Sexo trocado

Sexo é cultura. O que entendemos como masculinidade ou feminilidade são totalmente determinadas pelo meio. É ela que nos diz que homens são fortes, agressivos e líderes, enquanto as mulheres são delicadas, tranquilas e conciliadoras. Desde o nosso nascimento, na escolha dos nossos nomes e em diferenças sutis de tratamento, vamos assimilando as características do sexo que nos é atribuímos e unicamente com base nelas fazemos nossas escolhas. Desde a maneira de ser portar até a atração física pode ser explicada nesses termos. Ao nascer, a única coisa que diferencia meninos e meninas é a presença do pênis; se fosse possível criar um menino sem pênis, se ele lhe dessem um nome feminino e o tratassem como tal durante toda sua infância, bastaria lhe dar hormônios na adolescência para concluir a transformação.

Eu sei que tudo o que eu disse soou exagerado. Mas durante algum tempo, as coisas foram consideradas verdades científicas. Tempo o suficiente para tornar real a experiência de criar um menino sem pênis como menina. É o que conta o livro Sexo Trocado. Um erro médico criou a oportunidade perfeita para provar o determinismo cultural sobre o biológico: em 1967, dois meninos gêmeos, de oito meses de idade, foram realizar cirurgias de circuncisão. Em um deles a operação foi tranquila; no outro, o aparelho queimou o pênis do bebê. Sem saber o que fazer, os pais se renderam ao argumento de um médico, que os convenceu que um menino sem pênis estava privado do que há de mais importante na sexualidade masculina. Seria mais fácil castrar o pouco pênis que lhe restou e transformá-lo numa menina. Se eles não contassem a ninguém que ele era originalmente um menino e tratassem a criança como filha, ela assumiria a identidade feminina sem problemas.

As coisas não aconteceram exatamente como o esperado. Mas isso não impediu o médico de apresentar esse caso em diversas conferências, publicar em revistas científicas e se tornar referência nos casos de mudança de sexo. Muitas crianças hermafroditas tiveram suas características dúbias retiradas (em favor de um dos sexos, escolhidos pelo médico) por conta desse caso exemplar. A foto do casal de irmãos e notícias periódicas do desenvolvimento normal da menina confirmavam à comunidade científica o poder da cultura e da intervenção da ciência sobre a natureza. Penso no impacto favorável desse caso ao feminismo da época, que ainda buscava argumentos contra o biologicismo da desigualdade entre os sexos. Era o sonoro NÃO à questão levantada por Margaret Mead no livro Sexo e temperamento (1935): “ninguém conhecia em que grau o temperamento está biologicamente determinado pelo sexo, de modo que esperava ver se havia factores culturais ou sociais que afectassem o temperamento. Eram os homens inevitavelmente agressivos? Eram as mulheres inevitavelmente caseiras?”

A menina cresceu agindo como um menino sem pênis. É como se em algum lugar, desde sempre, ela soubesse da verdade. Quando criança, se comparava ao irmão e dizia que queria ser igual a ele. Quando argumentavam que ela não podia, porque era uma menina, ela ficava sem saber o que dizer. As outras crianças percebiam que havia algo errado e se mantinham longe. Ela cresceu arredia, desconfortável com seu próprio corpo, ignorando e ignorada pelos rapazes. Quando começou a receber hormônios, mesmo sem saber o que eram, não queria tomar. A situação foi ficando cada vez mais insuportável, até que aos 14 anos seus pais lhe revelaram a verdade. Por um lado foi um alívio, mas por outro foi o início de mais uma batalha: a recuperação da masculinidade. É um livro que conta um sofrimento pessoal e familiar muito grande. Anos depois da publicação, seu protagonista cometeu suicídio.

Com o tempo, esse extremo culturalismo foi perdendo força. Na época, a notícia de que a mudança forçada de sexo não fora bem sucedida encontrou uma acolhida fria nos meios acadêmicos. Assim como os estudos que apontavam um componente biológico a ser levado em conta na construção da sexualidade. Hoje esses estudos não encontrariam obstáculo algum – num movimento pendular, hoje estamos vivendo uma busca de explicações biológicas para os todos comportamentos. Existe a pretensão de que a genética substituirá a psicologia. Mesmo em correntes tão diferentes, o falocentrismo ainda não parece ter sido superado… Quem iria prever que a visão da mulher como o negativo (no sentido de encaixe) do homem ou do pênis como peça essencial no complexo de édipo poderiam levar um menino a ser transformado em menina? Coisas que parecem simples metáforas, quando transformadas em discurso científico, têm um perigoso poder de materialização.

A sangue frio

Eu sempre me perguntei o que um bom autor – alguém que gostasse mesmo do ofício, que tivesse um estilo, que soubesse usar recursos que tornem a escrita interessante – faria por uma boa história verdadeira. Porque nem todo mundo que escreve o faz com o objetivo de entretenimento ou tem talento para entreter. Os assuntos mais interessantes ficam tão insosos quanto jiló quando obedecem as fórmulas da academia. Jornalistas possuem mais liberdade, mas a necessidade de se ater aos fatos pode ser uma limitação. O que faria, repito, um bom autor com uma boa história verdadeira? O que Capote fez ao contar o assassinato da família Clutter, em A sangue frio.

