Dois insights sobre a fama

Mozart morreu com a certeza de que tinha sido um fracasso, porque sua música não fazia sucesso no círculo que ele esperava que fizesse, a corte de Viena. Enquanto isso, em outras cidades da Europa, suas óperas alcançavam sucesso e se tivesse vivido um pouco mais, possivelmente Mozart teria sido aclamado ainda em vida. O que me parece interessante nessa história é perceber que a noção de sucesso e fama não existe de maneira absoluta; ela está ligada, principalmente, ao reconhecimento dos que nos estão próximos, ou daqueles cuja opinião valorizamos (que nem sempre são o mesmo grupo). É possível alegar que hoje, com a internet e a televisão, as coisas tenham mudado e a repercurssão nesses meios mostre a verdade. Quando lembro da surpresa da Amy Winehouse ao receber o Grammy, não me parece que as coisas sejam assim tão claras.Imagem de Amostra do You Tube

O vídeo mostra a performance toda do Grammy. A partir do minuto 5:49, o anúncio do prêmio e a reação de Amy.
Pesquisas, cópias vendidas, referências no Google e todos os outros dados são apenas números. A percepção que cada um tem do seu reconhecimento é dado pelas pessoas que lhe são próximas. Uma possível fama num país distante, com pessoas que nunca vistas, é muito abstrata. Lucélia Santos, graças à primeira versão da novela Escrava Isaura, era muito conhecida na China e aqui ninguém ficou sabendo. Apesar de tantas mudanças, se sentir famoso ainda é o calor do contato humano, é ser reconhecido nas ruas e dar autógrafos. É possível que se sinta mais famoso alguém conhecido na sua cidadezinha do que um autor ou um blogueiro com muitos leitores que jamais conhecerá.
Depois de um vídeo aparecer no Te dou um dado, Lucas Celebridade realmente se tornou uma celebridade, pelo menos nos meios virtuais. Esse video gerou um vaquinha que reformou a casa dele.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a entrevista do cantor Lobão ao portal UOL. Como era um programa ao vivo, para manter a interatividade, o entrevistador Mauricio Stycer a todo instante lia mensagens dirigidas ao cantor. Todas faziam referência ao fato dele ser “muito loco”, “surtado” e coisas desse teor. O próprio cantor se irrita com isso. Então ele declara (37:08): “Você não consegue ter uma interlocução. O cara que te detesta, ele não entende porra nenhuma. Geralmente o cara que te gosta, te gosta pelo motivo mais equivocado do mundo. Então não há forma de solidão mais cruel do que estar no meio desse tiroteio.“. Ser famoso, nesse sentido, é ser também muito desconhecido. Ter o nome e o rosto reconhecido não quer dizer que as pessoas têm noção do que você faz, ter fãs não quer dizer que eles saibam realmente quem você é. Conheço uma frase, atribuida a várias pessoas diferentes – ou seja, a frase se tornou mais famosa que seu dono – que diz que a fama é uma série de equívocos em torno do nome de alguém.

Entrevista de Abujamra com Sonia Hirsch

“O Ministério da Saúde é um grande ministério da doença, que detecta a doença até aonde não existe, pra promover campanhas”. Com essa provocação, Sonia Hirsch, jornalista especializada em saúde e alimentação relaciona a indústria farmacêutica com a má alimentação da população.

Segundo ela “a alimentação de hoje produz o doente de amanhã, e todo mundo fica feliz”. Por todo mundo, Sonia engloba tanto os médicos e suas clínicas, quanto a indústria farmacêutica e a publicidade: “a propaganda é inteiramente irresponsável, o governo é inteiramente irresponsável, não só com relação à propaganda, mas ao que está escrito no rótulo”.

“À medida que a indústria do Câncer foi crescendo, os exames de fezes foram decaindo”, com essa frase, Sonia critica a postura dos médicos de hoje, que aboliram essas medidas simples, na detecção das doenças, e passaram a se preocupar em diagnosticar o câncer.

Sua indignação em relação ao câncer levou sua pesquisa mais a fundo: “o câncer sempre me pareceu uma história mal contada, uma caixa preta que não tinha razão de ser”. Boa parte de suas pesquisas e publicações em seu site são relacionados a esse tema.

Mesmo com as críticas, a jornalista enfatiza: “a saúde é um direito de todos e um dever de todos”, cada um deve ser responsável por saber aquilo que é melhor para si. Para Sônia o Estado não conseguer cuidar de todos nós.

