A questão do duplo em Black Mirror

Alerta de spoiler: este texto fala livremente de histórias dos episódios das temporadas 2, 3 e 4 de Black Mirror. Se você ainda não viu e não gosta de spoiler, corre lá pra ver e volta!

jon hamm black mirror

A ovelha Dolly, criada em 1996, foi o primeiro ser vivo a ser duplicado geneticamente. Na época surgiram muitas discussões, lembro que uma pergunta frequente: será possível, em algum lugar, alguém recriar Hitler? A resposta é que, mesmo que um dia a genética consiga recriar um corpo humano de um DNA pré-existente, seria inútil pretender que Hitler, ou de qualquer outra pessoa, revivesse com isso. Uma pessoa não é, apenas, sua genética. Uma pessoa é um conjunto de contingências, familiares e sociais; é a soma da intimidade e a cultura da sua época, interações impossíveis de serem recriadas. Muito antes da Dolly a ficção já se questionava sobre a possibilidade de duplicar seres vivos. Na série original Netflix, Black Mirror, que se caracteriza quase inteiramente por uma visão pessimista do avanço tecnológico, a questão de criar um duplo é um dos temas recorrentes. Lá, os duplos ora são o simples desligamento da realidade objetiva, ora são substitutos idênticos de seus donos; ora são replicações auto-conscientes, assim como podem ser pura consciência; às vezes são servos e podem ser ignorados pelo próprio dono do DNA.

Em dois episódios o próprio sujeito permite que seu Eu seja mergulhado numa realidade virtual. No episódio Playtest (temporada 3, episódio 2), um homem se oferece como cobaia para o desenvolvimento de jogos de computador. Ele fornece à empresa a informação dos seus medos mais íntimos e lhes dá permissão de ser desligado do mundo material. O jogo constrói realidades múltiplas e se torna uma espécie de pesadelo, onde não sabemos mais o que é intencional ou fora de controle, o que é vida ou morte. Já em San Janupero (temporada 3, episódio 4), na realidade virtual estão misturados os que possuem uma vida corpórea e aqueles que são apenas consciência, ou seja, já estão mortos. San Janupero representa a possibilidade de viver além de suas limitações físicas, seja problemas de saúde, idade avançada ou até mesmo a morte. Nos dois episódios o duplo não está ligado à noção de DNA e sim de consciência, como um ente independente do físico que pode construir outro mundo para si. Como o mundo material é apenas uma referência, no mundo criado as regras são flexíveis e alteradas conforme a conveniência – em Playtest, de forma hostil; em San Janupero, com a possibilidade de ser sempre jovem e belo. O protagonista de Playtest, submetido a uma situação estressante, está sempre se relembrando da irrealidade do que o cerca, como forma de proteção. Em San Janupero, o mundo virtual se pretende como uma espécie de paraíso, com acesso ilimitado a todos os prazeres. A questão com que a personagem se depara, ao escolher entre a morte física e San Janupero é muito mais filosófica: existe felicidade infinita?

Muito menos sorte tem a mulher de segunda história de Black Museum (temporada 4, episódio 6). Do coma, a consciência dela é transferida para o cérebro do marido. Por incrível que pareça, assim como nos casos anteriores, ela quem pede isso, num sistema arcaico que lhe permitia responder Sim ou Não quando estava presa ao seu corpo. Para ela, nenhuma nova realidade é criada, ela é trazida ao mundo atual. A mulher está consciente sem poder atuar; mas ao contrário de quando estava presa ao próprio corpo, ela vê e sente com os olhos do marido, fala através da consciência dele e pode acompanhar o crescimento do filho. Mas o duplo não dá certo (claro!) e o marido a sente como um voyeur constante e desagradável. Mas mesmo assim ele não tem coragem de deixá-la partir e sua falta de coragem leva a uma solução cruel: a mulher é transferida para um urso de pelúcia, que só pode dizer Sim ou Não, agora em forma de Eu Te Amo ou Me dê um Abraço. Nesse mesmo episódio, na terceira história, descobrimos que existem destinos piores para uma consciência sem corpo. Um condenado permite que sua consciência seja recolhida do seu corpo quando é executado na cadeira elétrica. Ele é revivido para uma outra prisão, agora perpétua, como curiosidade num museu. Não apenas a dor da execução é recriada para satisfação dos visitantes como é possível ter um duplo do duplo, um souvenir do seu momento de agonia. Novamente, vemos Black Mirror levantar a questão do quanto é legítimo sentir prazer com o sofrimento do outro quando ele é mau, questão que discuti AQUI.