Capote acompanhou as investigações e teve a oportunidade de falar pessoalmente com os assassinos. Ele pode formular impressões pessoais e foi atrás de coisas que não tinham relação direta com o caso: o que se discutia nos bares da cidade, que impressão e dramas pessoais que o caso teve na família dos investigadores, a vida em Holcolm antes de depois dos assassinatos, a rotina do corredor da morte, etc. Como resultado, temos um livro tão bem construído e cheio de informações como qualquer romance de narrador onipresente. Capote sem dúvida preencheu algumas lacunas, descreveu cenas baseado em informações de terceiros, inventou diálogos que nunca ocorreram. Mas tudo tornou a história tão vívida que não somos capazes de dizer em que momento isso aconteceu. Ele consegue nos transmitir verossimilhança justamente por não procurar “se ater aos fatos”, como seria de praxe em uma investigação jornalística.

O crime em si só é descrito na metade pra frente do livro. Ele faz duas narrações paralelas, em que segue a família Clutter e os assassinos. Gosto da sutileza com que ele descreve os Clutter:

A casa fora construída em 1948, e projetada em grande parte pelo Sr. Clutter, que se mostrara arquiteto sóbrio e sensato, embora não se destacasse como decorador (….) um imenso sofá moderno na sala de estar, coberto por um tecido encaracolado e entremeado de fios cintilantes de metal prateado; na copa uma banqueta torrada de plástico azul e branco. Este tipo de mobília agradava ao Sr. e a Sra. Clutter, bem como à maioria dos seus conhecidos, cujas casas eram assim decoradas.

Os assassinos, ao contrário dos enraizados Clutter, são errantes e desorganizados:

Uma laterna, uma faca de pesca, um par de luvas de couro e uma roupa de caça, completa com cartuchos, cada ainda mais atmosfera a essa curiosa natureza morta.
– Vai usar isso aí? – perguntou Perry, indicando a roupa.
Dick deu com os nós no dedo do pará-brisa:
Toc, toc. O senhos nos desculpe. Estavámos caçando e parece que perdemos o caminho. Será que poderíamos usar o seu telefone?…
Sí, señor. Yo comprendo.
– Vai ser fácil… Prometo a você, meu anjo, vamos espalhar miolo por tudo quanto é parede.

Quando os dois destinos se cruzam, ele omite temporariamente o encontro e se detém nos efeitos dele. Acompanhamos o terror dos primeiros a encontrarem a família, os laços interrompidos, a notícia se espalhando pela cidade, o clima de insegurança. A violencia inexplicável à uma família tão poderosa e querida afeta a cidade. A percepção da realidade é alterada, a insegurança e a desconfiança se instalam. Tanto que depois eles custam a acreditar que não foi um cidadão o mandante do crime, quando tudo é finalmente esclarecido. A violência banal e sem destino certo assusta muito mais do que a idéia de uma vingança pessoal. E é justamente isso que a trajetória de Dick e Perry nos mostra – o acaso.

Enquanto a cidade imagina coisas, os assassinos vão atrás de suas ilusões pessoais. Eles viajam, praticam pequenas fraudes, convivem da maneira como podem com o laço sinistro criado entre eles. Ao mostrar a biografia de ambos, Capote os torna muito próximos do leitor: Dick simpático e piadista, Perry sensível e até mesmo correto. A empatia que sentimos por alguns momentos os torna mais assustadores, por causar a impressão de que qualquer um esconde o sangue frio capaz de tirar vidas. O livro, em si, também nos desperta sentimentos ambíguos, ao tornar algo horrível gostoso de ler. Ele é tão bem escrito que às vezes nos faz esquecer da sua denúncia, o fato de mostrar o pior lado do ser humano: a incapacidade de se sensibilizar com o sofrimento alheio.

Amor, Bourdieu

(Me dediquei tanto aos textos sobre o Cisne Negro que me esgotei. Com a energia que gastei nele dava pra ter escrito uma semana de texto no Caminhante Diurno e uns dois daqui. Por isso, meio na cola da discussão do Guimarães, vai a definição bourdieuniana de amor. Não estranhem os períodos longos e a falta de pontuação – ele escreve mal mesmo)
A aura de mistério que o cerca, sobretudo na tradição literária, pode ser facilmente compreendida de um ponto de vista estritamente antropológico: baseado na suspensão da luta pelo poder simbólico que a busca de reconhecimento e a tentação correlativa de dominar suscitam, o reconhecimento mútuo no qual cada um se reconhece no outro e o outro reconhece também como tal pode levar em sua perfeita reflexibilidade, para além da alternativa do egoísmo e do altruísmo ou até da distinção do sujeito e do objeto, a um estado de fusão e de comunhão, muitas vezes evocado por metáforas próximas às do místicos, em que dois serem podem “perder-se um no outro” sem se perder. Conseguindo sair da instabilidade e da insegurança características da dialética da honra, que embora baseada em uma postulação de igualdade, está sempre exposta ao impulso do dominador da escalada, o sujeito amoroso só pode obter o reconhecimento de um outro sujeito, mas que abdique, como ele o fez, da intenção de dominar. Ele entrega livremente sua liberdade a um dono que lhe entrega livremente a sua, coincidindo com ele em um ato de livre alienação definitivamente afirmado (através da repetição, sem redundâncias, do “eu te amo”). Ele se evidencia como um criador quase divino, que faz, ex nihilo, a pessoa amada através do poder que esta lhe concede (sobretudo o poder de nominação, manifesto em todos os nomes únicos e conhecidos apenas por ambos que os apaixonados se dão mutuamente e que, como um ritual iniciático, marcam um novo nascimento, um primeiro começo absoluto, uma mudança de estatuto antológico); mas um criador que, em retorno e simultâneamente, vê-se, à diferença de um Pigmalião egocêntrico e dominador, como o criador de sua criatura.