Veja aqui.

Blog da Sonia Hirsch. Site dos livros de Sonia Hirsch.

Temas acadêmicos

Teoricamente, qualquer tema é possível de ser estudado através de métodos científicos, desde que ele receba um recorte que o permita ser transformado numa pesquisa. Na prática, somos tão determinados pela nossa forma de pensar que é difícil fazer um recorte diferente dos caminhos já utilizados. Nossa sociedade valoriza alguns assuntos, se envergonha de outros, simplesmente não pensa em muitas coisas. E o mundo acadêmico, parte dessa sociedade mas com características particulares de grupo, não poderia ser diferente.

Lembro de alguns exemplos simples: a maneira como era constragedor para mim dizer que estava pesquisando cegos, no meu mestrado. Só faltavam falar “oh, que bonito!”. O estigma que recai sobre eles recaia também sobre mim como pesquisadora. O que eu fazia simplesmente não era levado à sério como pesquisa, ela era vista apenas caridade. Pior ainda se na conversa estivesse alguém que fazia uma pesquisa política. Um dos meus professores de ciência política já havia dito em sala que “os alunos mais inteligentes sempre se voltam para a política”, e parece que todos os alunos de ciência política compartilhavam dessa crença. Porque o trabalho deles era difícil, institucional, legal, afetava muita gente. As pessoas silenciavam diante de tamanha importância, nem ousavam se pronunciar perante algo tão hermético. O que não tinha problema nenhum, porque os alunos de política estava sempre prontos a discursarem sobre o seu trabalho. A vontade deles de falar era inversamente proporcional a de ouvir quem pesquisava coisas tolas, sociologia da cultura por exemplo. Mas preconceito mesmo sofria uma amiga que ia estudar o luxo e a história da Cartier. Um dos nossos professores disse na cara dela que considerava um absurdo utilizar um mestrado em sociologia – um curso engajado e crítico – pra estudar um tema fútil.

Imagino que Foucault, antes de ser o Foucault de quem todos ouvimos falar, tenha sido olhado de lado quando dizia que estava estudando sexualidade. Ou quando Da Matta estudou o carnaval, ou o problema que deve ter sido formar o núcleo de pesquisa da USP especializado em novelas. Minha mãe viu mais de uma pessoa passar no mestrado em letras com um excelente projeto sobre Paulo Coelho e ser sutilmente pressionado a escrever sobre gente mais desconhecida e consistente. Como Bourdieu nos faz entender – numa abordagem inédita de algo antes impensável – o que declaramos gostar (e ouso também dizer: pesquisar) nos coloca numa posição diferente perante os outros.

Porrada

Não sou uma grande noveleira. Sou do tipo que gosta de acompanhar mais pela capa das revistas de fofoca do que pelas novelas em si. Mesmo assim, me salta aos olhos o quantidade de personagens de novelas que são espancados. Há um ou outro caso de denúncia de violência contra a mulher, mas quem geralmente apanha são vilãs. E por outras mulheres, as mocinhas. O público adora e eleva muito a índice de audiência no capítulo onde a porrada é exibida. Nas novelas mais antigas, a vilã recebia um sonoro tapa, como a ambiciosa Maria de Fátima de Vale Tudo (1988-1989). Em novelas mais recentes, como Senhora do Destino (2004-2005) ou Celebridade (2o03-2004), a mocinha conta com ajuda de amigos para encurralar a vilã e bater à vontade, até saciar toda sua sede de vingança.
Imagem de Amostra do You Tube
Onde foram parar as vitórias morais – a mocinha desvenda todos os equívocos, fica ao lado do homem que ama, rica, feliz e ética? A vilã amargaria o fracasso, ou até mesmo a loucura, sem que pra isso precisasse passar pelo hospital. Isso parece ter se tornado insuficiente para o público. Depois de passar uma novela inteira perdendo tudo, queremos ver a mocinha deixar de ser tão boa e sujar as mãos; queremos um revide físico, que a vilã sofra na pele tudo o que ela fez. A bondade superior dos que apenas sofrem parece passiva demais. Mocinhas assim deixaram de ser verossímeis, esse tipo de ética não gera empatia. Quando ela parte para a porrada, mocinha e vilãs invertem seus papéis; como na vida real, bem e mal se confundem. É difícil encontrar alguém que não se identifique com as vítimas; por isso, ser capaz de revidar com violência eleva alguém à categoria de herói.
Imagem de Amostra do You Tube
Não é todo mundo que tem um inimigo para bater. Ter um vilão, alguém responsável por todos os nossos males, não deixa de ser um privilégio. Eu rezo toda noite pra ter inimigos com os do Maluf, mas ninguém nunca se deu ao trabalho de fazer um grande depósito na Suíça em meu nome. O que acontece no dia a dia é uma série de aborrecimentos que atingem a todos de maneira bastante impessoal: ter que lidar com uma burocracia cara, lenta e burra cada vez que é preciso tirar algum papel oficial; horas de espera em hospitais ou falhas no atendimento em planos de saúde, o que leva as pessoas a pagarem duas vezes por serviços ruins; longos minutos de musiquinhas ou ter que repetir várias vezes a mesma informação para serviços de telemarketing; demissões que independem da atuação do funcionário e que se devem unicamente por corte de custos e por aí vai. Ninguém se interessa, ninguém nunca é o responsável por nenhum dos nossos problemas.
Imagem de Amostra do You Tube
Quem trabalha na linha de frente com o atendimento ao público conhece bem a necessidade de descontar a raiva nos outros. Os casos de violência gratuita que estão cada vez mais comuns. Todos se sentem esmagados coletivamente. A passividade, a atitude de suportar os inconvenientes sem revidar é a atitude mais exigida do cidadão comum. Se a mocinha da novela simplesmente deixar passar, estará repetindo o que acontece o tempo todo. Novela não é apenas um pedaço de vida real, ela tem uma função de catarse. Se as vilãs agora apanham nas novelas, é porque agora o público sente uma grande vontade de bater.

