Sexo, pornografia e mulheres

Achei esse vídeo por acaso, curtido por uma amiga no Facebook. A pessoa que curtiu e a substituição do Adão por uma cruz logo nas primeiras cenas, me fazem pensar que ele circule entre religiosos, quem sabe o palestrante responda por alguma crença. Nos comentários do youtube – pois é, quebrei a regra de jamais lê-los – duas visões opostas: uns se queixam dos “fiscais de punheta” e os que concordam com o vídeo citando a religião.

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(Eu sei que não vai adiantar nada dizer isso, que serei chamada de fiscal de punheta de qualquer jeito, mas: não pertenço a nenhuma religião, não tenho nada contra masturbação, sexo antes do casamento, experiências sexuais, etc. Sou à favor de toda forma de sexualidade consensual entre indivíduos adultos.)

Já faz alguns anos que linkei aqui um artigo sobre a indústria pornô e que me deixou bastante chocada na época. O título do artigo pergunta: Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade? e ele é uma entrevista com Gail Dines, que publicou uma pesquisa sobre a indústria pornográfica, desde a fundação da Playboy e da Penhouse até a pornografia da era da internet.

As partes que copiei a seguir se parecem muito com os insights do vídeo. Elas falam de uma mudança na sexualidade daqueles que veem pornografia. E que daqui em diante a sexualidade das pessoas vai mudar em função dessas imagens – e não parece ser para melhor:

A internet mudou a indústria. Tornou-a acessível, e barata. Então lembre-se, quando a média de idade de ver pornografia pela primeira vez é 11, quando o menino de 11 anos põe “pornografia” no Google, ele não está olhando para a Playboy de seu pai, ele está olhando para um mundo de crueldade, e um mundo de brutalidade . Então o que eu pergunto no livro é: “Quais são as consequências a longo prazo de criar os meninos com imagens violentas quando você pensa na pornografia como sendo a principal forma de educação sexual em nossa sociedade? [….]

Tem sido motivo de estudos por 30 anos – sobre os homens, principalmente – o que eles acham, e o que eu encontrei em minhas entrevistas, é que quanto mais os homens vêem pornografia, menos eles são capazes de desenvolver relacionamentos íntimos. Também o que é interessante é que eles perdem o interesse em mulheres reais, porque a pornografia é tão hard-core – é o sexo a força da industria – nada menos que aquilo  parece brando e enfadonho. Além disso, os homens acham que devem se comportar como os homens na pornografia, eles acham que o pênis devem ser semelhantes aos dos atores pornô, e eles acham que deveriam ser capazes de realizar atos sexuais por horas como os homens fazem na pornografia. O que eles não percebem é que um monte de homens da pornografia usam Viagra, é por isso que é tão possível … E eles começam a ver as mulheres realmente como objetos. Não como alguém a ter relacionamentos, mas como alguém para se usar para algo. O sexo se torna algo como fazer ódio ao corpo de uma mulher. Eles não fazem amor na pornografia, fazem ódio. [….]

Bem, é muito interessante nós dizermos isso, como alguém que estuda a mídia e como alguém que é progressista, quando estudamos midia de extrema-direita não dizemos que é fantasia. Nós não dizemos, “Quer saber, não se preocupe com Glenn Beck, não se preocupe  com Rush Limbaugh – as pessoas podem distinguir”. Não, nós entendemos que a mídia molda a nossa maneira de pensar. Ela molda a realidade, que molda as nossas percepções do mundo. A pornografia é mais uma forma de mídia. É um gênero específico, que, por sinal, é muito poderoso, pois entrega as mensagens para o cérebro dos homens através do pênis, que é um sistema de entrega extremamente poderoso. Então eu acho que a ideia de que é apenas fantasia não é confirmada, dada a estudos que nós sabemos sobre como a pornografia, e como as imagens em geral, afetam a visão das pessoas de todo o mundo.

A queixa contra fiscais de punheta é claramente uma reclamação no sentido de: não mexam com o meu desejo! O desejo é o que temos de mais íntimo e difícil de negociar. Se fosse tão simples, anos de reprovação teriam conseguido sufocar a homossexualidade. Existe, realmente, algo que ultrapassa a decisão consciente. Gostamos de reservar à nossa sexualidade a liberdade de não ter que responder aos códigos morais comuns. A sexualidade é associada à liberdade; a conduta pacífica e respeitadora no mundo e selvagem entre quatro paredes é como um mundo ideal.