Cisne Negro – parte 2

O controle, a determinação e a ambição levam à conquista de muitas coisas, mas matam a expressividade. É justamente a dedicação extremada que faz de Nina uma bailarina técnica. Ela vive para o ballet e ao mesmo tempo, não dança – não sente prazer, não se expressa. A arte tem essa característica de exigir a essência. Como muitas, Nina começou a dançar ballet por causa do sonho da mãe dela. Mesmo quando é a criança que pede, dançar ballet é principalmente um projeto dos pais. No ballet, assim como em outras modalidades artísticas, é necessário começar muito cedo. Os pais precisam se dispor a isso, a pagar escolas de ballet durante mais de dez anos. É um grande investimento de tempo e dinheiro. Até a filha crescer o suficiente, alguém precisa leva-la às aulas, aos ensaios, cuidar de suas sapatilhas. Os figurinos são caros e, dependendo do formato do pé, é preciso comprar pontas novas todo mês. A filha, por sua vez, se acostumará com a disciplina, tentará se manter sempre magra, usará roupas cor de rosa, assistirá videos e desejará representar as muitas princesas clássicas.

No caso da Nina, isso é especialmente forte porque sua mãe (Barbara Hershey) foi uma bailarina profissional. No filme, não fica claro o quanto sua mãe conseguiu com o ballet ou apenas fantasiou. O fato é que ela ainda se vê como uma bailarina e se veste como uma bailarina madura. Ela claramente joga na filha a culpa pelo fim da carreira. Nina foi (e talvez ainda seja) uma criança programada para amar o ballet. Ao tentar se realizar através de sua filha, Erica nutre por ela sentimentos ambíguos. Há momentos em que é difícil separar a mãe superprotetora da rival. A mãe controla Nina, que por sua vez se controla para fingir que não nota os choros escondidos, as reações exageradas, o preço caro que paga para manter a paz entre as duas. A mãe é toda família que ela tem, a única pessoa com quem ela realmente se relaciona. Ela, o ballet e a mãe se misturam num mundo de espelhos, pelúcias e sapatilhas, um mundo que a cerceia e infantiliza.

Diante de tudo isso, Thomas tem a difícil missão de transformar uma menina no Cisne Negro – um dos personagens mais interessantes dos ballets românticos. O Cisne Negro é sensual, sedutor, malvado, egoísta, traiçoeiro. Ironicamente, é a necessidade de estar à altura desse papel que desperta o lado negro de Nina. Beth e os outros bailarinos insinuam o tempo todo que Thomas torna as solistas suas amantes (posso dizer que isso também acontece na vida real? Ops!). Quando ela vai pedir o papel a Thomas, de cabelos soltos e batom (que pertencia a Beth), é possível pensar que ela estava disposta a pagar esse preço, se fosse preciso. Mas ela é tão tímida e passiva que a sedução é apenas adivinhada. Ela é claramente uma princesa a ser conquistada, não uma sedutora. Thomas percebe tudo isso e, seja por ser hábito ou pelas circunstâncias, ele seduz Nina e desperta seus desejos. Ele puxa – como diretor artístico e como homem – Nina para um doloroso processo de auto-descoberta.

É dentro desse grande rompimento interno que a história se desenvolve. Externamente, ela se machuca, sangra, se coça, quase arranca a pele do dedo, das unhas, das costas. É troca de pele – como vemos na textura que a pele adquire no dia do espetáculo. Em meio a esse turbilhão, surge a figura de Lily (Mila Kunis). Nina projeta em Lily toda a liberdade e expressividade que não consegue ter; ela a admira, a deseja e a teme. As cenas de ballet diminuem e os delírios aumentam. Nina aparece cada vez mais pálida e cansada, totalmente mergulhada na crise. Ela joga suas bonecas fora, briga com a mãe, fantasia com Lily. Até sua imagem no espelho se desloca, ela não sabe mais o que verá. Nas poucas cenas de ensaios, vemos ela procurar ansiosa o olhar do Thomas, que a cada dia se dirige menos a ela. Alguma coisa está acontecendo por fora, mas ela ainda não sabe o quê. Quando, durante o ensaio da morte do Cisne, Thomas descreve a perda de todos os referenciais e o sentimento de desesperança, percebemos que Nina está vivendo o mesmo sofrimento do Cisne. Assim como a estréia é o ponto alto de toda preparação dos ensaios, na noite anterior os delírios atingem seu auge. Nesse ponto, (exagerado, na minha opinião) ela vive momentos de puro terror.