Doses de ciência na cura da religião?

Programas evangélicos, desses que passam na TV, têm um pouco de tudo. Há um momento específico de doutrinação, mas vai muito além disso. Fiéis mandam cartas perguntando ao pastor o que fazer, coisas comuns como casar ou esperar mais um pouco. Em ritmos possíveis, muitas vezes inspiradas no último sucesso pop, as músicas se esmeram em tentar colocar Jesus em todos os refrões. Nos programas da igreja universal cada dia tem um ritual diferente – camiseta amarrada, as sete águas correntes, a flor de não-sei-o-quê. Mas o momento mais interessante, sem dúvida, é quando eles dão voz aos que frequentam a igreja, para eles compartilharem os seus milagres pessoais: ações na justiça que se resolveram rapidamente, livrar-se com drogas, casais que não se entendem, problemas crônicos de saúde, etc.

Frequentei muitos cultos por curiosidade, mas nem ao menos sou batizada. Apesar disso, eu sou aquela que vai nos posts do ateu Milton Ribeiro “defender” a religião. Não que eu a considere desejável, e sim porque não concordo com visões simplistas sobre o assunto. Uma delas é crer se tornarmos a ciência acessível, as pessoas se libertarão da religião.

(roubei da Tina Lo)

Eu diria que esse é um pensamento datado. Mais especificamente, do século XIX. No já citado Ramo de Ouro (The golden bough: a study of magic and religion), publicado em 1890, Frazer propunha que a humanidade avança por três estágios: do mágico para o religioso e do religioso pro científico. A magia era visto como algo mais desorganizado, que através de leis especifícas – como da contiguidade e da similaridade – tenta influenciar o mundo extermo. A religião teria a vantagem de ser um sistema cosmológico mais complexo, que ao invés de entender a natureza através leis imaginadas, apela para a existência de espíritos e divindades. E o científico é o estágio da excelência, das coisas como são, de entender a natureza tal como ela é e buscar influenciá-la da maneira realmente eficiente. Em resumo, a ciência é o ocidental e civilizado. Magia e religião são coisas de atrasados e primitivos, de pessoas de raciocínio menos desenvolvido – estejam eles vivendo longe ou perto de nós.

Existe uma referência anterior a Frazer, mas não menos importante: Comte. Augusto Comte (1798-1857), avô da sociologia, também postula três estados no desenvolvimento do sistema social: o estado teológico, estado metafísico e estado positivista. No estado teológico, o o homem observa a natureza e, impossibilitado de entendê-la de outra maneira, produz explicações sobrenaturais, dando origem às teologias; no estado metafísico, a procura de soluções absolutas para os problemas dos homens o leva e especulações abstratas e daí surge a filosofia; por fim, o estado final é o positivista, onde o homem subordina seu julgamento à razão e chega à ciência positiva. A ciência positiva uniria todas as ciências, conheceria as leis que regem as sociedades e permitiria a produção do bem. Novamente a ciência surge como um estágio superior de pensamento. É interessante pensar que Comte distingue teologia de religião, e propunha a criação da Igreja Positivista; nela, são louvados os grandes filósofos, cientistas e artistas da humanidade. Isso mostra que qualquer coisa pode ser colocada num altar, inclusive a ciência.

