Ler era mais simples

Posso dizer que ano passado me converti ao calvinismo – não o calvinismo religião, e sim que passei a ser fã de Ítalo Calvino. Depois das Cosmicômicas e Cidades Invisíveis decidi deixar o blog em paz e parar de escrever sempre sobre ele – o que não significa que deixei de ler. Li Barão entre as árvores, Visconde partido ao meio e estou nas Fábulas Italianas. Teria pouco a dizer sobre esses livros sem ser repetitiva: que Ítalo Calvino é genial, que cada livro dele é um deleite, que sua imaginação parece não ter limites e que tudo é muito dinâmico e prazeroso. A leitura dele me faz sentir algo que há muito não sentia, que é o entusiasmo e a certeza de que o próximo livro será bom. Porque ser leitor não é fácil. A cada livro que eu termino um problema se inicia.

Eu lembro a maravilha que era na minha época de Coleção Vagalume, quando todos os livros valiam a pena. Uns valiam mais do que outros, mas eu sempre os terminava. O que me chamava atenção eram as histórias. Se eram imaginativas, o livro era bom. Mesmo quando ruins, quaisquer livros valiam a pena e garantiam muitas horas de privacidade e de prazer. Isso sem falar do conforto de uma série inteira para vasculhar e não ter que me preocupar de não ter o que ler. Eu pensava que leria a série toda e foi justamente quando seus livros não me agradaram mais é que o problema começou: qual o meu próximo livro? Passei a precisar vasculhar estantes, ir atrás de obras e autores clássicos, descobrir gêneros, estar atenta à indicações e tantos outros segredos para farejar um bom livro que uso até hoje.

Ao contrário da maioria, não condeno que lê Paulo Coelho ou os tons de cinza. Acho que é a semelhante à condenação que antigamente havia com quem lia quadrinhos. Hoje há todo uma cultura HQ e alguns quadrinhos são verdadeiras obras de arte; quando eu era pequena, entendia-se que quem lia quadrinho nunca conseguia evoluir como leitor, que aquilo era subcultura. Bobagem, coisa de quem não acredita no prazer de ler. Tem até a história de um amigo, que tinha um pai que era contra histórias em quadrinhos. Então quando a gente começa a citar Recruta Zero, Turma da Mônica, Tio Patinhas, Riquinho e outros, ele não sabe de nada. O que meu amigo leu na infância foi A vida dos grandes estadistas, isso sim leitura que forma o caráter de uma criança.

Italo Calvino me dá essa segurança do livro bom. Esse recurso de gostar de um autor e ler tudo dele nem sempre funciona. Depois do Insustentável leveza do ser, achei que me tornaria fã do Milan Kundera. Li mais uns dois livros dele, também bem escritos, mas nada marcante. Também tentei seguir Isabel Allende, por causa do indiscutível Casa dos Espíritos. Ela realmente sabe contar histórias, mas ler dois livros seguidos sobre a família dela (O plano infinito e Paula) me deixou meio decepcionada e me perguntei se não era melhor ela abandonar essa prática de publicar um livro por ano. E por aí vai. No geral, não suporto ler muitos livros seguidos do mesmo autor. Começa a ficar repetitivo e perdemos a dimensão da sua grandeza. Por isso eu deixei um pouco de lado alguns grandes autores, cuja obra ainda quero devorar – Capote, Faulkner, Garcia Marquez, Bellow, Woolf – apenas para retomá-los sem a interferência da obra anterior.

Ler demais nos torna gourmets, nos torna chatos, nos torna exigentes. É a diferença entre provar um doce pela primeira vez e já conhecer todos os doces do mundo. Se um dia meu critério foi que a história fosse imaginativa, hoje quero personagens bens construídos, narrativa coerente, estilo próprio, ritmo, imprevisibilidade, contexto histórico… Pra piorar, além de ler, eu escrevo. Não o suficiente pra ter escrito qualquer coisa que sobreviva à sua postagem, mas o suficiente para apontar o dedo para a lua e achar que posso alguma coisa. Fico feliz em ter o Ítalo Calvino para saciar um pouco o meu vício. Ele resolveu o meu problema, por enquanto.