O incômodo dessa pesquisa é perceber que não somos tão livres. Enquanto conscientemente não conseguimos ou abrimos mão de negociar com os nossos desejos, o mercado tem feito isso de maneira bastante eficiente. E – adivinhe – uma das maiores vítimas desse mercado é o corpo feminino.

O que você vê é uma mulher sendo penetrada brutalmente na  vagina, anus e oralmente. Como o que está acontecendo – três homens de uma só vez, quatro homens de uma só vez – ela está sendo chamada vil, nomes de ódio, ela está sendo estapeada, às vezes, seu cabelo é puxado … A própria indústria diz que muitas mulheres têm dificuldade em estar na indústria por mais de três meses. Por quê? Devido à brutalização do corpo. [….]

Além disso, eu entrevistei alguém que trabalhou com o AIM, a organização que cuida da saúde dos artistas pornô, e ele me disse o que acontece com os corpos destas mulheres. Por exemplo, ele disse que uma das grandes coisas são prolapsos anais, onde literalmente seus ânus caem de seu corpo e tem que ser costurados de volta por causa do sexo anal brutal. Ele também falou sobre a gonorréia do olho, comum atualmente – porque você tem algo chamado [do cu para a boca_ ass to mouth] – eles colocam o pênis no ânus, e depois em sua boca sem lavar. Eles estão descobrindo agora que as mulheres estão pegando infecções bacterianas fecais na boca e garganta. [….]

Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?

 

UPDATE: Um artigo mais recente e com foco na adolescência – A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível.

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de  garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”

Suas pacientes estavam profundamente envergonhadas por apresentar tais lesões. Elas mentiam  para as mães sobre o assunto e sentiam que não podiam desabafar com mais ninguém, o que só aumentava o sofrimento. Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

Buscas no site

Eu sei que este é um blog sério e família, mas não resisti à tentação de colocar as coisas estranhas que trouxeram leitores a este blog. Lá vai:

caminhando dura depois de da o cu – Foi difícil assim, amiga?

só me aceitou no face pra não ser desagradável – Sei como é…

sexo com homens afegãos o que eles gostam? – Adoro buscas com taras específicas.

cu fora do normal – Tenho até medo de digitar isso no google…

estimulo virtual para caminhar – Caminhe, caminhe!

é muita vadia pra pouco – Esse nem conseguiu concluir.

caminhando para velhice e vc – Eu também, fazer o quê.

mulheres dando a vivera pro cavalo zoofilia – Ai…

como limpar book do banheiro – Pra gente que gosta de ler em todos os ambientes.

www.porno.pessoas.precisano.de.money.tubos.categores – Juro que não entendi.

zoofilia guia real 2013 tioria – Credo, tem guia, igual Guia Quatro Rodas?

mobidique livro – HAHAHAHAHAHA!

como o cisne negro mata o cisne branco documentario – Violência animal.

eu não amava animais – Que triste, amigo.

“sentir prazer sem sexo” – Ler um bom livro, dançar, comer…

nen sempre acredite no que te falam pode ser mentira – Concordo plenamente.

fotos de homens com o saco de fora – ….

videos pornos de maridos que levam suas esposas para se diverti com outras mulheris e outros homeis – Hahahahaha, amei o mulheris e homeis!

videos curtos video mulher gostosa traindo marido oficina – Tem que ser curto, se for longo ele perde a paciência.

todos os alunos da sétima b do samuel wainer 2013 – Esse quer organizar uma reunião de turma.

filmes porno com gozadas de jean val jean – Isso sim é gostar de Os Miseráveis!

muheres sem caus e sem sutam – Hein?

sonhar com buraco,mulher gravida e guaiamum – Buraco, grávida e… guaiamum?

A amarga vitória da medicina

Hoje, nada mais natural que quem precise de atendimento médico de urgência vá a um posto de saúde. É uma necessidade e um direito. Embora existam religiões que atribuam curas milagrosas à fé e o uso do que se chama de “medicina alternativa” – rótulo meio irônico, porque em geral indica o que não é reconhecido como medicina – é nos médicos que se deposita a maior confiança de diagnóstico e de cura. Na minha pesquisa de mestrado, sobre pessoas que se tornaram cegas na idade adulta, pude constatar a força de discurso médico. Não era o fato de acordaram sem enxergar que convencia as pessoas de que elas estavam cegas e sim a palavra do médico, o diagnóstico. E somente quando um médico dizia que eles não poderiam voltar a enxergar que eles podiam se conformar com sua condição e recomeçar a vida. Essa entrega radical é fruto de um processo histórico e indica a vitória do que entendemos como Medicina.