Nas últimas cenas, ela e os cisnes já são um só. Ela surge frágil e temerosa quando cisne branco; já de cisne negro, mata a rival que tenta tomar o seu lugar. Depois entende que a única a morrer em todo essa história foi ela mesma, e essa dor vai ao palco e se transforma em arte. A cena dos deboulés do cisne negro, que a transformam gradualmente, é maravilhosa. Ela finalmente se tornou uma solista.


Pas de deux do cisne negro- La Scala Ballet, com Polina Semionova e Roberto Bolle.

Cisne negro – parte I

Uma companhia de ballet seleciona seus membros pra garantir uma qualidade mínima. Quando mais prestigiosa e quanto mais ela puder oferecer aos seus bailarinos, mais exigente ela pode ser. Existem coisas que toda bailarina profissional deve ter: o físico magérrimo, um alongamento bastante acima da média, uma boa ponta e saber executar os pouco mais de duzentos passos principais que, em conjunto, formam as coreografias de ballet. Mas, mais do que isso, uma companhia de ballet precisa de bailarinos talentosos formam o seu primeiro time, os solistas. Os solistas precisam ser superiores aos outros bailarinos em todos os aspectos. Eles representam a companhia, têm seus nomes reconhecidos e muitas pessoas vão a um espetáculo especialmente para vê-los.

A pessoa que está à frente no palco acaba puxando todas as outras. Se ela erra, os outros também errarão. Estar no lugar mais importante do palco, cara a cara com o público, requer muita segurança. Quem já subiu num palco sabe: pode ser inebriante, pode ser aterrorizante, pode ser as duas coisas juntas. É preciso técnica e algo além da técnica. Dizer a um artista que ele é bastante técnico pode soar como elogio ou xingamento. Porque técnica é algo que tem a ver com esforço, com horas trabalhadas, com bons professores, com a capacidade do corpo em responder o que é exigido dele. Mas não tem, necessariamente, a ver com o talento. Alguém com excelente técnica pode fazer a passagem mais difícil ou mais emocionante e o público bocejará. Existe uma comunicação invisível entre artista e platéia que não depende da quantidade de horas trabalhadas. É algo que faz parte da essência do artista, do que ele é o que consegue transmitir. A única coisa que ele pode fazer pra tentar crescer nesse aspecto é viver, porque para transmitir é preciso ter muito dentro de si.

Por tudo isso, dá pra imaginar o quanto é problemático substituir uma solista. Muita gente boa larga o ballet todos os anos, porque todos querem ser solistas e não existe solo pra todos. Não ser solista significa dançar pelo coletivo, jamais ter as luzes apenas para si. Isso é especialmente cruel no ballet clássico, onde as coreografias mais tradicionais colocam quase todo corpo de baile com roupas iguais e pelos cantos. Existem mais pessoas desejosas do que merecedoras desse destaque. Uma nova solista dá uma nova cara a companhia; é um momento de mudança e, como tal, um momento de crise. E é assim que se inicia Cisne Negro, num momento de crise. A aposentadoria de Beth (Winona Rider) inicia uma crise na companhia, que por sua vez desencadeia uma crise pessoal naquela que foi escolhida para o posto: Nina (Natalie Portman, simplesmente maravilhosa).

Podemos dizer que numa companhia de ballet todo mundo tem um pouco de diretor artístico. Todos se conhecem, fazem aulas juntos e ensaiam diariamente. O público pode ter ilusão de uniformidade, de que cada um no palco é excelente; mas para quem está lá dentro existe uma escala silenciosa. Cada pessoa lá dentro têm seus favoritos, sua própria opinião sobre quem merece estar em que papel. Em outras áreas, é possível conseguir um emprego e enganar as pessoas sobre sua real capacidade durante muito tempo; basta ter um bom currículo e impressionar no processo de seleção. Na dança, todo o processo é feito com base em audições. Não importa de onde você veio, se de uma escola de bairro ou do Bolshoi – quando a música toca e você começa a fazer a coreografia, não há o que esconder. Seus movimentos denunciarão a sua precisão, o seu domínio e a sua interpretação. Para olhos treinados, tudo isso se revela em poucos minutos. Não é apenas Thomas (Vincent Cassel) que sabe que Nina é apenas um Cisne Branco – toda companhia sabe.

Para a nova solista, Thomas escolheu sua melhor opção – mas ser a melhor opção não é sinônimo de ser o ideal. Por fazer parte da companhia há muito tempo, todos sabem o que esperar de Nina: técnica. O ballet exige muita técnica, mas todos eram profissionais; ela certamente não era muito melhor que as outras que participaram da audição. Em outras palavras, Nina não é convincente o suficiente para ser solista. E estar numa posição desejada por todos sem ser claramente merecedor não é confortável pra ninguém. As pessoas ficam insatisfeitas, se sentem injustiçadas e questionam os critérios de escolha. Quando é uma mulher, sempre existe a suspeita de que ela dormiu com o chefe… Surgem os boatos, as especulações, as hostilidades. A credibilidade do diretor artístico é colocada em dúvida e a escolhida sente que a qualquer momento pode perder seu papel. Qualquer atraso num ensaio ou um momento de fraqueza podem colocar tudo a perder. Nina percebe isso e se sente perseguida. Aí começa a surtar. Ela precisa provar para sua própria companhia que merece ser a Rainha Cisne. Essa pressão faz desmoronar o que a levou ao topo e que, ao mesmo tempo, a impede de ser uma artista completa: o controle.

