Julgamento e punição em Black Mirror

Eu acredito que a série Black Mirror já virou uma referência cultural obrigatória. As três temporadas disponíveis (até a publicação deste post) possuem episódios com histórias e durações diferentes, que fazem pouca ou nenhuma referência entre eles, mas tem em comum o uso da tecnologia. Às vezes a tecnologia está implantada nos corpos dos personagens, mas sempre está nas vidas. É também através da tecnologia que existem as redes sociais, que tem como característica o imediatismo e a possibilidade de um julgamento público. É sobre as questões levantadas na série acerca de julgamento e punição que eu gostaria de falar. Antes de continuar, o spoiler alert obrigatório: falarei sobre os episódios indistintamente, entregando a história, então não leia se quiser descobrir sozinho.

Acho que o episódio punitivo por excelência é do Urso Branco (episódio 2, 2º temporada). Uma mulher acorda sem memória, num mundo dividido entre presas, caçadores e uma multidão de indiferentes que gosta apenas de olhar enquanto os dois primeiros grupos morrem. Depois de um dia terrível, descobrimos que tudo aquilo não passa de um imenso teatro televisionado que tem por objetivo punir a moça, que havia sido responsável pelo sequestro seguido de morte de uma criança. Várias coisas que ela foi encontrando ao longo do dia faziam referência à sua história, apesar de ela não lembrar porque teve a memória apagada: o símbolo usado nas telas, a fuga na floresta, cordas de enforcamento, imagens pelo celular, o termo Urso Branco. Depois de tudo revelado, ela é colocada de volta e entendemos que ela vive aquilo em looping, como punição. O mais chocante é quando vemos, depois dos créditos, a diversão que aquilo se torna àqueles que fazem o papel de público e pagam ingresso. Há até um carro especial que torna possível vê-la e odiá-la enquanto está amordaçada e confusa numa cadeira. Como ela é claramente culpada, então está liberado torturar e se divertir com isso.

Acho que não foi por acaso que as histórias que envolvem punição tem crianças envolvidas, porque ninguém nos parece mais monstruoso do que aquele que fere crianças. No Manda Quem Pode (episódio 3, 3º temporada) – o episódio menos futurista de todos – vemos um adolescente ser chantageado e, junto a outras pessoas também chantageadas, ter seus limites testados. O maior medo dessas pessoas é ter seus segredos revelados; no caso do adolescente, um vídeo onde se masturba. Com o que conhecemos a respeito dele e suas dificuldades de relacionamento, seu medo parece bastante coerente. Apenas no final o espectador fica sabendo que não foi uma masturbação qualquer: ele estava vendo pornografia infantil. Até então, tínhamos pena dele. Esse final parece lançar a pergunta: você continua com pena? Sendo o adolescente um provável futuro pedófilo, ele mereceu ou não o que fizeram com ele? A chantagem, nesse caso, adquire ares de justiça porque tendemos a dizer que Sim, que quem faz mal a uma criança é um monstro que merece sofrer. Nos minutos finais do Natal (episódio 4, 2º temporada), o policial se permite torturar por puro sadismo o duplo do assassino confesso que deixou uma criança morrer. Uma criança que ele pensou durante anos que fosse sua filha e que morreu por negligência e não por maldade deliberada. Ou seja, vemos o argumento da punição adquirir sutilezas: fazer mal a uma criança é sempre monstruoso ou existem gradações? A natureza do mal e como combatê-lo é um tema discutido no Engenharia Reversa (episódio 5, 3º temporada). Ao fazer com que os policiais vissem o seu alvo como “baratas”, desfigurados, meio zumbis, retirando deles a humanidade até mesmo nos cheiros e fluidos, tornava seu trabalho mais fácil – isentava da culpa de matar um igual. Retirar do outro a sua humanidade permitia devolver o mal com mais mal e violência. No episódio o olhar dos policiais era alterado por um aplicativo, mas cabe lembrar que, por definição, toda cultura é uma forma de olhar.

Black Mirror aponta as redes sociais como um amplificador imediato das vozes da maioria. E se as pessoas fossem avaliadas constantemente pelos outros e as que fossem melhores pessoas fossem premiadas pelo seu bom comportamento? Essa é a premissa, que à princípio soa como muito válida, do Queda Livre (episódio 1, 3º temporada). Nesse mundo, as cinco estrelinhas com que avaliamos alguns serviços são extrapoladas e entram como critério em valores de alugueis, passagens de avião, convites para festas. A personagem, na sua ansiedade em agradar, acaba se tornando irritante pelo seu visual rosa, sorriso constante e um tom de voz bonzinho – ansiedade essa presente em quase todos à sua volta, o que dá um tom falso e meio histérico às interações no episódio. Mesmo esse esforço constante não impede que a personagem receba avaliações negativas, algumas por circunstâncias injustas, como esbarrar em alguém na rua ou ser mal atendido. Essa pressão de agradar a maioria é manipulada pelo sequestrador do antológico Hino Nacional, o episódio 1 da 1º temporada. A princípio, ninguém achava que o primeiro ministro deveria ceder à pressão de fazer sexo com um porco, mas todos mudam de ideia após a divulgação do vídeo do sequestrador retirando o dedo da princesa. O que antes era absurdo se torna uma obrigação. Depois ficamos sabendo que o dedo não era da princesa e que ela foi solta antes mesmo do primeiro ministro se submeter às exigências. O sequestrador sabia que, ao contrário da história de Lady Godiva, o país pararia para ver aquilo – chocado, indignado, mas morbidamente curioso e sem poder ficar de fora do “acontecimento do ano”.

