Ássia

Eu tinha na época uns vinte e cinco anos – começou N. N. -como o senhor vê, são coisas de um tempo que já vai longe. Acabara de ganhar minha liberdade, parti para o estrangeiro, e não para “concluir minha educação” como se dizia, mas simplesmente por vontade de ver esse mundo de Deus. Era jovem, saudável, alegre, dinheiro não me faltava, as preocupações ainda não haviam conseguido me agarrar – vivia a Deus dará, fazia o que bem queria, em suma, florescia. Nem me passava pela cabeça, então, que o homem não é uma planta e não floresce todo ano. A juventude come pães doces e dourados, pensando que é esse o pão de cada dia; no entanto, chega a hora em que se faz qualquer coisa até mesmo por um pãozinho comum. Mas isso não vem ao caso.

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Todos os lugares onde vi o nome de Turguêniev – autor de Ássia – citado, era com desdém, para dizer que ele é muito menos importante e interessante que Dostoiévski e Tolstói, as outras duas pontas da tríade dos grandes autores russos do séc XIX. Só me animei a ler Ássia porque era um livro fino e editado pela Cosac&Naify, o que o torna parte do movimento de resgatar autores russos e traduzí-los direto da sua língua, ao invés da tradução da tradução européia.

A história é uma das mais desinteressantes que já li, de um romantismo que não convenceria qualquer adolescente de hoje. Mesmo assim, o livro consegue encantar, tal a leveza e a correção com que foi escrito. Mesmo sem dizer nada demais, nos identificamos com os devaneios, a amizade e o ritmo. Ao invés de uma grande história de amor, é possível lê-la como um amor de verão – aí sim fica convincente.

Algumas coisas chamam atenção no livro, pela estranheza: a análise de um caráter pela educação; a descrição da própria Ássia, que parece demonstrar um tipo de feminilidade que hoje não atrai; a noção de proximidade e moral. Quando cheguei no capítulo definitivo do livro, onde a ação fundamental acontece, precisei lê-lo umas três vezes. Por instantes, pensei que se tratava de uma reviravolta, que o narrador/personagem principal havia nos iludido desde o começo da história, ocultando um plano prévio, o que seria uma reviravolta brilhante (e impensavel pra época). Mas era apenas uma forma de se relacionar mais antiga e cheia de tabus. Me lembrei de um livro que li na adolescência, oferecido pela minha mãe, e que falava de uma adolescente em crescimento. Num determinado momento ela começa a flertar com um rapaz. Depois desse flerte, ela fica com a consciência pesada, fala muito nisso, consulta um padre e é alertada da responsabilidade, que não se deve sair flertando por aí. Fui perguntar a minha mãe o que afinal era aquilo, flertar. “Ah, toda essa onda só porque ela ficou olhando? O que tem isso demais?”. Ássia é mais ou menos assim.