Dois grandes problemas das minorias

O livro Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade é daquelas referências que todo mundo deveria ter, especialmente aqueles que se identificam e lutam por qualquer minoria. Não apenas por colocar em palavras o que se sente na pele – por que se uma mulher ou um negro ou um gay comete um erro, ele repercute de maneira tão grande? – mas também por trazer insights que podem surpreender até os ativistas. Pelo menos foi isso o que eu senti quando o livro afirma que não é a diferença que define o preconceito, e sim que a eleição da diferença dá vazão a um desejo prévio de excluir. O grupo mais forte cria para si uma ideologia que atribui a si próprio todo carisma e vantagens sociais; aos diferentes são creditadas todas as desvantagens, que mais tarde adquirem status de diferenças étnicas, raciais, sexuais, etc.

Esse argumento, aparentemente tão radical e difícil de provar, surge quando Elias & Scotson tem a oportunidade de estudar o surgimento de dois bairros de trabalhadores num povoado industrial da Inglaterra, denominada (nome fictício) de Winston Parva. De acordo com dados relativos à renda, educação ou ocupação de seus habitantes, aquela seria considerada uma região homogênea. Mas os seus habitantes se viam de forma completamente diferente. Havia um grupo que se via como estabelecido, e encarnava os valores da boa sociedade, enquanto os moradores da outra região eram outsiders e eram estigmatizados com atribuição de delinquência, desorganização, etc. A base para a crença de serem os estabelecidos era sua antiguidade. Como ocuparam aquela região antes, criaram laços sociais que justificavam sua própria visão de superioridade. Os outros, mais recentes, ainda não haviam tido tempo de formar uma rede, e ao chegar já eram rotulados. Na falta de uma rede de apoio mútuo e sem a possibilidade de se defender, o grupo excluído passou a acreditar nessas atribuições negativas. Ou seja, muito mais do que nas diferenças raciais, sexuais ou culturais, o preconceito nos fala de relações de poder. As diferenças são justificativas e não causas. Muitas vezes – alerta o livro – as condições sociais de origem podem ter se modificado e os estereótipos persistem.

O grupo mais forte cria para si uma ampla rede de naturalização dessas relações. No caso das comunidades do livro, a fofoca era uma das principais armas. Imagine o que é possível fazer em grupos maiores e antigos. Não é preciso ir muito longe para lembrar que até a ciência já “explicou” a inferioridade de grupos. O objetivo dessas estratégias é a manutenção da diferença, fixar a distância. O grupo mais forte se protege: qualquer erro cometido por um dos seus membros não repercute ou encontra justificativas. Já o mesmo erro cometido por alguém do grupo outsider respinga em todo grupo e reforça o preconceito. No grupo estabelecido, um jovem que comete um delito é apenas um sujeito isolado, talvez com problemas, que errou. No grupo outsider, ele é o representante de uma coletividade – agiu conforme sua natureza, são todos assim, é o que eles fazem sempre. Isso soa familiar? A regra também vale ao contrário: um comportamento louvável de um indivíduo do grupo mais forte repercute sobre todos e confirma sua superioridade, enquanto uma atitude louvável no grupo mais fraco é uma exceção, um apesar de.

Na minha opinião, esses dois insights – o grupo excluído acreditar nas atribuições negativas do grupo mais forte e a maneira como qualquer atitude negativa de um de seus membros repercute sobre todos – são as maiores dificuldades dos movimentos pelas minorias. A exclusão é criada pelo grupo mais forte e o favorece amplamente; logo, cabe aos grupos excluídos buscarem a contra-estigmatização. Há a dificuldade de se reconhecer como excluído, porque o efeito imediato disso é abraçar desvantagens. O discurso do grupo mais forte é dominante. Esse discurso não é apenas algo que vem de fora – muitas vezes é a maneira como fomos criados, nossos critérios de beleza, nosso julgamento moral, a própria forma como nos relacionamos com o mundo. É uma luta que pode deixar o sujeito temporariamente sem lugar – ele abre mão do valor dominante em troca de valores que talvez ainda não existam. E, como minoria, o sujeito se vê sempre jogado na posição de representante. Se milita, mais ainda. É difícil ser julgado da forma mais rigorosa, ter que ter a conduta mais ilibada, não poder cometer um erro sem que isso confirme todos os julgamentos. É quase uma exigência de santidade: fale, mas não eleve a voz; se indigne, mas dentro da lei; lute, mas nunca se descontrole.

