Carmen, Carlos Saura

Se qualquer espetáculo já fica muito mais interessante quando temos um conhecido nele, imagine como é fazer parte do espetáculo. A melhor visão é sempre a das coxias, num sentido muito amplo: ver a coisa nascer e se desenvolver, as mudanças, a divisão dos papéis e até mesmo as rixas internas. Carlos Saura parece concordar comigo, porque ele adora fazer filmes sobre esse processo. Assim é o maravilhoso Ibéria (2005), uma verdadeira ode à cultura flamenca, e assim é o mais antigo Carmen (1983), inspirado na ópera de Bizet.
Como ele é inspirado na ópera, é um filme recomendável para quem a conhece. A amiga que me emprestou o filme não tinha visto a ópera Carmen e o descreveu como “uma história meio chata, uma mulher bem vagabundinha e cenas incríveis de sapateado”. Para quem viu Carmen, o filme é um mosaico interessante, onde você procura se antecipar às cenas ou as encaixa na medida em que são representadas. O grande bailaor Antônio montará o espetáculo Carmen, e procura a mulher ideal para viver o papel. A ele pertence o papel de José. Nessa procura, ele conhece Carmen, uma bailaora inexperiente. Ela corresponde física e psicologicamente ao papel. À medida em que o espetáculo vai amadurecendo, os dois revivem dentro e fora dele a história de José e Carmen.
Para quem admira o flamenco, o filme fica especialmente bom pelos detalhes. As diversas cenas de canto e palmeo; os bailaores fazem exercícios, atravessam o palco com sapateados, há uma aula com castanholas, um momento dedicado apenas aos braceos. Carmen pede para Antonio seduzí-la, dançando uma farruca – uma das danças tipicamente masculinas. Há um confronto com martinete. Até os momentos em que eles terminam de ensaiar e deitam no chão me fazem pensar no quanto o flamenco maltrata a lombar… Numa cena, o elenco está comemorando um aniversário. O guitarrista começa uma canção, o cantaor corresponde, quem está por perto acompanha com palmas e as pessoas começam a bailar, brincando com os papéis da própria ópera – é a festa e espontaneidade que o flamenco possui na Espanha, como são as nossas rodas de samba.
Minha cena preferida é a da Tabacaria. A antagonista de Carmen nessa cena é uma das coreógrafas do espetáculo. Ela é superior à Carmen em todos os sentidos, e não foi escalada para o papel por não corresponder ao biotipo. Por profissionalismo ela ensina a rival, mas é uma tarefa amarga. Nesta cena, quando elas se encaram, sabemos que está no palco um antagonismo que transcendo os papéis. Ensaio e realidade se misturam. No final do confronto ficamos em dúvida se Carmen realmente a feriu. E assim são os espetáculos, os bons espetáculos: representações mentirosas de sentimentos de verdade.