Uma visão sobre o Comandante d´O Conto da Aia

Alerta de spoiler: O livro é de 1985 e tem filme, série, peça de teatro, desenho. Aqui os spoilers abundam por ser uma discussão e não uma resenha.

“Beije-me como se sentisse vontade”, pede o Comandante a Offread. O Conto da Aia é narrado em primeira pessoa e Offred, sua protagonista, oferece ao leitor uma visão tão limitada da sua realidade quanto o que ela mesma vê: um quarto onde precisa ficar trancada, uma janela com uma pequena visão do jardim, palavras ríspidas de mulheres, olhares cobiçosos dos homens. Tudo parece uma espécie de prisão de luxo, tanto que às vezes a própria Offread faz menção ao fato de ser um privilégio ter o que comer e estar naquela posição – o que nos faz adivinhar o que há algo pior ao mesmo tempo que isso seja difícil de imaginar. Como em qualquer sistema opressivo dos bons, as contradições estão em toda parte: ela veste vermelho e se cobre, ela serve ao sexo e não pode sentir prazer, ela é uma privilegiada e não tem liberdade nenhuma. Nada pertence a Offread, nem o seu próprio nome, que é ligado à família onde está e deve ser dado à outra, quando o prazo dela estar naquela casa e tentar gerar um filho se esgotar.

Há tempo de sobra. Esta é uma das coisas para as quais não estava preparada – a quantidade de tempo não preenchido, o longo parênteses de nada. Tempo como som de ruído fora de sintonia. Se ao menos eu pudesse bordar. Tecer, tricotar, alguma coisa para fazer com as mãos. Quero um cigarro. Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco a fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas agora vejo o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio.

Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.

Parte V, capítulo 13

São pelo menos quatro mulheres na casa, e elas junto com o motorista servem apenas ao bem estar de um homem: o Comandante. De acordo com o ritual, ele deveria usar a aia apenas em dias prescritos, com a presença da sua esposa, as duas unidas como uma só carne, uma como a verdadeira companheira e a outra apenas como depositária do futuro filho de ambos. Da fora mais deserotizada possível, ele penetra uma aia impassível e ejacula. Mas, para a surpresa do leitor, o Comandante subverte as regras e, apesar de poder pedir o que quiser, leva a aia para o seu lugar mais privado da casa e se aproxima dela amigavelmente. Pede para jogar no tabuleiro, observa enquanto ela lê uma revista, conversa com ela. Ele lhe pede com olhares tristes o carinho que vai além da obrigação e passa a olhar para ela durante o sexo, o que a constrange, porque traz de novo ao ato que era mecânico uma presença. O Comandante se esforça para agradar e ser amado e parece ser, da mesma forma que Offread, um prisioneiro do seu papel. Nessa parte, rola uma paixãozinha enquanto a gente vai lendo.Como as feministas alertam: o machismo afeta os dois lados. Na prática, a divisão entre esposa e aia faz com que ele não seja próximo de nenhuma das duas. Os mesmo papéis que servem também isolam os homens em seu poder.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Parte IV, cap.15