Em Be Right Back (temporada 2, episódio 1) o propósito de criar um duplo é bem mais nobre. Uma mulher grávida perde seu namorado num acidente de carro. Um serviço online cria uma versão virtual dele, através das informações que ele mesmo compartilhou durante anos em redes sociais. Essas informações, somadas às novas interações com a namorada, permitem que o cálculo de suas reações prováveis seja cada vez mais sofisticado, e o duplo evolui de interação por escrito para uma voz, e por fim um corpo sintético. O duplo neste caso não foi idealizado pelo seu original e de nada lhe serve. Nos episódios discutidos anteriormente, o duplo era o próprio sujeito, único, enquanto aqui temos uma projeção que trabalha com informações. Mas, apesar da perfeição na aparência, voz e uso de expressões, é justamente no uso das probabilidades que o programa se mostra falho – ao gostar de uma música diferente, por precisar ser sempre ensinado e nunca fazer nada novo, o duplo não alcança jamais o seu original. Há algo de imprevisível na vida que a tecnologia não alcança. Tal como o marido que prendeu a mulher no ursinho, aqui a namorada também não consegue se desfazer do duplo, por mais que reconheça suas falhas. Sem ocupar inteiramente o papel do outro e sem deixá-lo partir, o duplo impede a vivência total do luto.

Talvez relações humanas sejam complicadas demais e a vantagem de recriar duplos seja justamente a possibilidade de fazer valer sua vontade. Em USS Callister (temporada 4, episódio 1), os duplos derivam de um material genético coletado sem autorização de colegas de trabalho. Um programador cria uma versão pessoal do seu programa preferido, a USS Callister (uma clara referência a Star Trek). Nela, como tripulação, estão seus colegas, e naquele ambiente ele pode descontar a necessidade de reconhecimento e vinganças que não são possíveis no mundo real. Os duplos, quando o programa não é acessado, vivem uma existência tediosa, como se fossem atores que não tem o que fazer no intervalo entre cada peça. Como pessoas consciente e oprimidas, odeiam estar nessa posição e lutam para conseguir a liberdade. As pessoas originais não sabem que existe uma versão delas dentro de um jogo, que sofrem e tem anseios, mesmo quando as ajudam. Para o mundo real nada acontecia, e quem sabe o jogo garantisse que o programador jamais se rebelasse no seu ambiente de trabalho. Para os duplos ele era um vilão, mas será que isso conta? Algum princípio ético é ferido quando se abusa da projeção que fazemos dos outros? De certa forma, é o que fazemos o tempo todo em nossos pensamentos e desejos mais privados. A diferença é que a USS Callister era mais sofisticada.

O episódio White Christmas (temporada 2, episódio especial) é, para mim, o mais interessante sobre o tema dos duplos. O nerd de USS Callister tem problemas de relacionamento e faz um uso muito privado da possibilidade de criar duplos – já o personagem Matt Trent faz da exploração dos duplos um meio de vida. Ele tem uma empresa que, através do DNA, desenvolve programas personalizados que atendem às mínimas exigências dos seus donos. Para aquele que colhe seu material genético e entrega para a empresa, é apenas um software avançado. Como no filme The Island, o que seus usuários ignoram é que o duplo gerado pelo seu material genético é um ser consciente. O duplo criado pela empresa como software atende sua versão real sob tortura, em meio ao tédio e da solidão. O ajuste de software nada mais é do que levar o duplo à obediência ao mostrar a ele sua falta de opção: ele é uma pessoa num cenário todo vazio com um computador, operá-lo é a única maneira de preencher o tempo. No final do episódio, descobrimos que os dois protagonistas não estão conversando numa cabana isolada num posto avançado, e sim que são duplos plantados por Matt Trent com a finalidade de obter a confissão de um crime. Só então descobrimos o grau de controle que se tem sobre o duplo e seu entorno, o que torna a exploração deles ainda mais chocante.