Foucault traça esse panorama no O nascimento da clínica. O argumento do livro é que o conhecimento sobre o corpo e suas doenças sempre existiu e que, através de estratégias de poder, foi centrado no que hoje chamamos de conhecimento médico. Essa reorganização gradual mudou nossa forma de olhar o organismo, substituiu a questão de “onde lhe dói?” pela  “o que você tem?”. Deixamos de lado a figura de curandeiros, parteiras e xamãs porque sua atividade se constituía, antes de tudo, pela prática. Hoje entendemos que o conhecimento empírico e o contato com o doente junto ao seu leito não são mais fontes do conhecimento médico – a medicina é formada por faculdades e hospitais, há apenas uma via de transmissão do seu saber. A maneira de entender a doença, o conhecimento do corpo humano, a capacidade de hierarquizar e classificar as variações dos sintomas, a criação de uma linguagem médica e a espacialização da medicina, contribuíram para tornar esse saber tão hermético que o leigo não ousa duvidar da medicina.

É um processo que ainda hoje é muito forte. Foi um luta para que acupuntura, que existe há milênios na China, finalmente tivesse sua eficácia reconhecida. E quando isso aconteceu, passou para o domínio da classe médica. Outro exemplo é polêmico projeto do Ato Médico, que retira a autoridade de vários profissionais da área de saúde – psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, biomédicos, fonoaudiólogos, farmacêuticos – em favor da palavra final de um médico. Vemos a medicina ampliar cada vez mais seu domínio sobre toda e qualquer forma de tratamento de saúde.

Os médicos se tornaram tão essenciais que a medicina hoje nos frustra. O alcance dela nos frustra, a lentidão de certas curas e até pelo fato de ainda existir tantas doenças incuráveis nos frustra. À medida que são comuns longas esperas, falta de leitos ou tratamentos caros demais, vemos que existe um sério problema em lidar com a demanda. Na interação com os pacientes, existem problemas de credibilidade – médicos que não ouvem seus pacientes, casos de erros e abusos, acusações de atender a interesses de grupos em detrimento da saúde da população. Os médicos, por outro lado, se dizem numa posição desconfortável com a alta expectativa depositada neles, entre a necessidade de atender bem versus atender mais. O poder acumulado pela medicina se tornou grande demais e exige cada vez mais investimento. Há uma frase atribuída a Gandhi que diz que “a multiplicidade de hospitais não é sinal de civilização, é sintoma de decadência”.

Um grande poder só é possível quando outros se vêem destituídos de poder. No caso da medicina, esse poder foi retirado de nós, os não-médicos. A busca por formas alternativas de cura tem sido taxada de ignorância e falta de cientificidade; para mim, ela é produto do próprio crescimento da medicina e sua impossibilidade de controlar tudo. Vejo nisso, também, a tentativa de tomar de volta o poder de cura que um dia tivemos.

O perigo de uma única história

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre o que ela chama de uma única história. Ela parte de livros, da única literatura que lhe era acessível quando criança, e reflete sobre visões que temos da África, de estrangeiros, de pobreza, de capacidades. A única história, a maneira única de colocar um assunto, se revela instrumento importante de opressão e perpetuação de preconceitos.

Parte 1:

Parte 2:

Retirado do Blogueiras Feministas.

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

Por Daniel Duclos

UPDATE: Muita gente tem lido este post como uma idealização da Holanda como um lugar paradisíaco. Nada mais longe da verdade. A Holanda não é nenhum paraíso e tem diversos problemas, muitos dos quais eu sinto na pele diariamente. O que pretendo fazer aqui é dizer duas coisas: a origem da violência no Brasil é a desigualdade social e 2, apesar da violência que gera, muita gente gosta dessa desigualdade e fica infeliz quando ela diminui, porque dela se beneficia e não enxerga a ligação desigualdade-violência. Por fim: esse post não é sobre a Holanda. A Holanda estar aqui é casual. Esse post é sobre o Brasil, minha pátria mãe.

A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

Leia o post inteiro aqui.

O ganho do oprimido

Com toda a discussão gerada pela polêmica do possível estupro no BBB, não pude deixar de notar que grande parte dos comentários machistas que vi foram feitos por mulheres. Quando uma mulher se coloca contra outra que pode ter sofrido uma violência de gênero, isso demonstra duas coisas:

1- Não são apenas os homens que aderem a discursos machistas. Mulheres repetem e ajudam a perpetuar sua própria opressão, ao acreditarem e repetirem as mesmas regras que as oprimem;

2- Apesar de toda discussão e avanço gerados pelo feminismo, algumas mulheres ainda são merecedoras da acusação de agirem de má fé e se aproveitarem dos homens.