Nem preciso dizer que todas as previsões sobre o fim das religiões falharam. Ciência e religião coexistem, e não foi por falta de avanço científico. Na minha opinião, quem ofereceu uma explicação simples e profunda a esse respeito foi Weber, o mesmo autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904). No Ciência e política: duas vocações (1917-1919) ele nos diz, citando Tolstói: “a ciência não tem sentido porque não responde à nossa pergunta, a única pergunta importante para nós: o que devemos fazer e como devemos viver?” Retorno aos programas evangélicos, às cartas, às músicas, aos rituais, às dúvidas idiossincráticas dos fiéis, às decisões a serem tomadas todos os dias. Há uma dor que precisa ser carregada individualmente e a ciência não lida com ela. Por mais mentiroso ou fantasioso que soe aos ouvidos descrentes, a religião têm algo a propor sobre a vida de cada um. A ciência procura descrever o mundo e não encontrar um significado nele.

É preciso entender o que é ser um fiel. Há um desejo anterior aos templos, por isso não basta destruí-los. Esse desejo vai além da simples crença de que existe algo além do que vemos, porque muitos que não frequentam nenhuma denominação também pensam assim. Crer não torna alguém religioso, no sentido de ser um fiel. O fiel vai à sua igreja; fazer parte de uma igreja é viver uma cultura. É o encontro marcado, a vivência em comum, pessoas que olham o mundo a partir de um mesmo ponto e a partir dele algo é gerado. Igrejas oferecem uma ampla rede de apoio, tanto para os seus fiéis como para o resto da sociedade. Basta pensar no conceito de caridade – quase todos os trabalhos voluntários e altruístas ainda se alimentam dele. Eu vejo falarem em tirar a religião das pessoas, como quem retira um objeto. Não se propõe nada, não a substitui por nada. Enquanto aqueles que gostariam de ver o fim das religiões a entenderem apenas como um conjunto de crenças equivocadas, sempre estarão muito longe de solucionar esse problema.

É difícil dizer a verdade quando todos mentem?

Meu amigo Alessandro Martins postou o seguinte video com a legenda ” É difícil dizer a verdade quando todos mentem”:
No final do video fala da importância da psicologia grupal. A leitura que eu fiz do que se passou é diferente. Para mim, esse video mostra a importância da sociedade no nosso comportamento e crenças. O video e a leitura que fazem dele me fazem pensar que uma pitada de sociologia tem nos feito falta na hora de olhar a realidade.

Ao dizer que é difícil dizer a verdade, parece que estamos chamando os sujeitos da experiência de covardes. Que isso mostra que quase todo mundo se acovarda diante dos outros. Daí é fácil concluir que é por isso que o mundo é assim, que as pessoas se deixam vencer por falsos ideais ao invés de serem firmes, etc. Acho que ao invés de acusar os indivíduos de não se comportarem de uma maneira que considerariamos ideal, é mais produtivo se perguntar o que está em jogo na hora em que o sujeito da pesquisa devia responder. A percepção visual dos indivíduos dava uma informação e todas as pessoas à sua volta davam outra. Nesse conflito, o sujeito passou a duvidar de si mesmo, da sua verdade. Por que, afinal, o que é verdade? É apenas um conjunto de crenças socialmente compartilhadas. Mude a época, a sociedade e as regras que a verdade será outra coisa, até mesmo o oposto. Levar em conta o que as pessoas à sua volta dizem na hora de tomar uma decisão não tem nada de covarde ou doentio. Quem não leva em conta o que os outros pensam e fazem na hora de se comportar é que é doente.

Gostamos de pensar no comportamento desviante quando pensamos em multidões equivocadas, no herói que se volta contra o seu próprio grupo quando ele abraça algum ideal destrutivo. Mas isso é a excessão da excessão. No dia a dia – com a família, no trânsito, no ambiente de trabalho, nos nossos momentos de lazer – somos e queremos que os outros sejam sensíveis à necessidade do grupo na hora de se comportar. É isso – mais do que um agregado de pessoas ocupando o mesmo espaço – que nos torna grupo, sociedade.