Uma história íntima da humanidade

O livro me foi indicado por uma historiadora, a Nikelen. Além do mais, o título do livro usa a palavra história. Então nada mais natural do que procurá-lo como um livro de história. Mas na biblioteca ele estava classificado como Antropologia Social (e existe uma antropologia que não seja social?). Pior ainda foi quando procurei um link para cita-lo neste post e ele aparece como psicologia. A confusão, na verdade, é compreensível. O primeiro capítulo, sobre liberdade, foi quase como ler auto-ajuda para mim. Auto-ajuda num sentido bom, claro.

Capítulo 1: Como os seres humanos continuam a perder as esperanças, e como novos encontros, e óculos novos, as renovam.

O Uma história íntima da humanidade se confunde com antropologia, com psicologia e com uma certa auto-ajuda porque ele aborda temas próximos e de uma maneira muito pessoal. A cada capítulo, ele conta a história de alguém. São histórias verdadeiras, de mulheres (na introdução o autor justifica essa escolha) que refletem sobre as escolhas que fazem e que rumo deram às suas vidas. Dentro de cada uma dessas histórias o autor destaca uma questão e mostra o quanto ela diz respeito a todos nós. Ele mostra que as questões daquelas mulheres não são inéditas, que as maneiras de entender certos fenômenos mudou de enfoque e de importância ao longo do tempo. Ou seja, o autor fala do próximo e do distante, do particular e do comum.
O medo tem sido quase sempre mais poderoso do que o desejo de liberdade. Contudo, o imperdor Maurício, de Bizâncio (582-602), descobriu uma excessão. Ficou perplexo com três eslavos que havia capturado e que não portavam armas. Levavem somente guitarras e cítaras e vagabundeavam cantando as alegrias da liberdade, de estar em campos abertos gozando as brisas frescas. eles lhe disseram: “É normal que pessoas estranhas à guerra se devotem à música com fervor”. Suas canções versavam sobre o livre-arbítrio, e eles eram conhecidos como pessoas de vontade libre. Em 1700 ainda havia gente assim quando Pedro o Grande decretou-lhe a condenação: todos deviam fazer parte de um Estado legal, com deveres preestabelecidos. Mas 150 anos depois, Tara Sevlenko, um servo ucraniano alforriado, cantava poemas na mesma linha, lamentando que ” a liberdade esteja adormecida por ordem do czar bêbado”, e insistindo em que a esperança podia ser encontrada na natureza:
Ouça o que diz o mar
Interrogue as montanhas negras.
Havia escravidão, antes de tudo, porque os que queriam ficar sozinhos não se afastavam do convívio dos que apreciavam a violência. Os violentos têm sido vitoriosos ao longo da história porque administravam o medo com que cada um de nós nasce.
O objetivo do livro, ao fazer recortes tão originais, é ambicioso: mostrar que as coisas não são como devem ser, e sim formadas por muitas escolhas. Escolhas forjadas pelos nossos antepassados, que nos deram uma maneira de olhar a questão. Mas também escolhas da nossa própria geração, que lança ela mesma uma contribuição à maneira de olhar os fenômenos. O autor procura retirar do leitor o sentimento de determinação; conhecer a nossa história, ao invés de nos mostrar um curso de progresso inevitável, aumenta a capacidade crítica. “Quero demonstrar como, hoje em dia, é possível aos indivíduos formarem opinião nova de sua própria crônica pessoal e de todo o registro da crueldade humana, seus equívocos e alegrias. Para se ter visão nova do futuro, sempre foi necessário, antes, adquirir uma visão nova do passado” (p.7)