Leia também a Parte II

Imagem de Amostra do You Tube
Pas de Deux do cisne branco – Bolshoi, Anastasia Volochkova e Evgeny Ivanchenko

Amor, Guimarães

Quando alguém dizia que tinha Guimarães Rosa como seu escritor favorito, eu achava puro pedantismo. Ou uma mentira mais sofisticada do que aqueles que dizem gostar de ler e não sabem recomendar um único livro. Minha má impressão vinha da leitura apressada que eu tive que fazer do Primeiras Estórias, porque caia no vestibular. Lembro de ter gostado da história do Famigerado e só. Achei chato, embolado, não entendia metade do que todo mundo dizia. No ano passado resolvi dar uma nova chance, porque percebi que detestei todos os livros que li no vestibular. É uma fase complicada.

Comecei devagar, com alguns contos. Já encantada, parti pro Grande Sertão: Veredas. É uma pena que eu, você e quase todos os brasileiros, sabemos antes de ler o livro que Bruna Lombardi encarnou Diadorim na adaptação do livro em minissérie, pela globo. Jamais vi a minissérie, mas já sabia o suficiente pra não ter nenhuma revelação no final. Não que isso invalide o livro, apenas seria uma outra leitura. Imagino que a surpresa seria imensa, como no final do Absalão, Absalão!, que me obrigou a fechar o livro e reorganizar tudo o que eu pensavada história contada até então . Guimarães Rosa quis dar um nó na cabeça dos leitores: ele amava Diarorim porque no fundo sentia que era uma mulher? Ele amava Diadorim porque era bissexual? Ele amava Diadorim porque amor não tem sexo?

Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou o meu cabelo. Sempre. Do demo. Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?

De lá pra cá, outros dois contos dele me chamaram a atenção pela atitude provocativa: Estória de Lélio e Lina (Corpo de Baile, vol 1) e Desenredo. Este último, curtinho, tem aquela frase famosa dele “Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”. Temos a figura (que também aparece na Estória de Lélio e Lina) da mulher que sempre traiu e sempre trairá os homens que ficam com elas. E talvez por isso mesmo, essas mulheres são fascinantes e sempre encontram homens dispostos à fazê-las mudar. Até aí, Nelson Rodrigues também dá conta. O que surpreende no conto é a disposição de seguir em frente, de estar com essa mulher traidora, de achar mais fácil enganar a si mesmo do que abrir mão do amor. A tal mulher traidora é tão maravilhosa e proporciona tanta felicidade que mesmo o preço da traição se torna pagável. Riobaldo e Jô Joaquim tinham em comum um amor desafiante. Mas Jô Joaquim foi mais corajoso.

A Estória de Lélio e Lina, é semelhante a Grande Sertão: Veredas por oferecer ao leitor um surpresa no final. A narrativa é toda centrada na figura de Lélio e sua chegada numa fazenda. A história fala de toda sua permanência lá: como novato, visitando as “tias”, envolvido em conflitos, procurando se assentar na vida. Passamos a história inteira procurando a Lina, e nos decepcionando com as personagens femininas que aparecem. É o nome do conto que cria essa expectativa. Procuramos Lina no amor platônico, na irmã que vai chegar, na filha solteira e ela nunca vem. No fim, descobrimos que a Lina estava debaixo dos nossos olhos o tempo todo. Se Guimarães em Grandes Sertões: Veredas questionou a nossa capacidade de amar as pessoas independente do seu sexo, em Desencontros, apesar de seu sexo, em Estória de Lélio e Lina ele nos mostra o quanto a nossa noção de amor é pequena e sexualizada.

Mundo incompleto

A qualificação é temida injustamente por quem está escrevendo uma dissertação. Ela é uma das poucas oportunidades em que o nosso trabalho será lido com interesse minucioso e receberemos sugestões válidas. Das várias sugestões e correções que eu recebi ao meu trabalho, a que mais me surpreendeu foi, na verdade, a correção de uma idéia de Goffman:

Entre seus iguais, o indivíduo estigmatizado pode utilizar sua desvantagem como base para organizar sua vida, mas para consegui-lo deve se resignar a viver num mundo incompleto. Neste, poderá desenvolver até o último ponto a triste história que relata a possessão do estigma.

(p.30)

Naquelas alturas, depois de entrevistar onze pessoas que ficaram cegas em diversas fases, eu tinha conseguido provar de maneira muito consistente o quanto perder a visão é radical. Mas não radical num sentido físico, como no pesadelo de nós que enxergamos; meus entrevistados que já eram cegos há mais tempo encaravam o fato com muita naturalidade. Acostuma, nas palavras deles. A parte mais radical da experiência de ficar cego é o preconceito gigantesco e persistente que essas pessoas passam. É maior do que ser feio, gordo, negro, pobre ou analfabeto. Digo isso porque um colega de mestrado ouviu algumas histórias das entrevistas e me perguntou:

– Pra um homem, seria como ser muito feio, então? As mulheres já te colocam em último lugar?
– Não, é pior porque é uma categoria à parte. Existe o bonito, o feio e o cego. Pode até ser um cego bonito, mas ele simplesmente não entra na avaliação. Ele é café-com-leite.