Uma teoria pessoal sobre moda

Antes, uma historinha: Uma amiga minha, recentemente, estava na sauna do clube Curitibano. Para quem é de fora, o clube Curitibano é o clube mais fresco e tradicional da cidade. Ela estava reclinada com uma toalha em cima dos olhos, o que dava aos outros a impressão de que estava dormindo, mas por debaixo da toalha ela via tudo o que estava acontecendo. Entrou na sauna uma mulher com roupa de ginástica, que provavelmente havia saído da musculação. Era uma mulher bonita, por volta dos seus quarenta anos, cabelo loiro-comprido-liso e conjunto de ginástica colorido. Ok. Aí à medida que a mulher foi tirando a roupa, minha amiga não acreditou no que estava vendo: por debaixo da roupa de ginástica, ela estava com um modelador. Não, ela não havia feito plástica recentemente – era apenas para ficar bem dentro da roupa de ginástica.

Eu vivi os anos 80, vi videos dos anos 70 e agora estou viciada em Downton Abbey e, por incrível que pareça, encontrei algo similar em todas essas modas. Ou, dito de outra maneira, vejo mais semelhanças nos charmosos vestidos de Downton Abbey e as ombreiras que usei na infância do que com o que vestimos hoje. Pense comigo: antigamente os corpos eram mais parecidos. Mesmo se pensarmos que a gordura foi mais valorizada em uma época do que outra, não era tanta gordura assim. As diferenças de peso não variavam pra muito mais de cinquenta quilos, não com o que se comia naquela época, não sem as facilidades que a tecnologia nos oferece. As crianças gordinhas da minha infância hoje nem seriam consideradas gordinhas. A diferença entre as classes, dentre outras coisas, era bastante demarcada pela roupa. A roupa e seus detalhes, tecidos diferentes, costuras e caimentos eram extremamente elaborados. O corpo que havia dentro delas variava muito pouco.

Hoje estamos num padrão de beleza tal, que é impossível chegar a ele sem um investimento pesado de tempo e dinheiro. O tal corpo de academia, com a barriga negativa, a coxa enorme e o peitão não são o corpo de ninguém, não se nasce daquela forma e em nenhum momento da vida o corpo se encaminha para aquela forma. O “corpão” é resultado de alimentação com suplementos e restrições, horas de treinamento específico e diário na academia e cirurgia plástica. Tudo isso numa época em que ser simplesmente magro, como éramos antigamente, já é difícil. Tudo – o avanço da tecnologia, a vida sedentária, alimentos industrializados, medicalização – contribui e nos levou a uma epidemia mundial de obesidade.

Por outro lado, nossas roupas estão cada vez mais simples: um nada de um tecido que estica preso a duas costuras laterais e já temos uma roupa. Sem dizer que a China copia rapidamente e vende a versão barata do que apareceu ontem na loja cara. São roupas que tem um desenho, cuidado e caimento mínimos. Elas esticam. Tudo porque, na verdade, elas não são importantes. O caimento é o corpo, e não a roupa. Mortais comuns ficam horríveis nelas, que de tão coladas exibem com crueldade qualquer “dobrinha”. Não tem sentido cobrir de tecido, volume e curvas um corpo que sofreu tanto investimento. O corpo, sua magreza, seu silicone e suas plásticas é que são ostentados.

Nietzsche, por Viviane Mosé

O que eu sabia a respeito de Nietzsche, antes desse vídeo, era o que um professor meu havia dito numa aula: “Nietzsche foi um cara que quando todo mundo aplaudia a modernidade nascente, disse que aquilo não ia prestar. Mesma coisa que nasce um bebê lindinho e enquanto está todo mundo em volta, a pessoa diz ‘isso daí? Olha a cara dele, vai ser marginal, vai ser um Hitler’ “

A paixão com que Viviane Mosé fala da filosofia de Nietzsche, torna extremamente interessante esta palestra. O uso frio e estrito da razão, mas sem paixão ou sentimentos, deixa a vida amorfa, incompleta e sem sentido.
Então, estas coisas devem se combinar e também interferir uma na outra, com os riscos inerentes, não? (Alexandre Constantino, pelo Facebook)