Mas qualquer possibilidade de uma paixão vai embora quando sabemos mais sobre o Comandante: que ele havia feito esse jogo antes e que a aia anterior tinha cometido suicídio; que ele foi um dos responsáveis pela implementação daquele regime e que o justificava dizendo: “Queríamos transformar o mundo num lugar melhor. Melhor nunca significou bom para todos, sempre fica pior para alguns”. Alguns, no caso, é apenas toda população feminina…Ele foi um dos responsáveis por tirar de Offread até mesmo o direito de ter seu nome; ele sabia que aquele jogo podia ser mortal para ela, que arcaria com todos os ônus. Ele não fazia nada que pudesse ajudá-la individual e coletivamente e no entanto, ainda queria o seu calor. De sensível e oprimido, descobrimos no Comandante um homem vaidoso e voltado apenas para o seu prazer. Porque, apesar de ser meio sem graça aqui e ali, a submissão feminina é muito confortável. Offread sinaliza que mesmo o mais liberal dos homens ainda pode se sentir assim quando narra que seu marido Luke, o homem da época que ela era alguém, quis fazer sexo com ela no mesmo dia que todas as mulheres perderam seus empregos e o direito de usarem dinheiro. Offread estava totalmente abalada mas “pelo menos nós temos um ao outro” – se Luke iria cuidar dela, então tudo estava bem. Eu me lembrei do Livreiro de Cabul, com homens desejosos que as mulheres que usam burca e seguem estritas normas de conduta agissem – apenas e tão somente na hora do sexo – como as mulheres que aparecem nos filmes ocidentais. Em pouco tempo é isso que o Comandante faz: traz para Offread uma lingerie, a leva para a Casa de Jezebel e para a cama, em busca de uma relação sexual completa.

Mulheres com direitos cortados por canetada, mulheres colocadas sob a tutela masculina, mulheres divididas por funções, mulheres mantidas na ignorância, mulheres vigiadas, mulheres reduzidas ao desejo masculino – o livro é extremamente perturbador para qualquer mulher que o leia. Talvez a gente adivinhe, como a autora Margaret Atwood afirmou, que tudo aquilo já aconteceu de uma forma ou de outra – ou ainda pode acontecer. Até o Comandante levar Offread para o bordel, esta distopia ainda não havia me convencido. Em palavras, a minha crítica era: oprimir as mulheres ok, mas dessexualizar totalmente as relações e fazer delas apenas máquinas para fazer filhos não faz sentido, os homens não abririam mão do prazer que lhes é mais caro, o de dispor do corpo feminino. Aí quando surge a lingerie e o bordel, o quadro se completou para mim. Será que toda opressão e hipocrisia andam juntas? A esposa do comandante e a aia, colocadas em campos opostos, assim como as mulheres na cozinha, perdiam tempo com antipatias mútuas sem se dar conta de que eram todas vítimas. A conclusão do livro é óbvia: somos todas mulheres e não podemos deixar acontecer.

Fisiologia, prazer e sexo anal

Nos muitos comentários contra este vídeo, dizem que os dados sobre endocardite estão errados e que é clara a visão preconceituosa dela a respeito da homossexualidade. Eu não tenho formação o suficiente para discutir os dados que a palestrante levanta e opiniões abalizadas seriam muito bem vindas. Entre os defensores, há os que dizem que “Deus criou tudo perfeito como deve ser”, o que eu também me parece bastante complicado, porque não usamos “tal como deve ser” muitos órgãos – somos bípedes, comemos alimentos industrializados, tiramos pedaços do nosso corpo, medicamos, fazemos enxertos, etc.

O que torna essa discussão interessante, para mim, são as perguntas que a palestrante coloca no início: de onde surgiu o consenso de que sexo anal é ótimo e muito prazeroso a qualquer mulher, se feito da maneira correta? Com endocardite ou não, as explicações dela expõem a fragilidade, do ponto de vista físico, da penetração anal em relação à vaginal. Que, por mais que os discursos atuais tendam ao contrário, não é uma simples questão de “respire fundo e tenha boa vontade, querida”. Há uma clara influência da indústria pornográfica sobre esse discurso e a ênfase não está no prazer feminino. Vale lembrar que as consequências do pornô vão além daqueles que estão no filme, ele influencia a forma como todos os que assistem vivenciem sua sexualidade – e algumas dessas pessoas ainda estão na adolescência:

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”(….) Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

(Retirado de: A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível)

Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.

Sexo, pornografia e mulheres

Achei esse vídeo por acaso, curtido por uma amiga no Facebook. A pessoa que curtiu e a substituição do Adão por uma cruz logo nas primeiras cenas, me fazem pensar que ele circule entre religiosos, quem sabe o palestrante responda por alguma crença. Nos comentários do youtube – pois é, quebrei a regra de jamais lê-los – duas visões opostas: uns se queixam dos “fiscais de punheta” e os que concordam com o vídeo citando a religião.