Meu melhor livro – Orlando

Eu acho a leitura comparável ao vício. Existem aqueles que possuem uma blindagem natural, que podem entrar em contato com a droga mais sedutora sem se viciar. Eles entram e saem quando querem, jamais deixam que aquilo tome conta de suas vidas. Outros são frágeis, influenciáveis, e logo adquirem o status de heavy-users. Só que quando falamos de drogas no sentido mais comum do termo, existe um caminho natural e um fim. Reza o senso comum que todos começam com drogas leves, talvez até legalizadas – cigarro, álcool, cogumelos, maconha – que acostumam o organismo e são porta de entrada para coisas realmente fortes – heroína, cocaína, crack. Só que com livros – ufa, finalmente consegui chegar lá! – não existe esse caminho previsível. A cada leitura surge o problema do que ler em seguida. O leitor precisa de algo novo, algo melhor, algo diferente. Essa é a grande dificuldade de ser um heavy user. Poucos livros – apenas o inesquecíveis- ficam melhores com o tempo, poucos merecem uma releitura.

Quando entrei em contato com Orlando pela primeira vez, eu já era uma leitora rodada. Eu já havia abandonado os livros com figuras, até as pequenas. Chorar ou rir sozinha já fazia parte da minha rotina, assim como me apaixonar por pessoas que nunca existiram e achar que conheço lugares que nunca visitei. Já havia passado pelos mistérios de Agatha Christie e as cenas picantes dos Sidney Sheldon, tinha perdido a minha inocência. Enfim, já não era mais uma leitora que pergunta, antes de ler, quantas páginas o livro tem. O que viesse eu encarava, desde que fosse de qualidade, desde que desse barato.

Orlando me deu barato desde as primeiras linhas, quando ele começa o livro olhando pela janela e perde subitamente a inspiração. Logo nas primeiras linhas, num parágrafo que não acaba mais, Virginia Woolf nos apresenta toda linhagem de Orlando, seu aspecto físico, nos faz adivinhar onde vive e nos identifica com o seu caráter. Tudo é descrito de uma maneira tão leve que parece que estamos ao lado de alguém que nos sussurra ao ouvido, ou um contador de histórias, ou uma mesa farta, ou qualquer tipo de metáfora que indique algo feito com muita facilidade e prazer.

Meu amor por esse livro é tão grande que durante anos fui incapaz de ler qualquer outra coisa de Virginia Woolf, porque duvidava que ela tivesse sido capaz de repetir o feito de Orlando, que algum outro livro pudesse ser tão prazeroso de ler quanto esse, mesmo feito das mesmas mãos. Como é possível criar um lindo, nobre, vivendo séculos e passando por mais coisas do que qualquer mortal é capaz de passar, e sem com isso fazer com que o leitor o odeie pela sua extrema boa sorte? Eu já li Orlando várias vezes e em nenhuma senti que realmente conhecesse o personagem, mesmo quando ele sofre por amor, mesmo quando seus pensamentos são comparados a pratos nas mãos de um copeiro, mesmo quando foge, quando volta e finalmente…

É possível amar Orlando pela mão segura que o escreveu, que consegue traçar perfis precisos destacando as mais variadas características, que repete palavras (como na parte que fala da mão da rainha quando apresentada a Orlando) para criar um ritmo interessante na leitura, que congela e acelera o tempo, conta fatos e impressões, mistura observações deliciosas e prosaicas com coisas que calam fundo na alma do leitor. Mas é possível também amar Orlando pela história sempre inesperada, pela ingenuidade e romantismo do jovem Orlando, pelo seu contato com rainhas, com russos, com ciganos, com o outro lado do gênero, com admiradores, com puxa-sacos. São também personagens de Orlando sua linhagem, sua casa, a passagem dos anos, a Inglaterra.

Eu sou de ler muito e reler pouco, e esse é um livro que me consegue capturar sempre. Começo a ler umas linhas e quando vejo estou na página cento e alguma coisa. Saber o que vai acontecer, ao invés de tirar o meu interesse, antecipa o meu prazer e quando vejo o livro já terminou. Por falar nisso, o amor à sinceridade me faz revelar: a única escorregada nesse livro tão maravilhoso são justamente as últimas páginas, que abusam de um certo experimentalismo, digamos assim. Nunca deixo de ler, mas elas não fazem jus ao resto da obra.