É difícil e talvez impossível se acostumar com isso. Não para alguém que já enxergava antes, que sabe do que é capaz e como era tratado antes. É um preconceito que jamais deixa de ser percebido, porque jamais deixa de ser manifestado pelos outros. Existem poucas pessoas que sabem lidar com eles e poucas maneiras de esconder o seu defeito (a resistência em usar bengala é um deles). Essas características fazem com que a cegueira encaixe com perfeição na definição de estigma, de Goffman:

Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele tem um atributo que o torna diferente de outros que se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma espécie menos desejável – num caso extremo, uma pessoa completamente má, perigosa ou fraca. Assim, deixamos de considerá-lo uma pessoa comum e total, reduzindo-a a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especialmente quando seu efeito de descrédito é muito grande. (pág 12)

Sendo esse contato com os “normais” tão difícil, Goffman fala do quanto é mais fácil lidar com pessoas com sofrem o mesmo problema ou que já saibam lidar com o problema (a que ele chama de “informados”). Um dos meus entrevistados falou do quanto ter uma turma de amigos cegos o ajudava, do entendimento profundo de poder falar que bateu a testa no orelhão e o outro dar risada ao invés de ficar com pena. Ou o problema de atendentes de loja se dirigirem sempre à outra pessoa, ou de abordar um estranho e ele achar que é pra pedir esmolas. Não tem como negar que isso deve ser muito desgastante. Falar apenas com quem não faz isso com você deve ser quase uma tentação. É disso que Goffman fala (naquele primeiro trecho que citei) sobre a possibilidade de viver num mundo incompleto – usar o seu problema como critério para estabelecer todas as suas relações. Ignorar o mundo que ignora a sua humanidade. Ser um cego e só andar com cegos, ou pessoas que sabem lidar com cegos seria esse mundo incompleto.

Aí fui alertada, durante a qualificação, que todos nós vivemos num mundo incompleto. Que nenhum de nós domina a amplitude da vida social, ninguém lida com todos os universos, conhece todos os tipos de pessoas. Podemos não escolher baseados num estigma, mas também escolhemos nossas relações de acordo com critérios. Andamos sempre com aqueles que compartilham nosso universo cultural, que frequentam nossos ambientes, que têm os nossos hábitos. Não precisa ir muito longe pra perceber: engenheiros andam com engenheiros, atores andam com atores, adolescentes andam com adolescentes. Às vezes achamos que somos radicais, que inovamos muito e conversamos com outro universo, sendo que na verdade o diferente em questão é quase igual.

Foi o que eu descobri, de maneira radical, quando abandonei o meio universitário e comecei a dançar. Eu me achava muito diferente por ter casado com um engenheiro: ele é exatas e eu humanas, ele é de direita e eu de esquerda. Na dança, entendi que somos dois universitários, que a diferença entre as carreiras acadêmicas é pequena com relação ao universo fora da academia. Na dança aprendi a reconhecer universitários pelo físico, pela maneira de vestir: sempre contido, quase imóvel, meio fora de moda e discreto, jamais sensual (por isso que Geysi Arruda pareceu tão agressiva de vestido rosa). Universitários mostram na sua maneira de vestir e andar que não é no corpo que sua identidade está. Descobri um mundo onde as pessoas não acham importante ler jornal, mas sim ser consciente de cada detalhe do seu corpo ao executar um movimento. É um nível de concentração e conhecimento da sua estrutura física que um universitário não faz idéia que existe. Ser belo, ter carisma e preciso ao se mover mostra quem você é, na dança e na vida. Enquanto um universitário carrega seu corpo, o bailarino é o seu corpo.

Mas é claro que são coisas diferentes: escolher suas relações tomando um estigma como base ou escolher suas relações por posições (em grande parte inconscientes) que temos na nossa vida social. A questão foi resolvida colocando uma nota de rodapé explicando essa diferença. Cegos ou não, vivemos todos em mundos incompletos.

Família desestruturada

Quando a profa Marlene disse em sala de aula que essa idéia de família desestruturada é uma falácia teórica, que não tem o menor sentido e comprovação, foi como uma revelação. Era tão óbvio! Ao mesmo tempo, é uma idéia tão arraigada, tão repetida. No dia a dia, nunca fez sentido: não existem diferenças significativas entre filhos de pais separados ou não, em nenhum aspecto. Meus pais se separaram quando eu tinha cinco anos e, bem, não preciso dizer que não sou nenhuma marginal. Filhos de pais separados não têm tiques nervosos, não são fracassados, não são piores, viciados ou mais inseguros. Por outro lado, filhos de pais casados não são mais bonitos, mais inteligentes, bem-sucedidos ou guiados por princípios éticos superiores. Então porque continuamos a acreditar nisso, a fazer estatísticas sobre isso, a procurar essa informação quando algo dá errado?