YouTube Preview Image

(Eu sei que não vai adiantar nada dizer isso, que serei chamada de fiscal de punheta de qualquer jeito, mas: não pertenço a nenhuma religião, não tenho nada contra masturbação, sexo antes do casamento, experiências sexuais, etc. Sou à favor de toda forma de sexualidade consensual entre indivíduos adultos.)

Já faz alguns anos que linkei aqui um artigo sobre a indústria pornô e que me deixou bastante chocada na época. O título do artigo pergunta: Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade? e ele é uma entrevista com Gail Dines, que publicou uma pesquisa sobre a indústria pornográfica, desde a fundação da Playboy e da Penhouse até a pornografia da era da internet.

As partes que copiei a seguir se parecem muito com os insights do vídeo. Elas falam de uma mudança na sexualidade daqueles que veem pornografia. E que daqui em diante a sexualidade das pessoas vai mudar em função dessas imagens – e não parece ser para melhor:

A internet mudou a indústria. Tornou-a acessível, e barata. Então lembre-se, quando a média de idade de ver pornografia pela primeira vez é 11, quando o menino de 11 anos põe “pornografia” no Google, ele não está olhando para a Playboy de seu pai, ele está olhando para um mundo de crueldade, e um mundo de brutalidade . Então o que eu pergunto no livro é: “Quais são as consequências a longo prazo de criar os meninos com imagens violentas quando você pensa na pornografia como sendo a principal forma de educação sexual em nossa sociedade? [….]

Tem sido motivo de estudos por 30 anos – sobre os homens, principalmente – o que eles acham, e o que eu encontrei em minhas entrevistas, é que quanto mais os homens vêem pornografia, menos eles são capazes de desenvolver relacionamentos íntimos. Também o que é interessante é que eles perdem o interesse em mulheres reais, porque a pornografia é tão hard-core – é o sexo a força da industria – nada menos que aquilo  parece brando e enfadonho. Além disso, os homens acham que devem se comportar como os homens na pornografia, eles acham que o pênis devem ser semelhantes aos dos atores pornô, e eles acham que deveriam ser capazes de realizar atos sexuais por horas como os homens fazem na pornografia. O que eles não percebem é que um monte de homens da pornografia usam Viagra, é por isso que é tão possível … E eles começam a ver as mulheres realmente como objetos. Não como alguém a ter relacionamentos, mas como alguém para se usar para algo. O sexo se torna algo como fazer ódio ao corpo de uma mulher. Eles não fazem amor na pornografia, fazem ódio. [….]

Bem, é muito interessante nós dizermos isso, como alguém que estuda a mídia e como alguém que é progressista, quando estudamos midia de extrema-direita não dizemos que é fantasia. Nós não dizemos, “Quer saber, não se preocupe com Glenn Beck, não se preocupe  com Rush Limbaugh – as pessoas podem distinguir”. Não, nós entendemos que a mídia molda a nossa maneira de pensar. Ela molda a realidade, que molda as nossas percepções do mundo. A pornografia é mais uma forma de mídia. É um gênero específico, que, por sinal, é muito poderoso, pois entrega as mensagens para o cérebro dos homens através do pênis, que é um sistema de entrega extremamente poderoso. Então eu acho que a ideia de que é apenas fantasia não é confirmada, dada a estudos que nós sabemos sobre como a pornografia, e como as imagens em geral, afetam a visão das pessoas de todo o mundo.

A queixa contra fiscais de punheta é claramente uma reclamação no sentido de: não mexam com o meu desejo! O desejo é o que temos de mais íntimo e difícil de negociar. Se fosse tão simples, anos de reprovação teriam conseguido sufocar a homossexualidade. Existe, realmente, algo que ultrapassa a decisão consciente. Gostamos de reservar à nossa sexualidade a liberdade de não ter que responder aos códigos morais comuns. A sexualidade é associada à liberdade; a conduta pacífica e respeitadora no mundo e selvagem entre quatro paredes é como um mundo ideal.