Numa visão bastante pessimista do que são as opiniões da maioria, em Black Mirror elas tendem pro imediatista, manipulado, violento e pornográfico. Quando começa o Quinze Milhões de Méritos (episódio 2, 1º temporada), a primeira sensação é que o protagonista, Bing, é alguma espécie de condenado, por ter que viver num espaço tão pequeno e ser forçado a assistir uma programação que claramente não é escolhida por ele. Depois descobrimos que não é assim, que o que nos parece castigo é uma forma de vida até mesmo privilegiada. Ele e os outros são os sujeitos que passivamente alimentam uma engrenagem complexa de consumo que não entendemos ao certo, mas que tem como um dos ideais estar dentro da tela, ser famoso, principalmente por ter triunfado numa espécie de X Factor. Cada um, dentro de seu cubículo, participa virtualmente da platéia desse programa, e é essa platéia que pressiona a jovem Abi a se submeter aos jurados que não a vêem como cantora e sim como uma excelente futura pornstar. Insensíveis à beleza e à pureza, como diria o protagonista mais adiante, a platéia se baseia apenas nos seus desejos e curiosidade para submeter a moça à industria pornográfica. Quando, mais tarde, Bing aparece no mesmo programa para ter voz e denunciar o modo de vida massificante e vazio a que todos estão submetidos, ele mesmo se torna uma estrela – seu discurso é aproveitado e esvaziado pelo próprio consumismo que ele tentou combater. Impossibilitado de salvar a todos, ele opta por salvar apenas a si mesmo.

O vilão de Odiados pela nação (episódio 6, 3º temporada) é justamente alguém indignado com a truculência da maioria e que procura fazer com que o ódio que ela nutre pelos inocentes da vez se volte contra elas. Usando abelhas eletrônicas, ele condena à morte todos aqueles que, irresponsavelmente, condenavam à morte pessoas que recebiam destaque negativo nas redes sociais. Com esse pressuposto de que quem deseja a morte merece morrer, isso promoveria uma verdadeira limpeza, apenas os maus seriam atingidos pelas abelhas. Novamente a encontramos a noção de mérito e eugenia, mas desta vez contra aqueles que normalmente são platéia. Mas, se as abelhas atacaram apenas os indivíduos violentos, por que no final do episódio vemos uma multidão furiosa em torno do carro da policial encarregada do caso? O assassino, ao condenar a morte todos os que usavam a hashtag mortífera, agiu dentro da mesma lógica daqueles que pedem chacinas e extermínio de condenados: como se a maldade fosse isolável, presente em alguns indivíduos e não em outros, e com a morte dos que possuem essa característica, ela seria eliminada da mesma forma que se isola e elimina uma doença. Não funcionou no episódio, nunca costuma funcionar em sociedade. A maldade, como mostraram os episódios anteriores, está difundida, massificada, recheada de desejos e ignorância, representada por uma multidão anônima que não tem noção e nem responsabilidade por suas consequências.

 

Amada, de Toni Morrison

Cheguei a esse livro por recomendação do Paraísos de Papel. Toni Morrison é uma escritora pouco conhecida aqui, mas ganhadora do Nobel de Literatura em 1993 e o livro Amada ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção de melhor ficção e foi considerada “a melhor obra da ficção americana dos últimos 25 anos” pelo The New York Times. Só isso já seria motivos suficiente para lê-la, e quero acrescentar outro: é mais uma dessas escritoras incríveis que mostram a força e a originalidade de uma narrativa feminina.

Antes uma introdução meio desagradável: normalmente eu não gosto de nenhum tipo de spoiler e não leio as orelhas e nem as contracapas do livros. Críticas, nem pensar. Mas eu me vi consultando a orelha logo depois do primeiro capítulo, porque não estava entendendo nada. Nunca tive dislexia, mas os nomes da mãe e filha serem curtos e com E (Sethe e Denver) me confundiram o tempo todo. É um grande livro e essa dificuldade passageira faz parte da construção dele e merece ser superada. A história gira em torno de Sethe, uma ex-escrava, que vive com sua filha numa casal mal assombrada. Os personagens que surgem na sua história – Denver, Baby Suggs, Paul D, Halle – têm em comum um passado ligado à escravidão. A pós-escravidão, a solidão e o desamparo, as tragédias pessoais – para eles a normalidade é uma necessidade nem sempre alcançada, ou que repousa numa base muito frágil. Apesar da tentativa generalizada de enterrar o passado, ele ressurge, cobra as consequências e mostra, para o leitor, o sentido mais humano do que é aparentemente inexplicável. É um livro cresce durante a leitura. Apesar da história ser sobre Sethe, sua família e o aparecimento da misteriosa personagem Amada, a grande protagonista é a Escravidão:

Paul D não responde porque ela não esperava, nem queria que ela respondesse, mas ele sabia do que ela estava falando. Ouvir aqueles pombos em Alfred, Georgia, e não ter nem o direito nem a permissão de fruir aquilo porque naquele lugar a neblina, os pombos, a luz do sol, a terra cor de cobre, a lua – tudo pertencia aos homens que tinham armas. Homens pequenos alguns, homens grandes também, todos ele era capaz de quebrar em dois como um graveto se quisesse. Homens que ele sabia que tinham a virilidade era nas armas e nem tinham vergonha de admitir que sem armas até a raposa ria deles. E esses “homens” que faziam até as raposas darem risada podiam, se você deixasse, impedir você de ouvir os pombos ou gostar do luar. Então você se protegia e amava pequeno. Escolhia as menores estrelas do céu para serem suas; deitava com a cabeça virada para ver a amada por cima da beira do fosso antes de dormir. Roubava tímidos olhares dela entre as árvores durante o acorrentamento. Hastes de grama, salamandras, aranhas, pica-paus, besouros, um reino de formigas. Qualquer coisa maior não servia. Uma mulher, um filho, um irmão – amor grande como esses arrebentava com você em Alfred, Georgia. Ele sabia exatamente do que ela estava falando: chegar a um lugar onde você podia amar qualquer coisa que quisesse – sem precisar de permissão para desejar – , bom, ora, isso era liberdade. (p. 220-221)