(Nos episódios USS CallisterWhite Christmas, o processo de criação dos duplos é igual a dar crtl+C, crtl+V em um arquivo. Através do material genético de um pouco de saliva, surge uma outra pessoa com o mesmo grau de consciência da original até o momento da coleta. Eu sei que é uma liberdade poética BEM grande, mas se fosse para ser rigorosamente científico com o tema, não dava nem pra começar a escrever…)

O ineditismo da abordagem em Black Mirror está, me parece, em nos colocar empáticos com os duplos e não nos originais. Mesmo em Blade Runner, com andróides com senso de preservação e que se acreditam humanos por terem uma memória falsa, e que de tão perfeitos o próprio caçador de androides começa a duvidar da sua própria humanidade, estamos sempre vendo o lado dos humanos. A Janet, o sistema operacional da série The Good Place, brinca muito com a associação entre senso de preservação e seres vivos. Quando prestes a ser reiniciada, Janet pede por sua vida, se ajoelha, argumenta, mostra fotos de filhos; quando o perigo passa, não apenas volta à calma habitual como relembra que todas suas atitudes foram apenas programação, que ela não sente nada porque não é um ser vivo. O que Black Mirror parece nos dizer com os duplos é que, por mais que as pessoas acreditem que não gostam de causar sofrimento, a sua busca pelo prazer leva a um desenvolvimento de tecnologia que causa sofrimento. Mas como esse sofrimento é um efeito secundário invisível ou recai sobre “pessoas más”, ele nos é indiferente. Aceitamos de bom grado o sofrimento, desde que alheio. Como diria Harari, o capitalismo não mata por crueldade e sim por indiferença. Que o digam todas as outras espécies do planeta, o próprio planeta, e até mesmo seres humanos de grupos fragilizados.

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Sapiens e Homo deus, Yuval Noah Harari

Na ciência – e quem sabe na vida – as perguntas costumam ser muito mais importantes do que as respostas. Para quem leu o Guia dos Mochileiros das Galáxias, a ideia é representada pelo número 42. Numa visão estritamente pessoal, posso dizer que livros menos ambiciosos costumam dar mais certo do que os que se propõem a muito. Basta tentar ler manuais que resumem todas as escolas de psicologia ou filosofia, ou que tentam contar a história do Brasil para vestibulandos em pouco mais de cem páginas. Na prática, é um apanhado de dados que falam muito pouco a quem já não tem conhecimento prévio do assunto. Por isso a minha suspeita quando soube que Yuval Harari se propunha a escrever uma história da humanidade. Aí, logo nas primeiras linhas de Sapiens: uma breve história da humanidade, ele deixa o leitor sem fôlego ao ir do maior para o menor quando fala do campo de estudos da física, química, biologia e história. O que torna o seu livro excelente e único é sua proposta, a pergunta: qual caminho tornou o Homo sapiens a espécie dominante da Terra?

Harari retoma o conceito de espécie – por isso o nome Sapiens – ao falar de humano, e isso é parte fundamental da sua abordagem. Ele relembra que houveram outros Homoaustralopithecos, neanderthais, soloensis, erectus -, que Homos coexistiram e que o sapiens ser a única espécie não é, por si só, sinônimo de ser melhor. Ao retomar as diversas escolhas feitas pelo Homo sapiens, Harari fala de suas vantagens e desvantagens, relativiza o que nos parecia um caminho inevitável e até mesmo desperta uma certa nostalgia de quando éramos caçadores-coletores, estes sim muito mais saudáveis e harmônicos com o meio em que viviam. Já adiantando o raciocínio dos livros, o caminho do Homo sapiens que Harari descreve é de um crescente descolamento da natureza, que faz com quem o sapiens nem ao mesmo se reconhece mais como um animal. E a maneira como o sapiens olha para si mesmo (o livro fala muito de ilusões intersubjetivas)  acaba interferindo em todo ecossistema.

O surgimento da ciência e da indústria modernas trouxe consigo a revolução seguinte entre homens e animais. Durante a Revolução Agrícola, a humanidade silenciou animais e plantas e transformou a grande ópera animista num diálogo entre o homem e os deuses. No decorrer da Revolução Científica, a humanidade silenciou também os deuses. O mundo transformou-se em um one man show. O gênero humano estava sozinho num palco vazio, falando consigo mesmo, negociando com ninguém e adquirindo poderes enormes sem nenhuma obrigação. Depois de decifrar as leis mudas da física, da química e da biologia, o gênero humano agora faz com elas o que quiser. (Homo deus/ 2. O antropoceno – Quinhentos anos de solidão)