O incômodo dessa pesquisa é perceber que não somos tão livres. Enquanto conscientemente não conseguimos ou abrimos mão de negociar com os nossos desejos, o mercado tem feito isso de maneira bastante eficiente. E – adivinhe – uma das maiores vítimas desse mercado é o corpo feminino.

O que você vê é uma mulher sendo penetrada brutalmente na  vagina, anus e oralmente. Como o que está acontecendo – três homens de uma só vez, quatro homens de uma só vez – ela está sendo chamada vil, nomes de ódio, ela está sendo estapeada, às vezes, seu cabelo é puxado … A própria indústria diz que muitas mulheres têm dificuldade em estar na indústria por mais de três meses. Por quê? Devido à brutalização do corpo. [….]

Além disso, eu entrevistei alguém que trabalhou com o AIM, a organização que cuida da saúde dos artistas pornô, e ele me disse o que acontece com os corpos destas mulheres. Por exemplo, ele disse que uma das grandes coisas são prolapsos anais, onde literalmente seus ânus caem de seu corpo e tem que ser costurados de volta por causa do sexo anal brutal. Ele também falou sobre a gonorréia do olho, comum atualmente – porque você tem algo chamado [do cu para a boca_ ass to mouth] – eles colocam o pênis no ânus, e depois em sua boca sem lavar. Eles estão descobrindo agora que as mulheres estão pegando infecções bacterianas fecais na boca e garganta. [….]

Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?

 

UPDATE: Um artigo mais recente e com foco na adolescência – A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível.

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de  garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”

Suas pacientes estavam profundamente envergonhadas por apresentar tais lesões. Elas mentiam  para as mães sobre o assunto e sentiam que não podiam desabafar com mais ninguém, o que só aumentava o sofrimento. Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

Mão naquilo

Eu geralmente me abstenho de discutir um assunto quando ele já é tratado por muita gente e com muita propriedade. É o caso da última polêmica, do caso Gerald Thomas e Nicole Bahls. Para mim, a foto já era agressiva por si só. Comentários de internet têm a capacidade de nos deprimir em qualquer assunto, e nesse caso não foi diferente. Era brincadeira, ela gostou, quem mandou ir de vestido curto (argumento do próprio Gerald Thomas), o Pânico merecia, Gerald foi um gênio e agiu “fora da caixa”, etc. Eu sou mulher e vi aquela foto como uma mulher, pensei no que seria se um homem que nunca vi na vida, que não desejo, colocasse a mão em mim daquela forma na frente de uma platéia que não me defendesse. Não consigo deixar de achar que ela se sentiu extremamente humilhada. É uma humilhação que talvez apenas outra mulher possa entender.

Como explicar esse pudor a um homem? Eu poderia dizer “imagine se uma velha nojenta…” ou “imagine se um homem…” e não seria a mesma coisa. A relação que um homem tem com o seu sexo, com o seu pênis, é totalmente diferente. Anatômica e culturalmente falando, o pênis sempre foi algo exposto. Ele é mostrado orgulhosamente, ele é medido, ele recebe apelidos, ele é simbolizado em gestos obscenos, ele se confunde com seu próprio dono. Enquanto até a palavra pênis é dita com naturalidade, hesito até em escolher um termo para falar da mulher: xoxota, buceta, vagina? Cada termo tem uma carga, soa de maneira estranha, tende a algo libidinoso. A mulher aprende a se esconder, a não tocar e nem pensar no assunto, a nem saber como ela é embaixo, a corar com qualquer referência a tamanho ou formato. Penso em quantas mulheres têm câncer de colo de útero, uma doença que leva muito tempo para se desenvolver, por causa do tabu de fazer um exame simples como o papanicolau. O que entra, como entra, quando entra – o valor de uma mulher sempre foi medido (hoje menos, esperamos que no futuro menos ainda) pela quantidade de homens que podem ter acesso a sua vagina. E sabemos que é um valor negativo: quanto menos acesso, mais valorosa a mulher é. O maior ícone dessa idéia é a Virgem Maria.