Imagem de Amostra do You Tube

Teorias conspiratórias

Como a imprensa não consegue se preocupar com mais de uma catástrofe por vez, não se deu a importância devida às chuvas que alagaram o litoral paranaense. Tudo porque aconteceu no mesmo fim de semana do terremoto do Japão. Além de ter feito desabrigados em nas cidades históricas de Antonina, Paranaguá e Morretes, três pontes que ligavam o litoral ao resto do estado caíram. Foram dias até que as pessoas pudessem ir da praia à capital e vice-versa. Quem estava no meio do caminho teve que dormir no carro. As imagens das pontes de asfalto e concreto destruídas era realmente impressionantes. Por isso, não me surpreendi quando ouvi a seguinte conversa:
– Vocês viram as pontes que cairam no litoral? Eu vi as imagens, água não faz aquele estrago todo. Eu acho que aquilo é consequencia do terremoto no Japão e eles não querem noticiar.
Posso ter presenciado o nascimento de uma nova teoria conspiratória. De nada adiantou falar que vi programas na época do terremoto no Chile, que mostravam as principais placas tectônicas bastante longes daqui. Fui olhada como crédula. Como dizia o seriado Arquivo X, a verdade está lá fora: os desenhos da Disney contém mensagens subliminares satanistas; a gripe suína é uma farsa criada para enriquecer o laboratório responsável pelo seu remédio; o ataque às torres gêmeas foi organizado pelo próprio governo americano; o mundo é controlado pela família Rothschild; e por falar em família Rothschild, ela faz parte de uma raça alienigena que governa a Terra há séculos. Nesses poucos exemplos, é possível perceber que as teorias conspiratórias possuem algumas características em comum:

1. Elas sempre duvidam da versão oficial.

Esta talvez seja a característica mais marcante. Um homem, ser ou pequeno grupo têm acesso à verdade e não deixam que as outras pessoas a conheçam. Haveria uma desculpa nobre, tal como a segurança da população; na realidade, o ocultamento dessa informação serve unicamente aos que se apropriaram dela.

2. Elas acreditam num poder central.

Ess poder pode ser atribuido ao governo, igreja, famílias muito ricas ou ao diabo. Tais minorias não teriam seu poder afetado por mudanças de regimes políticos, distribuição de renda, ou mudança de tradições. Essas oscilações seriam apenas aparentes – quem perde ou sai do poder nunca é quem realmente comanda. O verdadeiro mandatário nunca sofreu perdas ou de afastou da função de comando.

3. Elas acreditam num propósito, que é prejudicial à maioria.

Isso é bastante interessante. Para as teorias conspiratórias, o interesse de poucos sempre se opõe ao interesse da maioria. A minoria no poder acaba encarnando o mal (e às vezes seria o mal em pessoa) por agir de maneira a prejudicar deliberadamente o resto da humanidade. A vida das pessoas comuns tem doenças criadas, guerras sem propósito real, mensagens falsas e/ou empobrecimento previamente planejados. A morte, a doença e a ignorância da população se reverte em lucro e poder para aqueles que os criam.
4. Elas acreditam que coisas aparentemente insuspeitas ou coincidências não o são.
A minoria organizada teria controle de instituições nas quais as pessoas confiam, e se aproveitam dessa confiança. O perigo pode estar no que há de mais íntimo, inocente, no que é absorvido sem crítica. No oficial vemos apenas um lado do poder – ele está nos meios de comunicação, nos alimentos que consumimos, na publicidade, nos desenhos animados. Coisas aparentemente sem ligação, que ocorrem em lugares e épocas diferentes podem fazer parte do mesmo plano, por nos levar à direção que eles querem.

 

5. Elas acreditam numa ação prolongada e organizada.

Toda ação numa teoria conspiratória é um propósito organizado. O limite no número de pessoas envolvidas nessa ação permite que ela se mantenha fiel, até por gerações. Ao mesmo tempo, o grande poder (aquisitivo ou mágico), permite que a engrenagem necessária para colocar o propósito em prática se estenda por toda a Terra. Mudança cultural ou de gerações não faz com que o propósito mude, que a rota seja desviada ou que erros sejam cometidos. Ao entender que qualquer perda aparente é apenas um ardil, atribui-se a esse poder central uma inteligência infalível.