Eu sei que esse segundo item parece me colocar ao lado daqueles que jogam na mulher a culpa por um estupro. Não estou falando isso – eu acredito que o homem não tem o direito de usar o corpo da mulher sem sua autorização, esteja ela consciente ou não, com penetração ou não, se provocado ou não, sendo ela desconhecida ou sua parceira. O que eu quero dizer é que há um calcanhar de Aquiles que prejudica todas as reivindicações feministas: as mulheres que agem de acordo com as regras masculinas. Assim como existem as mulheres que engravidam sem querer e são abandonadas pelos seus parceiros, existem aquelas que usam a possibilidade de ter filhos como fonte de renda. Se de um lado as feministas querem tirar a imagem sensualizada de mulher objeto presente no imaginário social, existem aquelas que vivem justamente da exploração da sua sensualidade. Pior: muitas mulheres dariam tudo para viver da exploração da sua sensualidade.

Se falássemos da relação entre duas pessoas, quem sabe pudéssemos chamar isso de Síndrome de Estocolmo, onde a vítima procura pela aprovação ou amor do seu algoz. Só que esse é um fenômeno cultural complexo, que vai muito além da relação entre os sexos. No livro Ilhas de História, de Marshall Sahlins, o autor mostra a dominação inglesa sobre povos insulares – Havaí, Fiji e Nova Zelândia. No livro, não vemos povos morrendo em guerras sangrentas para preservar sua cultura ou heróicas recusas à situação imposta pelo colonizador. Esse livro polêmico mostra as trocas entre colonizadores e colonizados, as vantagens que os hawaianos adquiriam (ou acreditavam adquirir) ao negociar com os ingleses, a mudança gradual e definitiva que esse contato impôs aos povos das ilhas. Nela vemos que colonizados não são completamente resistentes e nem vítimas passivas do que lhes acontece.

A crítica que se faz a essa abordagem é pela divisão dos erros; uma interpretação possível é a que os povos conquistados também tiveram sua culpa. É o mesmo perigo que sofre aquele que diz que algumas mulheres se aproveitam e provocam os homens. Jogar a culpa na vítima é um pedaço da verdade, não toda a verdade. Na opinião de ativistas, assumir o ganho pequeno dos oprimidos poderia diminuir o sentimento de solidariedade com eles; embora a troca exista, ela é desigual e bastante ingênua do lado mais fraco. Ao mesmo tempo, parece que as discussões não avançam porque sempre existe esse outro lado, que é super valorizado quando conveniente. Quem luta por uma causa não pode esquecer que uma das origens da sua dificuldade pode ser a adesão à cultura dominante – justamente do grupo que deveria lutar.

…E o vento levou

Apesar de ter preconceito com filmes baseados em livros, com relação ao …E o vento levou tive a reação contrária, de achar que o livro sujaria minha memória afetiva do filme. Eu, como quase todos da minha geração, entrei em contato com o filme quando criança, vi inúmeras vezes e o guardava na memória como uma das grandes produções que vi na minha vida. Achei que o livro não seria digno dessas lembranças e só resolvi arriscar quando a Luciana me garantiu que era uma leitura agradável. Sabia que, na sua época, o livro tinha legiões de fãs, por isso a super produção. Já havia lido que a escolha de Vivan Leigh foi polêmica, porque ela não tinha os famosos olhos verdes da Scarlett -o que explica os inúmeros vestidos e chapéus verdes que a personagem usa, porque com eles Scarlett ressaltava a cor dos seus olhos. Vivan Leigh só convenceu a multidão de fãs quando o filme estreou viram seu desempenho fantástico. Pior de tudo é saber que o galã Rhett, vivido por Clark Gable, era bafudo. Dizem que o hálito dele era tão ruim que Vivian Leigh chegava a passar mal depois das cenas de beijo.