Se ambas mostram mulheres nuas, porque dizemos que a Playboy tem um “nível melhor” do que a Sexy? A revista Sexy é mais escancarada, mais pornográfica, ela faz o que chamamos de “closes ginecológicos”. Com closes vaginais, não é mais possível dizer que um ensaio nu é artístico, porque a vagina é a diferença entre o artístico e o pornográfico, o sugerido e o escancarado. Ou seja, mostrar uma vagina é tão desejado quanto proibido, é de uma sexualidade indisfarçável e por isso mesmo “de baixo nível”. A nudez feminina se faz ainda mais nua quando uma mulher permite o acesso à sua vagina, porque a vagina é a última fronteira da sua sexualidade. Do lado oposto ao da Virgem Maria, que de tão santa é intocada, está a puta, aquela que não tem mais qualquer intimidade, qualquer moralidade, aquela que tem uma vagina pública.

A vagina é o canto mais reservado, ela é de uma intimidade que não há correlação em um homem, porque o homem é público. Pensemos nas dicotomias apontadas por Bourdieu em A dominação masculina: o homem é público, exterior, visível, agressivo; a mulher pertence à esfera do íntimo, privado, invisível, dócil. Quando saem da esfera do privado, a mulher e a sua vagina deixam de pertencer ao papel que lhes é reservado, o que tampouco faz com que sejam reconhecidas como masculinas. Elas se tornam putas, aquelas figuras desprezadas por homens e mulheres. Uma mulher que tem uma vagina que pode ser manipulada em público, sem que ninguém a defenda, é uma mulher sem o menor valor, é uma mulher sem direito à intimidade.

Muitos consideram o ato de Gerald Thomas justo quando pensamos nos abusos que o Programa Pânico têm cometido ao longo dos anos. Pode ser que eles realmente mereçam o troco, mas é uma pena que esse troco seja dado justamente no elo mais fraco do programa: numa Panicat. As Panicats que ganham pouco, que têm fama de prostitutas, que são escolhidas unicamente pela estética. São mulheres que precisam ficar rebolando de biquíni sem abrir a boca, que podem ser humilhadas dentro do próprio programa, que são pressionadas a esculpir o corpo e depois são facilmente demitidas porque não têm carisma ou estão masculinas demais. O mesmo programa que comprou imediatamente uma briga quando Netinho de Paula deu um soco no repórter Vesgo, deu risada e disse que não foi nada demais quando abusam de uma Panicat. Em outras palavras, era apenas uma panicat, uma mulher, uma gostosa que rebola pra gente. Essas coisas me fazem pensar que mulheres e vaginas ainda são, para muitos, apenas coisas a serem violadas num feliz mundo falocêntrico.