Esse é o ponto onde a voz feminina faz toda diferença. Muito já se escreveu sobre racismo e escravidão, sua opressão e violência, mas nunca li relatos que trazem essa escravidão tão próxima à carne. A escravidão determinando uma maneira de ser, que pinta o mundo com perspectivas pequenas e cruéis, um encolhimento pessoal que visa a diminuição de um sofrimento que sempre chega. As marcas de chicotadas nas costas, que as tornam insensíveis e desenhadas; a necessidade de não se apegar a ninguém, nem aos filhos, porque eles podem lhe ser tirados; ser visto como um objeto, mesmo quando se pertence a donos benevolentes – e ser brutalizado pelos cruéis. São descrições pungentes de dores tão grandes, dores que não pedem licença e não se preocupam com a medida da justiça. A própria Sethe pergunta: Por que não havia nada que seu cérebro se recuasse? Nenhuma miséria, nenhuma imagem odiosa detestável demais de se aceitar? Uma vez só não poderia dizer não, obrigada? Detestei e não quero mais, não? (p.103). É um livro forte, lindo e triste.

Sexo, pornografia e mulheres

Achei esse vídeo por acaso, curtido por uma amiga no Facebook. A pessoa que curtiu e a substituição do Adão por uma cruz logo nas primeiras cenas, me fazem pensar que ele circule entre religiosos, quem sabe o palestrante responda por alguma crença. Nos comentários do youtube – pois é, quebrei a regra de jamais lê-los – duas visões opostas: uns se queixam dos “fiscais de punheta” e os que concordam com o vídeo citando a religião.

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(Eu sei que não vai adiantar nada dizer isso, que serei chamada de fiscal de punheta de qualquer jeito, mas: não pertenço a nenhuma religião, não tenho nada contra masturbação, sexo antes do casamento, experiências sexuais, etc. Sou à favor de toda forma de sexualidade consensual entre indivíduos adultos.)

Já faz alguns anos que linkei aqui um artigo sobre a indústria pornô e que me deixou bastante chocada na época. O título do artigo pergunta: Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade? e ele é uma entrevista com Gail Dines, que publicou uma pesquisa sobre a indústria pornográfica, desde a fundação da Playboy e da Penhouse até a pornografia da era da internet.

As partes que copiei a seguir se parecem muito com os insights do vídeo. Elas falam de uma mudança na sexualidade daqueles que veem pornografia. E que daqui em diante a sexualidade das pessoas vai mudar em função dessas imagens – e não parece ser para melhor:

A internet mudou a indústria. Tornou-a acessível, e barata. Então lembre-se, quando a média de idade de ver pornografia pela primeira vez é 11, quando o menino de 11 anos põe “pornografia” no Google, ele não está olhando para a Playboy de seu pai, ele está olhando para um mundo de crueldade, e um mundo de brutalidade . Então o que eu pergunto no livro é: “Quais são as consequências a longo prazo de criar os meninos com imagens violentas quando você pensa na pornografia como sendo a principal forma de educação sexual em nossa sociedade? [….]

Tem sido motivo de estudos por 30 anos – sobre os homens, principalmente – o que eles acham, e o que eu encontrei em minhas entrevistas, é que quanto mais os homens vêem pornografia, menos eles são capazes de desenvolver relacionamentos íntimos. Também o que é interessante é que eles perdem o interesse em mulheres reais, porque a pornografia é tão hard-core – é o sexo a força da industria – nada menos que aquilo  parece brando e enfadonho. Além disso, os homens acham que devem se comportar como os homens na pornografia, eles acham que o pênis devem ser semelhantes aos dos atores pornô, e eles acham que deveriam ser capazes de realizar atos sexuais por horas como os homens fazem na pornografia. O que eles não percebem é que um monte de homens da pornografia usam Viagra, é por isso que é tão possível … E eles começam a ver as mulheres realmente como objetos. Não como alguém a ter relacionamentos, mas como alguém para se usar para algo. O sexo se torna algo como fazer ódio ao corpo de uma mulher. Eles não fazem amor na pornografia, fazem ódio. [….]

Bem, é muito interessante nós dizermos isso, como alguém que estuda a mídia e como alguém que é progressista, quando estudamos midia de extrema-direita não dizemos que é fantasia. Nós não dizemos, “Quer saber, não se preocupe com Glenn Beck, não se preocupe  com Rush Limbaugh – as pessoas podem distinguir”. Não, nós entendemos que a mídia molda a nossa maneira de pensar. Ela molda a realidade, que molda as nossas percepções do mundo. A pornografia é mais uma forma de mídia. É um gênero específico, que, por sinal, é muito poderoso, pois entrega as mensagens para o cérebro dos homens através do pênis, que é um sistema de entrega extremamente poderoso. Então eu acho que a ideia de que é apenas fantasia não é confirmada, dada a estudos que nós sabemos sobre como a pornografia, e como as imagens em geral, afetam a visão das pessoas de todo o mundo.

A queixa contra fiscais de punheta é claramente uma reclamação no sentido de: não mexam com o meu desejo! O desejo é o que temos de mais íntimo e difícil de negociar. Se fosse tão simples, anos de reprovação teriam conseguido sufocar a homossexualidade. Existe, realmente, algo que ultrapassa a decisão consciente. Gostamos de reservar à nossa sexualidade a liberdade de não ter que responder aos códigos morais comuns. A sexualidade é associada à liberdade; a conduta pacífica e respeitadora no mundo e selvagem entre quatro paredes é como um mundo ideal.

