importância. Ou a vida seja antes de tudo uma oportunidade de aprender, então largar tudo e ir pra uma floresta pode ser até melhor do que ficar no palácio. De qualquer maneira, isso me faz entender o quanto é difícil querer retirar do que foi escrito há muito tempo lições para os nossos dias. Longe das suas bases culturais, as atitudes podem perder todo o sentido – ou serem interpretadas de forma muito diferente da original.

Doses de ciência na cura da religião?

Programas evangélicos, desses que passam na TV, têm um pouco de tudo. Há um momento específico de doutrinação, mas vai muito além disso. Fiéis mandam cartas perguntando ao pastor o que fazer, coisas comuns como casar ou esperar mais um pouco. Em ritmos possíveis, muitas vezes inspiradas no último sucesso pop, as músicas se esmeram em tentar colocar Jesus em todos os refrões. Nos programas da igreja universal cada dia tem um ritual diferente – camiseta amarrada, as sete águas correntes, a flor de não-sei-o-quê. Mas o momento mais interessante, sem dúvida, é quando eles dão voz aos que frequentam a igreja, para eles compartilharem os seus milagres pessoais: ações na justiça que se resolveram rapidamente, livrar-se com drogas, casais que não se entendem, problemas crônicos de saúde, etc.

Frequentei muitos cultos por curiosidade, mas nem ao menos sou batizada. Apesar disso, eu sou aquela que vai nos posts do ateu Milton Ribeiro “defender” a religião. Não que eu a considere desejável, e sim porque não concordo com visões simplistas sobre o assunto. Uma delas é crer se tornarmos a ciência acessível, as pessoas se libertarão da religião.

(roubei da Tina Lo)

Eu diria que esse é um pensamento datado. Mais especificamente, do século XIX. No já citado Ramo de Ouro (The golden bough: a study of magic and religion), publicado em 1890, Frazer propunha que a humanidade avança por três estágios: do mágico para o religioso e do religioso pro científico. A magia era visto como algo mais desorganizado, que através de leis especifícas – como da contiguidade e da similaridade – tenta influenciar o mundo extermo. A religião teria a vantagem de ser um sistema cosmológico mais complexo, que ao invés de entender a natureza através leis imaginadas, apela para a existência de espíritos e divindades. E o científico é o estágio da excelência, das coisas como são, de entender a natureza tal como ela é e buscar influenciá-la da maneira realmente eficiente. Em resumo, a ciência é o ocidental e civilizado. Magia e religião são coisas de atrasados e primitivos, de pessoas de raciocínio menos desenvolvido – estejam eles vivendo longe ou perto de nós.

Existe uma referência anterior a Frazer, mas não menos importante: Comte. Augusto Comte (1798-1857), avô da sociologia, também postula três estados no desenvolvimento do sistema social: o estado teológico, estado metafísico e estado positivista. No estado teológico, o o homem observa a natureza e, impossibilitado de entendê-la de outra maneira, produz explicações sobrenaturais, dando origem às teologias; no estado metafísico, a procura de soluções absolutas para os problemas dos homens o leva e especulações abstratas e daí surge a filosofia; por fim, o estado final é o positivista, onde o homem subordina seu julgamento à razão e chega à ciência positiva. A ciência positiva uniria todas as ciências, conheceria as leis que regem as sociedades e permitiria a produção do bem. Novamente a ciência surge como um estágio superior de pensamento. É interessante pensar que Comte distingue teologia de religião, e propunha a criação da Igreja Positivista; nela, são louvados os grandes filósofos, cientistas e artistas da humanidade. Isso mostra que qualquer coisa pode ser colocada num altar, inclusive a ciência.

Nem preciso dizer que todas as previsões sobre o fim das religiões falharam. Ciência e religião coexistem, e não foi por falta de avanço científico. Na minha opinião, quem ofereceu uma explicação simples e profunda a esse respeito foi Weber, o mesmo autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904). No Ciência e política: duas vocações (1917-1919) ele nos diz, citando Tolstói: “a ciência não tem sentido porque não responde à nossa pergunta, a única pergunta importante para nós: o que devemos fazer e como devemos viver?” Retorno aos programas evangélicos, às cartas, às músicas, aos rituais, às dúvidas idiossincráticas dos fiéis, às decisões a serem tomadas todos os dias. Há uma dor que precisa ser carregada individualmente e a ciência não lida com ela. Por mais mentiroso ou fantasioso que soe aos ouvidos descrentes, a religião têm algo a propor sobre a vida de cada um. A ciência procura descrever o mundo e não encontrar um significado nele.

É preciso entender o que é ser um fiel. Há um desejo anterior aos templos, por isso não basta destruí-los. Esse desejo vai além da simples crença de que existe algo além do que vemos, porque muitos que não frequentam nenhuma denominação também pensam assim. Crer não torna alguém religioso, no sentido de ser um fiel. O fiel vai à sua igreja; fazer parte de uma igreja é viver uma cultura. É o encontro marcado, a vivência em comum, pessoas que olham o mundo a partir de um mesmo ponto e a partir dele algo é gerado. Igrejas oferecem uma ampla rede de apoio, tanto para os seus fiéis como para o resto da sociedade. Basta pensar no conceito de caridade – quase todos os trabalhos voluntários e altruístas ainda se alimentam dele. Eu vejo falarem em tirar a religião das pessoas, como quem retira um objeto. Não se propõe nada, não a substitui por nada. Enquanto aqueles que gostariam de ver o fim das religiões a entenderem apenas como um conjunto de crenças equivocadas, sempre estarão muito longe de solucionar esse problema.