Não precisa pensar muito pra concluir que a família desestruturada é fruto da super estruturada família burguesa. Aquela que hoje nos parece muito natural, mas que nem sempre foi assim: religiosa, com o pai provedor, a mulher fiel que se dedica aos filhos. A essa família burguesa corresponde à casa burguesa dividida em cômodos, com quartos que garantem privacidade e resguardam a vida sexual no casal. Uma família em quem ninguém mete a colher. Bem ao contrário da classe dominante anterior, a nobreza: que não via o trabalho como um valor, fazia vista grossa à amantes, não prendia a mulher à prole e era voltada para o status e a vida social. Havia um grande número agregados e empregados; os quartos dos conjuges eram separados e a privacidade entendida de outra forma. Com a família nuclear burguesa, os marido passa a controlar de perto os passos da esposa, que por sua vez controla de perto os passos dos filhos. É isso que supomos quando falamos de famílias desestruturadas: é uma família com pouco controle sobre seus membros. E, interiormente, está a idéia freudiana de que é a repressão que nos torna civilizados.

Para provar continuamente a importância da família estruturada, para qualquer problema que envolva jovens e crianças, buscamos estatísticas sobre as famílias delas. Nesse instante, a família desestruturada passa a ser sinônimo de pais separados. É família desestruturada ou casamento desfeito? O suporte de outras pessoas não parece remediar o efeito desastroso da separação dos pais, pelo menos nas estatísticas. Aí surgem dados como “36,3% dos menores encontrados usando drogas na escola são de famílias desestruturadas”. Mas nunca ficamos sabendo o número de casais separados na média da população ou de outras populações semelhantes… Desse mesmo universo – menores encontrados usando drogas na escola- , eu também poderia dizer que 41,7% passam de 3 a 5 horas por dia vendo TV, que 18,9% deles jogam futebol ou que 79,7% bebem de 10 a 20 litros de coca-cola por semana. Isso prova que a coca-cola ou televisão influencia mais no comportamento drogadito do que a separação dos pais? Prova que estatísticas são fáceis de produzir, basta considerar e buscar um dado. Mas concluir que eles demonstram uma relação de causa e efeito é outra história.

A data de validade dessa noção expirou há muito tempo, mas ainda consegue gerar culpa. Por necessidades econômicas, mesmo quando casados, homens e mulheres não conseguem se produzir uma família totalmente “ajustada” – ele por não ser provedor, ela por não conseguir estar perto dos filhos o dia inteiro. Já não temos um único modelo de casamento, não sabemos e não conseguimos controlar as crianças como antigamente, duvidamos dos papéis atribuidos a homens e mulheres e sabemos que a privacidade absoluta tem gerado muitos abusos. É uma discussão importante, que não conseguirá avançar enquanto olharmos para a família buscando a mera adaptação a um ideal.

Reencarnação

Eu estava num trem que saía da Galícia. Enquanto ainda estamos em território galego, é uma viagem arrastada, porque o terreno é montanhoso e o trem vai devagar. Na cabine, estávamos eu, um policial, uma empregada e o seu filho de treze anos. Não sei se pela origem das pessoas, mas foi a única viagem de trem que eu que fiz onde todos conversaram na cabine. O policial me fez várias perguntas sobre o Lula, até então eterno candidato à presidência. Ele conhecia o Lula, admirava sua trajetória e não entendia porquê o povo brasileiro votar nos outros. Eu lhe disse (estávamos em 1999) que acreditava que o Lula nunca se elegeria, porque ele não inspirava confiança nas pessoas. A conversa foi para diversos rumos, e num determinado momento começaram a falar de religião. A empregada falou:
– Não entendo como tem gente que acredita em reencarnação. Como é que a pessoa vai reencarnar depois de morta se o corpo já apodreceu? Não resta mais nada.

No início, pensei que ela estava de brincadeira, daquelas que a gente faz para desmerecer. Mas o policial concordou, a discussão continuou e eu me dei conta que eles realmente achavam que reencarnação era aquilo. Bem que eu já tinha ouvido falar que o kardecismo só existe como religião no Brasil. Quando o assunto reencarnação surgiu, eu me dei conta do que é ser brasileira, do que significava uma cultura. Eu, por acaso, venho de uma família espírita. Mas qualquer brasileiro que estivesse no trem, fosse ele católico fervoroso ou até mesmo um ateu de gerações como o Milton, saberia dizer que por reencarnação não se entende que a pessoa volta para o mesmo corpo, e sim que renasce, em outra época e local.

Ser brasileira é saber os principais times de futebol do Brasil mesmo sem suportar futebol. Cultura é aquilo que sabemos, como se estivesse no ar. Penetra na nossa pele e faz parte da nossa maneira de pensar o mundo, como se não existisse outra. E à nossa volta não existe mesmo. É aquilo que abraçamos sem saber que abraçamos, no grande porém limitado conjunto de crenças que nos são oferecidas desde sempre. Para ser brasileiro e ateu é preciso um esforço imenso, porque todos sabemos de que signo somos, vemos igrejas por todos os lugares, tememos o poder do mal olhado. Não é apenas uma maneira de ver o mundo, mas também o voltar-se contra a maneira de ver o mundo. Quando somos contra, somos contra alguma coisa; esse alguma coisa é o nosso referencial. Contra ou a favor, nossas idéias, nossos gostos e nossos gestos nos dizem de onde somos.