O incômodo dessa pesquisa é perceber que não somos tão livres. Enquanto conscientemente não conseguimos ou abrimos mão de negociar com os nossos desejos, o mercado tem feito isso de maneira bastante eficiente. E – adivinhe – uma das maiores vítimas desse mercado é o corpo feminino.

O que você vê é uma mulher sendo penetrada brutalmente na  vagina, anus e oralmente. Como o que está acontecendo – três homens de uma só vez, quatro homens de uma só vez – ela está sendo chamada vil, nomes de ódio, ela está sendo estapeada, às vezes, seu cabelo é puxado … A própria indústria diz que muitas mulheres têm dificuldade em estar na indústria por mais de três meses. Por quê? Devido à brutalização do corpo. [….]

Além disso, eu entrevistei alguém que trabalhou com o AIM, a organização que cuida da saúde dos artistas pornô, e ele me disse o que acontece com os corpos destas mulheres. Por exemplo, ele disse que uma das grandes coisas são prolapsos anais, onde literalmente seus ânus caem de seu corpo e tem que ser costurados de volta por causa do sexo anal brutal. Ele também falou sobre a gonorréia do olho, comum atualmente – porque você tem algo chamado [do cu para a boca_ ass to mouth] – eles colocam o pênis no ânus, e depois em sua boca sem lavar. Eles estão descobrindo agora que as mulheres estão pegando infecções bacterianas fecais na boca e garganta. [….]

Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?

 

UPDATE: Um artigo mais recente e com foco na adolescência – A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível.

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de  garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”

Suas pacientes estavam profundamente envergonhadas por apresentar tais lesões. Elas mentiam  para as mães sobre o assunto e sentiam que não podiam desabafar com mais ninguém, o que só aumentava o sofrimento. Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

Os advogados contra a ditadura

Eu já ouvi que todos os que foram presos e torturados durante a ditadura “fizeram por merecer”. Sempre me pergunto que diabo de colégios são esses que não falam do golpe de 64 aos alunos, ou que ensinam o assunto de maneira tão ruim que há quem esteja convencido de que nossos presos políticos eram assassinos, terroristas e/ou (ironia das ironias) torturadores – e não apenas (em sua maioria) jovens que ousavam falar ou pensar algo diferente do que o Regime prescrevia. É nesse sentido que vejo muito valor neste documentário que conta a história de advogados perseguidos durante a Ditadura. Ele demonstram que o patrulhamento e a violência eram tais que apenas advogar  e auxiliar as famílias dos que tiveram parentes presos era motivo para também ser perseguido e torturado.

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Carcereiros, de Drauzio Varella

Estação Carandiru, publicado há quinze anos, mudou a vida do seu autor, Dr. Drauzio Varella. Ele não esperava uma repercussão tão grande, e tanto ele quanto seu livro se tornaram famosos. Dr. Drauzio se tornou uma figura conhecida e fez vários programas no Fantástico, sempre unindo os temas de medicina e promoção de saúde. E, mesmo assim, ele jamais perdeu seus vínculos com o sistema prisional. Seus motivos estão em destaque na contracapa do Carcereiros:

Depois de 23 frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório. A maturidade talvez não tivesse me trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixaria de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma ideia muito mais rasa da complexidade da alma humana.

Eu ressaltaria dois méritos que tornam Carcereiros um grande livro, e esse é o primeiro deles. O olhar do Dr. Drauzio nos aproxima dos seus personagens. Apesar de serem funcionários concursados e sem ficha criminal, sobre os carcereiros recai quase o mesmo estigma que carregam os prisioneiros: de serem pessoas más, violentas, também bandidos. Nos estudos sobre estigma, dizemos que ele tem uma propriedade contaminante, que estar perto de pessoas desacreditadas socialmente faz com que o outro também seja desacreditado, o que leva a um círculo vicioso de evitação. Para não ficarmos desacreditados, evitamos, e ao evitar aumentamos a distância, e quanto mais distantes, mais desumanizamos o outro. Sobre os bandidos ainda há a explicação de que eles “fizeram por merecer” seu estigma, mas sobre os carcereiros o preconceito é ainda menos justificável.

No primeiro capítulo, Dr. Drauzio retoma o massacre do Carandiru, mas desta vez mostrando o que acontecia ao lado, no pavilhão Oito. Foi graças à iniciativa de poucos funcionários que a tragédia ficou restrita ao pavilhão Nove. Os presos do pavilhão Oito foram convencidos pelos funcionários a entrarem novamente nas suas celas e aguardarem o rumo dos acontecimentos. Drauzio reconta o que aconteceu esse dia, a tensão de todos, as difíceis negociações, o heroísmo anônimo que salvou a vida de mais de duas mil pessoas. Os agentes carcerários cuidam dos presos no sentido amplo da palavra. Vindos para as prisões pelos mais diversos motivos, alguns por fascínio (que Dr. Drauzio confessa também possuir) pelo ambiente das cadeias, outros apenas pelo desejo de se tornarem funcionários públicos, vemos o quanto a rotina violenta mexe com a subjetividade de quem trabalha nas prisões. Num lugar é difícil saber o que é bom e o que é ruim, eles contam consigo mesmos e com a solidariedade dos companheiros. Assediados pelo tráfico, mal remunerados, testemunhas de barbaridades, o mesmo homem que salva a vida de um suicida tortura outro preso na sala.