O livro Sapiens se propõe a descrever as três grandes revoluções do Homo sapiens: Cognitiva, Agrícola e Científica. Quando Harari trata das duas primeiras evoluções, muito antigas e quase desprovidas de história – no sentido de registro – o livro une uma série de dados de maneira primorosa, insights originais e aquela sensação de que suas explicações são completas, simples e “puras”, que não há outra maneira de explicar o passado. O primata se levanta, usa as mãos, altera a postura de uma coluna que não estava adaptada, diminui o espaço para a saída de bebês que nascem prematuros. E a imaturidade dos bebês fazem com que não saiam como cerâmica prontas do forno e sim como vidros – maleáveis, adaptáveis, mais cultura do que biologia. Para o que não há explicação razoável, como a escolha pela agricultura ou constante dominância do sexo masculino sobre o feminino, Harari levanta várias hipóteses sem escolher nenhuma, para deixar claro que não há explicação satisfatória comprovada. Quando se apela para explicações que partem de fósseis e instrumentos de pedra, há uma tendência a explicações biologicistas e um grande desprezo intelectual pelos nossos antepassados. Como historiador, ele passa bastante longe disso:

Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas tentam justificar por meio de mitos biológicos? Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidades. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade.

A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, de uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também, natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido que a velocidade da luz, ou que os elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros. (Sapiens: uma breve história da humanidade/ 7. Sobrecarga de memória – Ele e ela)

Quando fala da Revolução Científica, por ela ter apenas quinhentos anos, Harari começa a desenvolver seu raciocínio e Homo deus: uma breve história do amanhã é uma consequência clara das discussões finais de Sapiens. Quando chega no homem atual, o autor começa a bater e com força. Superadas os três grandes flagelos da espécie – fome, pestes e guerra – a agenda humana se debruça sobre novos objetivos, que são a busca pela felicidade, imortalidade e divindade. Mas, retomando ao seu argumento inicial, Harari relembra que se conceber como superior aos animais, às plantas e ao resto do planeta não torna isto verdade. Que o homem tem agido como uma criança irresponsável, fechado os olhos para o sofrimento que causa (num trecho de Sapiens ele diz que, ao contrário de outras ideologias que matam por ódio, o capitalismo mata por indiferença) aos animais, e que o mesmo argumento de justificar sua violência por superioridade pode se voltar contra ele quando o sapiens se tornar obsoleto. A descrição que Harari faz das capacidades dos animais e o sofrimento intenso a que são submetidos apenas para nossa satisfação à mesa, levam à conclusão que o veganismo é o mínimo que se pode fazer para ajudar. Ele mesmo é vegano.

Só que o isolamento do sapiens, conforme Harari projeta, tende a uma radicalização tal que passará a ser até dentro da espécie. O avanço da tecnologia capaz de prolongar a vida humana e aumentar nossa capacidade com o uso de inteligências artificiais não é estendido a todos. Enquanto uns serão amortais, outros não terão função dentro do sistema e serão descartados. Só que quando o livro fala do perigo de um Homo deus que se priva e se aproveita dos seus irmãos sapiens, não consigo deixar de pensar que o autor vem de um país muito mais igualitário. O que ele vê num o futuro me parece bastante aqui e agora, senão pelo avanço da tecnologia, pela pura e simples diferença no acesso à cultura. As diferenças de classes no Brasil são tão gritantes que duas pessoas que nunca se viram, trancadas durante poucos minutos numa mesma sala, já são capazes de adivinhar com uma grande probabilidade acerca as origens uma da outra. Nossas diferenças de classe são mais sofisticadas do que uma mera diferença racial – elas invadem o tipo físico, as roupas, a maneira de gesticular, de se portar, de olhar. A linguagem falada é diferente e escrita ainda mais. Criamos tantos e tão sofisticados códigos que o indivíduo não consegue, conscientemente, dominar todos – com isso a mobilidade social se torna cada vez mais difícil. E é essa falta de domínio dos códigos padronizados pela elite cultural e econômica que serve de justificativa para a manutenção de privilégios; os outros são burros, não sabem votar, são manipulados, precisam ser protegidos de si mesmos, não precisam de quase nada.

Ao mesmo tempo que demonstra o quão fenomenal o que conseguimos como espécie, as projeções que Harari faz estão muito mais para distopias. Ele alerta que quando fala na busca por eternidade, felicidade e divindade está apontando tendências, o que não quer dizer que as aprova. Sua ambição é, tal como aconteceu com o marxismo, que a própria leitura dos seus livros influencie o futuro e faça com que ele não aconteça da forma prevista. Se levarmos em conta que os livros são best sellers mundiais e lidos por gente como Barack Obama e Mark Zuckberg, quem sabe seja possível.