Complexo de Portnoy

Numa excursão do nosso grupo familiar, certa vez descarocei uma maçã, para espanto meu (e com auxílio da minha obsessão) verifiquei com o que ela se parecia, e corri para o mato para cair em cima do orifício da fruta, imaginando que o frio e farinhento buraco ficava entre as pernas daquele ser fictício que sempre me chamava de Garotão quando implorava por aquilo que nenhuma outra garota em toda história conhecida jamais tivera. “Oh, empurre isso para dentro de mim, Garotão”, gritava a maçã descaroçada que eu castigava como um bobo naquele piquenique. “Garotão, Garotão, me dá tudo o que você tem”, suplicava a garrafa de leite vazia que eu guardava escondida no nosso depósito no porão, a fim de nela penetrar, desvairado, com a minha envaselinada verga. “Goza, goza, Garotão, goza”, berrava o furioso pedaço de fígado que, na minha loucura, comprei uma tarde num açougueiro e, acreditem ou não, violei, atrás de um suporte de cartazes a caminho de uma lição de bar mitzvah.
p.19-20
Ainda nem cheguei na metade de Complexo de Portnoy, mas acho interessante registrar o efeito dessas descrições: é es-tra-nho. Peguei o livro porque o Charlles (e comentários do blog), estava dizendo que era de rolar de rir. Acredito que seja mesmo, para os homens, porque eles vêem nas descrições um pouco das suas experiências e sabem distinguir a realidade da fantasia. Para uma mulher, é engraçado e ao mesmo tempo assustador. Será o desejo dos adolescentes tão incontrolável e irracional assim? Fiquei com medo do meu irmão ter roubado minhas calcinhas e perguntei para o meu marido se ele já olhou com desejo para uma maçã. As mulheres, ao lerem este livro, não resistirão à curiosidade de consultar algum amigo pra saber como é essa fase na vida de um homem.
Pensei na minha adolescência, no desejo feminino, que me parece tão distante de tudo isso. Perceber o quanto as adolescentes são mais liberais hoje dá impressão de que coisas mudaram, que o desejo feminino se libertou de tantos pudores. Será? Quando me lembro do Crepúsculo e penso que revistas de nu masculino ainda se destinam ao público gay masculino, me parece que as coisas ainda não mudaram tanto. Cultural ou biológica, a forma de desejar o outro é muito diferente entre homens e mulheres. Se for para falar da versão feminina da fase descrita no livro, diria que as meninas são mais sonhadoras. Além de não existir essa compulsão, o desejo delas está ligado ao amor, a idéia de ser especial, ao desenrolar das situações. Os homens abandonam parte daquele período? As mulheres também.
Outro aspecto interessante do livro é a relação do protagonista com a sua mãe. É uma relação claramente freudiana, com ansiedade de castração e o filho como falo da mãe. A irmã é apenas uma “criatura gorda de cabelos compridos” e o pai um fracassado. Some esses elementos a outro clichê – em que medida verdadeiro? – da superproteção e dramatização da mãe judia. Essa mistura torna Complexo de Portnoy um daqueles livros que surpreende, choca, ri e faz pensar, tudo ao mesmo tempo.

Propaganda e uma desilusão

Não lembro se recebi por e-mail ou comentei na época que essa publicidade saiu:

Acusei a propaganda de ser machista, de ver a mulher como objeto, de chamar as mulheres de prostitutas e vários argumentos que passam pela cabeça de uma mulher instruída quando vê isso. Estava em meio à minha revolta, quando um amigo calmamente me disse:
– Mas funciona. Poucas mulheres deixariam de abrir as pernas depois de ganhar uma jóia.

Tive que ficar quieta e reconhecer que é verdade. Podemos dizer que não é pela jóia em si e sim pelo que o gesto de comprar algo tão caro significa… Ou podemos achar que é pela jóia sim, como uma troca. Isso torna a mulher uma vagabunda? O que abrir as pernas porque ganhou uma jóia revela?

Revela que na relação entre os sexos, há muito, a mulher entra com o seu corpo, a sua juventude e a sua aparência, e o homem entra com o poder e o dinheiro. Os homens acusam as mulheres de serem interesseiras e as mulheres acusam os homens de só pensarem em sexo. Os dois têm seus motivos, são as maneiras mais tradicionais de se atuar. Maneiras que hoje as feministas criticam, apesar da resistência de outras mulheres. Talvez não estejamos todas lutando ao lado do feminismo porque, quando se abandonam as armas da sedução, talvez não haja tanta coisa nos esperando.

O que eu posso dizer em favor do feminismo: vejo mais mulheres dispostas a agir de outras formas do que homens dispostos a abrir mão da beleza e juventude feminina.