Uma tarde, quando se preparava para sair do plantão, trouxeram à sua presença um rapaz de olhos aterrorizados, preso alguns dias antes por fazer parte de uma quadrilha de adolescentes que roubava toca-fitas nas adjacências da PUC, em Perdizes. Tinha o rosto inchado e o corpo coberto de manchas roxas, queimaduras com pontas de cigarro e cortes de faca, sequelas de uma luta travada com os quatro companheiros de xadrez, na tentativa infrutífera de evitar o estupro coletivo. O sangue que manchava a camisa e escorria pelas pernas da calça formou uma poça no chão. Quando a ambulância chegou, já estava a ponto de perder os sentidos.

Hulk ajudou a transportá-lo e subiu até a cela dos estupradores. Sem dizer uma palavra, retirou os dois que estavam mais próximos da porta e fechou o cadeado.

Na salinha do térreo, perguntou ao mais gordo e ao magrinho o que tinha acontecido:

– Nada – respondeu o mais entroncado – . Nós aqui nesse esgano, chega esse menino bonitinho de olho azul.

Hulk agarrou-o pelas axilas, levantou-o a um metro do chão e arremessou-o contra a parede como um saco de batatas, que fez um som oco e desabou desacordado. Enquanto o magricela pedia pelo amor de Deus para ser poupado, ele enrolou um pano para proteger a mão esquerda e desferiu-lhe um soco no peito que o deixou roxo de falta de ar. Antes que recuperasse o fôlego, veio o segundo na ponta do queixo. Voaram dois cacos de dente. (p.55)

O segundo mérito do livro é trazer à tona uma discussão mais ampla sobre os problemas das prisões. Sem ter ele mesmo respostas para um problema tão amplo, Dr. Drauzio aponta a impossibilidade das prisões, pelo menos no seu formato atual. Ele fala do contraste da luta pelos direitos humanos em guerras e situações excepcionais, e o total descaso com o preso, que é torturado o tempo todo – geralmente amontoado em celas imundas e insalubres, entediado, exposto à violência de outros presos. Quase na sua totalidade, são pessoas pobre e negras, que são “recompensadas” assim pela sua falta de escolaridade e oportunidades. Caso o maltrato exagerado aos presos não seja motivo suficiente, ele aponta que é impossível ter cadeias para tanta demanda. O número de recém encarcerados supera, diariamente, o número dos que são soltos. E os que são soltos estão mais violentos e com poucas possibilidades de arranjar emprego. Dr. Drauzio nos mostra que as cadeias são instituições monstruosas, violentas, com uma organização própria, onde todo cuidado e pouco. Ela maltrata os que ali entram, mesmo como funcionários. Homens normais e pacíficos são contaminados e transformados no ambiente prisional. É um livro que, assim como Estação Carandiru, está sempre dizendo aos leitores: você não vê, mas isso existe. Você quer ignorar, mas este também é um problema seu.

Mão naquilo

Eu geralmente me abstenho de discutir um assunto quando ele já é tratado por muita gente e com muita propriedade. É o caso da última polêmica, do caso Gerald Thomas e Nicole Bahls. Para mim, a foto já era agressiva por si só. Comentários de internet têm a capacidade de nos deprimir em qualquer assunto, e nesse caso não foi diferente. Era brincadeira, ela gostou, quem mandou ir de vestido curto (argumento do próprio Gerald Thomas), o Pânico merecia, Gerald foi um gênio e agiu “fora da caixa”, etc. Eu sou mulher e vi aquela foto como uma mulher, pensei no que seria se um homem que nunca vi na vida, que não desejo, colocasse a mão em mim daquela forma na frente de uma platéia que não me defendesse. Não consigo deixar de achar que ela se sentiu extremamente humilhada. É uma humilhação que talvez apenas outra mulher possa entender.

Como explicar esse pudor a um homem? Eu poderia dizer “imagine se uma velha nojenta…” ou “imagine se um homem…” e não seria a mesma coisa. A relação que um homem tem com o seu sexo, com o seu pênis, é totalmente diferente. Anatômica e culturalmente falando, o pênis sempre foi algo exposto. Ele é mostrado orgulhosamente, ele é medido, ele recebe apelidos, ele é simbolizado em gestos obscenos, ele se confunde com seu próprio dono. Enquanto até a palavra pênis é dita com naturalidade, hesito até em escolher um termo para falar da mulher: xoxota, buceta, vagina? Cada termo tem uma carga, soa de maneira estranha, tende a algo libidinoso. A mulher aprende a se esconder, a não tocar e nem pensar no assunto, a nem saber como ela é embaixo, a corar com qualquer referência a tamanho ou formato. Penso em quantas mulheres têm câncer de colo de útero, uma doença que leva muito tempo para se desenvolver, por causa do tabu de fazer um exame simples como o papanicolau. O que entra, como entra, quando entra – o valor de uma mulher sempre foi medido (hoje menos, esperamos que no futuro menos ainda) pela quantidade de homens que podem ter acesso a sua vagina. E sabemos que é um valor negativo: quanto menos acesso, mais valorosa a mulher é. O maior ícone dessa idéia é a Virgem Maria.

Se ambas mostram mulheres nuas, porque dizemos que a Playboy tem um “nível melhor” do que a Sexy? A revista Sexy é mais escancarada, mais pornográfica, ela faz o que chamamos de “closes ginecológicos”. Com closes vaginais, não é mais possível dizer que um ensaio nu é artístico, porque a vagina é a diferença entre o artístico e o pornográfico, o sugerido e o escancarado. Ou seja, mostrar uma vagina é tão desejado quanto proibido, é de uma sexualidade indisfarçável e por isso mesmo “de baixo nível”. A nudez feminina se faz ainda mais nua quando uma mulher permite o acesso à sua vagina, porque a vagina é a última fronteira da sua sexualidade. Do lado oposto ao da Virgem Maria, que de tão santa é intocada, está a puta, aquela que não tem mais qualquer intimidade, qualquer moralidade, aquela que tem uma vagina pública.