Não imagino que impacto o livro causava na época, quando ninguém conhecia de antemão o que aconteceria. Eu vi o livro tendo o filme como referência, e as imagens me voltavam a medida que eu lia. Como era de se esperar, o livro tem detalhes que explicam muito melhor a trama, se aprofunda nos personagens e tem uma ação mais lenta. Então, através de algumas informações, os fatos adquirem novas luzes, motivações e contextos mais elaborados do que a tela pôde mostrar. O filme se volta para o romance de Scarlett e Rhett, e os tornou um dos casais mais emblemáticos do cinema. O livro se concentra na vida de Scarlett; o narrador, embora onisciente, quase sempre fala das motivações e pontos de vista dela. Da maneira como a história é construída, não é tão certo que eles são feitos um para o outro. Rhett faz parte da vida movimentada de Scarlett, do mesmo modo que as famílias sulistas, a guerra, a luta pela sobrevivência e Tara. Outro grande mérito do livro é o de não duvidar da inteligência do leitor. Parece pouca coisa mas não é – um bom cinéfilo percebe rapidamente que o diretor Woody Alen, tido como tão cult, não resiste e sempre coloca alguém para dizer, com todas as palavras, as respostas que o filme se propôs a dar. Em …E o vento levou, os indícios são fornecidos, mas a autora confia que o leitor perceberá o que está acontecendo.

Leia a continuação aqui.

Citação, BBB e pessimismo

Esta citação está na biografia de Hitler, que eu citei aqui. Na época, guardei mais por me fazer pensar do que por concordar com ela:

Não é a cegueira ou ignorância o que leva à ruína os homens e os estados. Não demora muito para que percebam até onde os levará o caminho escolhido. Mas há neles um impulso, que sua natureza favorece e o hábito reforça, ao qual não podem resistir, e que continua a empurrá-los enquanto lhes resta a mínima energia. Aquele que consegue dominar-se é um ser superior. A maioria vê diante dos olhos a ruína e avança para ela.

Leopold van Ranke

Tive vontade de usá-la quando começaram as primeiras discussões sobre o estupro no BBB. Mas me abstive, porque isso seria uma opinião qualquer frente às coisas muito interessantes que foram publicadas. Soaria como um simples repúdio ao programa, um convite ao boicote de patrocinadores e espectadores, e, pior ainda, pareceria colocar aqueles que não gostam do programa numa posição de pessoas superiores que eu sempre discordei. Eu mesma vi muito BBB, parei, voltei. Como muitas pessoas me disseram e eu concordo – estava na cara que um dia alguém exageraria. Reúnem mulheres gostosas, algumas delas garotas de programa, com marmanjos, em festas regadas a álcool e libido a flor da pele. A surpresa é que tenha demorado 12 anos – prova de que somos um país ainda bastante pudico.

A citação tem a ver com o caso BBB, pra mim, porque me fez entende-la de uma maneira ampla. Colocamos engrenagens complexas para trabalhar e depois não sabemos como parar, ou não queremos pagar o preço de parar. O BBB distrai nossas noites e não conseguimos parar de ver, gera dinheiro para os anunciantes, que não querem parar de lucrar. Princípios rigorosos mandariam parar tudo de uma vez, mas… Penso nos hábitos negativos, na destruição da natureza, na desigualdade social que convivem lado a lado à nossa preocupação sincera com os mesmos temas. É humano – tomamos banhos longos e nos preocupamos com a água do planeta, amamos os animais e nos deliciamos com a sua carne, desperdiçamos comida e repudiamos a idéia de que outros passam fome. É o prazer imediato contra o benefício de todos, é algo que faz parte do dia a dia contra uma vaga idéia de um mundo ideal. Será que o destino das coisas é acabar – de programas de TV a regimes políticos – apenas quando a energia se esgotou, quando renderam os piores frutos, atingiram níveis de corrupção insuportáveis, ou em algum momento a humanidade consegue dizer – vamos parar agora, porque as coisas se encaminham para o pior? Parece que não.

Fracassos

O dia dos namorados é uma data deprimente para quem não está namorando. A publicidade não para de tocar nesse assunto, e à medida em que a data se aproxima, tudo se enche de corações, de casais aos beijos, de mensagens românticas. Aos que estão sozinhos, surgem conselhos e baladas especiais para arranjar um par. Mas essa busca desesperada por um par perto do dia 12 de junho não chega a enganar ninguém, porque arranjar alguém para beijar no dia não é a mesma coisa do que ser importante para alguém, do que estar namorando com alguém. E quando se enfrenta essa data sozinho, mais uma vez, aumentam as dúvidas sobre a possibilidade de encontrar realmente um amor verdadeiro.

“Sexta à noite e eu aqui, vendo TV”. Quando em casa, à noite, ver TV é o que a maioria das pessoas faz. Mas quando é sexta-feira à noite, vespera do fim de semana e dia em que quase todos podem se despreocupar com o horário do sono, isso se reveste de fracasso. Porque é o dia de ir à balada, de estar entre pessoas, beber, dançar e interagir com o sexo oposto. O momento mais esperado da semana, onde o dinheiro é gasto, onde os corpos produzidos trabalhosamente na academia são exibidos.