A pior cena de sexo que eu li nos últimos tempos

… é do livro Fim da Eternidade, do Asimov. Quem já leu algum livro dele sabe que descrições não são o seu forte. A gente entra num universo de nomes inventados, coisas que não existem, viagens espaço/temporais, controle do comportamento humano. A parte interessante é a projeção de um futuro, com um grande desenvolvimento tecnológico e uma lógica própria. No meio de tudo isso, quase nenhuma mulher. Asimov sempre dá um jeito de justificar essa escolha, colocando as mulheres como tão importantes que não se envolvem com essas disputas, ou verdadeiras musas. A mim, nenhuma dessas explicações convence e o acho misógino. Não é à toa que ficção científica atrai mais o público masculino. No Fim da Eternidade, ao ler esta descrição péssima de uma cena de sexo, Asimov me pareceu confirmar a crença de que nerds perdem a virgindade aos quarenta:

A moça estava deitada sobre o cotovelo, num sofá em frente. O tecido estampado do sofá afundou sobre o seu corpo, como se ávido por abraçá-la. Ela havia tirado os sapatos transparentes e os dedos dos pés mexiam para sempre e para trás dentro do espumite flexível, como as patas macias de uma gata luxuriante.

 [Ela lhe faz algumas perguntas ao herói, que o levam a pensamentos confusos. Esses pensamentos ocupam duas páginas. Nesse meio tempo, Asimov não cita mais a moça. Aí, do nada,]

Noÿs estava ainda mais perto, seu rosto não totalmente nítido ao seu olhar pasmado. Sentiu o cabelo dela em seu rosto, a pressão leve e cálida da sua respiração. Ele deveria afastar-se mas – estranhamente, estranhamente – não queria.

– E se eu me tornasse Eterna… – ela sussurrou, quase em seu ouvido, embora as palavras mal pudessem ser ouvidas, abafadas pelas batidas de seu coração. Seus lábios estavam úmidos e entreabertos – Você não iria gostar?

Não entendeu o que ela quis dizer, mas, de repente, não se importava. Ele parecia em chamas. Estendeu os braços, desajeitado, tateando. Ela não resistiu. Uniu-se a ele como num abraço carinhoso.

Tudo aconteceu como num sonho, como se estivesse acontecendo com outra pessoa.

Não era nem de longe repulsivo como ele imaginara. Veio-lhe como num choque, uma revelação, que não era repulsivo de modo algum.

p.69-72

Depois tem outra cena, que é meio “vai ser bom, não foi?”. Como é uma momento essencial do livro, acho que teria valido a pena pedir ajuda na hora de escrever… O Fim da Eternidade, em si, é bom. É um livro que fala de viagens no tempo. Os livros/filmes de viagens no tempo costumam se centrar no choque de uma pessoa em outra época; o inusitado dessa história é que as épocas não são relevantes. O que importa é a viagem em si, a criação de uma instituição que se dedica ao aprimoramento da humanidade através de intervenções no tempo. Li o livro irritada com vários pressupostos dessa instituição, mas o autor dá um jeito de anular todas as ressalvas no final. É um livro cheio de reviravoltas e não sei porquê ainda não foi transformado em filme. Para ler rápido e sem maiores consequências.

Sexo trocado

Sexo é cultura. O que entendemos como masculinidade ou feminilidade são totalmente determinadas pelo meio. É ela que nos diz que homens são fortes, agressivos e líderes, enquanto as mulheres são delicadas, tranquilas e conciliadoras. Desde o nosso nascimento, na escolha dos nossos nomes e em diferenças sutis de tratamento, vamos assimilando as características do sexo que nos é atribuímos e unicamente com base nelas fazemos nossas escolhas. Desde a maneira de ser portar até a atração física pode ser explicada nesses termos. Ao nascer, a única coisa que diferencia meninos e meninas é a presença do pênis; se fosse possível criar um menino sem pênis, se ele lhe dessem um nome feminino e o tratassem como tal durante toda sua infância, bastaria lhe dar hormônios na adolescência para concluir a transformação.