A vagina é o canto mais reservado, ela é de uma intimidade que não há correlação em um homem, porque o homem é público. Pensemos nas dicotomias apontadas por Bourdieu em A dominação masculina: o homem é público, exterior, visível, agressivo; a mulher pertence à esfera do íntimo, privado, invisível, dócil. Quando saem da esfera do privado, a mulher e a sua vagina deixam de pertencer ao papel que lhes é reservado, o que tampouco faz com que sejam reconhecidas como masculinas. Elas se tornam putas, aquelas figuras desprezadas por homens e mulheres. Uma mulher que tem uma vagina que pode ser manipulada em público, sem que ninguém a defenda, é uma mulher sem o menor valor, é uma mulher sem direito à intimidade.

Muitos consideram o ato de Gerald Thomas justo quando pensamos nos abusos que o Programa Pânico têm cometido ao longo dos anos. Pode ser que eles realmente mereçam o troco, mas é uma pena que esse troco seja dado justamente no elo mais fraco do programa: numa Panicat. As Panicats que ganham pouco, que têm fama de prostitutas, que são escolhidas unicamente pela estética. São mulheres que precisam ficar rebolando de biquíni sem abrir a boca, que podem ser humilhadas dentro do próprio programa, que são pressionadas a esculpir o corpo e depois são facilmente demitidas porque não têm carisma ou estão masculinas demais. O mesmo programa que comprou imediatamente uma briga quando Netinho de Paula deu um soco no repórter Vesgo, deu risada e disse que não foi nada demais quando abusam de uma Panicat. Em outras palavras, era apenas uma panicat, uma mulher, uma gostosa que rebola pra gente. Essas coisas me fazem pensar que mulheres e vaginas ainda são, para muitos, apenas coisas a serem violadas num feliz mundo falocêntrico.

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

Por Daniel Duclos

UPDATE: Muita gente tem lido este post como uma idealização da Holanda como um lugar paradisíaco. Nada mais longe da verdade. A Holanda não é nenhum paraíso e tem diversos problemas, muitos dos quais eu sinto na pele diariamente. O que pretendo fazer aqui é dizer duas coisas: a origem da violência no Brasil é a desigualdade social e 2, apesar da violência que gera, muita gente gosta dessa desigualdade e fica infeliz quando ela diminui, porque dela se beneficia e não enxerga a ligação desigualdade-violência. Por fim: esse post não é sobre a Holanda. A Holanda estar aqui é casual. Esse post é sobre o Brasil, minha pátria mãe.

A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

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Moby Dick e a violência como prazer

Tenho certeza de que um autor que procurasse uma editora com Moby Dick, hoje, não conseguiria ser publicado. Pelo menos, não do jeito que o livro é. O editor desejaria cortá-lo pela metade ou até mais, como nas muitas versões resumidas que se encontram por aí. Resumir Moby Dick não seria difícil: mantém-se as primeiras duzentas páginas, até o nome da baleia ser citado. Conta um certo número de páginas do final e tudo que há no meio pode ser deixado de lado. Com isso o leitor conheceria a história da caça à baleia Moby Dick, mas também perderia a essência do livro. São nas suas longas descrições, muito mais em Moby Dick sem si, que está o coração da história, o que ela quer transmitir ao leitor. Moby Dick é um daqueles livros que nos mostra muito mais do que o autor previra, ele é retrato de uma época.

Herman Melville foi ele mesmo um marujo, um caçador de baleias. O livro é uma declaração de amor à profissão, ressaltada em todos os seus aspectos, tudo o que ela envolve tanto em termos materiais quanto humanos. O leitor acompanha a escolha de um navio, sua preparação antes de embarcar, a hierarquia entre os comandantes, as diversas funções, os talentos necessários à tripulação, a rotina de uma vida à bordo, a etiqueta entre navios, as diferenças entre embarcações de funções e países distintos, etc. Cada aspecto é esmiuçado em capítulos pequenos, porém abundantes, o que faz com que grande parte das mais de 500 páginas do livro seja de descrições. A Moby Dick em si é citada ali e acolá. O leitor pode ficar fascinado ou achar tudo um tédio. Ok, mesmo quem ficar fascinado terá momentos de tédio.

É na relação com as baleias que está, na minha opinião, a parte mais interessante do livro. Tem descrições históricas, tipos, comportamento, diferenças, utilidades, anatomia, tudo o que se pode querer saber sobre baleias e mais um pouco, principalmente sobre a  cachalote – espécie que até então era considerada a maior do mundo e da qual se extraía o precioso óleo esparmecete. A caça às baleias (o “Leviatã”), pela falta de tecnologia, ainda era feita no braço. Os marujos a cercavam em pequenos botes a remo e atiravam contra ela seus arpões. Era tudo muito próximo, muito pessoal. Nessa luta entre homens e um animal tão maior e mais forte do que eles havia sentimentos de admiração e desafio. Às vezes é difícil entender como passagens de morte e sofrimento são alternadas com o desejo de entender as baleias e o reconhecimento diante de sua nobreza:

Quando penso mais nessa forte cauda, mais sinto minha deficiência para descrevê-la. Algumas vezes se pode notar nela gestos que, embora ornassem a mão de um homem, permanecem-nos totalmente inexplicáveis. Em um grande bando são tão notáveis, às vezes, esses misteriosos gestos, que alguns baleeiros dizem serem semelhantes aos sinais ou símbolos dos franco-maçons, e dizem que também na verdade o cachalote, por meio de tais gestos, conversa inteligentemente com o outro mundo. Há também alguns movimentos que a baleia faz com o corpo, que são estranhos e difíceis de explicar para seu mais experimentado atacante. Eu mal conheço o Leviatã, nem jamais o conhecerei. Mas, uma vez que não conheço nem a cauda do cachalote, como então lhe desvendar os segredos da fronte? Muito mais, como compreender-lhe a face, quando ele não a possui? Parece que ele diz: “Verás minhas partes posteriores, a cauda, mas a minha face, não a verás.” p.405

É uma ambiguidade difícil de entender. Primeiro pela violência contra os animais. Hoje nos compadecemos do sofrimento animal e ninguém mais concorda que o homem tenha direito de matar e exterminar a natureza da maneira que quiser. O livro tem um pensamento muito anterior à noção de ecologia e nos faz perceber como chegamos aqui. Há um capítulo que diz que por mais que se matem dezenas de milhares de baleias por ano e já esteja mais difícil encontrá-las, as baleias sempre darão um jeito de existir, então é possível caçar sem limites. Nos momentos que a baleia consegue surpreender seus agressores ou vinga a morte de outras do seu bando, são sempre descritos como parte da sua maldade. Depois de morta, a baleia precisa ser cortada, e seu matador tem direito a se deliciar num banquete. Da cabeça da cachalote é retirado o espermacete, que é descrito como leitoso, cheiroso, uma substância divina. Seus restos são cozidos, retalhados, repartidos com tubarões. Nem ao menos há pudores ou respeito por filhotes ou baleias grávidas.

Outro aspecto importante é a descrição a adrenalina da caça: a morte como uma forma de vitória, o prazer em ser agente de sofrimento. Esse sentimento, que parece ser tão antigo quanto homem, está presente em relatos de guerras, em duelos, em vinganças pessoais, na relação de respeito e temor a tiranos cruéis e até mesmo em histórias infantis. Hoje não mais os toleramos, não dentro da normalidade. A violência como forma de prazer é, para nossa civilização, característica do comportamento doentio dos psicopatas – personagem que tememos, reprovamos e estudamos profundamente. O sangue e a violência nunca deixaram de existir, mas que sejam praticadas longe dos olhos e da forma mais institucionalizada possível. De matadouros à violência policial, nada disso deve chegar ao cidadão comum e ferir sua sensibilidade.

É provável que a violência faça parte da própria constituição do homem, que seja um sentimento atávico que jamais possa ser eliminado. A violência que reprimimos na caça reaparece de outras formas. Como espectador, por exemplo, o homem satisfaz seu desejo de violência ao assistir lutas e ver filmes. Nas lutas, a força e a ferocidade dos oponentes satisfazem a platéia, que ao mesmo tempo não precisa temer pela saúde dos envolvidos – existem regras, é de verdade mas não tanto assim.  Filmes e séries que retratam violência são praticamente onipresentes. Neles, dá-se preferência a uma violência repetitiva, cerebral, cada dia mais sofisticada, ou seja: violência praticada pela figura do psicopata. Existe também o tema da transformação do cidadão pacífico em um homem violento. É como se disséssemos: pode acontecer com qualquer um, na essência somos todos violentos. Moby Dick traz de volta esses sentimentos, e mostra uma violência ainda não tão pacificada pelo comportamento civilizado.

Violência

Só uma pessoa que não suporta ver sangue pra se dar conta de que ele está na TV o tempo inteiro. Tem sangue nos programas policiais, tem sangue nos videoclipes, tem sangue em todos os seriados americanos, tem sangue nos filmes de amor. Por falar em seriados americanos, tem seriado com psicopata de protagonista, Dexter, e seu código de ética de matar quem merece desafia e confunde a ética do espectador – pode um psicopata ser bom? Quando eu era adolescente, a última palavra em violência era um filme chamado Faces da Morte, que nada mais era do que uma coletânea de imagens reais de pessoas morrendo. Mortes naturais ou assassinatos, algumas por acaso ou simplesmente cenas de putrefação. O hit dessa série – acho que fizeram uns quatro Faces da Morte – era a cena morte na cadeira elétrica, onde era possível perceber que os globos oculares saltavam. Ver o Faces da Morte era quase como um iniciação, uma prova de força. Hoje existem outros filmes, outras provas. Se clamamos por um mundo menos violento, porque essa necessidade de assistir violência todo o tempo?

Para Elias, nos encaminhamos há muito para um mundo que age cada vez menos. Se olharmos a realidade medieval, ela era muito mais violenta, em vários sentidos. Era possível morrer de pestes, que implicavam em sofrimentos terríveis, erupções, mau cheiro e apodrecimento. Era possível morrer em guerras, invasões, lutas armadas que não necessariamente possuiam um grande motivo. Mas a violência não estava limitada a isso. Ela estava à mesa, onde o animal era destrinchado pelo anfitrião. Estava nas relações mais próximas com a natureza, com os nascimento e as mortes em família, no trato com os animais, com uma atitude menos cerimoniosa de lidar com o dia a dia. Esse homem medieval foi perdendo espaço, ao longo dos séculos, por um modelo de homem que não toca os próprios alimentos com as mãos, que deixa para especialistas (e por isso oculto aos seus olhos) o cuidado com doentes e a morte, e que se torna gradualmente vegetariano, pelo seu horror ao processo de feitura dos alimentos derivados de carne. Enquanto o homem medieval manifestava sem pudores o seu gosto por jogos violentos, pela guerra e pela possibilidade de matar, o homem de hoje não confessa esses prazeres nem para si mesmo e precisa se contentar em ver. A violência seria como um instinto que não pode ser eliminado e sim encontrar outro tipo de vazão.