Os Miseráveis

Enfrentei heróicamente quase os dois volumes inteiros de Os Miseráveis, de Victor Hugo. Tive que abandonar exatamente quando a história esquenta e todos se vêem envolvidos com a Revolução Francesa. Foi na tentativa de preencher essa lacuna que decidi ver Os Miseráveis, com Liam Neeson e Geoffrey Rush. Abandonei o filme logo nos primeiros minutos. Eu já esperava que cortassem muitos detalhes para tornar as coisas mais dinâmicas – e quem enfrentou infinitas disgressões do livro, que falavam sobre ruas, freiras e até gírias, sabe que realmente havia muita coisa pra cortar – mas não pensei que o filme deixaria de fora a coisa que mais me chamou atenção: a vontade imperiosa que Jean Valjean de ajudar o próximo. Acredito que para o leitor da época, Jean Valjean pode ter representado o ideal de homem ético, um verdadeiro herói que colocava a justiça e a fraternidade acima de tudo, até mesmo da sua sobrevivência. Como leitora de hoje, todo o sacrifício dele me pareceu exagerado, suicida e até mesmo contra-producente.

É o sacrifício dele em salvar a vida de um homem que o leva a ser reconhecido por Javert, que tenta denunciá-lo mas fica em descrédito porque Jean Valjean nessas alturas já é vice-prefeito. Prendem um homem muito parecido no lugar dele, e o equívoco jamais seria desfeito se ele mesmo não fosse ao tribunal e se denunciasse, reiniciando a caçada da polícia. Nesses dois momentos do livro, ainda é possível pensar que ele estava fazendo escolhas difíceis, que envolviam a vida de outros – deixar alguém morrer, condenar outro a um sofrimento que ele conhecia tão bem. Mas nada disso estava em jogo quando, muitos anos depois, Javert reencontra Jean Valjean ao tentar desvendar o mistério do “mendigo que dá esmolas”. Ao invés de usar a reserva de dinheiro para garantir sua própria sobrevivência, Jean Valjean está sempre se expondo a riscos na tentativa de ajudar todos os que encontra pela frente. Além de ser descoberto por Javert, essa vontade de fazer o bem o leva de volta à malvada família que havia explorado Cosette, os Thénardier.

O livro é bastante ambicioso e se propõe a ser um panorama completo do período anterior à Revolução Francesa. Ao contar a história de vários personagens, o principal sentimento que temos é o de decadência. Victor Hugo fala de nobres perderam sua posição na sociedade, de intelectuais sem rumo e, principalmente, de uma massa de pessoas sem função ou dinheiro. Mesmo os personagens mais mesquinhos não fazem mais do que atrasar seu encontro com a miséria. Os Thénardier são o maior exemplo disso. No início do livro eles têm uma pensão e recebem dinheiro para cuidar de Cosette. Anos depois, Jean Valjean encontra Cosette como escrava dos Thénardier, que lucravam com o trabalho da menina e a pensão que recebiam por cuidar dela. Para abrir mão da guarda de Cosette, Thénardier a vende a Jean Valjean. Quando Cosette já é adolescente, apesar de tantos golpes, eles ressurgem no livros como mendigos, aplicando pequenos golpes. O único personagem que parece ter capacidade de fazer dinheiro é justamente Jean Valjean. Ele parece sentir isso, como se tivesse uma dívida social. Para sanar essa dívida, tenta ajudar os outros com dinheiro o tempo todo, o que se mostra inútil e arriscado. É uma pobreza onipotente, que suga e se torna maior à medida em que mais pessoas caem nela.

E nós sabemos que realmente é um buraco sem fundo. Muita coisa aconteceu depois da Revolução Francesa, que foi um sonho que terminou com 18 Brumário. Também aconteceu Marx, que nos disse que enquanto houver exploração do excedente do trabalho de um homem por outro homem, a justiça social não é possível. Parecia que depois disso aconteceria uma revolução proletária e ela não aconteceu. Aconteceu o regime soviético, mas ele caiu e a China virou o país de capitalismo mais selvagem que existe. Aconteceu o colonialismo e o fim do colonialismo economico não significou o fim do colonialismo cultural. Aconteceu quebra de bolsa, guerra por petróleo, globalização, internet. Além e acima de tudo isso, aconteceu que a pobreza se tornou grande demais. A miséria não se resume mais a comer pão – embora em alguns lugares ela ainda seja tão básica quanto isso. A má distribuição de renda vai muito além do que vemos nas ruas; existem pessoas tão ricas que nem ao menos temos acesso à presença física delas. Como nenhum de nós tem o tesouro escondido de Jean Valjean, não perdemos nosso tempo achando que a nossa desgraça pode melhorar a vida dos outros.

Hoje somos assim, tão realistas que não perdemos tempo dando um único passo. Somos céticos, não nos iludimos com partidos políticos e antigas ideologias. Não queremos cometer os mesmos excessos do passado, excessos causados por crenças e verdades absolutas. Preferimos nos posicionar sem sair de casa, sem gastar muito, sem envolvimento, sem riscos. Usamos hastags no twitter e doamos coisas pra gente que a TV nos mostra sofrendo. Quando alguém nos pede dinheiro no ônibus, como saber se é verdade, se a moeda vai ajudar num problema pontual ou apenas manter a mendicância? Não tem como saber. O mundo ficou muito complicado e o buraco negro continua sugando. Cada dia mais, é cada um por si. A consciência da grandeza dos problemas nos deixa paralizados. Entre Jean Valjean e nós aconteceram tantas coisas, que no meio delas algo de muito importante se perdeu.