Eu sei que tudo o que eu disse soou exagerado. Mas durante algum tempo, as coisas foram consideradas verdades científicas. Tempo o suficiente para tornar real a experiência de criar um menino sem pênis como menina. É o que conta o livro Sexo Trocado. Um erro médico criou a oportunidade perfeita para provar o determinismo cultural sobre o biológico: em 1967, dois meninos gêmeos, de oito meses de idade, foram realizar cirurgias de circuncisão. Em um deles a operação foi tranquila; no outro, o aparelho queimou o pênis do bebê. Sem saber o que fazer, os pais se renderam ao argumento de um médico, que os convenceu que um menino sem pênis estava privado do que há de mais importante na sexualidade masculina. Seria mais fácil castrar o pouco pênis que lhe restou e transformá-lo numa menina. Se eles não contassem a ninguém que ele era originalmente um menino e tratassem a criança como filha, ela assumiria a identidade feminina sem problemas.

As coisas não aconteceram exatamente como o esperado. Mas isso não impediu o médico de apresentar esse caso em diversas conferências, publicar em revistas científicas e se tornar referência nos casos de mudança de sexo. Muitas crianças hermafroditas tiveram suas características dúbias retiradas (em favor de um dos sexos, escolhidos pelo médico) por conta desse caso exemplar. A foto do casal de irmãos e notícias periódicas do desenvolvimento normal da menina confirmavam à comunidade científica o poder da cultura e da intervenção da ciência sobre a natureza. Penso no impacto favorável desse caso ao feminismo da época, que ainda buscava argumentos contra o biologicismo da desigualdade entre os sexos. Era o sonoro NÃO à questão levantada por Margaret Mead no livro Sexo e temperamento (1935): “ninguém conhecia em que grau o temperamento está biologicamente determinado pelo sexo, de modo que esperava ver se havia factores culturais ou sociais que afectassem o temperamento. Eram os homens inevitavelmente agressivos? Eram as mulheres inevitavelmente caseiras?”

A menina cresceu agindo como um menino sem pênis. É como se em algum lugar, desde sempre, ela soubesse da verdade. Quando criança, se comparava ao irmão e dizia que queria ser igual a ele. Quando argumentavam que ela não podia, porque era uma menina, ela ficava sem saber o que dizer. As outras crianças percebiam que havia algo errado e se mantinham longe. Ela cresceu arredia, desconfortável com seu próprio corpo, ignorando e ignorada pelos rapazes. Quando começou a receber hormônios, mesmo sem saber o que eram, não queria tomar. A situação foi ficando cada vez mais insuportável, até que aos 14 anos seus pais lhe revelaram a verdade. Por um lado foi um alívio, mas por outro foi o início de mais uma batalha: a recuperação da masculinidade. É um livro que conta um sofrimento pessoal e familiar muito grande. Anos depois da publicação, seu protagonista cometeu suicídio.

Com o tempo, esse extremo culturalismo foi perdendo força. Na época, a notícia de que a mudança forçada de sexo não fora bem sucedida encontrou uma acolhida fria nos meios acadêmicos. Assim como os estudos que apontavam um componente biológico a ser levado em conta na construção da sexualidade. Hoje esses estudos não encontrariam obstáculo algum – num movimento pendular, hoje estamos vivendo uma busca de explicações biológicas para os todos comportamentos. Existe a pretensão de que a genética substituirá a psicologia. Mesmo em correntes tão diferentes, o falocentrismo ainda não parece ter sido superado… Quem iria prever que a visão da mulher como o negativo (no sentido de encaixe) do homem ou do pênis como peça essencial no complexo de édipo poderiam levar um menino a ser transformado em menina? Coisas que parecem simples metáforas, quando transformadas em discurso científico, têm um perigoso poder de materialização.