Mas eu acho que é um pouco mais do que isso. Acho que estávamos fazendo com a violência o mesmo processo que, de acordo com Foucault, estamos fazendo com o sexo. Para esse autor, somos a única civilização que coloca o sexo como um mistério a ser desvendado. Nossa atitude para com o sexo nunca foi a de naturalidade, de indiferença. Da repressão à masturbação, da histeria das mulheres, do complexo de Édito e todas as atitudes de combate ao sexo, realizamos um movimento pendular e fomos ao oposto, onde o sexo é visto, desejado, falado, vendido em todos os meios e durante todo o tempo. Ao invés de se conter, a regra agora é fazer o máximo de sexo possível e experimentar de tudo. A produção de manuais e estudos sobre o sexo, que tinham por objetivo entender esse fenômeno, fizeram com que o sexo se tornasse cada vez maior e misterioso, como um buraco que não pára de crescer porque nunca paramos de cavar.

Eu acho que fazemos a mesma coisa com a violência – nunca paramos de cavar. Já tentamos entender as variáveis da violência, classificando-a. Distinguimos a violência gratuita, a violência premeditada, a violência com fins econômicos, a violência familiar, a violência sexual, a violência entre nações e quanto mais dividimos a violência em pedaços pequenos, ela mostra unidades ainda menores. Procuramos entender a fundo os crimes violentos, para entender a mente de quem os produz, as suas motivações, o que separa um indivíduo comum de um violento. Estamos sempre buscando essa fronteira, estamos com medo dessa fronteira. A existência de psicopatas, de certa forma, nos alivia, porque demonstra que existe um tipo de gente diferente, que já nasce violenta e pra isso não precisa cruzar fronteira alguma. Só que a idéia de ser ou não ser psicopata não nos alivia ao ponto de abandonar esse assunto. Agora queremos conhecer a mente psicopata, queremos domar o psicopata e produzimos até um herói psicopata. Herói ou não, a idéia da psicopatia, que deveria ser exceção, tem se tornado cada vez mais comum. Agora vemos tantos psicopatas nas nossas relações, nos adolescentes e nos padrões de comportamento, que já tem se discutido a idéia de que nossa sociedade é psicopática.

Porrada

Não sou uma grande noveleira. Sou do tipo que gosta de acompanhar mais pela capa das revistas de fofoca do que pelas novelas em si. Mesmo assim, me salta aos olhos o quantidade de personagens de novelas que são espancados. Há um ou outro caso de denúncia de violência contra a mulher, mas quem geralmente apanha são vilãs. E por outras mulheres, as mocinhas. O público adora e eleva muito a índice de audiência no capítulo onde a porrada é exibida. Nas novelas mais antigas, a vilã recebia um sonoro tapa, como a ambiciosa Maria de Fátima de Vale Tudo (1988-1989). Em novelas mais recentes, como Senhora do Destino (2004-2005) ou Celebridade (2o03-2004), a mocinha conta com ajuda de amigos para encurralar a vilã e bater à vontade, até saciar toda sua sede de vingança.
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Onde foram parar as vitórias morais – a mocinha desvenda todos os equívocos, fica ao lado do homem que ama, rica, feliz e ética? A vilã amargaria o fracasso, ou até mesmo a loucura, sem que pra isso precisasse passar pelo hospital. Isso parece ter se tornado insuficiente para o público. Depois de passar uma novela inteira perdendo tudo, queremos ver a mocinha deixar de ser tão boa e sujar as mãos; queremos um revide físico, que a vilã sofra na pele tudo o que ela fez. A bondade superior dos que apenas sofrem parece passiva demais. Mocinhas assim deixaram de ser verossímeis, esse tipo de ética não gera empatia. Quando ela parte para a porrada, mocinha e vilãs invertem seus papéis; como na vida real, bem e mal se confundem. É difícil encontrar alguém que não se identifique com as vítimas; por isso, ser capaz de revidar com violência eleva alguém à categoria de herói.
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Não é todo mundo que tem um inimigo para bater. Ter um vilão, alguém responsável por todos os nossos males, não deixa de ser um privilégio. Eu rezo toda noite pra ter inimigos com os do Maluf, mas ninguém nunca se deu ao trabalho de fazer um grande depósito na Suíça em meu nome. O que acontece no dia a dia é uma série de aborrecimentos que atingem a todos de maneira bastante impessoal: ter que lidar com uma burocracia cara, lenta e burra cada vez que é preciso tirar algum papel oficial; horas de espera em hospitais ou falhas no atendimento em planos de saúde, o que leva as pessoas a pagarem duas vezes por serviços ruins; longos minutos de musiquinhas ou ter que repetir várias vezes a mesma informação para serviços de telemarketing; demissões que independem da atuação do funcionário e que se devem unicamente por corte de custos e por aí vai. Ninguém se interessa, ninguém nunca é o responsável por nenhum dos nossos problemas.
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Quem trabalha na linha de frente com o atendimento ao público conhece bem a necessidade de descontar a raiva nos outros. Os casos de violência gratuita que estão cada vez mais comuns. Todos se sentem esmagados coletivamente. A passividade, a atitude de suportar os inconvenientes sem revidar é a atitude mais exigida do cidadão comum. Se a mocinha da novela simplesmente deixar passar, estará repetindo o que acontece o tempo todo. Novela não é apenas um pedaço de vida real, ela tem uma função de catarse. Se as vilãs agora apanham nas novelas, é porque agora o público sente uma grande vontade de bater.